O esquecido fotógrafo de um filme lendário

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Por trás da câmera, o fotógrafo Manoel Clemente. À direita, Walter Carvalho sem camisa. (Foto extraída do livro O país de São Saruê (1986), organizado por Vladimir Carvalho)

Por Matheus Andrade

O cinema comete certas injustiças históricas porque nem todo filme lendário torna seus profissionais memoráveis, sobretudo os que estão por trás da câmera. De fato, nem todo grande diretor ou diretora de fotografia fez um grande filme. Mas nem por isso sumiram das memórias do cinema nacional. Intrigante mesmo é quando se fotografa um filme lendário como O país de São Saruê e, basicamente, se é esquecido.

A obra está na lista dos cem melhores filmes nacionais feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema – ABRACCINE – e publicada no site oficial da entidade, em 2015. Ela ocupa a octogésima segunda posição do ranking. Integra, também, o conjunto dos principais documentários da historiografia nacional, de acordo com o livro Introdução ao documentário brasileiro (2006), escrito por Amir Labaki. Lançado em 1971, o longa-metragem aborda o estado de subdesenvolvimento do Nordeste brasileiro daquela época, temática polêmica que o levou a ser censurado pela Ditadura Militar que governava o país, aguçando, com isso, a curiosidade de muitos. Por essas e outras razões, O país de São Saruê pode ser considerado como um filme lendário.

A fotografia foi algo marcante para a obra. Trata-se de um preto e branco de alto contraste e granulação aparente, feito com a luz dura natural daquele lugar. Na tela, as imagens revelam enquadramentos de chamar atenção pela intransigência. Inclusive, o trabalho fotográfico foi largamente comentado por críticos como Jean-Claude Bernardet, José Carlos Avellar, Ariano Suassuna e outros, conforme a coletânea de textos organizada pelo próprio diretor Vladimir Carvalho, publicada em 1986. Aliás, ele nunca poupou elogios ao fotógrafo. Em seu capítulo, rememora a aventura vivida sertão adentro em busca de histórias, acompanhado de um sujeito com uma velha Bell & Howell 16mm, com poucos rolos de negativo, um tripé e alguns rebatedores improvisados. Juntos, desbravaram aquele mundo hostil e ensolarado para fazer um filme. “Ele era uma faca só lâmina!”, dizia Vladimir como uma maneira de resumir a precisão e o virtuosismo com que o fotógrafo manuseava a câmera e, naquelas condições, gastava economicamente a película que tinham. Filmavam numa proporção de 1 para 1, isto é, era um take para cada cena. Não havia margem para muitos erros, nem recursos para isso. As imagens são, portanto, a tradução cinematográfica de uma estética subdesenvolvida por natureza. O fotógrafo se chama Manoel Clemente.

Nascido na Paraíba, ele foi um dos profissionais do chamado Ciclo de Documentários realizado no Estado entre as décadas de 1960 e 1970. Em 1980, virou professor efetivo do Departamento de Arte e Comunicação da UFPB, posteriormente Departamento de Comunicação, onde ensinou fotografia e cinema durante muito tempo. Coordenou, também, o Núcleo de Documentação Cinematográfica da instituição, através do qual fotografou e dirigiu vários trabalhos audiovisuais. Na década de 1990, quando cursou o mestrado na Escola de Comunicação e Arte da USP, estudou com Thomaz Farkas. Dizem que, aula após aula, o professor o reverenciava frequentemente diante da turma, devido ao legado que carregava consigo pelo trabalho em O país de São Saruê. Aposentou-se da atividade docente em 2003, seguindo ativo no ofício audiovisual com as câmeras digitais por muito mais tempo, como está detalhado no texto Manoel Clemente: memórias da direção de fotografia na Paraíba, por mim apresentado no XXIII Encontro Socine, em 2019.

Seja pelo filme lendário, seja pela docência, Manoel Clemente provavelmente influenciou gerações de profissionais do cinema nacional. Contudo, seu nome sequer é citado no Dicionário de Fotógrafos do Cinema Brasileiro, publicado em 2010, e tampouco aparece nas listas dos memoráveis fotógrafos brasileiros. Aliás, uma busca no Google mostra quase nada sobre o assunto. Não me cabe aqui falar das razões. Afinal, o esquecimento não é apenas uma falha do sistema. É, também, uma estratégia feita pelas escolhas políticas dos indivíduos no presente, o que também diz muito sobre o que entra no campo do que deve ser lembrado. Só me resta, portanto, recordar para ajudar nas reparações dessas histórias injustas do cinema, tão caras aos profissionais que ficam por trás das câmeras.

Referências

ANDRADE, Matheus; FALCONE, Fernando. Manoel Clemente: memórias da direção de fotografia na Paraíba. In: XXIII ENCONTRO SOCINE. Anais […]. São Paulo: Socine, 2020, p. 894-899.

CARVALHO, V. O país de São Saruê. Brasília: Editora UnB, 1986.

DIB, André. Abraccine organiza ranking dos 100 melhores filmes brasileiros. 2015. Disponível em: https://abraccine.org/2015/11/27/abraccine-organiza-ranking-dos-100-melhores-filmes-brasileiros/ Acessado em: 05 de dezembro de 2021.

LABAKI, Amir. Introdução ao documentário brasileiro. São Paulo: Francis, 2006.

SILVA NETO, A. L. Dicionário de fotógrafos do cinema brasileiro. São Paulo: Imprensa Oficial, 2010.

Matheus Andrade é professor e pesquisador de cinematografia do curso de Cinema e Audiovisual da UFPB. É membro do Grupo de Pesquisa Cinematografia, Expressão e Pensando e, também, organizador do Movi – Encontro brasileiro de fotografia em movimento.

Conceitos e opiniões expressos nos artigos científicos publicados são de responsabilidade exclusiva dos(as) autores(as), não refletindo obrigatoriamente a opinião da ABC.

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