Laços – Turma da Mônica: entrevista exclusiva com a equipe do filme

Por Danielle de Noronha

Após o sumiço do Floquinho, Cebolinha vai precisar da ajuda de seus inseparáveis amigos Mônica, Cascão e Magali para bolar um de seus planos infalíveis e recuperar seu cãozinho, dando origem a uma aventura que reacende os laços que unem a Turma da Mônica há mais de 50 anos.

O primeiro live-action da Turma da Mônica conta com direção de Daniel Rezende e direção de fotografia de Azul Serra. Entrevistamos parte da equipe sobre o trabalho e fotografia do filme.

Renato Almeida “Mineirinho”, Mariana Falvo, Azul Serra e Daniel Rezende
Azul, como aconteceu o convite para você fotografar o primeiro live-action da Turma da Mônica?

Azul Serra: O convite veio do diretor Daniel Rezende no começo de 2017. Nós tínhamos filmado juntos uma série e criamos uma ótima parceria. Confesso que fiquei muito surpreso com a possibilidade de rodar o primeiro filme do Turma da Mônica. Para mim, era uma responsabilidade enorme reinterpretar visualmente o mundo dos personagens de Mauricio de Sousa no cinema. Todos nós conhecemos os quadrinhos e temos uma proximidade emocional com cada personagem, por isto, o desafio era não desapontar os fãs. Admito que estava reticente se era possível fazer um filme bom da Turma da Mônica, mas vindo do Dani, aceitei na hora. Trabalhar com ele é um prazer imenso, porque tem um entendimento muito amplo do processo fílmico. Não só porque é um exímio montador e por ter trabalhado lado a lado com muitos diretores, mas porque é inteligente, cuidadoso, sabe escutar, está sempre agregando as opiniões e tem uma motivação muito clara, de criar um filme popular e que as pessoas de fato se emocionem. Espero ter contribuído para alguns sorrisos e lágrimas.

O filme teve uma longa pré-produção e preparação do elenco mirim. Como foi esta primeira etapa do trabalho?

Daniel Rezende: O processo começou com um anúncio em que 7.500 crianças se inscreveram e mandaram vídeos. Chegamos a fazer 2000 testes presenciais em vários estados do país. Depois começamos um workshop com 200 crianças, depois eu mesmo fiz ensaios presenciais com 100 crianças. A gente não estava procurando semelhanças físicas a princípio. Estávamos procurando crianças que tivessem um brilho e que a câmera gostasse delas. Ai os quatro apareceram. Apresentamos para o Mauricio, sempre nosso termômetro para toda a adaptação. Se os olhos dele tivessem brilhando a gente estaria no caminho certo e eu me lembro dele dizendo “quando criei esse personagem tinha exatamente essa ideia, essa imagem na cabeça”. Escolhidos os quatro, começamos um longo processo de ensaios, quase três meses com Luis Mario Vicente, preparador de elenco. A gente não deixou nenhuma das crianças ler o roteiro, eu não queria que tivesse aquela atuação infantil decorada e, mais do que isto, queríamos buscar a improvisação anotando boas frases.

Além de não ler o roteiro, a gente não dava marcação alguma para eles. Eu de alguma forma infernizava a vida dos Assistentes de Câmera e dos Operadores de Câmera porque eu não deixava marcar a posição deles, que é uma coisa muito clássica do cinema, toda a vez que os AC colocavam marcas eu tirava para eles não ficarem presos. Todo o filme tinha que estar em função das quatros crianças, a locação, a câmera, a luz, o enquadramento, o microfone, eles que tinham que mandar e a gente que tinha que correr atrás, uma coisa que de certa forma dificultou, mas seguramente deu muita naturalidade. Não marcávamos nada, então a fotografia era muito mais complexa para o Azul, mas queríamos esse realismo.

Quais câmeras e lentes foram utilizadas e porque elas foram escolhidas? Foram realizados testes prévios?

Azul Serra: Trabalhamos com duas Red Heliuns, rodando a 8K full. Nossa janela depois passou a ser 2:1. Nossas lentes foram Leicas Summicrons, um jogo de 11 lentes.

Escolhemos fazer desta maneira porque desejávamos uma imagem muito definida e sabíamos que as cores seriam muito trabalhadas na correção de cor. Queríamos uma imagem limpa e moderna, por isto, acabamos optando em não usar nenhum tipo de difusão. Gosto muito das Summicrons, são lentes leves e rápidas. Todas do mesmo tamanho, assim a troca delas fica mais rápida para os AC, ainda mais quando são duas câmeras naquela pressão do set. Não precisam reajustar o comando de foco, só tirar e colocar outra. Já venho usando elas em alguns filmes e séries e me surpreendo toda vez. Outro ponto a favor é o set ter 11 lentes, ainda mais usando duas câmeras. Para customizar e desenhar nosso fluxo, chamamos Raphael Varandas, que junto com o Produtor Executivo Fernando Fraiha, desenhou o workflow.

Raphael Varandas: O Azul queria um Super 35mm com muito detalhe e informação e ao escolher a Helium com as Crons conseguiu unir definição, resolução e personalidade, ampliando o seu leque de opções criativas.

O 8K S35 da Weapon Helium trouxe o dobro de pixels e o arquivo aumentou consideravelmente em relação aos sensores anteriores, porém o nosso super trunfo foi se beneficiar do IPP2 (Nova Ciência de Cor da RED) e ter o mesmo pipeline de Cor desde a monitorarão até a Pós.

Um filme com crianças, animais, florestas e cheio de movimento urgia por autonomia de mídia e rapidez. Para isso, ainda na pré, sentamos com o Fraiha e desenhamos um flow personalizado para o filme com foco em monitoração 10 bits (DCI P3) e altas taxas de transferências para sermos ágeis (Thunderbolt 3).

Customizamos um LAB no set com 2x RAID’s 5 de 48TB TB3 e SSD’s de Transporte para o gerenciamento da Data, Storage e envio de SSD Transito para a Pós/Archiving. No set, o Azul e o Dani monitoravam tudo pelos Flanders DM250 e 703 Bolts.

Em quanto tempo o longa foi filmado e como foi o trabalho nas principais locações?

Azul Serra: Crianças, cachorros, floresta, noturnas, inverno e cronograma apertado. Pense nisso tudo junto… Loucura. Tivemos locações espalhadas por todos os lados. Mairinque, Poços de Caldas, Águas da Prata, Cubatão e Holambra. Muitas delas de difícil acesso e complexidades de movimento e luz. Nos sets noturnos por exemplo, em que tínhamos pouquíssimo tempo para filmar muita coisa, precisávamos estar preparados de todos os lados. O gaffer Anisinho Pacheco e o maquinista Renato Almeida (Mineirinho) foram maravilhosos e trouxeram uma segurança muito importante nas abordagens de movimento e luz.

Anísio Pacheco e Renato Almeida “Mineirinho”

Anísio Pacheco: Na cena do Louco, por exemplo, o maior desafio foi a chegada dos equipamentos no set de filmagem (risos). Tivemos que subir vários lances de escada com muitos equipamentos para fazer a estrutura e colocar os refletores nas copas das árvores. Na cena do acampamento também foram vários desafios, um deles foi conseguir chegar com uma plataforma articulada de 18 metros em um local de difícil acesso, também o Renato Mineirinho, que por sinal realizou um excelente trabalho, desenvolveu uma estrutura para que eu pudesse mover o refletor para todos os lados nas copas das árvores, sem a necessidade de ter que baixá-lo e, com isto, otimizou muito nosso tempo.

Em termos de equipamentos foram vários. Usamos alguns refletores hmis como M90, 18 kw hmi e menores. Usamos nas diurnas como base difusa e pontuávamos nosso sol com tungstênio, Par 64, Maxi Brutis etc.  À noite, usamos HMIs, Octodomes 1000w, Skypanels e Selects e até mesmo Balão de Helium.

Quais são as características de um trabalho transmídia como é o caso do universo da Turma da Mônica? Como foi o diálogo com os demais produtos da série (gibis, desenhos animados, jogos, etc.) para construir a fotografia do filme?

Azul Serra: Esse é um caso muito particular, porque envolve o imaginário de milhões de brasileiros. Todos nós conhecemos os personagens, os adultos os conhecem até muito mais do que o próprio elenco. Então um bom termômetro para saber se estávamos indo na direção certa era quando a equipe estava com aquele olhar, meio chorando, meio rindo, encantada no monitor, vendo surgir aquele mundo que todos nós já havíamos gastado horas lendo e nos divertindo.

Visualmente falando, os quadrinhos da Turma da Monica têm algumas características muito fortes. São muito simples, quase bidimensionais, sem profundidade. As cores nos quadrinhos são primárias e os enquadramentos clássicos. Não são HQs inovadores, com decupagens complexas. É tudo muito simples e direto ao ponto. Claro que o cinema exige uma releitura, portanto nos desprendemos com somente um norte: deixar as crianças brilharem. Criamos muitos movimentos de câmera para acentuar a aventura, aumentando as intenções e brincando com as características de cada personagem. O Dani sempre dizia o seguinte: “podemos tentar fazer qualquer coisa, mas lembrem que o mais importante disso tudo são as crianças. Se estivermos inventando moda e engessando elas para “caber” na fotografia, estamos errados”.

Azul Serra e Mauricio de Sousa

Daniel Rezende: O look e o visual. Ao mesmo tempo que o filme tinha que responder à pergunta “como seria essa turminha se eles existissem de verdade?”, e tinha que ter um tom lúdico e o universo do Mauricio de Sousa, queríamos também uma pegada realista. Como era essa cara? Usando as formas geométricas e a simplicidade do Mauricio, a gente ia procurar casas que o Mauricio desenharia, carros que ele desenharia, etc. As cores tinham que ser semelhantes, tudo era mais rebaixado, sem ser puros, mas marcantes.

O filme era divido em três partes, Bairro do Limoeiro, Floresta e Casa do Homem do Saco. A primeira parte era mais colorida, mas deixávamos todas as cores do fundo mais rebaixadas para que eles tivessem sempre saltando no primeiro plano. Na floresta o fundo alternava entre o verde e marrom e a casa do Homem do Saco, marrom, preto e escuro.

Já a luz do filme, buscamos uma luz nostálgica, pop, colorida, que pudesse conversar com o universo infantil e ao mesmo tempo trouxesse uma nostalgia dos adultos. Tinha que remeter aos quadrinhos e ao mesmo tempo ser realista, mantendo entre o lúdico e o realista. Acho que o Azul foi muito genial nessa transposição nas escolhas de como iluminar, ficando ao mesmo tempo num universo de verdade, mas que de alguma forma todos os frames remetiam ao universo clássico. Acho que o Azul conseguiu essa tradução realista, lúdica e linda.

Quais outras referências e inspirações foram utilizadas para a fotografia do filme?

Azul Serra: Buscamos referências de filmes do universo infantil que tivessem uma fotografia interessante e admito que não foi fácil encontrar. Porque é difícil mesmo fotografar crianças, muitas vezes queremos desenhar a luz e, aquela coisa, assim que ligamos a câmera muitas delas não seguem marcas, improvisam ou se sentem inibidas com todos aqueles equipamentos. Aí acontece de abrirmos mão dos desenhos de luz para criar uma situação mais generalizada. Pronto, aí o sonho se vai. No Laços, elas foram fenomenais, entendiam tudo, não se intimidavam, repetiam quantas vezes fossem necessárias, sem engessar ou mudar a espontaneidade. Quanto à construção da luz, buscávamos a todo momento alguma faísca mágica, algum brilho que nos mantivesse dentro do mundo da Mônica.

Na aventura do novel Laços, saímos do mundo do Bairro do Limoeiro e adentramos à floresta até eles chegarem no esconderijo do Homem do Saco. Existe uma curva solar para um mundo mais sombrio e misterioso. Tivemos um desafio grande em encontrar esse nível de “escuro”. Lembro que um dia tinha uma criança de uns seis anos visitando o set e sentada no monitor. Eu estava com o Anisinho iluminando a fachada da casa do Cebolinha. Naquele momento de decidir se mais ou menos luz, resolvi perguntar o que ela achava. Ela falou naquela inocência: “tá muito escuro”, chamei o Anisinho e pedi para ela repetir… ficamos todos rindo. No fundo, era o feedback perfeito.

Poderia nos contar um pouco sobre a relação da equipe de fotografia com a direção e equipes de arte e som?

Azul Serra: A diretora de Arte Mariana Falvo e sua equipe arrasaram muito. Vale ressaltar a importância de Cassio Amarante que conceitualizou os cenários num momento anterior do projeto. Imagine só que desafio, e ao mesmo tempo que presente, recriar o Bairro do Limoeiro, a casa do Cebolinha, os quartos da Mônica e Magali. Foram extremamente talentosos, e a fotografia ficava mais fácil, toda locação era um desbunde. Fora que existiam muitos EasterEggs escondidos que a própria equipe ficava procurando. O técnico de som Jorge Rezende Vaz (Jorginho) também teve o desafio de deixar as crianças soltas, sem prejudicar a qualidade de captação. Vale a pena destacar a trilha sonora de Fabio Goes. Um primor que eleva o filme na potência máxima.

Como foi o workflow de pós?

Azul Serra: O filme teve poucos planos com efeito, porém tivemos muito trabalho na cor. Sergio Pasqualino foi o colorista e arrebentou como sempre. Para ele, foram muitos desafios. Manter as cores de cada personagem destacadas como nos quadrinhos e, ao mesmo tempo, criar um “douradinho mágico”. Acho que o maior trabalho foi colorir nosso Floquinho, deixá-lo no tom certo do verde. Muita rotoscopia e horas de trabalho que valeram a pena.

Azul, o que achou do resultado final do filme e qual a sua expectativa para a estreia?

Azul Serra: Foi e está sendo muito emocionante participar desta Turma. O set era uma delícia e para dar certo tínhamos que entrar na onda da criançada. Teve um dia, inclusive, que toda a equipe combinou de ir fantasiada para trabalhar. Foi hilário e inesquecível.

É muito lindo ver todos no cinema torcendo, chorando, gargalhando, esquecendo por um momento a vida dura lá fora e virando criança novamente.

Espero que o filme encante a todos e todas, da mesma maneira que nos encantou ao fazê-lo e que leve as boas mensagens que essa Turma traz.

Ficha Técnica

Direção: Daniel Rezende
Produtora: Biônica Filmes
Direção de Fotografia: Azul Serra
Direção de Arte: Cassio Amarante, ABC e Mariana Falvo
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC
Som Direto: Jorge Rezende Vaz
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Mixagem: Reilly Steele e Toco Cerqueira
Montagem: Marcelo Junqueira
Gaffer: Anísio Pacheco
Maquinista: Renato Almeida “Mineirinho”
Operador de Câmera / Steady: Miguel Lindebergh
Colorista: Sergio Pasqualino
Fotos: Daniel Chiacos

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