Ensino de cinema: os caminhos para a relação entre a formação acadêmica e a prática

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Por Danielle de Noronha

Com o aumento da demanda por profissionais do audiovisual e também de cursos nesta área, a integração entre o cinema e o mercado se tornou atualmente um importante tópico de discussão entre as diversas áreas do cinema brasileiro. Questões como a dualidade arte e mercado, a formação do profissional e o que o mercado precisa estão no cerne deste tema, que também foi pauta de uma das mesas da Semana ABC 2013, coordenada pelo cineasta e professor Ninho Moraes (Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!).

Durante a mesa, Luciana Rodrigues, representante da FAAP e do FORCINE, contou que há 10 anos existiam cerca de 12 cursos de graduação em cinema e audiovisual no Brasil. Atualmente, existem 53 cursos, entre bacharelado e técnico, além dos cursos de especialização e de mestrado e doutorado. Porém, para além do aumento de cursos – e da procura por eles – há a discussão sobre as mudanças no mercado audiovisual brasileiro e os caminhos que a formação universitária e o aluno buscam para se atualizar e dialogar com o mercado.

O aumento de demanda, impulsionado pelo aquecimento do mercado independente e da produção de séries e programas para a TV a cabo, devido a nova da Lei da TV Paga (12.485/2011), solicita das universidades e escolas técnicas uma necessidade de “correr atrás dos acontecimentos”, como pontou Ninho Moraes. Para o professor, a formação hoje precisa englobar desde o roteirista até o produtor executivo / apresentação de projetos, além das partes técnicas e artísticas, como a direção de fotografia e de arte. Moraes acredita que os professores precisam correr atrás dessa nova demanda para se atualizar e também atualizar os alunos.

O curso de cinema e audiovisual: Quantidade x Qualidade

Mesmo diante de um alto número de graduações em cinema e audiovisual, principalmente se comparado com os anos anteriores, os cursos ainda estão muito concentrados no eixo Rio-São Paulo, além de terem a necessidade de seguir o currículo exigido pelo MEC, que acaba deixando os cursos um pouco generalistas, como acredita Moraes. Além disso, há a questão da titulação exigida, que impede que muitos profissionais experientes, que poderiam transmitir seus conhecimentos, não possam ministrar aulas nas universidades por não serem mestres ou doutores.

Além disso, a diretora de fotografia e professora Kátia Coelho, ABC (Corpos Celestes, A Via Láctea) lembra que quantidade nunca quis dizer qualidade. “O Curso Superior do Audiovisual da USP é um dos mais concorridos da FUVEST o que torna quase impossível seu ingresso como calouro. Existem muitas opções de faculdades e cursos livres, alguns bons, outros nem tanto mas, em princípio, o aluno deve se interessar por sua formação prática em grupo, fazer filmes é trabalho de equipe”, diz.

Essa também é a opinião da diretora de fotografia Heloísa Passos, ABC (Viajo porque preciso, volto porque te amo, Estação). “A faculdade é um bom caminho, mas acho que não é uma regra porque hoje tem outras opções, além de quem tem acesso ao curso de cinema no Brasil ser um privilegiado. A grande combinação é você ter acesso ao curso de cinema, porque você vai ter contato com grandes profissionais lecionando, você vai ter contato com o pensamento cinematográfico, com a análise cinematográfica, mas também fazer parte do mercado, a partir de estágio e contato com profissionais”.

Kátia acredita que o jovem estudante e profissional deve procurar, além da faculdade, cursos livres que lhe acrescente individualmente informações que podem não ser dadas necessariamente em sua graduação. “No caso do ensino no audiovisual gostei muito de ter passado pela experiência da especialização por áreas, no meu caso fotografia, com poucos alunos em classe. Esse modelo de ensino possibilita um contato pessoal e profissional muito forte entre o aluno e o professor. Acredito que o aluno deve começar desde estudante a fazer trabalhos profissionais como estagiário ou assistente para saber o funcionamento real de um set, além de se dedicar plenamente aos exercícios e projetos curriculares em sua formação”, diz Kátia. Diversos profissionais de todas as áreas do audiovisual ministram cursos pelo país, como a própria Kátia e também como o diretor de fotografia Carlos Ebert, ABC (Topografia de um Desnudo, Satori Uso). “Eu tenho vários níveis de cursos, tenho para pessoas iniciantes, que inclui recém egressos na universidade e amadores; cursos médios, com profissionais com pouca experiência e cursos para avançados. Então, eu procuro, quando vou fazer a programação do curso, ter em mente quem são as pessoas que vão fazê-lo”, conta Ebert.

A tecnologia e a democratização do acesso às câmeras também alterou a forma de fazer cinema, assim como de ensiná-lo. Nas palavras de Kátia Coelho, com a chegada e agora quase total permanência do cinema digital a profissão vive um momento especialmente confuso. “Até a década passada, uma boa formação cinematográfica demorava anos e estava na mão dos mestres da prática ou dos mestres das universidades, não se chegava a qualquer lugar sem informações, não era só ligar uma câmera e a imagem enquadrada aparecia como mágica, havia todo um percurso no laboratório a ser realizado para que isso acontecesse, a magia do cinema parecia mais inexplicável. Num set atual, muitas vezes, não se sabe qual lente está na torre das câmeras, abre-se ou fecha-se uma zoom sem se perguntar qual o significado daquele enquadramento, existe uma inversão do comando, o homem perde seu foco e o seu sentido”, pondera Kátia.

Se por um lado a formação e a produção estão mais acessíveis e democráticos, o editor de som e professor Bernardo Marquez (O que se Move, Augustas) acredita que a grande questão está relacionada a estrutura desses cursos universitários. “Um exemplo curioso é observar o ensino do som, elemento imprescindível no audiovisual. Existe uma deficiência muito grande no ensino de som nas universidades e nos cursos técnicos. Salve raras exceções, a maioria dos cursos ainda não conseguem abranger todas as etapas do trabalho com o som em um filme, seja por conta de carências na estruturação técnica e tecnológica, na falta de disciplinas, no plano de ensino mal elaborado, ou na falta de um quadro docente especializado”, comenta Marquez.

Entretanto, também há questões positivas. Para Marquez, uma das principais vantagens da formação universitária é a possibilidade de aprender junto com outros pessoas: “Uma vantagem que observo da formação universitária é a que o Eduardo Santos Mendes sempre comenta: são nesses cursos que você forma sua turma que futuramente vai te ajudar a sobreviver no mercado. E acrescento, talvez seja essa turma que te possibilite trabalhar de formas diferenciadas que muitas vezes o mercado não permita. Como exemplo, estou tendo a oportunidade de trabalhar como diretor de som em um longa-metragem realizado por um profissional que cursou a graduação comigo. Esta função de diretor de som, um profissional que entra no projeto desde a pré-produção e coordena toda a concepção sonora do filme, apesar de essencial em um projeto audiovisual, infelizmente ainda não é uma prática comum no mercado brasileiro. Portanto, esta é uma oportunidade diferenciada”.

Quico Meirelles (A Galinha que Burlou o Sistema, Ensaio sobre a Cegueira), que se formou na Universidade de São Paulo – USP em 2012 acredita que sua experiência na universidade foi positiva para a sua formação. “Na universidade a gente vai fazendo meio do jeito que dá, meio improvisado, porque ninguém ali sabe muito. Na faculdade tem uma coisa que é legal, tem uma certa condescendência com o erro que é legal. A gente aprende errando. Dá para experimentar mais, você pode se arriscar mais. Porque você está ali para aprender mesmo. No mercado, numa publicidade num é um espaço que você possa ser arriscar. A universidade é legal porque você tem esse espaço para experimentar e ter menos necessidade de dar certo da primeira vez”, explica Meirelles. Para Aleksandra Lima (Invento – Ney Matogrosso), que também se formou no ano passado na Universidade Metodista de São Paulo – UMESP, a faculdade foi apenas um ponto de partida: “Eu realmente aprendi com a minha vivência e com o contato com cineastas mais experientes, que me ensinaram sobre cinema”.

O jovem profissional: o equilíbrio entre a formação, a arte e o mercado

As mudanças na profissão estão ocorrendo muito rapidamente e em pouco tempo diversos jovens profissionais são absorvidos pelo mercado, que muitas vezes exigem desses jovens mais do que eles estão preparados. Segundo Ninho Moraes, em relação ao aspecto de formação, o que ele falava para os seus alunos de quatro anos atrás é totalmente diferente do conteúdo que ele ministra hoje: “Muitos alunos de hoje estão se formando para virar um pequeno empresário porque a demanda do mercado mudou bastante. Eles montam a sua própria produtora devido esse universo digital e hoje ainda existem os recursos para produzir”. Além disso, também é possível perceber um grande número de jovens diretores ou que já atuam como diretor de fotografia, de arte ou editor.

Kátia Coelho acredita que há um lado positivo na absorvição de jovens profissionais pelo mercado, principalmente na função de diretor, já que “oxigenam as ideias, trocam experiências diversas”, porém também tem seu lado ruim, “porque ideias sem o conhecimento prévio de um assunto podem se tornar banalizadas, perder a reflexão e a sua graça do savoir faire”. Para Heloísa, a geração atual de profissionais vêm de um percurso diferente da sua geração, principalmente pela facilidade de lidar com o digital. “A possibilidade de ter câmeras de baixo curso, e a possibilidade de ter acesso a telas onde você já vê o material filmado, entre outras coisas, eu acho que fez com que uma quantidade enorme de jovens tivesse acesso e possam estar fazendo filme e contando história através de uma câmera digital. De alguma forma o mundo digital possibilita mais experimentação. Mas eu segui uma carreira passo a passo. Eu fui segunda assistente de câmera, primeira, eu aprendi a fazer cinema com os profissionais do mercado”, fala a diretora de fotografia.

Outra questão, mencionada por muitos profissionais, está relacionada ao despreparo que os jovens chegam aos sets. Para Heloísa a questão não é exatamente despreparo, mas está associada à velocidade: “Hoje é muito mais rápido pra um jovem se tornar diretor de fotografia, não necessariamente no mercado, mas ele está atuando, fazendo filmes com os amigos. Eu confesso que acho interessante, mas ao mesmo tempo, o que me diferencia de outro fotógrafo é o meu olhar, a minha experiência de vida e eu acho que hoje tem uma pressa desses jovens, que não sei se falo despreparados, mas que possuem uma ansiedade absoluta de já querer assinar uma direção de fotografia tão jovem”. Para Ebert, outro problema que pode gerar esse despreparo nos jovens é a mitologia contemporânea que o conhecimento se resume a saber que botão apertar e quando. “A uma sobrevalorização do conhecimento das interfaces técnicas que são usadas para fazer cinema. Isso é um equivoco. O cara já sabe tudo de final cut, mas o conceito de montagem, por exemplo, você vê que não estão aparentes. Eu acho que tem que formar profissionais com capacidade criativa e independência, que possam dar soluções originais aos problemas que eles se defrontam, gente repetindo coisa que já foi feita não funciona, o cinema num vai pra frente assim”, pontua o fotógrafo.

Meirelles acredita que é normal que os jovens cheguem no set despreparados. “Na faculdade de cinema o mais importante que eu aprendi, além de ter uma turma com quem eu me formei e aprendi junto, é ter assistido todos os filmes que assisti lá, as pessoas que conheci. Sai com uma bagagem cultural é que é muito positiva. Que faz diferença. A prática de set num tem jeito, você aprende filmando. De fato, quem acabou de sair de faculdade sai com pouco ritmo de set e acho que tudo, que isso é esperado”, pontua.

Marquez ainda lembra que para além da formação universitária, o interesse do jovem é importante para que ele se torne um profissional qualificado: “O cinema possui campos muito específicos de atuação e que dependem de aperfeiçoamento particulares. Assim, além da necessidade de uma formação bem consolidada que vai dar subsídios para o jovem encarar o mercado de trabalho, é o interesse particular de cada um, a motivação profissional individual, a sede de aprendizado, que vai ser a base para a superação dos desafios enfrentados principalmente no início da carreira”. Além disso, o técnico de som pontua que “Mesmo sendo esta uma experiência que só é adquirida com o tempo, com a prática incessante, com o acumulo de erros e acertos, é interessante notar que a própria situação do mercado nacional baseada principalmente em iniciativas públicas de incentivo à produção audiovisual, vem recrutando profissionais com pouca experiência, muitas vezes despreparados. Portanto a situação é mais complexa do que parece”.

Diante de tantos desafios e mudanças no mercado e no ensino e da complexidade de cada área do cinema, qual o melhor caminho para a melhor formação do jovem profissional? Para Moraes o mercado também tem a sua culpa: “O mercado também é um pouco cruel, quer um estudante e já quer que eles saibam das coisas. O mercado tá violento demais”. Kátia complementa: “novos profissionais estão chegando e encontrando um mercado cheio de dúvidas e antigos profissionais tem que estar todo o tempo se reformulando”.

Não há fórmula ideal para preparar um jovem para o mercado de trabalho, mas Marquez acredita que é necessário estimulá-lo a compreender a importância de todas as nuances da produção audiovisual e em um segundo momento de forma mais específica de acordo com a área de especialização escolhida, envolvendo também fluxos de trabalho, ética profissional, planejamento econômico e de equipe, etc. “Ao mesmo tempo é necessário expor esse jovem a situações práticas de trabalho. É no campo da realização de produtos audiovisuais que o aluno começa a vivenciar e a enfrentar situações reais de produção. Estas por sua vez, contribuem com outros tipos de aprendizados necessários que só são adquiridos com a prática, com o acumulo de experiências, erros e acertos. Em suma, proporcionando o contato com as ferramentas práticas e teóricas para a formação de um profissional completo, que compreenda bem não só a sua área específica de trabalho, mas também todo a cadeia de produção audiovisual, os padrões e formatos de realização”, concluí. Kátia finaliza: “Particularmente, espero que o fenômeno das câmeras DSLR logo se afunile nas pessoas sérias com sua profissão; seriedade no trabalho e talento independem da idade, por trás de uma boa imagem essencialmente está o homem, a câmera é seu instrumento”.

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