Azul Serra fala sobre o filme “Aos Teus Olhos”

Por Danielle de Noronha

Com direção de Carolina Jabor, Aos Teus Olhos conta a história de Rubens (Daniel de Oliveira), um professor de natação carismático e extrovertido, que dá aulas para pré-adolescentes em um clube. Querido por todos devido ao seu jeito brincalhão e parceiro, ele se vê em apuros quando um de seus alunos, Alex (Luís Felipe Melo), diz à mãe que o professor lhe deu um beijo na boca no vestiário. Alegando inocência, Rubens é acusado pelos pais da criança e passa a ter que lidar com um verdadeiro linchamento virtual, que tem início através de mensagens de WhatsApp e explode de vez quando chega ao Facebook.

O diretor de fotografia Azul Serra conta sobre o trabalho no filme.

Quais foram suas primeiras impressões ao ler o roteiro?

Gostei muito da atualidade e relevância do tema. Ao ler o roteiro de “Aos Teus Olhos” ficou claro que se tratava de um filme muito próximo a todos nós. Todos os personagens tinham suas contradições, humanidades, não existia o vilão ou o mocinho. Existe uma situação coletiva que condiciona os indivíduos a tomarem decisões que fogem das escolhas pessoais.

Senti que tínhamos na mão um filme que falava de um tempo, mais do que de um evento.

A diretora Carol Jabor, desde o princípio, não queria que a Fotografia e a Arte induzissem o público a condenar ou inocentar Rubens. Teríamos que contar uma história repleta de versões, de distorções, cada personagem trazendo sua interpretação, dando ao público, por seus valores e morais, o direito a suas próprias versões. Algo que estamos mais e mais vendo acontecer pelas redes sociais.

Equipe de “Aos Teus Olhos”

Você pode nos falar um pouco sobre as principais inspirações para a fotografia do filme? A peça de teatro catalã “O Princípio de Arquimedes” ajudou a construir as referências para as equipes de arte e foto? Como foi esse processo?

Não tivemos influência direta da peça, preferimos focar no roteiro e em como iríamos contar a nossa versão dessa estória. Tínhamos que ajustá-la ao universo do Brasil, com suas especificidades, relações e cultura. Pesquisamos muitas referências visuais de filmes que tratavam desse universo de clubes, academias e piscinas. Com certeza a maior referência temática foi “A Caça” (2012) de Thomas Vinterberg, pela sua mestria em controlar a dramaturgia trazendo à tona as questões morais e de valores do público. Buscávamos destacar na realização do “Aos Teus Olhos” o fato de que em situações que existem apenas versões, sempre tendemos a optar por uma delas.

Esse é o suspense, uma ideia surge em um determinado momento do filme, e esta ideia fica pairando e influenciando todas as cenas até o final, as vezes apenas na cabeça do público. Não é fácil fazer isso sem cair em clichês ou maniqueísmos. Essa reflexão é que me seduziu muito no roteiro. O julgamento ou prejulgamento, individualmente, sempre toma por base as questões morais e de valores de cada um, podendo gerar com isso, através das redes sociais, consequências devastadoras.

Quais câmeras e lentes foram utilizadas? Por que elas foram escolhidas?

Usamos na maior parte da produção uma Mini-Alexa com lentes Zeiss Super Speed. Em poucas diárias usamos uma segunda câmera. Buscamos com a velha óptica das Super Speeds e o sensor Arri trazer uma suavidade nos tons de pele, e nas altas luzes, ajudando com uma profundidade de campo mínima, quase o tempo todo em 1.3 ou 2.0.

Como foram realizadas as cenas na piscina? Como foi a escolha dessa locação?

Para operar as cenas na piscina, trouxemos Lucas Pupo, e foi maravilhoso. Tínhamos que, ao limite, explorar visualmente a água, ao considerá-la como elemento das emoções e profundezas. Em contraponto com o mundo mental dos homens, das comunicações falhas, o mundo submerso era volátil, fluido, silencioso. Lembro dessa sensação quando criança, de mergulhar numa piscina e poder enxergar os outros em segredo, curiosidade e voyeurismo. Queríamos que nossa câmera trouxesse esse universo, distorções, detalhes dos corpos se mexendo, reflexos, como nossas memórias. O filme trata disso, de buscar o que aconteceu, uma memória de um acontecimento, ou um trauma, ou incertezas do futuro.

Tivemos duas diárias muito cheias de subaquática. Gostávamos tanto das imagens que lembro que no último dia tivemos que ir dispensando a equipe toda e ficamos lá até o ‘limitasso’ do tempo. Não queríamos parar.

O filme trata sobre linchamento virtual e traz alguns aspectos comuns da vida contemporânea, como as novas tecnologias e redes sociais. Como a fotografia trabalhou com essas estéticas e linguagens das novas tecnologias?

Isso é muito desafiador para nós, fotógrafos, porque todos, mais cedo ou mais tarde, teremos que filmar displays, mensagens de texto, e-mails, fotos… seja narrativamente, seja em comerciais. Não é a coisa mais empolgante do mundo, mas se tratando de uma forma de comunicação cada vez mais presente e massiva, temos que trabalhar e criar sobre ela. No nosso caso, o mérito vai todo para a montagem de Serginho Mekler, que também assina a trilha sonora do filme, e da pós-produção, que criou todos os displays e “plataformas” virtuais. Para ser honesto, achava que isso poderia ser um ponto fraco do filme, o de ficar acompanhando as mensagens e este mundo virtual, mas o ritmo que o Serginho deu, com a trilha e os cortes para detalhes de likes, de comentários, etc., ficou bem tenso. Próprio para o filme.

Como foi trabalhada a luz no filme?

Foi um dos filmes mais desafiadores que fiz, posso afirmar. Queríamos que a fotografia sumisse, que ela não aparecesse e que, principalmente, não engessasse os atores. Qual é o limite entre o realista “não iluminado” e mal iluminado para a narrativa? Como se colocar, mas sem aparecer? Admiro muito esse tipo de fotografia, talvez pelo fato de ser tão desafiante. Optei por ir na contramão do que estou acostumado, fontes de luz difusas, contraste suave e com uma cor neutra, nem fria, nem quente. Eu e Carol demos muitas risadas discutindo como fazer uma luz invisível, sem brilho nos olhos, sem parecer fonte alguma. Claro que não se tira o brilho dos olhos naturais de uma janela, mas foi muito legal me propor a não fazer aquilo que automaticamente faria.

“Aos Teus Olhos” foi um filme de baixo orçamento, rodado em praticamente três semanas. Tivemos a sorte de encontrar uma locação incrível, um clube que tinha quatro vestiários, um melhor que o outro, uma piscina com janelas estranhamente ótimas e corredores frios, que trazia um ar decadente interessante.

O problema era que todas essas locações ficavam no 4º andar, sem possibilidades de iluminação pela janela. O que no fundo foi ótimo porque nos forçou a praticamente trabalhar com o mínimo possível. Muitas cenas foram feitas apenas com luz natural, na hora certa, e nesta condição, sujeito às variações naturais do sol e das nuvens, nos abriu oportunidades aproveitadas com resultados surpreendentes.

Um dos cartazes do filme mostra o ator Daniel de Oliveira (Rubens) refletido por um espelho. Esta dualidade aparece outras vezes no filme? Como a fotografia trabalhou para retratar essas dualidades e reflexos?

Como mencionei acima, não queiramos tendenciar sua culpa ou inocência. Trabalhávamos criando clima para sustentar as possibilidades e mergulhar nesse personagem.  A grande maioria das cenas passava-se em ambientes claros, solares, à luz do dia. Carol e eu insistimos em criar alguns momentos mais escuros e escondidos, remetendo-nos aos segredos.

Outra forma de navegar nas nuances dos personagens, era através dos planos sequência. Os olhares, comentários, gestos, movimentação sem a ajuda do corte, nos ajudavam a ficar grudados observando aqueles personagens, tentando ler suas sutilezas. Era até engraçado que as vezes nós da equipe brincávamos “nossa, depois dessa cena, ele é culpado” e na cena seguinte “eu acredito nele, não fez nada”.  Daniel de Oliveira é um monstro de ator, maravilhoso. Uma grande honra filmar com esse nível de sutileza, sempre experimentando caminhos diferentes, porém com uma precisão certeira.

Como foi trabalhar com a Carolina Jabor?

A Carol trabalhou muito próxima dos atores, plano a plano, cena por cena. Justamente para ir desenhando essa teia de interpretações dos fatos, ela teve muito cuidado com cada palavra e intenção. Foi bonito de ver mesmo, porque muitas vezes eu já achava que o take tinha ficado ótimo, mas parávamos todos para refletir se estava dentro da curva que queríamos dar naquele momento especifico da estória e íamos ajustando minuciosamente o tom. Foi um grande aprendizado.

Como foi o workflow de pós e qual sua participação nele?

O Workflow foi conduzido pela pós-produção da Conspiração. A Cor foi feita pelo Sergio Pasqualino e foi também um processo muito fluido. Queríamos encontrar uma suavidade de pele com uma influência de azul, porém sem parecer frio ou tingido.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Gostaria de acrescentar que essa foi uma equipe com uma presença muito forte das mulheres. Além da Diretora e da Claudia Castro, tínhamos um time grande de mulheres no comando. É inegavelmente notável a diferença quando temos um equilíbrio do feminino e masculino dentro das equipes. Defendo que todos nós, na medida que nos cabe, possamos fortalecer por esta igualdade nas equipes. Gostaria também de agradecer a ABC pela entrevista e parabenizá-la pelo trabalho permanente em defesa da nossa arte.

Ficha Técnica:

Direção: Carolina Jabor
Roteiro: Lucas Paraizo
Produtores: Executivos: Leonardo M Barros, Maria Amélia Teixeira e Renata Brandão
Coprodutoras Executivas: Claudia Castro, Tânia Pacheco, Mirela Girardi e Mônica Siqueira
Direção de Fotografia: Azul Serra
Direção de Arte: Rafael Targat
Supervisão de Roteiro: George Moura
Montagem: Sérgio Mekler
Música: Sérgio Mekler e Thiago Nassif
Figurinista: Antônio Frajado
Maquiagem: Juliana Mendes
Supervisão de Imagem: Sergio Pasqualino Jr.
Som Direto: Douglas Viana
Desenho de Som e Mixagem: Ricardo Cutz
Supervisores de Efeitos Visuais: Claudio Peralta e Thiago Pires
Supervisão de Pós-produção: Adriana Basbaum e Leo Moraes
Coordenação de Lançamento: Paula Lima
Fotos: Daniel Chiacos

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