Itinerários do Olhar: Lauro Escorel fala sobre a série

30 Valérios, de Valério Vieira

Por Danielle de Noronha

Série Itinerários do Olhar
Canal Brasil
Exibição: segunda-feira, às 20h30
Horários alternativos: quarta, às 7h e quinta, às 14h.

No dia 2 de setembro estreia no Canal Brasil a série Itinerários do Olhar, com direção de Lauro Escorel. Se trata de uma série documental, com cinco episódios, sobre a fotografia brasileira.  A série desenvolve uma narrativa visual do país e reconstrói o universo pessoal e artístico de Insley Pacheco & Marc Ferrez, Valério Vieira & Vincenzo Pastore, Alice Brill & Hildegard Rosenthal, Marcel Gautherot & Pierre Verger, e José Medeiros & Thomaz Farkas. A série apresenta pontos de contato entre a vida e obra desses fotógrafos que atuaram na introdução, divulgação e modernização da fotografia entre nós, contribuindo para a construção da imagem do país que trazemos conosco.

Esta imagem é revelada por fotografias conhecidas e desconhecidas do público, localizadas em pesquisa realizada nos mais importantes acervos do país. No detalhamento de percursos individuais são apontadas as semelhanças e diferenças entre os olhares de cada fotógrafo. Os episódios apontam os caminhos, nas diferentes épocas, da criação da imagem de nosso país, para os brasileiros e para o mundo.

Itinerários do Olhar é uma oportunidade de conhecermos as trajetórias e os olhares de fotógrafos que foram (e são) essenciais para o desenvolvimento da fotografia no Brasil, em que cada episódio é uma aula para todas e todos que trabalham na área e/ou admiram o fazer fotográfico. Através das imagens exibidas ainda podemos passar por diferentes momentos históricos e percebermos as mudanças pelas quais o país passou ao longo das décadas, tanto no que diz respeito à arquitetura, crescimento e tecnologia quanto a mudanças culturais e comportamentais. Ao apresentar mais profundamente os fotógrafos, alguns já mais conhecidos, outros nem tanto, a série nos fornece ferramentas para (re)construirmos a nossa memória social sobre a imagem, possibilitando maior entendimento sobre a produção audiovisual e fotográfica contemporânea.

Para saber mais, entrevistamos o diretor Lauro Escorel, que nos contou sobre o processo de criação, pesquisa e produção da série.

Equipe da série Itinerários do Olhar
Como surgiu a ideia de realizar Itinerários do Olhar e como foi a escolha dos fotógrafos que seriam retratados na série?  

O ponto de partida foi o desejo de dar a conhecer a um publico mais amplo as belíssimas imagens existentes nos principais acervos fotográficos do país. Entre eles destaco as coleções do Instituto Moreira Salles, Fundação Pierre Verger, Museu Imperial e o Museu Paulista. O formato do programa nasceu quando realizei o curta-metragem “Improvável Encontro”, sobre o trabalho de José Medeiros e Thomaz Farkas. Foi ali que surgiu a ideia do diálogo entre os fotógrafos, suas imagens e seu tempo.

Farkas e Medeiros
Como foram realizadas as pesquisas históricas e das imagens dos fotógrafos retratados na série? Quanto tempo levou esse período de pesquisas e seleção do material?

A pesquisa que fiz pessoalmente para o curta sobre Medeiros&Farkas se concentrou no acervo do Instituto Moreira Salles e teve inicio ainda no ano de 2015. Quando o curta ficou pronto em 2016 surgiu a proposta de criar a série. Em parceria  com a  produtora Zita Carvalhosa o projeto foi  estruturado e iniciamos a busca por recursos para sua viabilização. Estes  foram obtidos junto ao Fundo Setorial  em associação com o Canal Brasil. Simultaneamente ampliamos nossa pesquisa nos principais acervos do país e, a partir daí, os roteiros foram elaborados em um trabalho conjunto realizado por Cristiane Ballerini, Idê Lacreta, Stela Grisotti e eu.  Conseguimos realizar a série ao longo do último ano. Ao todo foram três anos de envolvimento com o projeto.

Em relação à preservação das imagens desses fotógrafos. Como estão os materiais? Muita coisa se perdeu?

As fotografias foram encontradas em diferentes acervos e em diferentes estados de conservação. Algumas mais conhecidas já haviam sido digitalizadas e tratadas. Muitas outras precisaram de restauro, que foi feito especialmente para o projeto pelas equipes das instituições que abrigam os materiais. Pelo que se sabe muita coisa se perdeu. Seja por deterioração, seja por terem desaparecido misteriosamente dos acervos ao longo dos anos. Uma coisa interessante é que algumas das fotografias mais antigas se salvaram por terem sido enviadas para a Europa, onde o clima mais ameno garantiu sua preservação.

Mulher como trouxa na cabeça, de  Hildegard Rosenthal
A série traz entrevistas com pesquisadores, curadores, críticos. Como foi o processo de seleção dos nomes que seriam entrevistados e quanto tempo durou esta fase das entrevistas?

Ao longo da pesquisa para o projeto fui descobrindo a excelência dos trabalhos que existem sobre a nossa fotografia. Me aproximei dos autores, que acolheram generosamente o projeto e me ajudaram de diversas maneiras, os quais se tornaram, por fim, consultores oficias da série. Importante destacar a contribuição de Rubens Fernandes Jr, Boris Kossoy, Helouise Costa, Heloisa Espada, Sergio Burgi e Pedro Vasquez. Suas orientações foram decisivas para o recorte que fizemos na história da nossa fotografia.

Nair Benedicto e Lauro Escorel
Por que a opção por representar as vozes dos próprios fotógrafos através da narração em off?

Me pareceu que era importante passar ao espectador um pouco das personalidades dos fotógrafos por trás daquelas imagens. Além disso, a inexistência de materiais sobre todos eles também me levou a lançar mão deste recurso. Os diálogos foram retirados de entrevistas com eles, quando estas existiam, e, quando não, foram criados a partir de dados biográficos que localizei.

A série conta com quatro diretores de fotografia (Carlos Ebert, ABC, Fernanda Tanaka, Guy Gonçalves, ABC, Lula Cerri e Jacques Cheuiche, ABC). Como foi o seu diálogo como diretor com eles?

É muito difícil conciliar agendas em um projeto realizado ao longo de tanto tempo e em cidades diferentes. Por sorte pude contar com o apoio de diferentes amigos colegas na sua realização. A história que contamos é um pouco a história de todos nós e assim tudo fica mais fácil.

Lauro Escorel e Carlos Ebert
Quais lentes e câmeras foram utilizadas e por que elas foram escolhidas? 

Foram tantas que já esqueci (risos). A série foi captada e finalizada em 2K. Tivemos Black Magic, F-55, 5D, Osmo, Canon 300, diversas câmeras da Sony e por aí vai.

Qual a influência desses fotógrafos na cinematografia brasileira e qual é a importância para os cineastas, em especial diretores de fotografia e demais membros da equipe de fotografia, conhecê-los? Além disso, desde a perspectiva da memória visual brasileira, qual a importância de resgatar o nosso passado fotográfico? 

Acho que esses fotógrafos criaram a imagem do país que trazemos conosco, mesmo que isto se dê de forma inconsciente. Existe um elo que une os fazedores de imagens através dos tempos, elo este que pode ser temático ou técnico e que reaparece quando menos se imagina. Conhecer a história das nossas imagens ajuda a organizarmos nosso pensamento estético e contribui para que nos tornemos fotógrafos melhores neste tempo inundado pela imagem.

Conhecer nosso passado fotográfico nos ajuda a entender o país em que vivemos, nos permite compreender a riqueza da nossa formação, ao longo dos anos, em toda a sua diversidade. Ter essa memória nos permite compreender o tempo presente e nos ajuda a pensarmos que imagens queremos buscar daqui para a frente.

Filha de Santo, José de Medeiros
Como foi o processo de pós-produção da série e sua participação nele?

A pós-produção foi realizada na Zumbi Post, dos amigos Giba Yamashiro e Henrique Reganatti. Com eles conseguimos encontrar o tom e a unidade cromática que havíamos imaginado para a série.

Como você se sente no papel de diretor? Já tem mais projetos em mente?

Sigo Diretor de Fotografia. Os trabalhos que dirigi nasceram naturalmente ao me deparar com temas que tinham a ver comigo. Depois da série fotografei o novo filme do Helvécio Ratton, “O Lodo”, e no momento estou em pré-produção de “O Pai da Rita”, do Joel Zito.

Cafezinho no Bar, de Alice Brill
Ficha Técnica

Direção: Lauro Escorel
Produção: Zita Carvalhosa
Roteiros: Cristiane Ballerini, Idê Lacreta, Lauro Escorel e Stela Grisotti
Fotógrafos: Carlos Ebert, ABC,  Lula Cerri, Fernanda Tanaka, ABC, Guy Gonçalves, ABC e Jacques Cheuiche, ABC
Montagem: Idê Lacreta
Musica: Zé Nogueira
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som e Mixagem: Ricardo Reis, ABC
Som direto: Heron Alencar, Mino Alencar, Popó Gouveia  e Bruno Fernandes
Entrevistados: Alex Baradel, Heloisa Espada, Jérôme Souty, Milton Guran, Rubens Fernandes Junior, Flávia de Almeida Fábio, Joaquim Marçal, Lilia Schwarcz, Pedro Corrêa do Lago, Pedro Vasquez, Sérgio Burgi, Fabiana Beltramim, Flavio Varani, Sonia Balady, Nair Benedicto, Simonetta Persichetti, Cristiano Mascaro, Flavio Damm, Helouise Costa, Luiz Carlos Barreto e Rosely Nakagawa
Produtor de imagens de arquivo:  Antônio Venâncio

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