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Entrevista Heloísa Passos, ABC: “Mulher do Pai”

Por Danielle de Noronha

Filmado na fronteira do Rio Grande do Sul com o Uruguai, com locações principais em Dom Pedrito, o longa-metragem “Mulher do Pai” acompanha o relacionamento entre uma menina de 16 anos (Maria Galant) e seu pai cego (Marat Descartes), por quem ela fica responsável após a morte da avó. A distante convivência do homem com a jovem será conturbada pela presença de uma professora uruguaia (Verónica).  “Mulher do Pai” já recebeu diversos prêmios e é um dos longas-metragens brasileiros que foram selecionados para a 67ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim, que aconteceu entre os dias 9 e 19 de fevereiro. O filme entra em cartaz hoje, dia 22 de junho.

A diretora de fotografia Heloísa Passos, ABC, que recebeu o prêmio de melhor direção de fotografia por seu trabalho no longa no último Festival do Rio, conta um pouco sobre o filme.

Como surgiu o convite para o filme “Mulher do Pai”?

Em 2012 a Cristiane me procurou, no nosso primeiro encontro trocamos filmes que uma e outra já tinham realizado. Ela me deu seus dois curtas para ver e eu dei dois longas para ela ver: “Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes e “Amor?”, de João Jardim.

Na sequência, li o roteiro e gostei muito. Naquele momento estava dirigindo e fotografando uma série e um dos episódios era com adolescentes. Achei bem legal dar para ela ver, pois a personagem principal de “Mulher do Pai” é uma menina, que tem desejos de menina e desejos de mulher.

Como foram escolhidas as locações? E quais foram as peculiaridades de filmar entre Brasil e Uruguai?

A Cris, diretora, e o Gustavo, produtor associado, já tinham feito uma larga pesquisa na fronteira do Brasil com o Uruguai. Vi várias fotos, em que já existia uma preferência por um lugar, mas não tinha ainda a locação principal do filme. O pampa, a ovelha, a produção da lã, uma vila com poucos moradores, uma estrada cruzando a vila e a diferença de temperatura nas estações do ano no sul do Brasil iriam compor a paisagem e o tempo do filme. Para imprimir quase três estações do ano, decidimos desde o início filmar entre maio e junho. Então, em 2014, viajamos em maio para descobrir uma casa no meio dessa paisagem descrita no roteiro. Descobrimos juntas a casa do filme na região de Dom Pedrito. Eu fiquei completamente extasiada com a possibilidade da locação principal do filme estar no meio do pampa e o sol se pôr na fachada da casa. No ano seguinte, voltamos com a produção e parte da equipe de arte para analisar a casa. Para meu deleite, foi dado ok por todos os departamentos que a casa do filme seria a tal casa tão desejada por mim e pela Cris.

Onde buscou inspiração para a fotografia desse filme?

A Cris me falou de alguns filmes, mas os que me deram um caminho para a fotografia foram: “Alexandra”, de Sokurov, atmosfera intimista e leves movimentos de câmera, e ”La Rabia”, de Albertina Carri, um filme que traduz de forma muito sensível o lado rude do campo.

Na pintura: Balthus, especialmente a série sobre a personagem Thérèse, a sensualidade séria em uma face de menina tinha algo da personagem central, Nalu.

Esta pintura abaixo de Andrew Wyeth, “Cristina’s World”, também foi uma tela que me inspirou para pensar os planos abertos do filme.

Quais câmeras e lentes foram escolhidas? Por quê?

Eu pensei a paisagem do filme como um personagem, filmar planos abertos do pampa em diferentes temperaturas daria uma opção para a montagem se apropriar deste personagem (paisagem) no filme. E acho que isso aconteceu na montagem. Pensando assim, eu teria que filmar com uma câmera que tivesse o melhor sensor cinematográfico, filmamos com Alexa. No começo comecei a pensar no formato 2:35, no amadurecimento da decupagem, descobrimos que quase 40% do filme se passava no interior da casa, não teríamos recuo e nem laterais suficientes para compor para 2:35. Então filmamos em 2K, 1:85 e com lentes fixas Zeiss Ultra prime, usei o tempo todo o filtro Classic Soft.

A fotografia buscou diferenciar as sensações e emoções do personagem cego, interpretado por Marat Descartes, das e dos demais personagens que podiam ver? 

Acho que não, a fotografia não diferenciou as sensações e emoções do personagem cego. O conceito foi quando ele estivesse sozinho em casa à noite, a luz não estaria acessa na casa. Existiria um poste no terreno da casa, ou outro ponto de luz, o resto escuro.

Como foram feitas as cenas com neblina?

Filmamos em quatro semanas, mas apenas em três dias apareceu a neblina. E quando tem neblina, ela não é o dia inteiro, são só algumas horas no dia. Teve neblina somente em dois dias de manhã e um dia à tarde. Nosso primeiro dia de filmagem foi de manhã cedo e com neblina, filmamos o plano que a menina anda de bicicleta e de repente uma quantidade significativa de gado cruza o caminho dela. Aquilo foi mágico, considero um presente para o filme, um momento tenso do roteiro filmado na neblina. Filmamos dois planos com fog de uma sequência de vários planos. Então, tivemos que esperar ansiosas outros dias de fog para continuar filmando a sequência. A combinação com um dos assistentes de direção era que quando o fog aparecesse novamente a gente teria que continuar a filmar a sequência da bicicleta. A produção passou muitos dias com a bicicleta e o camera-car em stand by. O que a gente filmou de interior, que tem a janela aberta e que precisava imprimir fog, foi feito na fotografia, com buttefly, tule branco e dia nublado. Assim eu fabriquei a sensação de fog nos interiores.

O que dizer da sua relação com a diretora Cristiane Oliveira?

A Cristiane estreou o seu primeiro longa-metragem realizando de forma madura as suas escolhas. Um filme com poucos atores e poucas locações. Escreveu um roteiro com preocupações importantes. A minha relação com a Cristiane foi muito boa. Ela me convidou para fazer o filme e eu li o roteiro quando ela estava participando dos editais de fomento, então passamos 2 anos nos aproximando através de outros filmes, pinturas, falando sobre a vida, fazendo locação, tomando uma cerveja e este interim foi muito especial para criarmos uma intimidade que transbordou de forma criativa na nossa relação fazendo o filme.

O mundo do cinema é predominantemente masculino. Como você vê a inserção das mulheres no cinema e, especificamente, na fotografia? Quais caminhos para ampliar a participação das mulheres em toda cadeia de produção de um filme?

Quando comecei a fazer cinema, digo, quando eu era assistente de câmera, há 25 anos (nossa, faz tempo!), tinha realmente pouquíssimas mulheres no departamento de fotografia. As pioneiras,  as que abriram portas para mim no início dos anos 1990, foram a Katinha Coelho, ABC e a Isabela Fernandes. De alguma forma elas me mostraram que eu poderia ser fotógrafa nesse universo tão masculino.

O caminho para todas nós, em qualquer profissão, é respeitarmos os nossos desejos e irmos atrás do que acreditamos, acima de tudo, para nós que somos privilegiadas, buscar a realização é sinônimo de fazer o que gosta. Foi e é assim que sigo meu caminho, me realizo viajando pelo Brasil e pelo mundo, ouvindo e vendo histórias. Quando você gosta do que faz, as coisas acontecem e o preconceito dos outros passa longe desta coisa boa que é fazer cinema.

O que o prêmio no Festival do Rio significou na sua carreira?

Acredito que em qualquer profissão é muito bom você ser reconhecida. É uma injeção animadora no meio de tanta ralação que é fazer cinema. O júri no Festival do Rio é sempre composto por profissionais consagrados, não estou falando especificamente de mercado e sim por cineastas que realizam cinema autoral. e este ano foi assim, então fiquei orgulhosa deste prêmio. Muito bom!

Você está finalizando o primeiro longa que dirigiu. Poderia falar um pouco sobre ele?

Como diretora, realizei vários curtas e uma série documental para a TV, mas esse é o meu primeiro filme de longa-metragem como diretora. É um filme muito pessoal, eu estou no filme atrás e na frente da câmera. Durante todo o ano de 2016 eu fiquei imersa nesse projeto, foi quase um ano sabático da direção de fotografia, mas imerso na direção. “Construindo Pontes” partiu de um presente que ganhei há 10 anos, uma coleção de rolinhos super-8 com imagens das “Sete Quedas”, cachoeiras exuberantes, um paraíso natural destruído no final dos anos 1970 para a construção de Itaipu, a maior usina hidrelétrica do mundo. A construção da usina, no auge do regime militar brasileiro, desperta recordações de um passado imerso em um autoritarismo político e econômico. O filme se constrói através da relação entre um pai engenheiro e uma filha cineasta (eu), para questionar a trajetória política e econômica do Brasil. Usei projeções, mapas e fotos como primeiras pontes para se chegar ao passado. Mas foi o inevitável presente que nos golpeou, quando, diante da conturbada situação política do Brasil de hoje, eu e meu pai nos colocamos em lados opostos.

“Construindo Pontes” é um filme em que procuro cruzar pontes para permitir múltiplos significados ao invés de encerrá-los buscando conclusões. Esse é um filme em que se tenta, a partir dos objetos e das situações que ativam a memória, criar conexões entre pai e filha, passado e presente, país e família. É um filme que não distingue a política da vida nem a criação do mundo ao nosso redor. As nossas reminiscências são como a chegada inesperada de um trem, quando o forte tremor nos obriga a movimentar-nos para vislumbrar, mesmo no escuro, um outro horizonte.

Como você se sente nesse papel de diretora?

Dirigir um filme pessoal num momento tão sombrio que estamos vivendo é um mergulho profundo. Me sinto cheia de energia, tem dias que estou em estado de submersão, sem conseguir compreender o que está se passando e também tem dias que encontro um lugar maravilhoso, uma epifania ao meu redor.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Obrigada pela oportunidade de eu poder organizar as minhas ideias e parar para pensar um pouco na minha trajetória e no filme “Mulher do Pai”.

Ficha técnica

Roteiro e Direção: Cristiane Oliveira
Direção de Fotografia: Heloísa Passos, ABC
Direção de Arte: Adriana Nascimento Borba
Som Direto: Raúl Locatelli
Montagem: Tula Anagnostopoulos
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC
Mixagem: Paulo Gama
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Áurea Baptista, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Liane Venturella, Diego Trindad

 

 

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