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“Por Trás do Céu”: entrevista com o diretor de fotografia Azul Serra

Por Danielle de Noronha

O filme “Por Trás do Céu” conta a história de Aparecida (Nathalia Dill), mulher forte do sertão, que vive cheia de sonhos e esperança. Enquanto o marido Edivaldo (Emílio Orciollo Netto) leva uma vida amargurada por uma tragédia do passado, a jovem decide tomar uma atitude que pode mudar sua trajetória para sempre: partir para a cidade grande.

Filmado no Lajedo de Pai Mateus, em Cabaceiras, na Paraíba, o filme foi escrito e dirigido por Caio Sóh e conta com direção de fotografia de Azul Serra, que fala um pouco sobre o trabalho em “Por Trás do Céu”.

Quais foram as impressões iniciais ao ler o roteiro?

Quando li o roteiro escrito pelo diretor Caio Sóh, entendi que a história falava sobre o mundo dos sonhos, das projeções internas emocionais e psíquicas que fazemos diante dos nossos desejos, crenças e frustrações. É um filme que fala sobre algo que não sabemos se existe ou não, algo imaterial e que cada um de nós tem sua própria limitação e liberdade para imaginar o que existe Por Trás do Céu. Assim, como dar forma visual a uma inspiração? A um desejo? Isso me instigou muito porque no fim das contas, todos nós temos que lidar com nossas crenças e sonhos através do Outro, dos amigos, inimigos, parceiros, família. Então, é no dia a dia, nas ações e interações, que os personagens vão nos mostrando até onde o sonho de cada um deles alcança.

Como foi a pré-produção e quais testes foram realizados?

Viajamos somente uma vez para o Lajedo do Pai Mateus durante a pré, lugar já bem rodado no nosso cinema. Claro, fiquei maravilhado. Não sabia que tínhamos um lugar tão especial com formações rochosas tão únicas como as que se encontram por lá. Levamos uma Red Epic e fizemos algumas imagens. Tínhamos que decidir aonde iriamos construir a casa do Edivaldo e Aparecida, locação em que se passa grande parte do filme. Ela seria construída inteiramente com as pedras de lá mesmo e materiais que a arte foi encontrando no caminho. Estudamos a trajetória do sol e testamos alguns ângulos para termos certeza de como faríamos aquele “palco” render o máximo possível e como a luz iria entrar nas portas e janelas.

 Quais câmeras e lentes foram escolhidas? Por quê?

Este é o tipo de projeto que você não tem muita escolha, é um filme de super baixo orçamento, todos envolvidos estão ali por algum motivo maior. Acabamos usando aquilo que tínhamos disponível. Isto para todos os departamentos. Na fotografia, tanto luz, câmera, como maquinaria e equipe, tudo foi suado para conseguir e tínhamos uma limitação extrema. Entre sorrisos e lágrimas, o desafio de todos era se reinventar, fazer com o que tem, tornar a escassez um impulso criativo. Filmamos com a Red Epic em 5K e usamos um jogo de Zeiss Standard. Eu, particularmente, gosto muito das Zeiss, especialmente as Super Speeds, mas como disse, era o que dava para ter. No fim, estávamos atingindo resultados muito surpreendentes para a equipe toda que ia vendo o filme surgir dia a dia.

Onde buscou inspiração para a fotografia do filme? Qual a imagem do Nordeste vocês buscavam imprimir?

A primeira coisa que o Caio me falou foi “os filmes que se passam nessa região de seca do Nordeste, se concentram em olhar para o chão, para a textura, as cores, a Terra. Quero fazer um filme que olhe para o Céu, que mostre o Céu destes lugares. Para mim, o filme seria Preto e Branco e só o céu teria cor”. Eu amei a ideia de olharmos para o céu, mas confesso que fiquei um pouco ressabiado em fazermos a terra P&B. Para mim, seria incrível termos algum tom na Terra que fosse mais áspero, que trouxesse uma aflição, mas que ao mesmo tempo desse espaço para as cores, para que os objetos que a Aparecida inventava tivessem, sim, uma vida. Muitos testes e conversas intermináveis, nós chegamos a algumas conclusões interessantes. Para o Céu, deixaríamos ele soberano, poderoso da sua maneira. Na Terra, iríamos dessaturar e dar um tom “areia”, eliminamos os verdes e deixamos os objetos Azuis com uma mesma saturação do céu. Assim, esses objetos eram escolhidos a dedo para representar um pedaço do céu na terra, algo que ligasse Aparecida ao seu mundo dos sonhos.

Outra inspiração constante foi o próprio Lajedo do Pai Mateus e sua luz natural. Acabamos usando pouca luz, claro que também tínhamos uma limitação grande de orçamento, mas era tudo tão grandioso e imponente que seria um desperdício tentarmos controlar a luz de uma forma impositiva. Fomos entendendo o que aquele lugar ia nos mostrando.

Como foi a escolha das locações?

Queríamos a seca, sem nenhum verdinho indicando sinal de vida. Pois bem, o filme teve que ser rodado em pleno verão, época de chuva e lá estávamos com verdes em todos os lugares. Nossas escolhas eram explorar aquele lugar ermo e isolado e de certa forma transformá-lo num mundo atemporal, quase espacial, onde a Aparecida iria construir seu foguete.

O que pode nos contar sobre o dia a dia das filmagens?

Era uma batalha!!! Acordávamos todos os dias às 4h para pegar o nascer do sol. Quando chegavam às 10h30 já ficava insustentável ficar em cima do lajedo de Pedra. Aquilo virava uma chapa quente. Então, foi acordado com a equipe que iríamos parar sempre este horário e voltar às 14h30. Assim podíamos voltar num momento menos quente e aproveitar também o pôr do sol. Ficamos todos hospedados num hotel pertinho da locação e vivemos momentos bem intensos entre set e hotel. No fim do dia, era comum todos assistirmos o material e nos empolgarmos um pouco mais para o dia seguinte.

Como foi a interação com o diretor, diretor de arte e técnico de som?

O Caio Sóh é daquelas pessoas que você encontra na vida e que ficam pra sempre. Hoje somos fortes amigos, gostamos de dar asas à imaginação um do outro e sonhar alto. Fizemos um outro filme chamado “Canastra Suja”, que já está rodando alguns festivais.  Durante as filmagens do “Por Trás do Céu” estávamos muito conectados e o Caio tem uma abertura criativa maravilhosa. Todos nós, elenco e equipe, podíamos opinar, dar sugestões, trazer ideias sem o menor pudor. Claro que no fim acabávamos seguindo as escolhas que cabiam no filme, mas muitos elementos eram decididos no processo.

A fotografia deste filme é absolutamente intrínseca e dependente da direção de arte. Os elementos lúdicos criados por Ana Isaura, Kennedy Braga e Zeno Zanardi eram incríveis. Não havia orçamento mesmo, era tudo feito com aquilo que se conseguia e eles foram esplendidos. Eu agradecia todos os dias por estar perto desses artistas.

O som daquele lugar era puro, só o vento cortava o lajedo. Lembro episódios engraçados por causa disso. De tanto isolamento, passávamos a ouvir qualquer coisinha, inclusive os sinos dos bodes a centenas de metros, e lá ia o platô espantar os bodes de novo sem conseguir saber onde estavam.

Como foi o trabalho de correção de cor?

A Mistika entrou com toda a finalização e nos ajudou muito em todo o processo. O colorista foi o Gigio Pelosi, passamos muitas sessões tirando verdes, dessaturando a Terra e enaltecendo o Céu. Ele foi maravilhoso.

E o que dizer do workflow de pós?

Este filme não teve efeitos, somente uma certa limpeza geral de alguns objetos que não queríamos no filme, como postes e antenas.

Qual sua expectativa para a semana de estreia do filme?

O filme estreou dia 06 de abril e estamos todos muito felizes dele ter chegado até aqui com um trajeto nos festivais bem interessante. Ganhamos cinco prêmios no CinePe 2016, incluindo Júri Popular, e ganhamos outro Júri Popular no Festival Latino-Americano de São Paulo. Ou seja, o filme tem uma conexão muito bacana com o público. O povo ri, chora, se emociona, torce. Esperamos que ele nos surpreenda e sobreviva mais tempo que o normal no circuito.

Algo mais que gostaria de acrescentar?

Acho que este filme, assim como muitos outros do nosso cinema nacional, foi feito com muita garra, suor e amor. Passamos por muitas dificuldades e desafios, não foi moleza não. O que acho interessante dizer é que neste filme, especificamente, aprendi muito a acreditar que, independente da expectativa de cada um, o filme acontece. Ele é a junção de todas as peças que são encaixadas e sai do jeito que deve. É realmente uma Alquimia. Cada um que está lá soma neste pote, o diretor, o elenco, equipe, catering, etc. Todos somos responsáveis por tudo que está na tela, para o bem e para o mal. O Filme é soberano, maior que qualquer peça sozinha. Então, no fundo, se estivermos atentos ao que ele está nos dizendo ou pedindo, nós somente servimos de condutor, passamos a ser um canal para materializar a obra. Isto é maravilhoso, vai além do nosso controle. No fundo é “faz o que pode, deixa rolar e não atrapalha”.

Ficha técnica

Direção e roteiro: Caio Sóh
Produção: Arthur Pizzo, Caio Sóh e Emílio Orciollo Netto
Direção de Fotografia: Azul Serra
Gaffer: Cláudio Castro
Maquinista: Marcos Broa
Direção de Arte: Ana Isaura, Zeno Zanardi e Kennedy Mariano
Still/Making Off: Márcio Nunes
Figurino: Alex Brollo
Figurinista Assistente:  Helena Byington
Maquiagem: Carlos Rodrigues
Técnico de Som: Evandro Lima
Trilha Sonora: Plínio Profeta
Edição de Som: Yan Saldanha
Mixagem: Cauê Leal
Montador: Bruno Regis e Caio Soh
Coordenador de Pós-Produção: Duda Izique
Fotos: Marcio Nunes

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