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O som em “Era o Hotel Cambridge”

Foto: Bruno Risas/Aurora Filmes

Por Miriam Biderman, ABC e Ricardo Reis, ABC

Desde a primeira vez que tivemos acesso ao filme, ainda durante o processo de montagem, ficou claro que o trabalho não apenas oferecia como exigia uma abordagem sonora bastante inovadora. Tanto pelo fato de misturar ficção com documentário quanto pela própria proposta de direção (Eliane Caffé) e montagem (Márcio Hashimoto), de integrar o som criativamente à narrativa.

Além disso, a situação do prédio ocupado fornecia outra característica única. Um prédio de apartamentos comum é uma máquina para morar, onde existem uma série de ruídos mecânicos, elevador, caldeira, câmeras de segurança, portões elétricos, etc., que também são explorados narrativamente, conforme o tipo da história, mas de certa forma são ruídos “internos”, ou intrínsecos ao ambiente. Já “Era o Hotel Cambridge” foi filmado num prédio “ocupado”, isto é, sem elevador e outros mecanismos mais ou menos automáticos porque, neste caso, até a energia elétrica e a água correndo pelos canos são fruto diretamente da ação humana, são “atos da ocupação”, o que lhes confere qualidade e importância diferentes. Era preciso explorar essa “humanidade” dos ruídos, assim como do ambiente.

Miriam Biderman e Ricardo Reis

Ricardo Reis, que fez o desenho de som, foi várias vezes ao prédio gravar os ambientes e destacou essas diferenças. As mais óbvias, num prédio sem elevador o movimento de pessoas nas escadas é constante, nas áreas comuns interagem pessoas das mais diferentes origens conversando em várias línguas, tanto entre si quanto por skype, com seus parentes. Enfim, os sons do exílio, da solidão e também dos encontros e da união.

Do ponto de vista estritamente técnico, “Era o Hotel Cambridge” também foi muito interessante. Um filme realizado no centro da cidade, em um prédio não tratado acusticamente, com a mistura de idiomas essencial à história, assim como de atores com não atores, normalmente oferece um som bastante desigual em termos de ruídos de fundo, empostação de voz, dicção, etc. Entretanto, a excelente qualidade do som direto original (de Juliano Zoppi) nos permitiu explorar criativamente esses contrastes, ao invés de apenas “equalizar” ou diminuir essas diferenças.  A captação do som direto foi muito importante, pois deu toda a base da sonoridade que acompanha o filme.

Juliano Zoppi. Foto: Paulo César Lima

A esse respeito, a diretora, Lili Caffé, enfatizou a importância de explorar a diversidade de sotaques brasileiros e de línguas faladas pelos imigrantes, no sentido de se recriar uma Babel sonora que, no caso desse filme, ao invés de separar acaba unindo as pessoas.  Porque, mais que um edifício, o prédio do hotel ocupado é um microcosmo do mundo atual. Para ressaltar isso fizemos algumas sessões de dublagem com imigrantes de vários países (Congo, Síria, Palestina, Colômbia, etc.), o que permitiu trabalhar melhor essas diferentes línguas e sonoridades.

Foto: Bruno Risas/Aurora Filmes

Em volta de tudo isso, a cidade, a realidade do confronto e a ameaça da desocupação iminente, que também deviam estar presentes no som, enfatizando o ritmo e a pontuação da montagem que, como colocado no início, não apenas dava espaço, como demandava essa participação do som para o desenvolvimento dramático e a criação do suspense da narrativa.

Criar um “crescendo” sonoro de tensão que vai se agravando até o clímax final também foi desafiador. Porque não era o caso de uma simples “rampa” de tensão, uma vez que já existem momentos muito tensos antes do fim. Daí a complexidade da dinâmica do som do filme…

É um filme feito com poucos recursos e muitas dificuldades foram solucionadas criativamente, inclusive na área do som.  Não havia condições para mais que um boom, mesmo que em quase todas as cenas houvesse muitos personagens, às vezes falando ao mesmo tempo. Lapelas foram usados de uma maneira que pouco se sente a distância do boom, ajudando a espacialização e movimentação dos personagens pelo prédio. A isso somou-se também muito material de arquivo de várias outras fontes, como a Mídia Ninja, etc.

Foto: Paulo César Lima

Não havia dinheiro para mixagem, mas como o filme ganhou prêmios na Europa, ela foi feita na França. Foi um exercício interessante, pois houve alguns “choques culturais e sonoros” entre o conceito do desenho de som da equipe de edição e do mixador. Sendo um filme “internacionalista”, “Era o Hotel Cambridge” poderia ser mixado em qualquer país, mas em cada lugar o mixador sempre traz consigo seus métodos e sua interpretação. Nosso mixador, a princípio, teve um entendimento do filme um pouco divergente ao desenho de som pensado por nós, que foi resolvido com experimentações e muita troca de ideias (e muito vinho, é claro!)

Ficamos muito felizes com o resultado!

Ficha Técnica

Direção: Eliane Caffé
Roteiro: Eliane Caffé, Luis Alberto de Abreu e Inês Figueiró
Elenco: Carmen Silva, José Dumont, Issan Ahmad Issa e Suely Franco
Produzido por: André Montenegro e Rui Pires
Direção de Fotografia: Bruno Risas
Supervisão de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC
Som Direto: Juliano Zoppi
Mixagem: Julian Cloquet
Montador: Márcio Hashimoto
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