Felipe Hermini fala sobre o trabalho em “Aqualoucos”

Por Danielle de Noronha

Os Aqualoucos eram atletas-palhaços que faziam estripulias inimagináveis em cima da prancha de salto, a 10 metros de altura. Famosos entre os anos 50 e 80, eles atraíam milhares de pessoas ao Clube Tietê nos finais de semana, quando apresentavam esquetes divertidas e exibiam suas habilidades em saltos perigosos.

Escrito e dirigido pelo filho de um dos Aqualoucos originais, o documentário conta a história do grupo a partir dos relatos de seus antigos membros. O bonachão Fiore, idealizador dos Aqualoucos, chega a se aventurar na prancha aos 84 anos de idade. Manolo, conhecido como o mais louco do grupo, reconta suas aventuras, como o dia em que saltou de um helicóptero a 48 metros de altura – apesar dos protestos dos colegas – e acabou entrando no livro dos recordes.

Aqualouco não era profissão nem fonte de renda: era parte da personalidade desses rapazes, que encontraram sua verdadeira vocação ao desafiar o perigo na frente do público, sem receber nada em troca. Hoje com idades entre 65 e 85 anos, esses senhores dão uma inspiradora lição de vida ao mostrar que nunca deixarão de ser Aqualoucos, seja dentro, seja fora da piscina.

Entrevistamos o diretor de fotografia Felipe Hermini, que conta sobre o trabalho no filme.

Como você recebeu o convite para participar do “Aqualoucos” e como foram as primeiras reuniões sobre o projeto?

Eu já havia trabalhado algumas vezes com o diretor Victor Ribeiro. E em algumas ocasiões, ele chegou a mencionar a vontade de fazer um filme que documentasse a história do pai. Eu tinha uma vaga lembrança dele ter mencionado uma vez que o pai foi clown e presidente da associação dos skatistas de SP. Mas até então, eu não tinha ideia do tamanho da história que o pai estava envolvido e que viria a se tornar a história do documentário.

Lembro de receber uma ligação no meio de uma semana em 2013. O Victor, com sua energia de realizador, me convidou para documentar o processo de demolição das piscinas do Clube de Regatas Tietê, que iria faria parte do teaser e que hoje também está inserido em partes do documentário. As primeiras reuniões ocorreram dessa forma, com a câmera na mão.

Como foram realizadas as pesquisas para o desenvolvimento do filme? E especificamente para a fotografia?

Muitas ideias surgiram de 2013 até 2016, quando o documentário foi rodado. Não sabíamos ao certo a quantidade de depoimentos ou reconstituições e muito menos de material de arquivo que viriam a ser utilizados.

No Final de 2013 o diretor fez por conta própria, de forma íntima, uma série de entrevistas com a trupe dos Aqualoucos para o teaser, e assim conseguir apresentar o projeto e levantar fundos. Esse teaser foi um norte para conhecer os personagens e a partir daí construir uma ideia de imagem do documentário.

O teaser repercutiu publicamente e, após isto, muito material de arquivo começou a surgir. Com tanto material de arquivo deixamos de lado a ideia de reconstituir as principais passagens do documentário e deixar as imagens reais, fortes, falarem por si só.

Basicamente, foi um trabalho de observação dos personagens e depoimentos com consistência estética. A ideia era tratar todos os personagens da mesma forma sem priorizar um ou outro. Ao longo do documentário, um ou outro personagem se destaca pela história pessoal e não pela forma como retratamos.

Qual foi o planejamento de filmagem? Quantos dias e quantas pessoas faziam parte da equipe?

Com grande parte do material de arquivo em mãos, foi decido entre os produtores (Paris Produções e o diretor) que teríamos depoimentos, imagem de arquivo e algumas situações em São Paulo que provocassem a memória das personagens. Sendo assim, foi dividido tudo entre duas semanas. Na maior parte do projeto possuímos na equipe: diretor, assistente de direção, produtora, diretor de fotografia / operador de câmera, operador de som direto, 1 assistente de câmera / operador de 2a câmera, logger, eletricista + ajudante e motorista da van.

Tivemos duas diárias que conseguimos contar com o trabalho de um ótimo operador de steady cam, Maoma Faria. E uma diária ao final do projeto (reencontro dos personagens e momento nostálgico) que contamos com a equipe da Líquido Foto, especializada em filmagem subaquática.

No geral, nossa equipe cabia toda dentro de uma van, como lidávamos com idosos em sua maior parte, a ideia era ser íntimo e portátil. Havia uma preocupação, desde o começo, de ser uma equipe que não atrapalhasse a intimidade do projeto, pois entrevistamos pessoas de idade e parentes do diretor.

Sobre as imagens de arquivo, como foi o processo para encontrá-las? Quais os critérios foram utilizados para selecioná-las e como elas foram trabalhadas no filme?

Inicialmente não tínhamos muita coisa. Algumas fotos pessoais da família do diretor, outras de parentes. A medida que o documentário foi nascendo, no início da produção, muita coisa surgiu. Desde fotos do sr. Fiore, um acervo pessoal incrível de fotos e recortes da época, acervo do clube Tietê Pinheiros, até as imagens das emissoras brasileiras.

Os Aqualoucos eram muito famosos na época, tanto em São Paulo quanto nacionalmente. Emissoras como a Globo, Cultura, entre outras, cederam um material riquíssimo.

O diretor tentou inserir tudo o que conseguiu no filme, apesar de rico, o material não era muito vasto em minutagem. Foi perfeito, na medida.

Quais câmeras e lentes foram utilizadas? Por quê?

Optamos em otimizar ao máximo nosso kit de equipamento, a locadora em questão foi a JKL, que foi mega parceira e atenciosa. Para os depoimentos utilizamos 02x Canon C300 mark I com bocal PL, lentes ARRI / Zeiss Ultra Primes 20mm, 40mm e 65mm, com filtro black pro mist 1/8.

Optei pela C300, pela praticidade para se operar com uma equipe pequena, autonomia de cartão e bateria necessária em longas entrevistas. Além disso, já era uma câmera com um workflow muito conhecido em documentários na O2 post, finalizadora do projeto.

As lentes Ultra Primes entraram por se tratar de lentes leves, claras 1.9, o que ajuda muito em um documentário com pouco recurso de luz artificial. Eu particularmente gosto das lentes ARRI / ZEISS. Optei em ter a 40 mm na câmera mais aberta e a 65 mm mais próxima dos personagens, fazendo o plano mais fechado nos depoimentos.

Para imagens aéreas de São Paulo, usamos uma DJI Phanom 3, do diretor. Para imagens subaquáticas, steady cam, e algumas imagens de observação das personagens tínhamos à disposição um kit com Red Epic, lentes Angenieux 25-250 + 15mm40mm, Cooke S4 Mini 2.8 (18mm, 25mm, 32mm, 50mm, 75mm e 100mm).

Como foram realizadas as cenas na piscina? Foram realizados testes prévios?

O mais importante para nós era o bem-estar dos senhores, contamos com um bombeiro na piscina. Respeitamos o limite físico e de saúde de cada personagem, apesar dos senhores terem crescido e vivido nas piscinas, a idade chega de forma implacável. Alguns dos personagens são ativos até hoje, outros estavam um pouco distantes das piscinas.

Não realizamos testes prévios, por falta de tempo e equipe subaquática. Não foi fácil realizar o encontro de todos os personagens na piscina do clube Pinheiros. De acordo com a produção e direção, casar as agendas dos senhores era algo muito difícil.

O que pode nos contar do trabalho das equipes de som e arte?

A proposta da direção era interferir pouco nos ambientes dos personagens. No início cogitamos levar os personagens para estúdio, para assim ter uma qualidade de som direto superior, porém isto não seria natural e deslocar os senhores não seria algo confortável.

Não tínhamos um diretor de arte no set, tivemos o auxílio de uma ótima figurinista, Debora Ceccatto, para a confecção dos macacões dos Aqualoucos, tudo baseado nas imagens que tínhamos da época.

Como foi o workflow de pós e qual a sua participação nele?

Tínhamos muito material captado, apesar de pouco tempo de filmagem, as entrevistas eram muito longas sempre, de 40 minutos a 1 hora de duração, rodando com a C300 MARK I.

A pós-produção foi feita dentro da O2 post, o que facilitou muito a vida. Entrei no projeto e já havia uma cartilha de como o material deveria ser enviado para eles, com logagem, time codes, tipos de câmera e tudo mais. Fiquei bem impressionado com a organização. Foi só colocar meu logger, Vinicius Camara, em contato com a pós, e ficar tranquilo.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Nossa vontade era que o Filme Aqualoucos fosse visto no cinema. Para inserir o espectador no contexto de estar na plateia de um espetáculo deles ou mesmo dentro da piscina, nadando com os artistas.

Esta imersão foi conseguida graças a vários fatores, entre eles destaco a edição de som, supervisionada pela Miriam Biderman, ABC, e pelas imagens subaquáticas, que fazem o cinema parecer um aquário enorme.

Outro ponto interessante de acrescentar foi que ao longo das entrevistas eu precisava estar sempre muito atento e olhar através do olhar do diretor, pois em muitos momentos o diretor estava inserido no contexto do filme, como um dos personagens. Antes de começar as diárias conversei bastante com ele a respeito e, inicialmente, ele não queria aparecer tanto no filme, porém foi essencial mostrá-lo em muitas ocasiões, pois ele é a continuação deste espírito Aqualouco de ser.

Ficha Técnica:

Direção: Victor Ribeiro
Coprodução: Paris Produções, GloboNews e Globo Filmes
Distribuição: Paris Filmes
Roteiro: Victor Ribeiro, Mirna Nogueira, Bia Crespo, Henry Grazinolli e Thiago Iacocca
Produção: Sandi Adamiu, Marcio Fraccaroli e André Fraccaroli
Direção de Fotografia: Felipe Hermini
Edição: Victor Ribeiro e Ricardo Farias
Produção Executiva: Renata Rezende e Mariana Marcondes
Supervisão de Som: Miriam Biderman, ABC
Som Direto: Fernando Russo
Mixagem: Toco Cerqueira
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC
Colorista: Daniel Mendes
Pesquisa: Thiago Iacocca e Flavia Salvador
Finalização: Karina Vanes, Geovanne Salomoni
Fotos: Andréa D’amato

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