Festival TO’KAYA tensiona descentralização do cinema na Bahia

Um festival de cinema totalmente gratuito e acessível ao público, realizado ao ar livre nas ruas, praças e localidades rurais de Conceição do Coité-BA. Assim foi idealizado o TO’KAYA Festival de Cinema, o primeiro evento de formação e distribuição audiovisual da Região do Sisal, no semiárido baiano.

Com o lema “Mais mostras, menos Oscar”, o festival tensiona a democratização da comunicação e a descentralização do cinema ao exibir produções audiovisuais sisaleiras e de outras regiões invisibilizadas do país, cujas estéticas, poéticas e narrativas se aproximam da experiência do seu público-alvo: povos negros, originários, das periferias urbanas e comunidades rurais, mulheres e comunidade lgbtqia+.

Por conta da pandemia da Covid-19, a primeira edição do evento precisou ser adaptada a um formato online, o que possibilita que sua programação seja acompanhada de qualquer lugar com acesso à internet. Até o dia 19 de dezembro é possível assistir a 28 filmes no site oficial do evento: www.tokayafestival.com.

“São exibidos filmes que têm urgência de serem vistos, que têm muito a afirmar sobre nós, os lugares que ocupamos e os lugares que podemos – para além de ocupar – nós mesmos construir. É o cinema como uma janela para o mundo que nos rodeia e para os mundos que podemos criar”, estimula Ramon Coutinho, co-realizador do evento.

Além do desejo de se fazer representar e se sentir representado nas telas, o coletivo organizador do TO’KAYA estimula realizadores audiovisuais a reconstruírem as narrativas sobre povos marginalizados, a fim de romper com os estereótipos reforçados pela televisão e pelo cinema hegemônicos ao longo de décadas.

MAIS MOSTRAS MENOS OSCAR

Ao invés da busca pelo ineditismo, comum aos festivais de cinema, a curadoria do TO’KAYA procurou selecionar filmes que, independente do ano de realização, dialoguem entre si e abram espaço para discussões sobre questões políticas, sociais e culturais que já não se dissociam da prática audiovisual, sobretudo, quando se propõe uma produção com olhar sensível e construção de narrativas não hegemônicas sobre corpos, lugares e grupos historicamente invisibilizados ou sub-representados no cinema.

Outra característica presente no TO’KAYA que foge à lógica dos festivais de cinema é a não classificação ou hierarquização dos filmes exibidos. Ou seja, não existe júri oficial ou votação popular para eleger os melhores entre eles. O objetivo é apresentar “cinemas de interiores e margens que revelam narrativas que dialogam com generosidade artística, fora de uma lógica competitiva”, explica Ramon.

Mais do que um evento, o TO’KAYA é um pé na porta do cinema brasileiro ao inserir o sisal no circuito de mostras e festivais do Brasil, destrinchando as camadas do que é considerado nacional.

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