Lúcio Kodato, ABC fala sobre o filme Alma Imoral

Como se dá o processo de ruptura com as tradições para que as fronteiras da consciência sejam ampliadas? E quem são os protagonistas da traição ao status quo, as pessoas que estabelecem novos paradigmas e, ao romper, possibilitam a perpetuação da espécie?

Essas são algumas das perguntas que cercam o documentário Alma Imoral, com direção de Silvio Tendler e fotografia geral de Lúcio Kodato, ABC, resultado de mais uma parceria entre o diretor e o fotógrafo. O filme discute o conceito de transgressão através do livro homônimo publicado pelo rabino Nilton Bonder e propõe um novo olhar sobre personagens centrais da história judaico-cristã, como Adão, Eva, Moisés, Abraão, Lote e Jesus Cristo. Longe de se restringirem ao papel de guardiões de uma tradição, eles traem e desobedecem para evoluir.

Zalman Schachter-Shalomi

Kodato conta que Alma Imoral começou a ser filmado em 2013 e passou pelos Estados Unidos, Israel, Palestina, Espanha e Brasil, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus. Originalmente foi criado para ser uma série de TV (exibida no Canal Curta!), mas acabou também se desdobrando no longa-metragem documental que estreou no dia 8 de agosto.

Alma Imoral é um convite para o espectador refletir sobre conceitos universais como corpo e alma, bom e correto, compromissos e rompimentos. O filme mostra que, ao contrário das teorias de Charles Darwin ou da psicologia evolucionista, a compreensão bíblica de corpo e alma inclui uma outra
dimensão da missão animal além da procriação: sua natureza transgressora. Capaz de romper com os padrões e com a moral, a alma é o componente consciente da necessidade de evolução. Ela jamais representou o elemento moral e patrulhador dos bons costumes. Eles são espelho dos interesses do
corpo, das leis, do cumprimento estabelecido. O maior interesse do corpo é sempre a preservação. Só a traição a este “corpo moral” resgata possibilidade de imortalidade.

Yiscah Smith

Para a realização do documentário, Tendler entrevistou diversas pessoas, “almas imorais do nosso tempo, personagens desviantes em diversos campos, que arriscaram construir novas histórias em uma dimensão desconhecida”. Para o diretor de fotografia os personagens mais marcantes foram os rabinos Zalman Schachter-Shalomi, nascido na ortodoxia, que se defrontou nos anos 1960 com novas relações sociais e um novo olhar para a sexualidade, Steven Greenberg, primeiro rabino ortodoxo abertamente gay, e Yiscah Smit, professora de estudos judaicos que, aos 40 anos, enfrenta os preconceitos e faz a transição de gênero, rompendo com a tradição para preservar sua autenticidade, resgatar a sua identidade e com o tempo reconstrói sua relação com a tradição.

Kodato explica que o filme foi rodado com a Sony HXR-NX5 (camcorder) como câmera principal, com sensor do tipo 1/2.8, lente zoom de 4.1 x 82.0mm (equivalente a 28.8 x 576mm em 35mm) + adaptador para grande angular; além de uma Canon DSLR 5D, com lente fixa Nikon 50mm, e em Israel e Palestina uma Canon EOS C300 Mark II.

Foto: Maycon Almeida

O documentário ainda apresenta encenações de dança, fotografadas por Gustavo Hadba, ABC, da coreógrafa Deborah Colker, premiada internacionalmente, que transpôs trechos do livro para o balé. Ao longo dos episódios, bailarinos de sua companhia traduzem os questionamentos filosóficos levantados pelo rabino Nilton Bonder em movimentos corporais que combinam poesia e potência. O filme conta com um elenco de atores consagrados, como Matheus Solano, Letícia Sabatella, Júlia Lemmertz e Osmar Prado, que interpretaram passagens do livro. A artista visual Ruth Kelson produziu xilogravuras exclusivas para a série retratando movimentos transgressivos dos patriarcas da Bíblia.

Além de Kodato, o filme contou com fotografia adicional de Maycon Almeida, Tao Burity, Vitor Foguel e Vladimir Seixas. Sequência da Dança – Direção de Fotografia Gustavo Hadba, ABC.

Ficha Técnica:

Direção: Silvio Tendler
Produção Executiva: Ana Rosa Tendler
Argumento e Roteiro: Silvio Tendler
Entrevistas: Nilton Bonder e Silvio Tendler
Diretor Assistente: Lilia Souza Diniz, Luis Carlos de Alencar e Douglas Duarte
Assistente de Direção: Vladimir Seixas e Patricia Francisco
Direção de Fotografia: Lúcio Kodato, ABC
Fotografia Adicional: Maycon Almeida, Tao Burity, Vitor Foguel e Vladimir Seixas
Edição: Ricardo Moreira e Jordana Berg
Produção: Maycon Almeida e Cynthia Lamas
Coordenação de Pós-Produção: Tao Burity
Arquivo e Pesquisa: Alessandra Schimite
Xilogravuras: Ruth Kelson
Narração: Bel Kutner, Júlia Lemmertz, Letícia Sabatella, Mateus Solano e Osmar Prado
Direção de Dança e Coreografia: Deborah Colker
Edição e Mixagem de Som: Alexandre Jardim
Direção de Arte e Videografismo: Renato Vilarouca e Rico Vilarouca

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