Brasília recebe Mostra LUMIÈRE CINEASTA

Em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière realizaram aquela que seria considerada a primeira sessão pública de cinema, no Salão Indien do Grand Café, no Boulevard des Capucines, em Paris. Essa mítica sessão trazia alguns dos filmes que se tornariam célebres entre aqueles produzidos pelos Lumière, como Refeição do bebê (Repas de bébé, 1895) e Saída da fábrica (Sortie d’usine, 1895). De lá para cá, passaram-se 125 anos, o cinema tornou-se uma indústria (empregando milhões de pessoas mundo afora), um dos mais importantes veículos de entretenimento e agente de formação de público crítico. Agora, uma mostra realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil promete apresentar, ao espectador do século XXI, a produção que marcou os primórdios da chamada sétima arte. É LUMIÈRE CINEASTA, que poderá ser vista no Cinema do CCBB Brasília, de 4 de fevereiro a 1º de março. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00.

LUMIÈRE CINEASTA traz 190 filmes produzidos pela Societé Lumière entre 1895 e 1905, ao lado de obras realizadas por outros cineastas, de diferentes momentos históricos, como forma de investigar o legado estético da produção dos Lumière. São filmes de ficção, documentários e filmes de vanguarda pouco vistos no Brasil.

Ao todo, serão 20 sessões temáticas, abordando assuntos como a cidade, a captação da natureza, o trabalho, o filme de viagem, o filme-retrato familiar e o registro da modernidade. Cada sessão será iniciada com um programa de vistas Lumière (como são conhecidos os filmes captados pelos dois irmãos) e complementada por títulos de realizadores como Jean Renoir, Jacques Tati, Dziga Vertov, Harun Farocki, Buster Keaton, Andy Warhol, Ernie Gehr, Jonas Mekas, Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian, Vittorio de Seta, F.W. Murnau e Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet. A ideia é buscar continuidades desta produção em outras épocas.

Auguste e Louis Lumière foram pródigos em filmar. Entre 1895 e 1905, registraram viagens, cenas familiares, cenas cômicas e muito mais: a Societé Lumière conta com um impressionante catálogo estimado em 1.422 filmes. A curadoria de LUMIÈRE CINEASTA tem assinatura de Calac Nogueira, Lucas Baptista e Maria Chiaretti.

UM POUCO DE HISTÓRIA

O sucesso gerado pela histórica sessão de 28 de dezembro de 1895 foi tão grande, que ela se repetiu nos dias seguintes e por todos os dias do mês de janeiro de 1896. Entre os espectadores estava o ilusionista e futuro cineasta Georges Méliès, que não escondeu seu entusiasmo: “Diante desse espetáculo, ficamos todos boquiabertos, tocados pelo estupor, surpresos além de toda expressão”, exclamando sua famosa frase a respeito de Refeição do bebê: “As folhas se movem!”.

Com isso os Lumière, que haviam acumulado capital com a manufatura de placas secas, um suporte fotográfico com emulsão pré-fabricada que ajudou a impulsionar a fotografia amadora, dão início a seu negócio no cinema. Em 25 de janeiro de 1896, um ano depois da primeira sessão, eles abrem a primeira sala de cinema em Lyon, que será seguida por salas em Londres (20 de fevereiro), Bruxelas (29 de fevereiro), três salas em Paris (abril) e, antes de julho, salas em várias cidades do mundo inteiro.

A primeira sessão apresentou ao mundo o cinematógrafo, aparelho desenvolvido por Louis Lumière que servia ao mesmo tempo como câmera e projetor. O cinematógrafo surge em meio a diversas outras tentativas de captação e reprodução do movimento no século XIX, entre as quais se destacam as de Étienne-Jules Marey, de Eadweard Muybridge e, em especial, de Thomas Edison.

Desde 1894, Edison comercializava nos Estados Unidos seu kinetoscópio, um aparelho similar a uma máquina caça-níquel no qual era possível se assistir a vistas animadas através de um buraco. Os Lumière trazem duas novidades em relação ao sistema de Edison: uma câmera portátil, movida à manivela, que permitia a saída dos operadores para registrar o mundo, e a projeção das imagens em movimento em tela grande, assimilando o cinema à ideia de espetáculo coletivo.

Como o cinematógrafo servia tanto como câmera quanto como projetor, os Lumière passaram a recrutar operadores de câmera e enviá-los por todo o mundo para registrar imagens e projetá-las em estabelecimentos locais. A portabilidade do dispositivo permitiu um rápido domínio pelos Lumière do mercado de espetáculo de projeção de imagens animadas nos primeiros anos de cinema.

Ainda sobre a primeira apresentação no Grand Café, Méliès declara: “Ao final da sessão, eu fazia ofertas ao senhor Lumière para comprar um de seus aparelhos [o cinematógrafo] para o meu teatro. Ele recusa. Aumentei a proposta até dez mil francos, o que me parecia um valor enorme. O senhor Thomas, diretor do Museu Grévin, seguindo a mesma ideia, lhe oferecia vinte mil francos, sem resultado.” Méliès conclui: “Nós partimos encantados por um lado, mas descontentes e decepcionados por outro, pois compreendemos imediatamente o enorme sucesso econômico que teria aquela descoberta”.

OS FILMES

Entre 1895 e 1905, a companhia Lumière produziu um total de 1.428 filmes. Esses pequenos filmes ficaram conhecidos como “vistas” e eram, em sua imensa maioria, constituídos de um único plano com duração de 50 segundos (tempo de um rolo de película de 17 metros).

Os filmes da Societé Lumière se destacam especialmente na produção documental. O catálogo de vistas era composto majoritariamente por registros de espaços públicos, praças, ruas, monumentos, além de cenas familiares, cenas de trabalho, eventos, paradas e exercícios militares. Uma parte significativa é composta ainda por vistas de viagem, filmadas em toda a Europa (Alemanha, Inglaterra, Espanha, Itália, Suíça, Rússia), mas também na América (México, Estados Unidos, Martinica) e no oriente (Japão, Egito, Jerusalém e, em especial, Indochina Francesa, atual Vietnã, na época colônia francesa).

Um dos gêneros de destaque no catálogo Lumière são os chamados “panoramas”: vistas filmadas de trens, carros ou barcos em movimento, que são considerados os primeiros movimentos de câmera do cinema. Um dos exemplos mais famosos é o Panorama do Grande Canal de Veneza filmado de um barco [Panorama du Grand Canal pris d’unbateau, 1896], registrado pelo operador Alexandre Promio de uma gôndola em Veneza.

O catálogo da produtora conta ainda com pequenos filmes de comédia e cenas históricas reconstituídas (A morte de Robespierre, A morte de Marat, Conversa entre o Papa e Napoleão), além de cenas religiosas, como a Paixão de Cristo.

As vistas documentais se notabilizaram pela maestria visual e pela captura do movimento vivo das ruas. Para os operadores – que trabalhavam com uma câmera sem visor – tratava-se sempre de encontrar o melhor ângulo para dar conta da cena que desejavam registrar. Essa busca pelo ponto de vista ideal resulta em filmes de extrema riqueza visual, que apresentam relações inusitadas entre entradas e saída de campo, entre primeiro plano e plano de fundo da imagem.

Vistos hoje, os filmes da Societé Lumière encarnam perfeitamente a mentalidade moderna da virada do século XIX para o XX. São comuns nesses filmes “imagens do progresso”, registros de trens, navios, balões e máquinas em geral. Há um predomínio do registro do espaço urbano sobre o rural. Uma série de 26 vistas foi dedicada apenas à Exposição Universal de 1900, em Paris.

As vistas de viagem, por outro lado, repercutiam o impulso colonialista da França naquele período. A série de vistas realizadas por Gabriel Veyre na Indochina Francesa, atual Vietnã, oferecia aos franceses um vislumbre dos territórios coloniais de além-mar. Imagens vindas do Japão, da Tunísia e de todo o Oriente Médio e norte da África davam ao público francês a possibilidade de olhar o outro, em uma relação no mais das vezes marcada pelo exotismo.

PROGRAMAÇÃO

TERÇA, 04/02

17h – A invenção do burlesco – Vistas Lumière (18min) + The Scarecrow, de Buster Keaton e Edward F. Cline (19min) + Neighbours, de Buster Keaton e Edward F. Cline (18min) + The Goat, de Buster Keaton e Malcolm St. Clair (18min) + One Week, de Buster Keaton e Edward F. Cline (18min)

19h – Em construção – Vistas Lumière (13min) + Misère au Borinage, de Henri Storck e Joris Ivens (36 min) + Zum Vergleich [In Comparison], de Harun Farocki (60 min)

QUARTA, 05/02

17h – Paraíso reencontrado – Vistas Lumière (13min) + Tabu, de F.W. Murnau (85min)

19h – Operários, camponeses – Vistas Lumière (10min) + Trop tôt/trop tard, Jean-Marie Straub & Danièle Huillet (105min)

QUINTA, 06/02

17h30 – Cine-verdade – Vistas Lumière (13min) + Kino Pravda 5 (8min) + Kino Pravda 6 (7min) +  Kino Pravda 18 (14min) + Kino Pravda 19 (18min), de Dziga Vertov

19h – O mundo perdido – Vistas Lumière (15min) + Isole di fuoco (9 min) + Surfarara (9min.) + Lu tempu di li pisci spata (10min) + Contadini del mare (9min) + Parabola d’oro (9min)

SEXTA, 07/02

17h30 – Louis Lumière (doc. Éric Rohmer)

19h – As folhas se movem: Vistas Lumière (17min) + Une partie de campagne (1936), Jean Renoir (36 min)

SÁBADO, 08/02

16h30 – Nos trilhos da modernidade – Vistas Lumière (19min) + Lumière’s Train, de Al Razutis (8min) + The Georgetown Loop, de Ken Jacobs (10min) + Jeux de reflex et vitesse, de Henri Chomette (7min) + Descaminhos, de Marília Rocha (13min)

18h30 – Saída da fábrica – Vistas Lumière (12min) – Chapeleiros, de Adrian Cooper (25min) + Workers leaving the factory: Dubai, de Ben Russell (8min) + La reprise du travail aux usines Wonder, de Jacques Willemont (11min) + Am Ausgang der Fabrik, de Harun Farocki (35min)

DOMINGO, 09/02

16h – Rumo ao Oriente – Vistas Lumière (13min) + India, de Roberto Rossellini (94min)

18h – Figuras na paisagem – Vistas Lumière (20min) + Three Landscapes, de Peter Hutton (50min)

TERÇA, 11/02

17h – A vida em ato – Vistas Lumière (12min) + O movimento das coisas, de Manuela Serra (86 min)

19h – Filme retrato – Vistas Lumière  (14min) + Shirley Brimberg Home Movies (6min) + Wedding and pregnancy (6 min) + Florida (5 min) + Home Movies #15 (8 min), de Shirley Clarke + Scenes From the Life of Andy Warhol, de Jonas Mekas (EUA, 1990, 35 min) + Screen Tests Warhol (40 min)

QUARTA, 12/02

17h – Em construção – Vistas Lumière (13min) + Misère au Borinage, de Henri Storck e Joris Ivens (36 min) + Zum Vergleich [In Comparison], de Harun Farocki (60 min)

19h – Cine-verdade – Vistas Lumière (13min) + Kino Pravda 5 (8min) + Kino Pravda 6 (7min) +  Kino Pravda 18 (14min) + Kino Pravda 19 (18min), de Dziga Vertov

QUINTA, 13/02

17h – Saída da fábrica – Vistas Lumière (12min) – Chapeleiros, de Adrian Cooper (25min) + Workers leaving the factory: Dubai, de Ben Russell (8min) + La reprise du travail aux usines Wonder, de Jacques Willemont (11min) + Am Ausgang der Fabrik, de Harun Farocki (35min)

19h – Aula 1: Um olhar comparatista sobre a história do cinema – Lumière e a saída da fábrica, por Mariana Souto

SEXTA, 14/02

17h – Paraíso reencontrado – Vistas Lumière (13min) + Tabu, de F.W. Murnau (85min)

19h – Devaneios e deslocamentos – Vistas Lumière (17min) + Les Mains négatives, de Marguerite Duras (14min) + Brasília, contradições de uma cidade nova (Joaquim Pedro de Andrade, 23min) + Bookstalls (Joseph Cornell, 7min)

SÁBADO, 15/02

15h – Corpo em movimento – Vistas Lumière (16min) + Goshogaoka, de Sharon Lockhart (63min)

17h – Aula 2: Lumière, o realismo e a vanguarda, por Calac Nogueira

19h – Ângulos da cidade (exibição única)Vistas Lumière (12min) + Side Walk Shuttle, de Ernie Gehr (40 min)

DOMINGO, 16/02

16h –– Operários, camponeses – Vistas Lumière (10min) + Trop tôt/trop tard, Jean-Marie Straub & Danièle Huillet (105min)

18h30 – O mundo perdido – Vistas Lumière (15min) + Isole di fuoco (9 min) + Surfarara (9min.) + Lu tempu di li pisci spata (10min) + Contadini del mare (9min) + Parabola d’oro (9min)

TERÇA, 18/02

18h30 – Rumo ao Oriente – sessão inclusiva gratuita (audiodescrição, libras e legendagem descritiva) – Vistas Lumière (13min) + India, de Roberto Rossellini (94min)

QUARTA, 19/02

17h – Louis Lumière (doc. Éric Rohmer)

19h – Inventários – Vistas Lumière (15min) + Straits of Magellan: Drafts and Fragments, de Hollis Frampton (52min) + Sink or Swim, de Su Friedrich (48min)

QUINTA, 20/02

17h30 – Nos trilhos da modernidade – Vistas Lumière (19min) + Lumière’s Train, de Al Razutis (8min) + The Georgetown Loop, de Ken Jacobs (10min) + Jeux de reflex et vitesse, de Henri Chomette (7min) + Descaminhos, de Marília Rocha (13min)

19h – Jogos na metrópole – Vistas Lumière (18min) + Playtime, Jacques Tati (115min)

SEXTA, 21/02

17h30 – As folhas se movem: Vistas Lumière (17min) + Une partie de campagne (1936), Jean Renoir (36 min)

19h – A vida em ato – Vistas Lumière (12min) + O movimento das coisas, de Manuela Serra (86 min)

SÁBADO, 22/02

15h30 – Figuras na paisagem – Vistas Lumière (20min) + Three Landscapes, de Peter Hutton (50min)

19h – Devaneios e deslocamentos – Vistas Lumière (17min) + Les Mains négatives, de Marguerite Duras (14min) + Brasília, contradições de uma cidade nova (Joaquim Pedro de Andrade, 23min) + Bookstalls (Joseph Cornell, 7min)

DOMINGO, 23/02

16h – A invenção do burlesco  – Vistas Lumière (18min) + The Scarecrow, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 19min) + Neighbours, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 18min) + The Goat, de Buster Keaton e Malcolm St. Clair (EUA, 1921, 18min) + One Week, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 18min)

18h – Paraíso reencontrado – Vistas Lumière (13min) + Tabu, de F.W. Murnau (85min)

TERÇA, 25/02

FERIADO CARNAVAL

QUARTA, 26/02

17h – Em construção – Vistas Lumière (13min) + Misère au Borinage, de Henri Storck e Joris Ivens (36 min) + Zum Vergleich [In Comparison], de Harun Farocki (60 min)

19h – Jogos na metrópole – Vistas Lumière (18min) + Playtime, Jacques Tati (115min)

QUINTA, 27/02

17h – Filme retrato – Vistas Lumière  (14min) + Shirley Brimberg Home Movies (6min) + Wedding and pregnancy (6 min) + Florida (5 min) + Home Movies #15 (8 min), de Shirley Clarke + Scenes From the Life of Andy Warhol, de Jonas Mekas (EUA, 1990, 35 min) + Screen Tests Warhol (40 min)

19h – Aula 3: Retratos, diários e souvenirs: o cinema como artefato e memória, por Lila Foster

SEXTA, 28/02

16h30 – Rumo ao Oriente – Vistas Lumière (13min) + India, de Roberto Rossellini (94min)

19h – Corpo em movimento – Vistas Lumière (16min) + Goshogaoka, de Sharon Lockhart (63 min)

SÁBADO, 29/02

15h – Do polo ao Equador (exibição única) Vistas Lumière (20min) + Dal polo all’Equatore, de Angela Ricci Lucchi, Yervant Gianikian (98 min)

17h – Aula 4: Lumière e a arte de escrever com o real, por Pablo Gonçalo

19h – Inventários – Vistas Lumière (15min) + Straits of Magellan: Drafts and Fragments, de Hollis Frampton (52min) + Sink or Swim, de Su Friedrich (48min)

DOMINGO, 01/03

16h – A invenção do burlesco – Vistas Lumière (18min) + The Scarecrow, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 19min) + Neighbours, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 18min) + The Goat, de Buster Keaton e Malcolm St. Clair (EUA, 1921, 18min) + One Week, de Buster Keaton e Edward F. Cline (EUA, 1920, 18min)

18h – Jogos na metrópole – Vistas Lumière (18min) + Playtime, Jacques Tati (115min)

FICHA TÉCNICA

Lumière Cineasta
Patrocínio: Banco do Brasil
Curadoria: Calac Nogueira, Lucas Baptista e Maria Chiaretti
Produção: Raio Verde
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
www.bb.com.br/cultura

CCBB Brasília
Aberto de terça-feira a domingo das 9h às 21h
SCES Trecho 2 – Brasília/DF Tel: (61) 3108-7600
E-mail: ccbbdf@bb.com.br
Site: www.bb.com.br/cultura

 

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