Cinema & Literatura: um caso de amor?

Por Ninho Moraes, ABC

Como o audiovisual (cinema + TV + streaming) brasileiro contemporâneo apropriou-se de fontes literárias na elaboração de seus filmes? Mais: como usou músicas e histórias em quadrinhos, além de lendas, em sua busca por inspiração? Longas-metragens ficcionais, mundialmente, usam adaptação literária como estratégia estilística de construção da narrativa. O famigerado Oscar tem a categoria de roteiro original e roteiro adaptado. Não há vergonha nisso. É ético e é estético. HQs, Biografias e Canções servem de inspiração. Qual a realidade histórica? Importante: não existe projeto político-ideológico comum que unifique os cineastas – embora alguns períodos tivessem predominância de movimentos. Caso do Cinema Novo que se apropriou de várias obras literárias. Vide Vidas Secas e S.Bernardo, ambos do alagoano Graciliano Ramos.

Falando em Alagoas, a histórica cidade de Penedo, às margens do rio São Francisco, realiza sua 1ª Festa Literária, a Flipenedo (28/29/30 de abril de 2022). É importante reconhecer que a cultura brasileira ainda precisa desse tipo de incentivo para (re)encontrar sua identidade. Desde 2010, Penedo promove um Circuito de Cinema, com a participação de importantes personalidade do meio cinematográfico e o lançamento de curtas universitários e profissionais.

Agora, com a versão literária, resgata a memória do poeta Sabino Romariz, histórico habitante, e se espalha por debates em escolas, feira de livros e reflexões. Caso do convite para dois cineastas trazerem suas visões sobre Literatura e Cinema. São dois contemporâneos nordestinos, nascidos nos anos 1960, hoje na faixa dos 50 aos 60 anos, que desafiam as ideias oficiais da atual Secretaria de Cultura e da Ancine. Nem é preciso detalhes sobre isso. Falo de Sérgio Machado (nascido em 1968), que tem longa colaboração na Videofilmes (de Walter e João Moreira Salles e com a presença de Eduardo Coutinho e Karin Aïnouz, entre outros), e Lírio Ferreira (nascido em 1965), que deu o pontapé inicial no cinema pernambucano dos anos 1990 (Baile Perfumado, co-dirigido com Paulo Caldas) e relacionamento extenso com Hilton Lacerda e Cláudio Assis. Sérgio e Lírio participaram da famosa Retomada do Cinema Brasileiro. Vale constatar que, entre 1995 e 2006, mais de 100 filmes foram, declaradamente, oriundos de fontes literárias. Entre eles, o mais famoso, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, baseado no livro de Paulo Lins. Agora em 2022, Sérgio lança Cidade Ilhada, adaptação do conto O Adeus do Comandante, de Milton Hatoum. No ano que vem, em parceria com Walter Salles, finaliza e apresenta a animação A Arca de Noé, baseada em Vinicius de Moraes. E ainda tem longa experiência, pois foi assistente de direção de Abril Despedaçado, de Walter Salles, sobre obra do albanês Ismail Kadare, e trouxe para as telas de cinema o livro Quincas Berro D’Água e na TV, Pastores da Noite, de Jorge Amado. Já Lírio Ferreira, está filmando On Off baseado no roteiro do filme Uma simples formalidade, do cineasta italiano Giuseppe Tornatore. No segundo semestre, roda Cárcere Privado. Entre biografias – que de certa forma tem origem literária – Lírio se consagrou com um documentário sobre o músico Cartola.

Vamos a uma digressão histórica. Virginia Woolf, em 1926, criticou a adaptação de Anna Karenina, romance do russo Liev Tolstói. E afirmou que o cinema parasitava a literatura ao não inventar ele próprio as suas histórias e para se estabelecer como arte autônoma deveria procurar a sua especificidade particular. Como já escreveu um estudioso brasileiro, a adaptação cinematográfica é ‘um processo intertextual, anti-hierárquico, plural, hibridizante, multicultural e canibalizante’. Tudo o que o atual governo federal não quer. Assim como condena uma Escola de Samba que festeja Exu, sua proposta é vangloriar textos históricos oficiais e bíblicos. Em 2022, além do famoso tapa em pleno palco (nem vale lembrar os nomes do ator e do humorista), o Oscar comemorou os 50 anos de glória de um filme: The Godfather / O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Roteiro baseado em romance de Mário Puzzo, que muitos críticos dizem não ter importância. Pouco importa. O filme eternizou o livro.

Com esse tipo de debate entre dois cineastas, que eu tenho o privilégio de mediar, a  função da Flipenedo está cumprida. Em busca de seu rosto, o Brasil espalha essas ideias por estudantes de todas as idades – e também para seus cidadãos de todas as idades, que resgatam um passado de arte e cultura. A cidade respira, inclusive no histórico Theatro 7 de setembro, construído em meados do século 19. Vida longa para a cultura brasileira. Viva o Cinema. Viva a Literatura.

Publicado originalmente no portal Brasil 247

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