Iniciativas para um cinema e audiovisual mais inclusivos

Por Danielle de Noronha

Nos últimos anos, começamos a acompanhar algumas iniciativas nos mais diferentes espaços ligados ao cinema e ao audiovisual com o intuito de promoção da diversidade, como relacionada a gênero, raça, etnia, sexualidade e região. Apesar de não ser uma novidade do contexto atual, alguns motivos, como as redes sociais, as pesquisas e a formação de coletivos de profissionais, têm proporcionado uma maior reflexão sobre o tema, que parte de uma pergunta simples, mas reveladora do modo como nossas imagens são (re)produzidas em todo mundo: quem são as pessoas por trás da maior parte das imagens e dos sons que consumimos?

No caso brasileiro, um estudo divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema) em 2018 e as diversas pesquisas realizadas pelo Gemma (Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa), apenas para citar alguns exemplos, não deixam dúvidas: nosso cinema e audiovisual comerciais são produzidos majoritariamente por homens brancos, localizados principalmente no eixo Rio-SP. Com exceção de poucas áreas, principalmente quando olhamos para o formato longa-metragem, eles são a maioria em quase todos os departamentos: fotografia, arte, som, pós-produção, sem falar em outros espaços que permeiam a produção como as curadorias e os juris de festivais e mostras.

Essa falta de pluralidade atrás das câmeras traz diversas consequências, e, para este texto, podemos nos atentar a algumas delas. A primeira diz respeito às relações assimétricas no campo do próprio trabalho, isto é, as diferentes oportunidades que são oferecidas quando consideramos os marcadores sociais da diferença. Assim como na maior parte das profissões, no cinema também foram naturalizados papéis sociais que podem ou não podem ser desempenhados por diferentes pessoas, e isso toma contornos mais intensos quando levamos em consideração, por exemplo, aqueles que são possibilitados às pessoas pretas, indígenas, trans ou com deficiência.

A segunda tem a ver com os sons e as imagens que nos cercam e a forma como a falta de pluralidade atrás das câmeras reflete na falta de diversidade na frente das telas. Por muito tempo, vários grupos sociais estiveram presentes nas imagens apenas como objetos, sem que fossem respeitadas as suas subjetividades, formas de (auto)representar o mundo, o que facilitou a reprodução de discursos que naturalizam estereótipos e tipificações sociais – inclusive sobre o universo do trabalho – que atuam de distintas maneiras na vida prática das pessoas e mantêm relações hierárquicas de poder.

Entretanto, apesar de os resultados das pesquisas citadas anteriormente, existem muitas pessoas que não se enquadram no perfil hegemônico de produtores de cinema e audiovisual no Brasil – e no mundo – que estão pensando, pesquisando, produzindo e distribuindo imagens e sons, mesmo que em outras metragens, formatos, orçamentos e propostas. E são essas pessoas – aliadas ao público que demonstra cada vez mais estar cansado de não se ver representado nas telas – que estão abrindo espaço para reflexões sobre a urgência de um cinema e audiovisual mais inclusivo: essas discussões estão acontecendo desde as redes sociais, passando pelos coletivos e associações de profissionais espalhados por todo o país até os grandes players, mostras e festivais em todo o mundo, com alguns casos investindo em projetos, equipes e curadorias com pessoas com múltiplos perfis e vivências.

Tide Borges e Débora Taño no lançamento do livro “Trabalhadoras do Cinema Brasileiro” na Semana ABC 2022

Nesse sentido, são diversas as iniciativas recentes que têm buscado caminhos para a construção de diversidade no cinema e audiovisual. Como exemplos, no campo da exibição, é possível citar as plataformas Spcine Play e Todes Play, geridas pela Spcine e pela Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), respectivamente, e que são alternativas para o acesso a produções com equipes e narrativas mais plurais. Desde a academia, pesquisadoras de todo o Brasil também têm contribuído para o tema em artigos e livros, como “Mulheres de Cinema” (organizado por Karla Holanda, 2019), “Mulheres atrás das câmeras – As cineastas brasileiras de 1930 a 2018” (organizado por Luiza Lusvarghi e Camila da Silva) e “Trabalhadoras do Cinema Brasileiro” (organizado por Marina Tedesco). Além disso, ainda é possível citar o “Mapeamento de Diversidades nos Cursos de Cinema e Audiovisual do Brasil”, realizado pelo Fórum Brasileiro de Cinema e Audiovisual (Forcine) e pela Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), e que em breve resultará no do documento “Diretrizes para Implementação de Políticas para a Diversidade nas Escolas de Cinema e Audiovisual Brasileiras”. Sem falar nos eventos, cursos, salas de roteiro, criação de vagas específicas, entre outras importantes ações e projetos.

Ações para uma ABC mais inclusiva

A ABC também tem desenvolvido algumas iniciativas que visam ampliar a diversidade entre as pessoas associadas e também nas atividades que desenvolve, como, por exemplo, em artigos, no seu site e redes sociais, como também na Semana ABC e no Prêmio ABC, principais eventos da associação. No primeiro caso, o evento não apenas trata diretamente sobre o tema em suas mesas, como ocorreu nas edições de 2020 e 2022, como ainda tem trazido maior pluralidade entre as pessoas participantes dos debates. Já para ampliar a diversidade do Prêmio ABC, a premiação passou a disponibilizar 50% de desconto na taxa de inscrição para mulheres e pessoas pretas, indígenas, trans e com deficiência e construir júris, entre as pessoas associadas, com mais paridade de gênero e raça. Esses júris são responsáveis por selecionar os finalistas entre os trabalhos inscritos no Prêmio.

Mesa “Inserção e diversidade no mercado audiovisual” na Semana ABC 2022

A ampliação da diversidade foi uma das principais temáticas trabalhadas na última Diretoria, que atuou entre julho de 2020 e junho de 2022 e que teve pela primeira vez uma presidenta, a técnica de som direto e professora Tide Borges, ABC, à frente da associação. A Diretoria, que também contava com Jacques Cheuiche, ABC, Fernanda Tanaka, ABC e Mustapha Barat, ABC, o Conselho e a Comissão de Ética colocaram em prática algumas ações para alcançar esse objetivo, desde pequenas mudanças, como a inclusão na ficha de inscrição da opção para a autodeclaração de gênero e raça e a incorporação de uma linguagem mais inclusiva, como outras estruturais que demandaram mais tempo.

A primeira que pode ser destacada é a construção do GT Inclusão, um grupo de trabalho que conta com cerca de 20 pessoas, que como explica um dos integrantes, o operador de câmera Nelson Kao, ABC, tem o objetivo de “criar condições para sanar um deficit histórico de profissionais que saiam do padrão homem/cis/branco”. Entre as atividades do GT está a parceria com a ABC Cursos de Cinema com a promoção de bolsas de inclusão social para os cursos online e presenciais que são oferecidos na instituição. Como disse a diretora de fotografia e produtora Kátia Coelho, ABC, DAFB, “O mundo todo está atento à necessidade da maior inclusão de raça, gênero e pessoas PCD nos diversos segmentos da sociedade; com o audiovisual não poderia ser diferente. Eu mesma, agora, me vejo pensando naturalmente nesse assunto, ele está fazendo parte da minha vida com mais força a cada dia. Enquanto trabalhamos no GT, essas necessidades afloram com mais clareza e pertencimento em nós mesmas”.

Mesa “Políticas afirmativas e o audiovisual brasileiro” na Semaba ABC 2021

Outra iniciativa muito importante foi a reestruturação do Estatuto e do Regimento Interno da ABC, além da publicação do Código de Ética e Conduta Profissional, que foram divulgados no final de 2021. Os novos documentos foram elaborados por um grupo de trabalho, com colaboração da Comissão de Ética e coordenado pelo diretor de fotografia Roberto Faissal, ABC. “Levamos nove meses debatendo e fazendo as modificações. Foi um momento muito rico de conversas e debates profundos, no qual pudemos reafirmar, junto com os fundadores, os objetivos e propósitos da associação  e também readequar o seu funcionamento às novas demandas da nossa sociedade por mais inclusão e diversidade e que foram aprovadas por unanimidade”, conta a ex-presidenta Tide Borges.

Entre as mudanças propostas nos documentos, estão a paridade de gênero na Comissão de Ética, que, entre outras atribuições, é responsável por aprovar os pedidos de novas associadas e associados, e uma política afirmativa que assegura a opção ao desconto de 50% na taxa associativa por três anos para os grupos hoje minoritários na associação: mulheres, pessoas trans, pessoas negras e indígenas e pessoas com deficiência. Essa política existirá até que se atinja a paridade. Para Tide, todo esse movimento, fruto de muitas discussões ocorridas dentro e fora da associação, transforma a ABC em uma ABC mais inclusiva.

Em 1 de julho de 2022, a associação passou a ter uma nova diretoria, composta pelo diretor de fotografia Mustapha Barat, ABC como presidente, pelo diretor de fotografia Jacques Cheuiche, ABC como vice-presidente, pela editora de som Maria Muricy, ABC como diretora secretária e pela supervisora de som Miriam Biderman, ABC como diretora tesoureira. Essa nova diretoria pretende dar sequência às iniciativas das gestões anteriores para ampliar a inclusão na ABC e no mercado cinematográfico e audiovisual como um todo. “Espero que com todo este movimento que a Diretoria anterior fez por uma ABC mais inclusiva, a nova Diretoria consiga atrair mais associades negres, indígenas, de dissidências de gênero, PCD, para que a ABC se torne realmente uma associação mais representativa da nossa população e sei que ela está comprometida com isso”, finaliza Tide.

O novo presidente, Mustapha Barat, complementa: “Outras mudanças serão realizadas, com especial atenção na ampliação do diálogo com todas as pessoas associadas, que são chave para a efetivação das novas ações e projetos. Sabemos que o momento atual tem sido de muitos desafios tanto individuais quanto coletivos, mas convidados a todas e todos para ajudarem na construção dessa nova ABC”.

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