Cinema Digital e Cinema Eletrônico

A Questc3A3O Da Tc3A9Cnica No Cinema Digital

Por Carlos Klachin

Nos últimos tempos, nas telas dos cinemas, começaram a ser exibidas imagens que não são originadas em película. Isto já tinha acontecido na época em que se projetavam comerciais, a partir de projetores de vídeo analógicos de três tubos, com imagens originadas em fitas Beta e ainda em VHS, com resultados terríveis, tanto no som quanto na imagem.

Mas agora, as tecnologias dos projetores mudaram, assim como a forma de estocar a imagem. O fato destas tecnologias não utilizarem película desperta um grande interesse, já que não há custo de cópias. Entretanto, não existe nada de graça.

Em alguns casos, a qualidade do som nestas projeções gerou certa preocupação entre a comunidade de profissionais do som. Novas tecnologias abrem novos horizontes e, naturalmente, no início, algumas confusões.

E as inovações estão acontecendo rapidamente, atingem-nos em nossa vida profissional com uma velocidade que, às vezes, não é fácil digerir. Freqüentemente, ficamos expostos a tecnologias que ainda não estão maduras, e isto tem seu preço também.

Outro aspecto, que devemos considerar, é que estas inovações não acontecem unicamente no Brasil. Nestas áreas e aplicações, o mundo se conecta e participa de forma quase instantânea. Nada do que acontece aqui é exclusivo. Sendo assim, vale a pena fazer um reconhecimento do terreno e tentar colocar algumas coisas em ordem.

Existem dois âmbitos bem delimitados na nossa indústria que configuram aplicações e práticas bem diferenciadas: produção e exibição. No primeiro, não vale a pena comentar aqui a revolução que estamos atravessando no dia-a-dia, no que diz respeito à imagem, pois vemos que o ambiente digital simplesmente tomou conta da maior parte do trabalho.

Quanto à exibição, as coisas são bem diferentes. Devido a fatores econômicos, tecnológicos e de políticas de mercado, claramente estão se formando duas avenidas. A comunidade cinematográfica e a indústria já criaram nomes para elas: o “cinema eletrônico” (E-cinema) e o “cinema digital” (D-cinema). Vamos analisar as diferenças entre eles.

De uma forma geral, a diferença está na resolução da imagem. Aproximadamente acima das 1080 linhas de resolução vertical, começa o chamado D-cinema.

Mas há outros aspectos relacionados, como exigências de segurança do conteúdo, de confiabilidade dos equipamentos e capacidade de fluxo luminoso, compatibilidade entre equipamentos de diferentes fabricantes, conceito também chamado de “standard aberto”, que determinam escalas bem diferentes nos investimentos necessários.

Esta escala, nos termos atuais, no que diz respeito ao projetor, pode ser em torno de dez vezes.

Existem, também, outras consequências no D-cinema. Devido às grandes exigências, não resulta viável, do ponto de vista de engenharia de projeto, que os equipamentos sejam adaptações de outras tecnologias. Precisam ser produtos dedicados, projetados para cinema. D-cinema é muito mais do que um servidor mais um projetor de vídeo.

O E-cinema, que no Brasil é implementado por algumas empresas para veicular comerciais e, em alguns casos, como proposta para a produção de cinema popular, é utilizado nos Estados Unidos, nas salas convencionais de 35 mm, como um auxiliar no anúncio da empresa exibidora, antes da sessão principal, com luzes semi-acessas, quando o público está ocupando a sala (uma curiosidade: nos Estados Unidos, quase não se projetam comerciais, já que o exibidor deseja oferecer ao público uma experiência o mais distante possível do modelo da TV. Os comerciais na TV ocupam muito mais tempo do que nós suportamos aqui).

Na China e na Índia, existem algumas centenas de salas de E-cinema, mas sempre como um canal alternativo de distribuição. Esta é a tecnología, ou Cinema Eletrônico, que gerou preocupação no nosso âmbito profissional.

Já Hollywood pensa de outra maneira. Os grandes estúdios declararam que jamais aceitarão veicular sua produção em E-cinema. Se a cópia vai ser eliminada, a tecnologia será o D-cinema. O critério é que, em forma absoluta, cinema deve ser uma experiência totalmente diferente de quaisquer outra. Assim, a qualidade da apresentação da imagem e do som no cinema deve estar bem à frente de quaisquer outras alternativas.

Isto é essencial para poder criar envolvimento no espetáculo e sedução pela experiência sensorial, mais do que pelo conteúdo. Este é um conceito básico nesta filosofia e, do ponto de vista da bilheteria, não parece estar errada. Por outro lado, a força motriz econômica da indústria do cinema está nas mãos dessas empresas. Ou seja, serão eles os que decidirão.

Existe um comitê que está delimitando as exigências do D-cinema, o DCI, (Digital Cinema Iniciative), formado por Time Warner Inc., The Walt Disney Co. (DIS.N), Viacom Inc. (VIAb.N), News Corp. Ltd. (NCP.AX), General Electric Co. (GE.N), Sony Corp. (6758.T) e Metro-Goldwyn-Mayer Inc. (MGM.N). Alguns padrões já estão estabelecidos e outros ainda em discussão. Mesmo não sendo o único comitê ou organismo a definir padrões, nesta discussão, eles serão o principal vetor de força.

O D-cinema tem um grande obstáculo comercial à frente: quem deve fazer o investimento é o exibidor, que já possui seu velho, confiável e bom projetor de 35 mm, longamente amortizado, e ainda não precisa pagar pelas cópias. Já a vantagem é para o estúdio ou produtor, por que economiza nas cópias.

Este é o entrave principal. A distribuição nos novos sistemas não é de graça, seja que se utilize de um satélite, hard disk ou conexão física, mas, sem dúvida, o custo é menor que o da cópia de 35 mm. Para atender a isso, existem alguns modelos de negócios sendo discutidos, como o dos estúdios bancarem o custo das novas instalações.

Entretanto, a indústria do cinema, a nível mundial, na evolução das relações comerciais ao longo de 109 anos, criou áreas de poder muito bem delimitadas que, em cada solução possível para o D-cinema, serão afetadas, e muito.

Imaginem só o que pode pensar um distribuidor sobre o modelo de cinema digital, onde o conteúdo viajará por um cabinho. Talvez ele participe, mas deverá adquirir equipamentos e experiência numa área que lhe é estranha. Talvez outras empresas entrem no negócio.

Qual será a parte da fatia que ficará para ele? E se os estúdios pagarem pelas novas instalações nos cinemas, a propriedade e o direito de escolha do exibidor com certeza ficarão condicionados de alguma maneira. Neste modelo de negócios, os estúdios se tornarão mais poderosos. Não é por acaso que há áreas bem definidas entre produção, distribuição e exibição.

Há outras dificuldades. Os estúdios exigem também segurança antipirataría nas novas tecnologias. Piratear uma cópia de 35 mm para produzir outra cópia de 35 mm é quase impossível. Por outro lado, a versão digital, se não é protegida adequadamente (e não se trata só de criptografia, há outros problemas com os piratas, sempre muito criativos), pode estar na rua horas depois do lançamento oficial do filme, e com a mesma qualidade que o master! Quanto é o valor de venda de um filme nessas condições?

A tragédia mundial da indústria fonográfica não é um mito. Essas são só algumas das dificuldades a serem enfrentadas. É claro que existem soluções tecnológicas, e elas são incrivelmente engenhosas. Em longo prazo, parece que o D-cinema vai acontecer. E a principal corrente de faturamento, o motor principal e genuíno desta indústria, estará montada sobre esse trilho.

Já a avenida do E-cinema, parece que terá boas chances nos modelos de exibições alternativas, uma vez que, pelo baixo custo, permitirá o aceso a produção e exibição culturais independentes, o que tem seu mérito, sob o ponto de vista da cultura popular.

Mas, justamente, por ser um modelo mais barato de fazer audiovisual, sofre e sofrerá do mal que é o motivo de preocupação: a falta de padronização e de aprimoramento afetará a apresentação. Vai democratizar a produção, para bem e para mal.

Aqui, é necessário observar que, ao menos no que se relaciona ao som, o problema da padronização acontece em duas etapas:

Na exibição, área que todos sabemos que, no circuito comercial, já foi bastante problemática no Brasil e onde, se bem ainda não estamos no paraíso, devemos reconhecer que estão acontecendo grandes avanços.
Na produção, já que o estúdio deve reunir condições adequadas na monitoração e nos próprios processos de transcrição. Mesmo em ambiente digital, acontecem várias transferências entre diferentes mídias e ambientes e, em cada uma delas, devem ser estabelecidos critérios técnicos rigorosos, com o fim de proteger integralmente o conteúdo. E a implementação desses padrões não é uma tarefa fácil nem rápida.

Como exemplo, o padrão da Academia foi introduzido em 1937, e os padrões Dolby em 1975. No mundo dos 35 mm, as coisas estão bem claras e assentadas, desde a mixagem até a projeção, atravessando vários processos complexos, executados não só em diferentes mídias, como em diferentes empresas. No mundo do E-cinema, não há nada estabelecido como padrão. Justamente esta é uma parte do trabalho que o DCI está fazendo para o D-cinema, que nasce com padrões já estabelecidos.

O problema da qualidade do E-cinema acontece não só por causa desta falta de padronização. Existe um outro aspecto que nada tem a ver com esta tecnologia. A democratização que permite o baixo custo, também convida a métodos de produção nada ortodoxos.

Seja por falta de recursos, seja por falta de conhecimentos, será comum não contratar os profissionais necessários de cada área. Para que contratar um técnico de captação de som, se a MiniDV tem “microfone incorporado”? Para que contratar editor, se pode fazer tudo em casa, comprando uma placa de som? Inclusive mixar! Já os resultados…

Certamente, veremos mais produções, mas aumentará a “entropia”. Entropia é um conceito da Termodinâmica e que pode ser aplicado também à ciência da Informação, mas para fazer curta uma história longa, e para nossos propósitos, pode ser traduzido como “desordem”. Ficará difícil saber o que v ale a pena assistir e o que estaremos perdendo.

Dolby apresentou, há pouco, um sistema completo para D-cinema (sem incluir os projetores, que é outro segmento da indústria). Os detalhes estão na página http://www.dolby.com/dcinema/ .

O sistema está pronto e testado, e atende às exigências atuais do DCI. Foram desenvolvidas também unidades Dolby de masterizado para imagem e som. Dependendo da evolução da implementação do D-cinema, no mundo e no Brasil, vamos ter o sistema disponível aqui.

Continua a ser uma incógnita como serão as curvas de “crossfade” entre o 35 mm e o cinema digital, quanto irão durar etc.

É curioso ver, ao mesmo tempo, que os laboratórios que processam 35 mm continuam a fazer grandes investimentos. No final, a imagem de 35 mm é muito boa. Certamente, em relação ao público, o D-cinema não vai ter o mesmo impacto que aquele que causou o som digital, no início dos 90’s, mesmo que a cópia não se risque, e que a imagem seja excepcionalmente estável.

As opiniões dos que estão na crista da onda são muito divergentes. Há quem diga que talvez o cinema digital não aconteça. (Carros nunca acabaram voando.) Mas também é verdade que, os que uma vez comprávamos os discos simples de 45 rpm, nem sonhávamos com I-pods. Está cada vez mais difícil adivinhar o futuro. Mas é muito possível que o cinema digital aconteça.

Provavelmente, outros modelos de distribuição do cinema vão acontecer também. Pensem no aumento de largura de banda, que rapidamente alcança nossos lares; no inevitável barateamento das telas planas de formato grande; na entrada em operação da TV digital, que tem como grande opção a alta definição.

Pensem, como exemplo, nas mudanças das escalas de custo dos telefones celulares, desde que foram introduzidos no nosso mercado, e o que acontece hoje. Ou a própria TV colorida. O que um dia foi visto como uma sofisticação passa a ser, hoje, um lugar comum na rua.

De alguma maneira, as relações comerciais nos setores do cinema irão mudar, encontrarão novos modelos de comercialização. E, com certeza, os preços dos projetores de D-cinema irão cair. Os atuais são produzidos em uma escala quase artesanal. Quando o ponto de equilíbrio custo-número de unidades vendidas for atingido, outra dificuldade será superada.

Nunca antes na história, uma geração viveu tantas mudanças nas ferramentas como nós. Até está ficando chato. A parte boa da história é que, para aqueles que trabalham em produção, sempre terão a oportunidade de encontrar gente que procura a excelência, a qualidade.

Mesmo aqueles que não compartem o conceito de Hollywood, não devem esquecer que a arte não pode ser dissociada da beleza, de um forte sentido de sedução. Então, qualidade é essencial.

E aqui, embaixo do equador, já conseguimos fazer muitas coisas boas.
A pesar da entropia.

Total
0
Shares
Prev
Peter Anderson, ASC no Festival do Rio 2008
Peteranderson3

Peter Anderson, ASC no Festival do Rio 2008

Next
Canto sertanejo ao silêncio anterior
Cantamaria

Canto sertanejo ao silêncio anterior

También te puede interesar