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Gustavo Hadba, ABC fala sobre “O Rastro”

Por Danielle de Noronha

Hoje, 18, estreia “O Rastro”, primeiro longa-metragem de J.C. Feyer. O filme traz a história de João, um médico que consegue avançar em sua carreira mesmo no cenário de crise política, social e econômica no qual se encontra o Brasil. Quando mais um hospital na cidade do Rio de Janeiro é fechado por falta de verba, ele fica encarregado de supervisionar a transferência dos pacientes e acaba se encontrando em uma perigosa jornada ao perceber que um paciente desapareceu no meio da noite.

O diretor de fotografia Gustavo Hadba, ABC conta sobre o trabalho no filme.


Como você vê a produção de filmes de terror hoje no Brasil?

Sempre tiveram equipes rodando filmes de terror por aqui. Acho que o Brasil hoje tem bons filmes de terror, claro que numa quantidade muito menor comparado a outros gêneros. O difícil é concorrer com a indústria internacional que está bem mais à frente que a gente.

Acho que o diferencial no “O Rastro” é a possibilidade de atingir um público maior, é tanto por causa da abordagem da trama e da maneira de filmar quanto pela estratégia de marketing e distribuição. E também por trazer para o filme de terror um caráter mais político e cultural, a história de terror ficou real. Isso tinha que vir à tona já que estamos passando por essa situação calamitosa no país.

Quais foram as impressões ao ler o roteiro? 

Achei a trama ousada com várias reviravoltas, algo bem diferente do que eu recebo para ler normalmente e com uma possibilidade visual muito grande. Trabalhamos bastante no set com os diálogos, algumas subtramas, foi um processo bastante colaborativo.

Onde buscou inspiração para a fotografia deste filme? Algum filme, em especial, serviu de referência? 

Acho que foi uma mistura de coisas. Quando entrei no projeto o diretor, JC Feyer, tinha uma ideia de fotografia pro filme que gostei e comprei de cara, pois achava que o caminho era muito diferente e pertinente para a história.

Vimos muita coisa de referência em filmes como “Sicário”, pelo contraste da fotografia, “Babadook”, pelo tom mais frio, “O Iluminado”, “Deixa ela Entrar”, e por aí vai. Eu sempre ouço o que o diretor traz como ideia, mas depois eu sempre vou traçando um caminho meu.

Mas a real escolha criativa da fotografia se deu mesmo pelos limites que foram impostos. Não tínhamos muito dinheiro para equipamentos e nem tempo suficiente para iluminar as cenas, já que tínhamos que filmar bastante todos os dias. Então tomei a decisão de não levar luz e fazer todo o filme com luz natural e practical lights. Consertamos 50 luminárias que achamos num depósito dentro do próprio hospital, estavam todas quebradas, e espalhamos por todos os cenários compondo assim a fotografia do filme. Nas cenas noturnas eu posicionava um poste de rua por fora das janelas para trazer a sensação de exterior. Usei alguns painéis de LED pequenos para uns closes e filmei cenas inteiras somente com a luz de telefone celular. Um filme todo rodado com diafragma 1.3.

Quais câmeras e lentes foram utilizadas? Por quê?

Usamos uma ALEXA com lentes zeiss f1.3 antigas que tem uma ótica mais velha e com menos vidros para tirar o sharpness da imagem e dar um look mais sujo, com textura e pouca definição.

Como foram escolhidas e preparadas as locações?

Quando entrei no projeto as locações já estavam definidas. Os produtores da Lupa Filmes (Malu Miranda e André Pereira) conseguiram umas locações incríveis, algumas inéditas no Rio de Janeiro, como o Centro de Operações Rio da Prefeitura e o Hospital em si (Beneficência Portuguesa na Glória), que está fechado e será restaurado. Discuti com o diretor de arte Daniel Flaksman minha proposta para iluminar o filme usando luminárias do cenário e luz natural. Escolhi os pontos e lugares estratégicos para colocar as luminárias e os tipos de lâmpadas que precisavam em cada cenário, sem falar o que já disse acima, que usamos as próprias calhas de luz antigas do hospital que tiveram que ser preparadas uma a uma pelo Miquéias Lino, gaffer e grande parceiro no filme.

Como foi o trabalho com a direção de arte?

Foi um trabalho de sinergia total. Já filmei bastante com o Daniel Flaksman e sempre estamos em sintonia. A paleta do filme foi restrita a 4 cores: cinza, azul, marrom e verde, além do preto. A ideia era deixar o hospital bem degradado, aproveitando a condição que a locação já trazia, para torná-lo um outro personagem da estória. Pintamos todos os cenários dentro das cores estabelecidas para criar ambientes reais, mas forçando a barra pra que eles ficassem bem sombrios.

Como foi trabalhada a cor no filme?

Depois de filmado e com a paleta de cores bem definida, todos os elementos deveriam trabalhar em função disso para não ter um filme pintado no final, e sim bem desenhado. A cor mesmo foi feita na filmagem e foi aprimorada na pós. Trabalhei com o Fabio Souza, o Fabinho, na O2 no Rio, que é sempre um prazer.

E o que teve de efeitos especiais e/ou efeitos visuais?

Não foram muitos os efeitos visuais. Na verdade foram alguns poucos fundos chroma para aplicação do sobrenatural do filme. As aparições da fantasma foram trabalhadas em cima das feições da atriz pelo Omar Colocci da O2 Post. Fora isso, incluímos alguns pombos em composição 3D, poucos momentos de sangue, mas sempre quisemos deixar o terror mais real possível.

O que dizer do workflow de pós e qual a sua participação nele?

Foi um workflow complicado, pois tínhamos muita intervenção gráfica, além das intervenções de efeitos visuais, como as telas de computador, as telas do centro de operações, muitas TVs com repórteres etc. Além disso, toda a parte de trilha e som foi feita no final e era essencial para concluir o corte do filme, então voltamos para a imagem após o som feito e depois finalizamos os efeitos visuais e voltamos por último na correção de cor.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Para mim é sempre um grande prazer trabalhar com diretores estreantes em longa-metragem. E o JC não foi diferente. Ele tinha um olhar fresco, uma energia incansável e uma visão única que me inspiraram a fazer algo ousado, fugindo do “mais do mesmo”, contando com a ajuda essencial do meu parceiro e câmera do filme, Lula Cerri.

Foi um filme difícil, em condições insalubres às vezes, mas que valeu a pena ter feito, pois acho que ficou um filme muito interessante visual e dramaticamente.

Ficha técnica

Direção: J.C. Feyer
Roteiro: André Pereira e Beatriz Manella
Elenco: Alberto Flaksman, Alice Wegmann, Cláudia Abreu, Érico Brás, Felipe Camargo, Gustavo Novaes, Jonas Bloch, Júlia Lund, Leandra Leal, Rafael Cardoso, Ricardo Ventura, e Sura Berditchevsky
Produção: André Pereira e Malu Miranda
Direção de Fotografia: Gustavo Hadba, ABC
Direção de Arte: Daniel Flaksman
Som Direto: José Louzeiro
Montador: Marcio Hashimoto e Tainá Diniz
Edição de som: Armando Torres Jr. e Alessandro Laroca
Trilha Sonora: Bernardo Uzeda

Fotos: Frames do filme e Val Ayres

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