Rio de Janeiro recebe mostra sobre Mike Leigh

A mostra “O Realismo Social no Cinema de Mike Leigh” estará na tela do Cinema 1 do CCBB Rio, de 5 a 22 de dezembro, oferecendo ao público carioca a chance de mergulhar na obra de um dos cineastas mais originais e aclamados da Inglaterra das últimas décadas, com exibições dos filmes em formatos 35mm, Bluray e DVD. A programação contempla, em paralelo às exibições, duas mesas de debates e uma masterclass com o professor Dr. João Luiz Vieira, professor da Universidade Federal Fluminense. Haverá também uma sessão acessibilidade do filme “Hard Labour” (1973), um dos primeiros da carreira do diretor. O ingresso para as sessões custa R$10. A mostra tem patrocínio do Banco do Brasil e incentivo da Lei Rouanet.

Com produção da Prama Comunicação e curadoria de Hans Spelzon e Tunico Amancio, a mostra traz obras que Mike Leigh realizou ao longo de quase 50 anos de atividade no Cinema. Estarão presentes filmes de grande sucesso, como “O segredo de Vera Drake” (2004), além de outros que sequer estrearam nas salas comerciais brasileiras, como “High Hopes” (1988) e “Naked” (1993). Entre os 24 filmes (3 curtas e 21 longas), ainda serão exibidos alguns trabalhos para a televisão, feitos especialmente para os canais BBC e Channel 4, e não menos importantes em sua trajetória. Fazem parte deste último grupo obras como “Abigail’s party” (1977) e “Four days in July” (1984). Os filmes em formato 35mm serão “Segredos e Mentiras” (1995), “Topsy-Turvy – O espetáculo” (1999), “Garotas de Futuro” (1997) e “Agora ou Nunca” (2002).

Falar do cinema de Mike Leigh (nascido em 1943, em Salford, Manchester) é referir-se geralmente às histórias de pessoas comuns. O realismo ao qual o título da mostra se refere é a ideia através da qual o diretor organiza diversos elementos de seus filmes: as interpretações, as emoções, o senso de humor, e também os aspectos visuais como a fotografia e a direção de arte.

A consolidação da produção de filmes do estilo realista social ocorreu nos anos oitenta, quando a televisão inglesa teve papel fundamental: A BBC e o Channel 4 produziram filmes rodados com baixo orçamento, a ficção quase documental, cujos personagens vinham de classes trabalhadoras. Além de Mike Leigh, somam-se ao time de diretores: Ken Loach, Stephen Frears, David Hare, Michel Apted, Mike Newell e Mike Figgis. Pode-se explicar a predominância do estilo a partir do que a Inglaterra vivia com as políticas neoliberais de Margareth Thatcher (primeira ministra de 1979 a 1990), que ocasionaram forte recessão econômica, refletida em desemprego e perda de direitos sociais pela população. “O diretor se singulariza por apostar nos dramas de pessoas comuns em sua batalha quotidiana para sobreviver às adversidades e com isto tece um eloquente mosaico sobre a vida contemporânea na Inglaterra”, diz o curador Tunico Amancio. Um outro filme que estará presente na retrospectiva e é aqui pouco conhecido, apesar de chave para o entendimento desse realismo social, é ‘Meantime’ (1984), produzido para o Channel 4. O filme tem no elenco nomes como Gary Oldman, Tim Roth e Alfred Molina.

A extensa experiência de Mike Leigh no teatro influenciou sua maneira de pensar os filmes, sem um roteiro tradicional como ponto de partida, mas o criando a partir de meses de ensaios com os atores, que improvisam, desenvolvem personagens que, aos poucos, têm suas vidas cruzadas, tecendo a trama. “A direção de atores de Mike Leigh é um aspecto essencial da riqueza de sua obra. Dada a importância dos atores em seus filmes, o diretor britânico também é conhecido por trabalhar repetidas vezes com os mesmos”, diz o curador. Estão neste hall: Brenda Brethyn, Ruth Sheen, Timothy Spall, Lesley Manville, Sally Hawkins, Imelda Staunton, David Thewlis, Alison Steadman e Jim Broadbent, grupo em sua totalidade composto por atores premiados nos mais importantes festivais de cinema de arte.

Mike Leigh foi indicado ao Oscar de melhor diretor por “O segredo de Vera Drake” (2004), história de uma empregada na Grã-Bretanha dos anos 1950 que faz abortos ilegais. Em Veneza, a filme também venceu o Leão de Ouro e a Coppa Volpi de melhor atriz para Imelda Staunton. O cineasta já havia sido indicado ao Oscar de melhor diretor em 1996, por “Segredos e mentiras”, que conta a história de uma mulher negra em busca de sua mãe, branca – este considerado seu filme mais famoso, teve outras quatro indicações ao prêmio americano, incluindo melhor filme do ano, atriz (Brenda Blethyn), roteiro e atriz coadjuvante (Marianne Jean-Baptiste). “Segredos e mentiras” também recebeu a Palma de Ouro em Cannes, em 1996, quando Brenda Blethyn foi agraciada como melhor atriz. Foi neste mesmo festival que Mike Leigh ganhou o prêmio de melhor diretor com “Naked” (1993), quando também David Thewlis ganhou melhor ator. “Topsy-Turvy – O espetáculo” (1999) ganhou a Coppa Volpi de melhor ator (Jim Broadbent) em Veneza, além do Oscar de Figurino e Maquiagem. As indicações de Mike Leigh ao Oscar, além das duas nas categorias de direção, contam mais cinco na de roteiro: “Segredos e mentiras”, “Topsy-Turvy – O espetáculo”, “O segredo de Vera Drake”, “Simplesmente feliz” (2008) e “Mais um ano” (2010). “Simplesmente feliz” ganhou o prêmio de melhor atriz (Sally Hawkins) em Berlim e o Globo de Ouro na mesma categoria. Já “Bleak moments” (1971), seu primeiro filme, ganhou o Leopardo de Ouro em Locarno. Outros filmes de Mike Leigh receberam diversos prêmios ao redor do mundo, incluindo o BAFTA, principal prêmio britânico, e aqueles oferecidos por circuitos de críticos dos EUA e das cidades de Nova Iorque e Londres.

Atividades extras

Masterclass

Dia 17/12, às 19h
Tema:  “A mise-en-scène de Mike Leigh e a construção de um Realismo Social”
Masterclass gratuita com seleção de alunos através do e-mail realismomikeleigh@gmail.com  (capacidade: 98 lugares). Os interessados devem enviar no corpo da mensagem as informações: nome, documento, ocupação, breve currículo e carta de interesse (com até 5 linhas).

Na masterclass, o professor convidado João Luiz Vieira abordará os diversos métodos elaborados por Mike Leigh na realização de seus filmes. Detalhará aspectos técnicos e artísticos referentes ao roteiro, ao desenho do som, à fotografia, à direção de atores, elementos essenciais para a construção da obra, propondo uma reflexão sobre o olhar humanista e social que o diretor inglês lança e busca através de seus filmes.  João Luiz Vieira é Professor Titular e atual Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da UFF. Possui doutorado em Cinema Studies – New York University (1984), pós-doutorado pelo Department of Film and Television Studies da Universidade de Warwick, Inglaterra (1997). Foi professor Visitante do Departamento de Media Arts da University of New Mexico (1995) e do Departamento de Cinema e Literatura Comparada da Universidade de Iowa (2002). Curador, parecerista, crítico, ensaísta e membro de diversos conselhos editoriais, é também autor de inúmeros textos, críticas, ensaios, capítulos de livros e livros publicados no Brasil e no exterior como “D.W.Griffith and the Biograph Company” (1984), “Cinema Novo & Beyond” (NY: MoMA, 1998) e “Câmera-faca: o cinema de Sérgio Bianchi” (Portugal, 2004). O mais recente é a antologia “Stars and Stardom in Brazilian Cinema”(Londres: Bergham Books, 2017), co-organizado com os professores Lisa Shaw e Tim Bergfelder.

Sessão Acessiblidade:

No dia 19/12, às 15h, haverá a sessão acessibilidade com legenda descritiva e audiodescrição do filme “Hard Labour” (1973). A entrada é gratuita.

Debates

Entrada gratuita – com retirada de ingressos 1h antes na bilheteria – capacidade: 98 lugares

Debate 1:
Dia 12/12, às 19h
Tema: “O Realismo Social no Cinema de Mike Leigh”
Os debatedores buscarão explicitar o que se entende pelas palavras Realismo, Realismo Social e como essa definição se encaixa na obra de Mike Leigh. Analisarão ainda quais são as bases e inspirações artísticas do diretor, estabelecendo as diferenças entre sua proposta de olhar para a sociedade e outras formas em que isso se deu na História do Cinema, como por exemplo no Neorealismo Italiano e no Free Cinema.

Debate 2:
Dia 19/12, às 19h
Tema: “Tendências contemporâneas no Cinema de Mike Leigh”
Os convidados buscarão expor os métodos de criação do diretor dentro das linhas que vêm sendo elaboradas pelo Cinema Contemporâneo. Nesta perspectiva, serão trazidos à tona os meios através dos quais Mike Leigh constrói o que se entende por Realismo Social na maioria de seus filmes: a relação com seus atores durante a escrita do roteiro, a direção destes atores, a direção da arte, a fotografia, o som. É a partir da discussão sobre estes elementos que surgirão detalhes sobre a singularidade estética de seus filmes, sua relação com os tradicionais gêneros cinematográficos e outros aspectos que dialogam com as tendências artísticas contemporâneas.

SERVIÇO  

Mostra “O Realismo Social no Cinema de Mike Leigh”
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – 20010-000 / Rio de Janeiro (RJ)
(21) 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br
Funcionamento: de quarta a segunda, das 9h às 21h.
Datas: de 5 a 22 de dezembro
Horários: consultar programação
Lotações: 98 lugares (Cinema I)
Horários da Bilheteria: Das 9h às 21h.
Ingresso: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia)
Classificação: consultar programação por sessão
Acesso para pessoas com deficiência: Sim
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: CCBB
Programação completa: http://culturabancodobrasil.com.br/portal/rio-de-janeiro

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