A fotografia e a arte em “Marighella”: entrevista com Adrian Teijido, ABC e Frederico Pinto, ABC

Por Danielle de Noronha

Nesta quinta-feira, 4 de novembro, estreia nas salas de cinema a cinebiografia de Carlos Marighella, dirigida por Wagner Moura. O filme se passa entre os anos de 1964 e 1969 e conta a luta de Marighella contra a violenta ditadura civil-militar que foi instaurada no Brasil entre 1964 e 1985. No filme, comandando um grupo de jovens guerrilheiros, Marighella tenta divulgar sua luta contra a ditadura para o povo brasileiro, mas a censura desacredita a revolução. Seu principal opositor é Lúcio, policial que o rotula como inimigo público.

Confira nesta entrevista a conversa que tivemos com o diretor de fotografia Adrian Teijido, ABC e com o diretor de arte Frederico Pinto, ABC sobre o trabalho no filme.

Gostaria que nos contassem o que lembram das primeiras reuniões com o diretor Wagner Moura para a construção da concepção fotográfica/artística de “Marighella”.

Adrian Teijido: Wagner tem uma enorme experiência de set, sabe com clareza o que gosta e o que não gosta. Logo nos primeiros encontros ele descreveu isso, queria a câmera perto dos atores e atrizes, sentir suas emoções. Ele acredita na câmera na mão, acredita em uma câmera envolvida na trama, não gosta de pirotecnias ou excessos de estética.

Frederico Pinto: Quando eu soube que o filme ia ser feito, acho que três anos antes dele efetivamente começar a ser rodado, eu já fui atrás da produtora executiva e me coloquei à disposição para fazer o projeto. Em três anos muita coisa aconteceu e depois de muitos contratempos eu fui convidado. Quando entrei, na pré-produção, o Adrian já estava e fui com muita alegria porque era um projeto que estava na minha cabeça. O Wagner é uma pessoa extremamente generosa, contagiante, estava muito empolgado com o projeto. Com a ideia de fazer um cinema pulsante, um cinema forte, com planos sequências, com uma direção de arte realista. Ao mesmo tempo, eu já havia conversado com a executiva e sabia que era um projeto que não tinha muito dinheiro para as reconstruções. Sempre retratar e reconstituir época no Brasil é um desafio, mas estávamos com muita gana de fazê-lo.

Frederico Pinto, Wagner Moura e Adrian Teijido
Como descrevem os conceitos e objetivos para os departamentos de fotografia e de arte para esse filme?

A.T.: Descobrimos que “Marighella” deveria ter um conceito documental, dessa forma faríamos que o espectador e a espectadora vivenciassem o que nossos personagens sentiam. Por isso buscamos a realidade, tínhamos que acreditar naquelas imagens, sem firulas, com a câmera seguindo nossos personagens. Mas também buscamos texturas e luzes que representassem a época. Nas luzes sempre me apoio nas luzes práticas do set, e na naturalidade da luz, mas é claro que as vezes tinha que criar essa luz. Não usei luzes que vêm do nada simplesmente por estética, não gosto de fazer isso.

F.P.: Este é um projeto com muitas locações. A história de Marighella que retratamos acontece no período de 1964 a 1969. Tudo foi muito conversado com a fotografia, com a direção. Com o figurino, Verônica Julian fez um trabalho belíssimo. Nós definimos uma paleta de cor em tons rebaixados e em tons secundários, sem cores vibrantes. E também pensamos em diferenciar um pouco a parte da Bahia da parte de São Paulo, deixando um pouco mais acinzentado e frio em São Paulo. Isso é um conceito conjunto da arte e da fotografia, que é levado para o figurino. Queríamos levar para a tela de cinema uma imagem que ajudasse a contar a história e possibilitasse embarcar na época, que as pessoas se sentissem naqueles lugares, no passado. Então, trabalhamos muitas texturas nessas locações, raramente com paredes lisas. Eu buscava uma textura de um desgaste do próprio tempo, ter o peso da história. Isso é um trabalho importantíssimo na equipe de arte, sempre ficar buscando criar esse universo interessante para o olhar. O filme tem uma questão um pouco sensorial também, que faz parte da narrativa da direção de arte. Os carros de cena, como sempre, em um filme de época são de uma importância tremenda. A equipe de objetos foi dirigida pela Mari Hermann e fez um trabalho de reconstituição de props e objetos de época muito bom. Então acho que montamos um time muito bacana e o impressionante era que todo mundo estava trabalhando com muita paixão.

 

O cinema brasileiro já elaborou diversas narrativas sobre a ditadura civil-militar, que são importantes ferramentas para nos ajudarem a construir nossa memória social sobre o passado, principalmente quando visibilizam narrativas que foram silenciadas sobre esse período. Na opinião de vocês, como “Marighella” colaborada para essa memória e qual a importância desse filme hoje?

A.T.: Todas as artes fizeram diversas narrativas sobre a ditadura militar em geral, não só no Brasil, como em toda a América Latina, e devemos continuar contando e esclarecendo para as futuras gerações o que foi esse momento horrível da nossa história. Sinto que a minha profissão faz muito sentido quando expressamos e divulgamos momentos como esse. É fundamental que não esqueçamos as atrocidades, as torturas e os assassinatos que foram cometidos na América Latina sob os regimes militares.

F.P.: O filme “Marighella” é impressionante nesse sentido. Poucas pessoas conhecem realmente essa história que foi muito apagada, não é contada nas escolas e que eu também fui entender mais ao ler a biografia sobre ele escrita por Mário Magalhães. A importância desse filme está em deixar claro o que aconteceu a partir de 1964 para que isso nunca mais se repita. Naquele momento que as pessoas chegaram a ir pra luta armada é porque se acreditava que não havia outra escolha. A loucura toda foi que esse projeto começou antes de sabermos o que iria se passar ainda no Brasil: o Temer assume o governo, o que pra gente já era o pior que poderia acontecer com o país, e aí percebemos que sempre dá para piorar mais. Mas a importância desse projeto agora, de ser exibido neste momento, é conscientizar mais do que nunca uma população que não tem ideia do que aconteceu. Para isso, a nossa equipe participou de workshops. Ouvimos depoimentos de ex-guerrilheiros, que na época tinham 20 anos, e que sobreviveram e nos contaram relatos do que realmente ocorreu na época. É um filme extremamente importante para a educação e para a cultura brasileiras.

Ainda sobre isso, Marighella é uma pessoa importante para a elaboração dessa memória e já foi representado em alguns filmes que retratam a ditadura civil-militar, tanto ficcionais quanto documentários. Alguns desses filmes serviram de referência ou quais outras referências foram utilizaram? O que este filme busca visibilizar sobre ele?

A.T.: Assistimos tudo o que existia, mas a referência principal foi o livro de Mário Magalhães no qual o roteiro foi adaptado. Acredito que o filme quer mostrar Marighella como uma pessoa normal, pai, com seus amores, escritor, etc. Ele era um combatente que não se conformava com as injustiças sociais, e é isso que devemos aprender com ele, seguir batalhando por um mundo mais justo. Gabriela Cassaro fez uma enorme pesquisa de filmes de época e de filmes políticos, que iam desde os Irmãos Dardenne, Costa-Gravas, A Batalha de Argel, entre tantos outros. A arte também trouxe referências de época. Estudamos todas essas informações, e fomos entendendo o que achávamos bom e que poderia nos influenciar no desenvolvimento do conceito de “Marighella”.

F.P.: É interessante ver o que já foi feito e como as histórias foram feitas. A gente sempre busca pesquisas e material didático de época que são importantes para que possamos reconstituí-la. Muitas vezes, os filmes fazem também esse papel, vimos filmes sobre a ditadura e outros mais para entendermos sobre esse universo. Além disso, em alguns casos, muitas informações foram destruídas. Eu gosto de misturar nos projetos o máximo de realidade possível quando estou retratando uma biografia, mas “Marighella” é um mix, é uma ficção em cima de fatos reais. Nós estamos buscando realizar uma história interessante e muitas vezes existe uma poesia, existe uma criação em cima de fatos reais. A arte funciona da mesma forma. É muito importante que o espectador e a espectadora fiquem atentos à história. A arte é um pano de fundo que está ali para passar um clima e uma pintura ao fundo que compõem a história.

Frederico Pinto, Verônica Julian e Martín Trujillo
Fred, como já mencionou, o filme traz muitos desafios para o departamento de arte, a começar por ser um filme que acontece no passado e é baseado em fatos reais. Como foi o processo de trabalho das equipes de arte? Pode nos contar um pouco mais sobre quais foram as bases para a produção de cena, objetos, figurino e maquiagem?

F.P.: É sempre um desafio fazer um filme de época e a leitura conjunta do production designer, figurinista e visagista/maquiagem é muito importante para unir esse aspecto visual da narrativa. É claro que também em diálogo com a fotografia, que vem e entende tudo isso e acrescenta. Então o filme é resultado dessa união. Verônica Julian é um espetáculo, uma pessoa criativa, com um olhar sensível, com propostas muito boas diante de uma leitura sobre a história em diálogo com a direção. O Martín Trujillo também é uma pessoa muito sensível, que veio com um trabalho belíssimo, com a sua equipe, lógico, nós trabalhamos sempre em equipe e sem elas nada seria possível. No caso das cenas muito fortes, como as cenas brutais de torturas, a maquiagem cênica foi muito importante. Uma questão é que o grande dilema da nossa profissão não é simplesmente como reconstituir a época, que se faz mudando aqui, pintando ali, mas entender quais são as prioridades. Quais são as nossas escolhas dentro de um orçamento. Existe também esse envolvimento. Nós não somos, ainda mais agora, uma indústria de cinema com poder monetário para execução. Nós temos que ser mais criativos, nós temos que buscar alternativas, nós temos que buscar linguagens de como retratar esse momento. Esse é o grande desafio. E nós tivemos, claro, a ajuda da pós-produção, que em vários momentos entrou pra apagar alguma coisa que fisicamente nós não conseguíamos. Em todo o projeto, a arte trabalhou sempre para deixar a imagem mais aconchegante, mais instigante, para o espectador ou espectadora embarcar nessa história tão importante.

Teijido, o filme conta com bastante câmera na mão, muitas cenas de ação, além de noturnas, e tudo isso acontece no passado. Para dar conta desse contexto, quais câmeras e lentes foram utilizadas e por que elas foram escolhidas? E o que mais pode contar sobre a luz do filme?
Adrian Teijido e Wagner Moura

A.T.: Usamos Alexa Mini e objetivas Ultra Primes. Meus assistentes Diogo Ribeiro, Yuri Seid e Eduardo Pimenta deixaram a câmera o mais leve possível, tirando a bateria e o vídeo link do corpo da câmera e deixando em uma mochila separada. Convidei o Ariel Swartzman para compartilhar a operação de câmera comigo, pois como todo o filme é câmera na mão, decidi que as vezes era melhor ficar junto ao Wagner organizando a cena, enquanto Ariel ia descobrindo planos. Fizemos testes simulando situações e locações do filme, testei objetivas e luzes diferentes. Busquei sempre tirar o máximo proveito das fontes naturais, nunca usei fill light. Se os atores passam por áreas escuras, ficaria assim mesmo, adoro áreas densas, principalmente para Marighella e seu grupo que viviam sendo perseguidos, qualquer um deles poderia morrer de uma hora pra outra, o medo era sempre presente.

Vocês já trabalharam juntos em muitas produções, como foi repetir essa parceria em “Marighella”?
Adrian Teijido, Seu Jorge e Frederico Pinto

A.T.: Para desenvolver um conceito visual a relação da arte com a fotografia é fundamental, hoje em dia muitas sequências são iluminadas somente com as luzes práticas que estão no set. Sou admirador de pintores de arte, acredito em texturas, cores, objetos, etc. Tudo isso é fundamental para contar uma história. É um trabalho em conjunto, e como já trabalhei muito o Fred essa relação ajuda muito, pois nos conhecemos e caminhamos juntos.

F.P.: Nós dois já nos conhecemos há muito tempo e já fizemos alguns projetos juntos, publicidade, curta-metragem, séries, longas… Então há uma parceria muito bacana e muito importante, em que nos ajudamos. É legal porque a gente fala a mesma língua. E o Wagner é um maestro, é uma pessoa sensível, com um olhar e uma generosidade inacreditável. Ele nos deixava muito a vontade, estava muito envolvido com os atores e atrizes, muito envolvido com a narrativa. Eu vou te dizer que os projetos que a gente faz juntos são de uma cumplicidade, de uma generosidade mútua, então para mim é um prazer trabalhar com o Adrian, que faz um trabalho belíssimo.

Teijido, como funcionou workflow de pós? Também poderia contar um pouco sobre a marcação de cor?

A.T.: Fiz testes filmados em algumas locações que usaríamos com stand ins simulando situações que enfrentaríamos. Com esse material fomos a correção de cor, com Luciano Foca, colorista, que entendeu o que eu procurava, uma textura realista que nos ajudasse a contar a época, anos 1960. Sempre busco texturas cinematográficas, não gosto de pirotecnias na correção de cor. Foca é um grande parceiro, após muitos possibilidades, encontramos a textura e cor que nos agradavam, compartilhei com o Fred e Wagner, que ficaram de acordo, e seguimos.

Para finalizarmos, o filme já tem um longo caminho em festivais, mas infelizmente só conseguiu estrear nos cinemas brasileiros  agora, depois de uma longa espera. Qual a expectativa de vocês?

A.T.: Apesar de ser uma estreia ainda em um momento pandêmico, acredito que o filme irá acontecer. O Brasil está precisando muito dessa mensagem e de uma retomada das salas de cinema, realmente acredito que “Marighella” irá encontrar o seu lugar.

F.P.: A última vez que eu vi o filme foi no Festival de Berlim em 2019. A sala hiperlotada e o filme foi ovacionado por dez minutos depois da sessão. Fico feliz que finalmente esse filme, essa história, vai ser mostrado. Eu acho que o nosso papel no cinema é trazer o diálogo para questões sociais importantes. Eu acredito que as pessoas assistindo ao “Marighella” agora vão refletir. Uma geração nova vai entender algumas coisas da época, como que as coisas aconteciam. Vai identificar personagens que hoje governam o nosso país, que já tinham um posicionamento muito parecido naquela época também, de uma violência, de agressividade, com questões muito distorcidas.

Algo mais que gostariam de acrescentar?

A.T.: Gostaria de destacar também o trabalho de Verônica Julian, figurinista, e de Martín Trujillo, maquiagem e cabelo. São talentos experientes que tiveram uma enorme contribuição no conceito da construção de “Marighella”.

F.P.: Eu quero agradecer a ABC por este espaço. Falar sobre esse filme é falar sobre cinema, que também é a nossa função como associados. Eu só tenho que agradecer por ter feito parte desse projeto. “Marighella” é um projeto que eu sempre acreditei, que eu corri atrás, que eu esperei anos por ele e tive o prazer e a honra de fazê-lo. Acredito muito nesse filme e acho que é um trabalho bonito e sensível, apesar de ser um filme duro e forte. É um cinema urgente, é um cinema que tem a dizer e é um cinema de reflexão. Também gostaria de agradecer a toda equipe de arte e aos parceiros de sempre, os pintores de arte Luciano e Marcelo Filardo, Claudia Andrade, Bruno Anselmo e Guilherme Xavier.

Ficha Técnica:

Direção: Wagner Moura
Distribuição: Paris Filmes
Produção: O2 Filmes
Coprodução: O2 Filmes, Globo Filmes
Roteiro: Felipe Braga e Wagner Moura
Produção Associada: Fernando Meirelles
Produção Executiva: Cristina Abi
Direção de Fotografia: Adrian Teijido, ABC
Direção de Arte: Frederico Pinto, ABC
Produtor de Elenco: Hugo Aldado
Preparadora de Elenco: Fátima Toledo
Técnico de Som Direto: George Saldanha
Trilha Sonora: Antonio Pinto
Figurino: Verônica Julian
Maquiagem: Martín Macias Trujillo
Produtora de Objetos: Mari Hermann
Colorista: Luciano Foca
Montador: Lucas Gonzaga
Fotos: Ariela Bueno

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