Filmando no inverno norueguês

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Por Walerio Rosa

Dezembro de 2007. Fui contatado pela Penelope Film AS, (www.penelope.no ) com sede em Kristiansand ao sul da Noruega, questionaram se eu estava interessado em ir trabalhar por duas semanas como Gaffer em uma produção local. É óbvio que disse sim, então somente em janeiro, Odd Hynnekleiv, produtor Executivo, e também o Diretor de Fotografia e eu firmamos o acordo. Fiquei sem entender ao certo por que eles estavam interessados num Gaffer brasileiro, ao chegar a Noruega percebi que havia outros profissionais de variadas nacionalidades. A intenção era compor uma equipe com diferentes experiências.

“YOHAN”(www.yohan.no ), o longa metragem produzido por Penelope Film, escrito e dirigido por Crete Salomonsen, relata a historia de um garoto pobre que vem de uma família de cinco irmãos. Ele é enviado para trabalhar nas fazendas da região. A Noruega do século XIX enfrentava a fome e as famílias mais pobres não tinham muitas opções.

Noruega, final de janeiro inicio de fevereiro. O sol do inverno atinge o máximo de 15° de altitude, contrasta muito com o nosso verão que é de 90°, amanhece por volta das 09:00 e já é noite após as16:00, a temperatura varia durante o dia -2C° e a noite -10C°, e bastante neve e, às vezes, uma chuva fina misturada com granizo.

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Na semana de pré-produção, fui a Oslo ver o equipamento que usaríamos no filme. Dagslys (www.dagslys.no) foi a locadora escolhida, seus equipamentos de luz são da fabricante ARRI, a diferença básica é que eles fornecem gelatinas, gaffer tape e isopor, chapa de isopor vem com a logomarca da locadora na lateral e são pretas em um dos lados; precisei fazer a relação de acessórios que normalmente seria do maquinista, mas na Noruega os maquinistas só atuam no movimento, então eu fiquei responsável direto pela fixação dos refletores.

Os equipamentos são transportados em carrinhos com prateleiras e a ponta dos cabos para HMI são enrolados com plástico bolha, mas a grande surpresa foi quando pedi guarda-sol para proteger os refletores, ai disseram que não tinham e não seria necessário porque só os cobriam quando estavam desligados.

O filme foi rodado com uma câmera BL com a janela super35mm em 24 fps. Por toda a Noruega, a freqüência é 50hz, tínhamos Par HMI de 6Kw,4kw,1,2kw e kinoflo. Tomei algumas precauções para manter os HMI´s na chave seletora flickerfree, e às vezes, quando o ruído estava muito alto selecionava para 60hz a pedido do técnico de som.

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No primeiro dia de filmagem me forneceram alguns equipamentos para minimizar a baixa temperatura: Botas impermeáveis com pele de carneiro na parte interna, meias de lã, blusa de lã e luvas; ao longo do dia foi necessário trocar de luvas pelo menos umas três vezes, a umidade é alta e molhavam frequentemente, comprei uns adesivos para aquecimento dos pés, uns saquinhos que ao entrar em contato com o ar produzem calor, e duravam umas cinco horas.

Nesse dia nevou bastante e também choveu, os HMI´s funcionaram sem proteção nas cabeças, somente os ballasts eram cobertos e, sem medo de superaquecimento, funcionaram durante oito horas sem problemas, mas após algum tempo depois de serem desligados o choque térmico trincou a lente, não sei se existe relação com esse problema pois nos dias seguintes funcionaram nas mesmas condições e nenhuma lente sofreu dano algum.

Ainda sobre o primeiro dia, um imprevisto aconteceu, após terminarmos o carregamento percebi que já não havia mais ninguém na locação, liguei para a produção e tive uma surpresa: o veículo que devia nos levar para o hotel que ficava a 30 min não poderia nos buscar porque nas últimas horas havia nevado o bastante para precisarem da ajuda de um trator removedor de neve. e então, fiquei com mais dois eletricistas em um posto de gasolina que já estava fechado. Lá esperamos por duas horas, foram as duas horas mais congeladas da minha vida, e o efeito dos saquinhos já haviam terminado.Ao chegar ao hotel, colocamos nossas botas sob a luz intensa de refletores Par 64, foi a forma que encontramos para seca-las; os aquecedores do hotel já estavam tomados de roupas.

No segundo dia fomos para uma cabana nas montanhas na região de Konsmo, uma vista de impressionar na beira de um lago, só que estava tudo congelado, uma imensidão branca, mesmo assim inigualável.

Algumas situações inusitadas ocorreram nessa locação. Assim como compactamos a areia nas praias do Brasil quando posicionamos os tripés, lá foi necessário compactar a neve, pois assim que iniciei o pre-light afundávamos até o joelho, o cuidado era constante pois poderíamos sofrer fraturas em umas dessas pisadas malsucedidas. Descobri que no inverno as fitas crepes, gaffer tape, silver tape, não tinham utilidades, a umidade e os ventos facilmente as removiam. A solução foi utilizar “grampos de aço”, sustentados por uma mola para dar pressão e facilmente encontrados na Rua Florêncio de Abreu. Até mesmo os conhecidos e úteis prendedores de roupas ficavam impotentes diante da umidade e ventos fortes nas montanhas norueguesas.

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O gerador foi acionado, os cabos passados e os refletores ligados e, ao longo do dia, filmamos as cenas que dariam seqüência a cenas noturnas. As noturnas deveriam ser com nevasca de acordo com o roteiro e realmente foi, esse foi o dia mais frio e com bastante neve e ventos, tínhamos um Butterfly de 4x4m armado a três metros do chão sustentado por tripés Crank-o-vator, a grande vela estava amarrada nas quatro pontas para manter-se no lugar ; Ufa ! Foi uma noite trabalhosa e o resultado incrível. Decidi deixar os tripés e cabos ao relento, guardar dentro da cabana somente os refletores e Balllasts.

Dia seguinte à nevasca, um sol brilhante e um céu sem nuvens nos esperavam, fiquei maravilhado com o visual. Surpresas sempre surgiam, essa foi logo ao chegar ao set de filmagem , quando percebi que a neve já não estava fofa, o sol e o calor subtraíram a umidade fazendo com que tudo virasse uma imensidão de concreto branco. Aí é que foram elas, foi preciso uma picareta para remover os tripés, cabos e sacos de areia que estavam sob a neve, ou melhor, dentro de um cubo de gelo, enfim, não foi tão difícil de removê-los, mas aprendi e não cometi o mesmo deslize novamente.

Terminamos a primeira etapa das filmagens, satisfeitos com o resultado alcançado. Foi uma experiência única trabalhar num país de língua estrangeira; a equipe usou o inglês para comunicação; na Noruega quase 100 % de sua população falam o Inglês, eles adotaram como segunda língua para se comunicarem com o estrangeiro, já que lugar nenhum no mundo fala a língua deles. É um povo hospitaleiro e respeita o individuo, minhas opiniões foram respeitadas e contra-argumentadas no caso de dúvidas, algumas regras foram seguidas, fumar no set não era permitido nem tampouco ingerir bebida alcoólica.

Acredito ter realizado um bom trabalho, pois no início de abril estarei de volta para concluir a etapa da primavera, tenho consciência de que o clima estará bem mais próximo do que enfrentamos aqui no Brasil.

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