Da Acrópole ateniense ao espaço cíbrido, 3ª temporada da série “Insight”

Ioseba Mirena escreve sobre o uso do celular para filmar parte da série
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Patrícia Anastassiadis. Foto: Nicolaos Koulioumba

Por Ioseba Mirena

Em uma era marcada pela constante evolução tecnológica, a forma como percebemos e documentamos o mundo ao nosso redor também está passando por transformações significativas. No último quarto de século, o celular emergiu como uma força motriz que moldou irreversivelmente a maneira como vivemos, trabalhamos e nos conectamos com o entorno. O dispositivo, inicialmente concebido como uma ferramenta de comunicação móvel, evoluiu para um verdadeiro catalisador de mudanças sociais, culturais e econômicas. Os celulares também transformaram a maneira como documentamos nossas vidas. As câmeras embutidas permitiram que cada usuário(a) se tornasse um(a) cinematógrafo(a) instantâneo(a), registrando momentos significativos e compartilhando-os por meio das redes sociais. Olhar, conhecer e documentar a paisagem urbana, através de câmeras celulares, fazem parte da estetização do cotidiano. As plataformas de compartilhamento de fotos e vídeos mudaram, não apenas a forma como lembramos eventos, mas também como construímos nossa identidade online. Imagens que, através da percepção visual do(a) autor(a), conseguem ressignificar um determinado lugar.

Com isso, nossa relação com o espaço físico foi transformada pela possibilidade de estarmos presentes em espaços “cíbridos”: simultaneamente conectados ao ciberespaço e ao lugar físico. Podemos estar almoçando com alguns amigos e amigas e, ao mesmo tempo, a imagem que acabamos de carregar em alguma aplicação pode ser respondida por dezenas de “seguidores(as)”; isso nos deixa conectados de forma indefinida em espaços totalmente opostos. O app nada mais é do que uma simples interface virtual, já que o ser humano passou a ser o produto final de consumo. O celular é a expressão do ser humano contemporâneo, parte do seu corpo, extensão do seu olhar, seu instrumento de comunicação via internet com o mundo, dispositivo digital utilizado para fins profissionais e recreativos; a ferramenta de poder em um mundo de “escravos” virtuais.

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Patrícia Anastassiadis e Ioseba Mirena. Foto: Nicolaos Koulioumba

Recentemente filmei com um iPhone 14 Pro uma parte do episódio da Patrícia Anastassiadis que faz parte da 3ª temporada da série documental Insight, que atualmente está licenciada na Globoplay e na Arte1. Surgiu a oportunidade de filmar nas cidades de Antibes e Atenas, mas por causa do orçamento limitado não tínhamos como locomover a equipe inteira até Europa, e, por esse motivo, decidimos filmar uma parte do episódio com o celular. O desafio não era apenas capturar a beleza arquitetônica do lugar, mas fazê-lo com um dispositivo de bolso que muitas pessoas associam mais à comunicação social do que à produção cinematográfica.

Antes de decidirmos se conseguiríamos realizar a filmagem, realizamos uma grande quantidade de testes no celular. Durante o teste da resolução de imagem, realizamos unicamente dois testes. Um com o Dolby Vision HDR e outro com o ProRes 422HQ nativos do iPhone. O teste mostrou uma alta performance do ProRes e menor resolução no Dolby Vision HDR. O ProRes mostrou melhor detalhe de pele, cabelo, contraste e detalhe nas imagens das paisagens. Não ficamos surpresos, já que um arquivo de aproximadamente 19 segundos do Dolby Vision tem aproximadamente 58 MB, e um arquivo ProRes com o mesmo tempo tem 1,84 GB. O “peso” naturalmente significa melhor qualidade de imagem.

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Durante a filmagem da série utilizamos uma Red Dragon 6K junto com as imagens do iPhone 14 Pro. Para resolver o problema de importação de diferentes arquivos no mesmo espaço de cor do Adobe Premiere, tivemos que mudar a interpretação da gravação original do iPhone 14 Pro de mídia HLG (Rec.2100) para REC 709 no Adobe Premiere, já que a versão da Red Dragon que filmamos criava mídia em REC 709. A imagem modificada do iPhone no espaço de cor para REC 709 teve excelente latitude, muito boa resolução e uma rica gama de cores. Naturalmente recomendo trabalhar com o espaço de cor original do iPhone e utilizar um monitor HDR para conseguir alcançar a melhor performance do dispositivo.

Em situações de altas e baixas luzes conjuntas em um mesmo plano, o iPhone tem dificuldade em recuperar os detalhes em imagens sobre-expostas. Decidimos controlar a exposição correta acima das altas luzes e equilibrar as baixas na colorização. As cores do iPhone 14 Pro são reais e consistentes, na minha opinião com um brilho em excesso que é fácil de corrigir. Em relação à estabilização de imagem, realizamos o teste acima de uma plataforma móvel com movimento de travelling in + out. Foram realizados testes com celular na mão, bastão de celular com ProRes nativo e com FilmicPro sem estabilização e com estabilizador cinematic do mesmo aplicativo. O estabilizador nativo do iPhone é imbatível, até com filmagem na mão mostrou uma performance muito alta. O FilmicPro sem estabilizador é muito inconsistente na hora de operar na mão e no bastão. O FilmicPro com estabilizador cinematic tem um bom desempenho, mas na hora de gravação mostra um delay de imagem que dificulta a captação. O aplicativo FilmicPro tem uma grande vantagem em relação aos comandos nativos do iPhone, já que oferece a possibilidade de mudar a temperatura de cor, tonalidade, foco e até um muito limitado shutter para aumentar a exposição. Recomendamos incluir essas opções em futuras atualizações do iPhone. É muito comum ter problemas de cintilar (batimento) em equipamentos de luz, como leds ou fluorescentes, e a falta de opção de shutter no iPhone impossibilita em muitas ocasiões filmar em slow motion. Lamentavelmente o ProRes nativo do iPhone 14 Pro filma em 60 fps em FHD (1080p) ou 30 fps em 4K. O Dolby Vision HDR pode filmar em 60fps em FHD e 4K, mas como mencionei anteriormente, não tem uma boa resolução de imagem. O iPhone mostrou pouco controle de batimento em slow motion.

Além disso, a qualidade de imagem da lente do gran angular é assombrosa, oferece a opção de filmar imagens macro de alta qualidade. Naturalmente as lentes do iPhone, por causa de seu tamanho, não tem a mesma qualidade orgânica que uma lente Prime de cinema, mas com lentes intercambiáveis tem a possibilidade de melhorar a organicidade da imagem das lentes e ainda ganhar a opção de uma maior variedade de distância focal. Após os testes realizados, podemos constatar que a melhor opção de filmagem é com o ProRes nativo do iPhone. Na nossa opinião, a melhor performance para quem não tem monitor HDR na hora da colorização é utilizar o Color space REC709 (caso você utilize uma câmera primária com esse espaço de cor) com interpretação da gravação REC709, já que traz cores mais naturais e menos contrastadas. É importante mencionar que a nova versão do iPhone 15 já oferece a opção da Apple LOG que abre uma nova oportunidade na hora de ampliar a latitude da imagem final. Todos os testes não poderiam ter sido realizados sem o apoio da área de marketing da Apple Brasil que é parceira da série desde a 2ª temporada, por isso gostaria de aproveitar para agradecer à Apple.

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Um dos pontos altos durante a filmagem foi a mobilidade oferecida pelo iPhone. Com a liberdade de me movimentar facilmente, fui capaz de explorar diferentes perspectivas sem as restrições associadas a equipamentos de filmagem convencionais. A experiência de filmar um documentário de arquitetura com o iPhone foi reveladora. Uma das coisas que mais me agradou foi passar despercebido durante as filmagens – parecia um simples turista no meio da Acrópole ateniense ou no hotel du Cap-Eden-Roc em Antibes. Esse dispositivo prova que a inovação tecnológica está democratizando a produção de conteúdo visual, permitindo que criadores explorem novas fronteiras com ferramentas portáteis. No cenário em constante evolução da produção audiovisual, o celular destaca-se como um instrumento versátil, capaz de transformar a maneira como produzimos cinema. Sou um grande defensor de ideias e dou uma menor importância ao equipamento utilizado durante uma filmagem, mas sei que tendo um bom orçamento de produção, todo(a) DP vai escolher uma Alexa para filmar seu projeto. Ser cineasta é poder contar uma história e, para isso, precisa ter uma chance. Se a ferramenta à sua disposição é um celular, aproveite a oportunidade. A vida testa nossos limites de forma constante, por isso gosto de falar que “mar manso nunca criou um bom marinheiro”.

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O cenário atual apresenta uma sociedade com uma enorme quantidade de dados visuais, consequência da evolução no processamento eletrônico de imagens. Deveríamos questionar qual será o impacto da evolução na vida das pessoas com o uso generalizado dessas imagens. Nas palavras de Nicholas Mirzoeff, “a cultura visual é a crise da informação e da sobrecarga visual na vida quotidiana”. Certamente, assim como essa nova tecnologia traz benefícios, também aborda os dilemas éticos e morais derivados do seu surgimento. O ser humano se tornou um simples produto de consumo em massa, uma vez que nossos dados são coletados, posteriormente analisados e monetizados como algoritmos de inteligência artificial. A contínua saturação de imagens e informações nos leva a uma compulsão de consumir cada vez mais conteúdo visual a todo momento, deixando pouco espaço para a reflexão.

A grande quantidade de conteúdo, por vezes influenciada por interesses pessoais, econômicos ou políticos, se beneficia da tendência de consumo sem questionamentos por parte dos(as) espectadores(as) de imagens visuais. Nossa realidade é influenciada pela rede, que impõe um consumo efêmero, não apenas de imagens, mas também de informações. Para a sociedade contemporânea, a cultura visual não se limita a cumprir uma função básica, mas evoluiu para incluir um excesso de imagens e representações visuais. Isso implica em uma superabundância de conteúdo visual em nosso cotidiano. A proliferação de imagens cria um novo cenário no qual o poder e a influência podem ser exercidos de maneira diferente por meio da visualização. A capacidade de entender o que vemos torna-se um recurso valioso e pode ser utilizado para obter vantagens. É muito diferente ser um(a) simples espectador(a) ou um(a) bom(a) observador(a). É preciso contemplar a imagem lentamente, o que Vilém Flusser chama de “escaneamento”.

Infelizmente, o ritmo acelerado de vida que vivemos obriga-nos a fazer um esforço para podermos observar uma simples imagem. Não há mais limites na arte, as fronteiras se movem e novas reflexões emergem. Já não existem fronteiras, mas sim espaços de trânsito, em termos de mudanças nas formas de mostrar, produzir e receber imagens. É importante mencionar que essas fronteiras são influenciadas pelos avanços tecnológicos, pelas mudanças sociais e culturais e pela forma como interagimos e consumimos informação na era digital. O estudo da cultura visual é um campo que está sempre em construção, pois o foco do seu estudo está no cotidiano e a vida é dinâmica. A cultura visual não é estática, é uma área do conhecimento em constante transição. É por esse motivo que sempre temos a obrigação de estar atualizados(as) e de questionar nossos preconceitos para aproveitar uma nova oportunidade  e também saber observar a vida sem ter um celular na frente dos nossos olhos.

Sinopse:
Tudo na vida começa com um Insight, esse estalo que pode mudar o seu ou o nosso mundo. Dividida em dez episódios de 30 minutos, a série acompanha a rotina de diferentes profissionais da indústria criativa, adentrando em suas vidas e em seu imaginativo. Arquitetas/os e designers internacionalmente reconhecidos abrem espaço para que possamos conhecer e nos apaixonar pela mente e vida atrás de cada projeto que muitas vezes se confundem com verdadeiras obras de arte. Insight é uma série que irá abranger as mais variadas áreas do universo criativo, com o objetivo de humanizar a imagem do criador.

Ficha Técnica:
Gênero: Série documental
Criado por: Cassi Canoro & Jose de Aiete
Produção: Nonno Filmes
Produção Executiva: Cassi Canoro
Roteiro: Jim Carbonera
Direção: Jose de Aiete
Direção de Fotografia: Ioseba Mirena
Som direto: Levi Brat, Vicente Johns
Montagem: Jose de Aiete, Karina Uchoa, Vicente Johns.
Mixagem e Sound Design: Breno dos Reis
Fotos making-of na Grecia: Nicolaos Koulioumba

1a Temporada – 6 episódios (2018) 
2a Temporada – 10 episódios (2021) 
3a Temporada – 10 episódios (2024) 

Elenco 3a temporada: Patricia Anastassiadis, João Armentano, Natalia Minas, Gabriela Mestriner, Sig Bergamin, David Guerra, Lula Gouveia, Antonio Carlos Figueira de Mello, Thiago Rodrigues, Luiz Paulo Andrade, Bruna de Lucca, Rodrigo Mancini, Diego Miranda Leite, Zeh Pantarolli, Rafaela Zanirato.

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