“Sessão de Terapia” – Desenho de som detalhado por Luiz Adelmo

Por Luiz Adelmo

À primeira vista, o trabalho sonoro na série “Sessão de Terapia” parece simples. Num primeiro contato, trata-se de uma série composta de episódios em que um paciente chega à sala do psicólogo e ali ocorre uma sessão com cerca de 24 minutos de duração em média. Do ponto de vista sonoro, o entendimento seria que basta uma boa captação de som dos atores em cena, que normalmente são dois e estão num espaço interno (supostamente controlável), daí só cabe acrescentar a trilha musical e voilá, feito. Ocorre que, na prática, o trabalho é bem mais sofisticado que isso, envolvendo articulações que vão além do som.

Chegando à sua 5a temporada, compondo um total de 185 episódios desde a primeira temporada, “Sessão de Terapia” teve características específicas ao longo dos anos. Mesmo nas três primeiras temporadas, feitas quase que na sequência entre os anos de 2012 e 2014, o que ali se estabeleceu acabou por sofrer alterações quando a série foi retomada, para as 4a. e 5a. temporadas, em 2019 e agora, 2020/2021. Não somente a alteração do protagonista (sai Zé Carlos Machado, como Theo, e assume Selton Mello, como Caio, acumulando as funções de ator e diretor). As principais funções de equipe se mantiveram, sempre com produção da Moonshot Pictures, tendo Roberto D’Ávila como produtor, Suraia Lenktaitis como produtora executiva, e mantendo praticamente os mesmos nomes em direção de fotografia, direção de arte e edição. A trilha musical em todas temporadas foi feita por Plínio Profeta, sendo o desenho de som feito pelo autor deste artigo. Aí coloco uma observação importante: a rigor, o desenho de som da série é na prática compartilhado com Selton Mello, que acompanha todo processo de pós-produção com extremo detalhismo. Essa constatação de que o desenho de som é compartilhado se justifica porque a escolha dos elementos sonoros que entram e saem de cada episódio já vem em grande parte indicada na edição de imagem, com acompanhamento próximo de Selton. Cabe a mim o fornecimento de sons originais, de efeitos sonoros e de ambientação, além, obviamente, de toda supervisão de som. A indicação de quais trilhas musicais serão usadas, normalmente mais do que uma trilha em simultâneo, com rigorosos pontos de entrada e saída e mesmo a intensidade (nível) em que devem estar, é trabalhada pelo próprio Selton Mello. Seja como eventual mixador, seja como sound designer, fico encarregado de respeitar essa indicação de trilha musical. Não significa dizer que não pode haver modificações em nenhum momento. Pelo contrário, elas ocorrem, mas são poucas e pontuais, normalmente sutis.

O grande desafio no trabalho em “Sessão de Terapia” é entender sua principal característica: o ouvir. Personagens os mais variados se apresentam e se revelam ao longo de episódios semanais, em temporadas que normalmente seguem os dias da semana ao longo de 7 semanas por temporada. A escuta é o fio condutor da série, sendo atrativo e desafiador para o trabalho sonoro. Cabe assim ter controle sobre os elementos sonoros que compõem a trilha sonora, dosando-os, usando-os no momento certo. Trata-se de um trabalho, por conseguinte, em que até o silêncio ganha extremo valor.

Sonoramente, ao longo de toda a série o ponto principal é indiscutivelmente a qualidade de voz. Desde a primeira temporada – e aí entra a essência do desenho sonoro -, talvez minha maior preocupação tenha sido sempre ter uma voz presente e limpa. Pode parecer simples em se tratando do perfil da série e por ser gravada em estúdio, mas na prática é o aspecto que mais exige nossa atenção desde o início e a cada nova temporada. Tal fato envolve decisões conjuntas, entendimento de limites e possibilidades, escolha de equipamento e mesmo alterações em estúdio. Característica marcante no estilo de direção de Selton Mello, a demanda pela expressão contida dos atores é presente em todas as temporadas. Considere então que, em grande parte dos episódios, teremos atores falando com pouca projeção, a menos que a situação solicite algum diálogo mais gritado, mais áspero. No geral, as falas são contidas, pouco projetadas. Por vezes, esbarramos até na questão (sempre polêmica) de falas pouco compreensíveis, ou intencionalmente incompreensíveis, tendo em vista que estamos diante de personagens que, em sessões intensas com seu psicólogo, falam quase “pra dentro”. Eles falam, eventualmente soltam expressões quase que com medo do que dizem, por vezes sentem medo do que acabam por revelar. Estamos diante de personagens que se desnudam ou se descobrem durante aquela sessão. Cabe à pós-produção de som entender esses momentos e trabalhá-los da melhor maneira possível.

O fato é que essa situação recorrente traz diversas implicações para o trabalho com som desde a captação. E some-se a ela uma intenção combinada sobre o desenho de som, que é buscar ter um diálogo limpo, sempre desejando ouvir respirações, suspiros, detalhes. Parece simples, mas na prática não o é. Duas implicações decorrentes disso podem parecer óbvias, naturais, mas levaram um bom tempo até chegarmos a bom termo. A primeira implicação seria a opção por microfones de lapela. A segunda seria gravar em um estúdio silencioso, o que permitiria ter um fundo neutro, obtendo o que chamamos de boa relação sinal-ruído. Ou seja, mesmo que o sinal captado (voz) seja “baixo” (ou pouco intenso, que é o termo correto), é vital que se tenha sonoridade de fundo (algo como barulho de fundo do estúdio) a mais neutra possível, para que, quando “subimos” esse sinal (captado com um ruído de fundo determinado), ouçamos a voz com o fundo não interferindo nessa limpeza desejada. Ocorre que, na prática, um longo caminho foi percorrido até se chegar ao resultado. As gravações dos primeiros episódios da 1a temporada, por exemplo, revelaram um “fundo” de estúdio indesejado. No caso, um dos problemas enfrentados foi a necessidade de se ter o ar condicionado ligado durante as gravações. Tendo em vista que os planos são longos, desligar o ar condicionado pode ser um problema, ainda mais se as gravações ocorrem durante o verão, e definir a época do ano em função desse detalhe não é exatamente uma das principais preocupações da produção. Assim, passamos a uma próxima etapa, que é escolher um estúdio que tenha isolamento e que tenha ar condicionado bem instalado, de forma a não se “revelar” (ou gerar ruído) de forma inadequada durante a gravação. O passo seguinte é ser bem criterioso na escolha dos microfones. A escolha por microfones de lapela, por mais óbvia que possa parecer, não foi consenso logo de início, na primeira temporada, mas as questões acima levantadas e a opção indiscutível da expressão contida de voz logo fizeram com que se optasse pelos microfones de lapela. Que fique claro, a não opção logo de imediato pelos lapelas estava relacionada com a entrega dos atores, que durante longos takes têm uma interpretação intensa, daí a preocupação em não se ter mexidas e acertos de microfones no decorrer de longos takes. Por fim, o microfone aéreo é usado, mas acaba sendo limitado em sua eficiência.

Vale aqui ressaltar uma outra característica que acaba marcando a série: não se pensa em dublagem. Exceto uma fala ou outra, que acaba sendo acrescentada na pós-produção (geralmente um off), ou algo pensado durante a edição, tudo advém do som direto. Essa “obrigação” redobra a atenção do técnico de som direto para que toda captação esteja valendo o tempo todo, sendo essencial uma comunicação imediata de eventuais problemas para a direção.

Depois de três temporadas gravadas uma em seguida da outra (em anos consecutivos), “Sessão de Terapia” retornou em 2018 para sua 4a temporada. Nessa, a captação de som trouxe novo técnico de som, George Saldanha, que havia trabalhado anteriormente com Selton. George substituiu Jorge Vaz, que havia feito captação nas três primeiras temporadas. O conceito sonoro da série foi rapidamente assimilado por George, que se valeu dessa experiência anterior tanto com Selton quanto comigo (havíamos trabalhado em “O Palhaço” anteriormente), para sanar rapidamente quaisquer dúvidas, de forma a alcançar a sonoridade desejada. Importante registrar que essa relação entre os três e a maturidade no conceito sonoro contribuiu e muito para algumas decisões tomadas: troca de estúdio, testes e checagens rápidas, além de solicitações que porventura pudessem surgir. Uma delas talvez seja chegar ao detalhismo de se trocar, mais de uma vez, o motor que controla a lente zoom da câmera, por estar muito “barulhenta” face a planos próximos com ator se expressando com intensidade baixa (entenda-se volume) em momentos delicados. Sobre a escolha de estúdio, testes e a troca de impressões fizeram com que o entendimento sobre escolha de estúdio e modificações fosse decidida rapidamente. Importante marcar aqui o bom entendimento do produtor da série, Roberto D’Ávila, bem como da equipe de produção, receptivos à ideia do que consiste o desenho sonoro. Uma última observação sobre a captação de som da 4a temporada é quanto à maior valorização do microfone aéreo, conseguindo-se bons resultados.

Antecipando o assunto pós-produção de áudio, chegou-se na 4a. temporada a uma dinâmica que foi bem funcional e que praticamente se repetiu na 5a. temporada. Em termos de equipe, os episódios contaram com dois editores de diálogos, George Safranov e Nathalia Safranov, e a mixagem foi feita por Rosana Stefanoni. Essa estrutura bem estabelecida foi o ponto mais importante para o andamento até rápido de pós-produção de áudio de cada episódio, na base de dois episódios por semana. Na 4a. temporada, chegamos a um breve momento em que o cronograma pediu 3 episódios por semana. Os efeitos e ambientes foram feitos por Guta Roim (na 4a. temporada), que também fez o foley de todas as temporadas. Na 5a. temporada coube a mim fazer edição de ambientes e efeitos. Tal função envolve muito seguir a referência recebida da edição, reforçando que alterações eram permitidas, bem como sugestões, mas o fundamental era se observar as pontuações indicadas por Selton na edição. Nas duas últimas temporadas, a ação da série se passaria no centro de São Paulo, com o personagem Caio morando supostamente no Edifício Eiffel, na Praça da República. Assim, ambientes e efeitos articulam elementos sonoros urbanos, muitas vezes baixando-os e por vezes deixando-os mais presentes para indicar uma volta à realidade ou o final de uma sessão. É marcante também na série, desde seu início, o uso de elementos do ambiente para disfarçar pulos de eixo de câmera. Normalmente, a decupagem segue um eixo até metade do episódio e, quando chegamos a um ponto crítico da sessão – que muitas vezes coincide com uma quase suspensão da ambientação-, a preparação para uma revelação ou um conflito que vai se apresentar é acompanhado de uma passagem de eixo, passando-se a outro e tendo para tanto a ajuda de elementos sonoros – como aviões, helicópteros, sirenes – para disfarçar esse pulo.

Continuando no tópico pós-produção de áudio, outro ponto essencial do desenho sonoro é extremamente relevante ser observado, com reflexos também na captação de som direto. Trata-se do desejo, quase obsessão de Selton Mello, de ter uma voz encorpada, bem presente. Em termos práticos, seria valorizar os graves da voz, tendo uma voz marcante. A analogia de Selton é a ideia de ouvir algo como uma conversa ao pé do ouvido, uma voz quente e presente, que sobressai principalmente nos personagens masculinos e sobretudo na voz dos protagonistas (Zé Carlos Machado e Selton Mello). Seguindo nessa ideia, cabe avançar no raciocínio acerca da voz. A opção da voz presente e com presença, somada ao desejo de voz limpa, valorizando respirações, arfares, leva um peso maior para a captação (e aspectos como escolha de estúdio e de microfones, como detalhado anteriormente). Todas as temporadas foram trabalhadas na pós-produção em Pro Tools. Seria natural pensar que, nessa configuração, bastaria estar munido dos conhecidos plugins que hoje se tornaram corriqueiros, que ajudam na limpeza de ruído de fundo. Mas para se obter essa qualidade de voz, desejada no desenho de som, justamente o contrário ocorre: é fundamental que a voz captada chegue o mais limpa possível, numa ótima relação sinal / ruído, pois o uso excessivo de plugins vai provocar exatamente a perda de sutilezas e dificulta na obtenção dessa voz grave presente, recheada.

A 5a. temporada, gravada durante a pandemia, no 2o. semestre de 2020, surge com a novidade das gravações ocorrerem nos estúdios da Rede Globo, no Rio de Janeiro. Do ponto de vista sonoro, a novidade implicou em nova equipe de captação. Com bom tempo antes das gravações, foram realizadas reuniões e testes para que esse conceito sonoro fosse repassado para a nova equipe de captação. Capitaneando a função de produção de áudio, Paulo Ricardo foi de enorme importância para o projeto, proporcionando testes que levaram à configuração usada na captação, de dois microfones de lapela por personagem / ator, além de microfone aéreo. Valendo-se de sua experiência com captação, Paulo possibilitou que uma troca de material em testes preliminares, com filtros e equalizações que lhe eram devolvidas, levasse ao entendimento de que nível de filtragem era aceitável, de qual ruído de fundo estava se considerando (e quais modificações no estúdio eram necessárias), além de se entender quais microfones eram mais eficientes. A captação de som da 5a temporada foi feita por Wellington Pires, Ronald Vogel e Fagner Leonel. As primeiras semanas de gravação foram as mais importantes, principalmente por conta de termos nesse período as atrizes com projeção de voz mais contida, trazendo os desafios de se obter a captação a um nível aceitável em relação ao fundo. Novamente essas primeiras semanas foram as que mais tiveram impacto no set up de áudio, obrigando ajustes a serem feitos. De todo modo, o controle obtido permitiu resultados muito positivos, em especial em episódios mais elaborados, como o em que o protagonista Caio encontra com o irmão (interpretado por Danton Mello), no qual temos chuvas e relâmpagos ao longo de todo o episódio. Mesmo com efeitos visuais, a captação alcança sua concepção sonora desejada, em termos de qualidade de voz.

Com relação à pós-produção, a equipe manteve-se essencialmente a mesma. Ponto fundamental nessa 5a. temporada foi estabelecer uma comunicação eficiente com Selton Mello quanto à monitoração, tendo em vista que nem chegamos a nos ver pessoalmente, por conta da pandemia. Para tanto, a opção foi aproximarmos a monitoração, optando pelo mesmo modelo de fone de ouvido para que as impressões fossem entendidas a partir de uma referência próxima. Uma vez tendo o mesmo modelo de fone, ficava mais claro quais solicitações estavam sendo pedidas, o que é importante dentro de uma série que trabalha em sutilezas de voz e de elementos sonoros.

Ficha Técnica:

Gênero: Série dramática
Criado por: Hagai Levi
Produção: Roberto d’Avila
Produção Executiva: Suraia Lenktaitis
Roteiro: Jaqueline Vargas
Direção: Selton Mello
Elenco 1ª temporada: Zécarlos Machado, Maria Fernanda Cândido, Sérgio Guizé, Bianca Muller, Mariana Lima, André Frateschi, Maria Luísa Mendonça e Selma Egrei.
Elenco 2ª temporada: Zécarlos Machado,Mariana Lima, André Frateschi, Selma Egrei, Bianca Comparato, Mayara Constantino, Claudio Cavalcanti, Paula Possani, Renata Zhaneta, Aline Leite, Norival Rizzo, Adriana Lessa, Derick Lecouflé.
Elenco 3ª temporada: Zé Carlos Machado, Selma Egrei, Paula Possani, Letícia Sabatella, Ravel Andrade, Rafael Lozano, Fernando Eiras, Camila Pitanga, Celso Frateschi.
Elenco 4ª temporada: Selton Mello, Morena Baccarin, Fabiula Nascimento, David Junior, Cecília Homem de Mello e Livia Silva
Elenco 5ª temporada: Selton Mello, Letícia Colin, Christian Malheiros, Luana Xavier, Miwa Yanagizawa e Rodrigo Santoro

1ª Temporada – 45 episódios (2012)
2ª Temporada – 35 episódios (2013)
3ª Temporada – 35 episódios (2014)
4ª Temporada – 35 episódios (2020)
5ª Temporada – 35 episódios (2021)

Equipe 5a. temporada

Diretora Assistente: Vera Haddad
Direção de Fotografia: Rodrigo Monte, ABC / Fabio Burtin
Color: Alex Yoshinaga
Direção de Arte: Guta Carvalho / Olivia Helena Sanches
Figurino: Tica Bertani
Produção de Elenco: Cássia Guindo
Montagem: Renato Lima
Assistentes de Montagem: Laís Souza Lima / Maki Shintate / Tamy Higa
Coordenador de Pós-produção: Marcos Cosentino
Trilha Musical: Plínio Profeta
Produção de áudio: Paulo Ricardo Nunes
Captação de Som: Wellington Pires / Ronald Vogel / Fagner Leonel
Sound Design: Luiz Adelmo, ABC
Edição de Diálogos: George Safranov / Nathalia Safranov Rabczuk
Edição de Efeitos: Luiz Adelmo, ABC
Arte e Edição de Foley: Guta Roim
Gravação de Foley: João Victor dos Santos
Mixagem: Rosana Stefanoni
Fotos Still: Helena Barreto

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