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Elas por trás das câmeras: olhares e experiências de mulheres do audiovisual

Foto da francesa Alice Guy Blaché, considerada a primeira diretora e roteirista de cinema

Por Danielle de Noronha

“Somos poucas em cada associação, mas somos fortes, isso para mim é interessante”. Foi com essa frase da diretora de fotografia Victoria Panero, ADF, que terminou a primeira reportagem da série sobre mulheres na cinematografia. Na ocasião, Victoria se referia à pouca presença de mulheres nas associações de diretores de fotografia na América Latina – e podemos dizer no mundo.

Por outro lado, ao olharmos para os sets de filmagem, produtoras, faculdades e cursos livres de cinema, por exemplo, vemos a presença cada vez mais forte de mulheres, muitas ainda buscando oportunidades para crescer nas equipes e nos projetos, ou tentando ocupar vagas em profissões que social e culturalmente são identificadas como trabalhos masculinos.

Com a primeira matéria da série, apresentamos com dados e entrevistas algumas questões sociais que permeiam a relação entre gênero e audiovisual. Esta reportagem tem o objetivo de mostrar olhares e experiências de diferentes profissionais de várias áreas da cinematografia, visibilizando suas trajetórias, trabalhos, perspectivas em relação à presença da mulher no mercado, e os diversos modos de sentir e entender o fazer audiovisual.

 

Tônica(s) Dominante(s)

Para Lina Chamie “o filme é uma maneira maravilhosa de contar uma história”. Segundo a diretora, os filmes se aproximam de um sonho: “é uma forma de narrar que envolve tudo, envolve a imagem, envolve o tempo, envolve a sensação, a cor, o som, a música, a dramaturgia, a palavra. Então, no intuito de contar histórias eu acho que o cinema talvez seja a arte mais poderosa e direta porque pode estabelecer, inclusive, uma relação sensorial com o expectador”.

Seu interesse pelo cinema veio dos filmes, “efetivamente ver filmes”. Formada em filosofia e música, Lina se interessou pelo universo musical através do cinema. Aos 11 anos, sua mãe a levou para assistir “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de Stanley Kubrick. “Eu não tive entendimento intelectual do filme, mas ele me impactou, a experiência me impactou de tal maneira que abriu um horizonte para mim. Eu nunca esqueci, contando para você agora eu sinto a sensação, como aquilo mexeu comigo, me transformou. E aí eu pedi para os meus pais para estudar música, porque se você for pensar a música é muito forte no ‘2001’”, conta.

Lina Chamie no set de “Via Lactea”

Posteriormente, Lina entrou no cinema pela porta da música. Em 1995 dirigiu o curta “Eu sei que você sabe” e em 2000 fez seu primeiro longa-metragem, “Tônica Dominante”, ambos fotografados por Kátia Coelho, ABC. O primeiro longa de Lina e Kátia em cargos de chefia é também considerado o primeiro filme comercial brasileiro que contou com uma mulher assinando a direção de fotografia. “A Katinha teve que romper muitas barreiras, até porque na fotografia ela é uma pioneira, eu só tenho orgulho de ter participado desse romper barreiras, ainda mais num filme tão de fotografia. Ele é um filme de som também, sobre música, mas ele é todo um estudo imagético sobre a música. Ele tem um raciocínio, com primazia da foto, do plano, do enquadramento, da cor, da textura, ele é um filme de fotografia, e a Katinha foi fundamental”, diz Lina. Seu segundo longa, “A Via Láctea” (2007) também contou com a presença de Kátia Coelho na direção de fotografia.

Lina ainda dirigiu o longa “Os Amigos” (2013) e os documentários “Santos – 100 anos de futebol arte” (2012), “São Silvestre” (2013) e “Dorina: Olhar para o Mundo” (2016) e já está trabalhando num novo projeto.

Para ela, as mulheres no cinema são fundamentais. “Eu tive o privilégio de trabalhar com a Cristina Amaral, que montou meu curta, depois montou um telefilme e um outro curta meu. A Karen Harley, que montou “Os Amigos”, meu último longa de ficção. No som, Lia Camargo, Tide Borges. Existe a presença fundamental de mulheres no cinema, o que nós não temos ainda é quantidade, que é um problema de educação, de cultura. Um problema secular, que vem de muito antes”, finaliza.

 

Somos todas pioneiras

Outra pioneira na área da câmera no cinema é Maritza Caneca, ABC, diretora de fotografia e operadora de câmera de filmes como “Os Transgressores” (2016), “Nosso Lar” (2010), “O Incrível Hulk” (2008), “Os Desafinados” (2008) e “Zuzu Angel” (2006). “Eu digo que eu sou a terceira mulher no Brasil a fazer assistência de câmera, a primeira foi a Katinha em São Paulo, depois veio a Isabella Fernandes e eu”.

Maritza conta que sempre foi apaixonada por fotografia. “Uma vez estava na casa do Tom Jobim e o Affonso Beato me convidou para fazer um estágio de assistente de câmera na Embrafilme, o CTAv (Centro Técnico Audiovisual) hoje. E ali surgiu a oportunidade de fazer o still do filme do Caetano Veloso, em 1986, que chama “Cinema Falado”. Era um set que só tinha eu de mulher, com fotografia do Pedro Farkas, ABC e o som do Jorge Saldanha”, relembra.

Equipe de “Cinema Falado”

Foi nesse filme, que ela começou a se interessar pela fotografia de cinema. “Eu escutei o Caetano falar uma frase que me deixou muito intrigada, ‘eu gosto desse pessoal de câmera [de cinema] porque eles estão sempre cochichando’. E eu pensei pô cara, esse negócio aí deve ser interessante, eu era still, estava sempre do lado da câmera. Aí eu fiz mais um filme como still, “O Romance da Empregada” (1988), depois “Faca de dois Gumes” (1989), e comecei a fazer assistência de câmera”.

Maritza trabalhou com diversos fotógrafos como Affonso Beato, ASC, ABC, Lauro Escorel, ABC e Jacques Cheuiche, ABC. “Eu tive uma grande escola. Fiquei muito tempo fazendo segunda assistência para quando virasse primeira eu também fosse muito boa. Também fui uma super foquista, fiz muitos longas-metragens, e depois chegou uma hora que comecei a operar câmera e acho que entre 1999 e 2000 eu comecei a fazer direção de fotografia”, conta.

Seu primeiro longa como fotógrafa foi “A Luz do Tom”, de Nelson Pereira dos Santos, e também destaca seu trabalho em “Brasil Animado” (2009), de Mariana Caltabiano: “Foi um grande desafio. Ninguém nunca tinha filmado em 3D no Brasil, e fui chamada para fazer esse projeto, que eram imagens reais, misturado com animação. Eu corri o Brasil com duas câmeras e um estereoscópio filmando em 3D”.

Set de “A Luz do Tom” (2013)

Quando questionada sobre as disparidades de gênero no audiovisual, Maritza diz que ela pode existir, mas que particularmente não foi afetada, com uma única exceção: “Eu comecei a trabalhar com 22 anos e com 26 eu tive minha primeira filha. Foi a única vez que fiquei com medo. Eu escondi o começo da gravidez porque fiquei com receio de não me chamarem para trabalhar”, diz. “Eu trabalhei nas duas vezes que engravidei, e não tive problema nenhum, mas você tem que amar muito o cinema para abrir mão de certas coisas”.

Para ela, ser diretora de fotografia não é só fazer a luz. “Aprendi isso com os fotógrafos que trabalhei, como o Affonso. Você direciona uma equipe, a elétrica, maquinária, câmera, onde vai ficar o caminhão… É um trabalho muito maior do que só botar a luz, é um trabalho de direção mesmo, você é chefe de equipe e toma decisões sérias”, pondera. “Minha missão, o que eu gosto, é usar o cinema para mostrar o que eu vejo, com o meu olhar, o audiovisual tem essa importância de respeitar, porque cada pessoa tem um modo diferente de mostrar o que está vendo”, finaliza.

 

Áudio + Visual

Difícil pensar em som no cinema brasileiro e não lembrar de Tide Borges, ABC, que ao invés de escolher o som, foi escolhida por ele. “Na faculdade eu queria fazer artes plásticas, mas alguns amigos iam prestar para cinema e não sei o que aconteceu comigo e eu resolvi prestar também. Não foi uma escolha assim motivada pela vontade de fazer cinema. Comecei a fazer o curso e tinha professores ótimos, Jean Claude-Bernardet, Ismail Xavier, entre outros. Nas aulas práticas todo mundo fazia tudo e eu comecei a fazer som. Nas outras áreas não dava muito certo, mas no som ficava legal e as pessoas começaram a me chamar para fazer o som dos filmes, e na verdade ninguém queria fazer som. E foi assim que comecei”, conta.

Seu primeiro trabalho foi em 1981, com “S.O.S Sexy-Shop”, de Alberto Salvá e fotografia de Carlos Reichenbach. “Meu professor entrou na classe e falou ‘você quer fazer som nesse filme? Estão precisando’. E eu fui! Imagina uma mulher, fazendo curso superior de cinema, trabalhando num longa-metragem na Boca do Lixo… Eles não acreditavam, né? Primeiro porque não precisa fazer curso superior para fazer um filme e segundo eu, uma mulher. Mas eles me tratavam super bem, só me aconselharam a sair da faculdade porque não precisava dela para fazer cinema”.

Entre os projetos nos quais trabalhou, estão os filmes “Mais forte que o mundo: A história de José Aldo” (2016), “São Silvestre” (2013), “2 Coelhos” (2012), “Luz nas Trevas: A volta do Bandido da Luz Vermelha” (2010), “O País dos Tenentes” (1987) e “A Marvada Carne” (1985). Além disso, também ministra a disciplina Direção de Som no curso de Cinema da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP, é mestre em cinema pela ECA-USP e, atualmente, doutoranda na mesma universidade. Além disso, Tide, que participa da ABC desde o seu início, será a primeira mulher vice-presidente da associação no biênio 2018-2019.

Tide se formou em 1984, aquele período em que haviam pouquíssimas mulheres no set. “Tinha mais mulheres na produção, como assistente de direção, a montagem era o lugar da mulher, inclusive. Não no set, mas com o tempo isso está mudando. Hoje em dia a gente vê muitas mulheres trabalhando como assistente de câmera, logger, videoassist, também tem mais mulheres nas equipes de som, microfonistas, assistentes de som, técnicas de som. E isso só deixa o set mais leve porque quando tem muito homem, ou muita mulher também, acho que fica desequilibrado, acho que as mulheres trazem um pouco mais de delicadeza para um meio que pode ser meio bruto”, pondera.

Pensar a questão do gênero no audiovisual não tem a ver apenas com representatividade, mas também com outras formas e lógicas e refletir e realizar os trabalhos. “Eu trabalho com a Lia Camargo, num esquema anarquista e feminista de trabalho”, diz entre risos. “A gente divide a chefia. Essa questão de poder é uma questão que talvez seja mais masculina, porque acho que eles foram acostumados com isso e no cinema existe uma hierarquia muito grande, existe os que mandam e os que obedecem e acontece que na nossa equipe a gente meio que subverteu um pouco isso, não sei se é por conta da gente ser mulher… Primeiro porque nós duas dividimos a direção de som, e segundo porque as pessoas que trabalham com a gente não precisam necessariamente só obedecer, a gente sempre aceita sugestões, escuta”.

 

A montagem (também e ainda) é um espaço para mulheres

Para Regina Dias, ABC, montadora de som e imagem, “editores são contadores de histórias e parentes mais próximos dos escribas da antiguidade. Não pertencem aos que criam as histórias. Sua ilha de trabalho é o instrumento de seu ofício. São aqueles que organizam o que foi pensado e estruturado em papel, que se viabilizou através de uma câmera, da luz, de um ator e de um roteiro cinematográfico”. Com experiência de quase 35 anos em edição nas mais variadas formas de conteúdo e mídia, Regina começou com a Moviola, passou para U-Matic, Betacam, Avid e FinalCut. “Tive fases de intensa atividade principalmente na indústria de comerciais para cinema e TV”, conta.

Seu interesse pelo cinema veio naturalmente. “De qualquer jeito, eu teria que cair na arte, eu não teria nenhuma condição de ter outra profissão”, diz. “Tem uma curiosidade, que a minha mãe, nos anos 1950, trabalhava numa empresa chamada Bandeirante da Tela, que eu acho que é o embrião da Bandeirantes atual. Eles faziam filmes para cinema, noticiários… Quando eu nasci, ela trabalhava ainda lá e deixou esse trabalho depois de quatro anos, quando nasceu o meu irmão caçula. Eu não sei, talvez exalasse em casa um pouquinho dessa coisa do cinema, né?”. Formada na ECA-USP, em 1980, Regina começou a trabalhar na área antes de concluir os estudos. Foi editora de som e assistente de montagem em filmes como “Anjos da Noite” (1987), “Fronteira das Almas” (1987), “Beijo da Mulher Aranha” (1985) e “Revolução de 30” (1980).

A área de edição de vídeo e áudio, que já foi vista como um lugar mais feminino, hoje em dia conta com uma presença masculina muito forte.  “Quando iniciei meus estudos eu nunca pensei em questão de gênero, sinceramente. Depois de trabalhar em montagem é que eu comecei a perceber, ou me contaram na faculdade ou Paulo Emilio mesmo fez referência a isto, que existiam muitas mulheres, o percentual de mulheres que eram montadoras era maior. Tinha uma tendência à mulher ficar mais centrada na coisa da construção do cinema, na moviola”, reflete. “Agora, na reunião que teve dos sócios da Associação dos Montadores de Cinema de São Paulo, alguém dizia que estava intrigado porque hoje tem muitos homens na montagem, que antigamente era um espaço mais feminino. Mas eu acho que também era considerado um trabalho mais feminino. O que eu vejo hoje é a questão da presença feminina em todos os setores, cada dia a gente precisa mais disso. Eu acho que ainda consigo, infelizmente, ouvir que se ganha menos. Não é um problema só do audiovisual. Vivemos num país em que as mulheres têm triplas jornadas. Eu acho que isso deveria ser tema, então, se a gente tem a ferramenta do audiovisual para falar”, pondera Regina.

Para além da temática de gênero, outro ponto levantado pela montadora tem a ver com a questão geracional e com a tecnologia que permeiam o ambiente da montagem. “Eu acho que tem uma coisa a ver mesmo com a facilidade do software, com a mudança rápida, a cada seis meses a gente tem uma atualização generalizada… Eu acho que existe uma linguagem, uma geração que vem vindo e que consegue acompanhar essa mudança rapidamente, então eu, por exemplo, custo um pouco mais caro”, considera. “Eu acho que devia ter uma coisa intergeracional. O que eu posso ser é assistente de alguém, eu me disponho a ser. Porque um montador novo, que está com bastante trabalho, que começou a trabalhar, ele pode ter sim uma pessoa de 60 anos, assistente dele, que foi montadora. Assistente no sentido de acrescentar da experiência que viveu, de contar história”.

Em um texto publicado em 2010 na Revista Meio e Mensagem, Regina diz: “O digital tornou o profissional muito mais fácil de se encontrar. Hoje, o montador tem que ser uma pessoa com constante disposição para aprender. A tecnologia muda ano a ano e ele tem que acompanhar. Antes, o grau de especialização era maior. E o mercado é muito cruel, valoriza muito o novo em detrimento do experiente. Mas não adianta só operar o equipamento. São outras qualidades que fazem um bom montador, principalmente a concentração, a noção de ritmo e a cultura cinematográfica”.

 

Olhar, pensar, falar

A fotografia sempre fez parte da vida de Julia Equi. “Eu ganhei do meu pai uma câmera quando eu tinha 3 anos e comecei a fotografar. Eu lembro do meu tio me mostrando e educando o olhar, vem muito de casa. Aí, depois que eu descobri o cinema, achei muito legal ter tantas pessoas trabalhando para fazer uma história…Que no final são muitas histórias, que cada um faz na cabeça”.

No longa “Lucicreide vai pra Marte” (2017)

Com indicação do diretor de fotografia Cézar Moraes, ABC, Julia começou a trabalhar como sua segunda assistente de câmera num documentário sobre o Ballet Bolshoi, o qual Maritza Caneca era a primeira assistente. “A Maritza foi minha primeira chefe”, diz. Depois disso, já se passaram 18 anos. “Eu fui segunda assistente, logger, vídeo assist, tudo. Tinha um pouquinho de resistência porque haviam poucas mulheres. Eu escutava coisas como ‘deixa ela carregar aquela mala para ver se ela aguenta’. Muito a ver com a força. E tem a ver com força também. Eu acho que a gente tem que persistir muito, as vezes o triplo do trabalho, porque é um trabalho pesado mesmo, fisicamente pesado, mas aconteceu, e o Cris Conceição (“Acabou Chorare, Novos Baianos Se Encontram”; “Morro da Urca – 40 Anos de Folia”) me ensinou tudo, é o meu mentor. Ele é fotógrafo também e é negro e há resistência contra ele também. Acho que não é um meio só machista, é ainda racista, mas mesmo assim eu encontrei muitas pessoas que me ensinaram muito, que são muito solidárias e que são parcerias até hoje”, conta.

Seu primeiro projeto como diretora de fotografia foi o curta “Quase Todo Dia” (2009), com direção de Gandja Monteiro. “A direção de fotografia foi surgindo aos pouquinhos, concomitante, eu fui fazendo assistência e surgiram possibilidades de fazer filmes e depois eu comecei a fazer publicidade. Meu primeiro longa foi “Silêncio das Inocentes”, de Ique Gazzola, que fala sobre violência contra a mulher. Fiz uns outros projetos operando câmera, algumas parcerias”, explica Julia.

Para Julia, já existem muitas mulheres no cinema, mas é preciso que as pessoas parem um pouco para pensar e abram mais a cabeça. “Conheci diretores que disseram ‘esse filme aqui é pra mulher, não acho que é para um homem’. É quase falar que homem careca faz comercial de cabelo e eu não posso fazer filme de carro. Não é a busca de um olhar feminino, é a busca por um olhar. Se um careca pode fazer um filme de cabelo porquê eu não posso fazer um filme de carro? Não tem sentido…”. A diretora de fotografia acredita que falar sobre o assunto é o primeiro passo para mudar. “E peitar coisas nos sets mesmo, que isso venha na cabeça, das produções, das produtoras, que são quem no final das contas dão trabalho pra gente”, finaliza.

 

Muita arte!

Em 2005, Glauce Queiroz se formou em Arquitetura e Urbanismo em Belo Horizonte (MG) e recebeu dois convites profissionais: “o primeiro para trabalhar na Petrobrás projetando postos de gasolina com um salário razoável e o segundo para trabalhar na equipe de arte de um longa-metragem, por indicação de uma amiga cineasta, com um cachê insignificante”, lembra. “Fui na produtora bem cedo entender o que seria o trabalho e ter uma conversa com o Diretor de Arte do filme para avaliar se seria interessante participar do projeto apesar do baixo cachê. No mesmo dia acabei em uma van de visita de locação com parte da equipe. Cheguei em casa à noite exausta, cheia de trabalho, mas completamente encantada por esse novo universo que acabava de se abrir pra mim: O CINEMA”.

Set do filme “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira (2016)

Se tratava do filme “Sonhos e Desejos”, de Marcelo Santiago. “Depois de trabalhar dentro do Departamento de Arte, não consegui voltar para os escritórios de arquitetura tradicionais – os projetos eram mais lentos, longos e a rotina desinteressante. Recebi outros convites para participar de longas, curtas, publicidades e depois de esgotar todas as possibilidades na minha cidade natal acabei mudando para São Paulo em 2007, onde vivo e exerço essa profissão há 10 anos”. Entre os seus trabalhos ainda estão a segunda temporada da série “Desencontros” de Rodrigo Bernardo e Bel Valiante (2017),  a série “Que Monstro te Mordeu”, com direção geral de Cao Hamburger (2013), e filmes como “Reza a Lenda”, de Homero Olivetto (2014),”O menino no espelho”, de Guilherme Fiúza (2012), “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, de Beto Brant (2010) e “Pequenas Histórias”, de Hélvecio Ratton (2006).

Glauce conta que quando começou no cinema não pensava muito sobre essa questão da menor presença feminina nas equipes de filmagem: “Hoje, com as facilidades dos nossos meios de comunicação conseguimos compreender os motivos históricos, estudar as causas, participar mais ativamente e acompanhar de perto os diversos movimentos feministas/associações e coletivos que vêm surgindo com a finalidade de barrar essa tendência e incluir cada vez mais as mulheres nas diversas e importantes funções dentro do mercado audiovisual. Não existe função dentro desse mercado que não possa ser exercida por mulheres”.

O departamento de arte é um dos que tem maior equilíbrio no percentual de gênero. Como exemplo, os dados dos CPBs emitidos pela Ancine em 2016 apontam que entre os 534 títulos, 58% contaram com mulheres na chefia da direção de arte, 37% homens e 9% dos projetos tiveram o cargo dividido entre homens e mulheres. “Minha teoria é que dentro dessa lógica machista enraizada no pensamento da maioria dos brasileiros, as mulheres não estariam aptas a ocupar cargos de chefia (Direção, Direção de Fotografia, Direção de Produção, Desenho de Som) e nem cargos que exigiriam seu esforço físico (Departamento de Elétrica e Maquinária) por já terem sido consideradas um “sexo frágil””, pondera Glauce.

Por outro lado, Glauce lembra que as áreas ligadas ao departamento de arte têm atribuições relacionadas ao campo da mulher na nossa cultura ocidental. “Diante desse histórico, naturalmente as mulheres que conseguiram se inserir nesse mercado de trabalho migraram para o departamento de arte”. Para ela: “para alcançarmos uma maior equidade de gênero no audiovisual, precisamos conscientizar e falar sobre essas diferenças que acontecem na maioria dos departamentos. Todos os profissionais desse mercado, homens e mulheres, precisam saber da existência dessa discrepância e entender as suas reais causas. Dessa forma, as soluções se tornam mais viáveis”.

Para finalizar, a diretora de arte acrescenta: “Entendo a produção e o fazer audiovisual como um trabalho coletivo que soma diferentes vivências, experiências e olhares. Acredito na real união dos profissionais de uma categoria, homens e mulheres, antigos e novos, em busca do fortalecimento da nossa atividade no pais e que se faz urgente diante desse novo mercado que está em constante mutação”.

 

Audiovisual como um fazer coletivo

A diretora Luiza Campos também acredita que o audiovisual é um fazer coletivo muito poderoso. “O audiovisual hoje em dia forma mais opiniões que escolas e o convívio social. Por isso acredito que temos que ser muito responsáveis pela qualidade do que está no ar e a mensagem que ele carrega, seja uma série, curta, longa, seja publicidade”.

Luiza trabalha na área há quase 20 anos. “Nossa, não tinha feito essa conta ainda!”, brinca. “Sempre fui apaixonada pela linguagem cinematográfica. Sou publicitária por formação, mas desde meu primeiro ano de ESPM trabalhei em produtoras em diversas funções, produção, assistente de arte, assistente de direção… aprendi a dirigir na prática”. Seu primeiro projeto como diretora foi o programa culinário da GNT “Mesa pra Dois”, em 2005. Atualmente, faz parte do grupo de diretores de cena da produtora Vetor Filmes, atuando com diversas agências e clientes, além de já ter dirigido as séries “Descolados”, para MTV, “Destino Lua de Mel”, para o Discovery Chanel, “Julie e os Fantasmas”, para a Band, e o documentário “Alphaville, do Outro Lado do Outro”, para o canal alemão Arte/ZDF. Acabou de lançar o curta-metragem “Próxima” (foto abaixo), que conta a história de uma menina que sonha em alisar o cabelo.

Assim como alguns casos retratados nesta reportagem, quando Luiza começou a trabalhar a questão de gênero ainda não era problematizada. “Simplesmente porque as equipes eram formadas quase totalmente por homens. O set era um ambiente muito masculino e as poucas mulheres na equipe, como eu, éramos “as amigas de meninos”, vivíamos as regras deles e engolíamos muito sapo, muitas vezes sem nos dar conta. Faço parte da geração que a ficha caiu, sabe? Eu fui me ligando aos poucos como o meio onde eu cresci e escolhi como carreira era super machistas”, explica.

E esse cair a ficha é também uma questão prática. “Hoje tenho muito mais clareza sobre esse tema, tento compor equipes mais femininas e acredito que nós mulheres somos muito talentosas e sabemos juntar forças e ideias de uma maneira única quando a simbiose acontece”. Luiza faz parte de dois coletivos de produção de conteúdos formado por mulheres, Teta e Free the Bid. Além de Luiza, o coletivo Teta foi fundado por Ana Paula Dugaich, Ciça Pinheiro e Antoniela Canto e conta com a participação de outras profissionais que são convidadas para projetos específicos. “O coletivo Teta surgiu de uma necessidade de criar e produzir conteúdo autoral ou para marcas onde a mulher é representada da maneira que nós mulheres queremos ser vistas e ouvidas. Os nossos projetos são criados, dirigidos e protagonizados por mulheres para o público em geral, homens, mulheres e até crianças. Nossa ideia é criar uma rede de projetos e tentar viabilizar de diferentes maneiras”.

Para a diretora, os coletivos femininos são um importante caminho para visibilizar mais a questão do gênero no audiovisual, além dos editais públicos que trazem cotas para mulheres que também estão ajudando a lançar novas diretoras. “Sinto uma nova geração de meninos e meninas muito diferente vindo por aí, parece que essa não é mais uma questão para esta geração. Ficarei muito feliz em ser testemunha dessa mudança, mas sinto que nós todos, homens e mulheres, precisamos ainda abrir o caminho com muita determinação para isso realmente acontecer”, finaliza.

 

*Pesquisa sobre trabalho e gênero no cinema brasileiro

Ricardo Normanha, doutorando em Ciências Sociais na Unicamp, está realizando uma investigação sobre os processos de trabalho na indústria cinematográfica e as diferenças e desigualdades que podem ser observadas no trabalho de homens e mulheres, com foco especial nas funções de direção e produção de filmes de longa-metragem com inserção no circuito comercial de exibição. Como parte da pesquisa, desenvolveu um questionário com o objetivo de traçar um perfil dos profissionais de cinema do Brasil. Para participar da pesquisa, clique aqui e preencha o formulário.

Mais fotos de projetos realizados pelas entrevistadas serão publicadas no Instagram da ABC.

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