Recomendação técnica para salas de exibição cinematográfica Parte 1

Cinema 20170216 00790
49º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. 7º dia de exibição dos últimos filmes da mostra competitiva.

Por Osvaldo Emery

A ABC, em parceria com o Centro Técnico Audiovisual, CTAv, e a Cinemateca Brasileira, acaba de concluir a primeira etapa da elaboração da ‘Recomendação Técnica para Arquitetura de Salas de Projeção’. Esta Recomendação tem por objetivo estabelecer parâmetros objetivos para obtenção de ambientes adequados à projeções de boa qualidade, de acordo com as particularidades da fisiologia humana e as potencialidades da mídia cinematográfica contemporânea.

O texto integral da Recomendação está disponível em versão em PDF para download e nas páginas seguintes, onde são discutidos e explicados cada um de seus parâmetros.

Clique aqui para baixar a Recomendação Técnica.

PARTE 1

O ponto de partida para a elaboração desta Recomendação é a norma técnica NBR12237 “Projetos e instalações de salas de projeção cinematográfica”, elaborada por iniciativa do CTAv e publicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, em 1988. Os parâmetros desta norma foram revistos para esta Recomendação visando incorporar as melhorias resultantes do desenvolvimento da tecnologia cinematográfica desde então além de acrescentar outros aspectos não abordados anteriormente, de acordo com parâmetros definidos por normas e recomendações técnicas nacionais e internacionais.

Dessas fontes, foi dada preferência às normas e recomendações técnicas já que representam o consenso de diferentes atores envolvidos no setor de exibição: laboratórios, produtores, exibidores, técnicos etc., o que nem sempre acontece em trabalhos de cunho mais teórico e/ou acadêmico.

As principais fontes de referência no que tange a qualidade da exibição são:

  • Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), NBR 12237 – “Projeto e Instalações de salas de projeção cinematográfica”
  • Associação Francesa de Normatização, (AFNOR), NF S 27-001 – “Cinématographie, Théatres cinématographiques, Caractéristiques dimensionnelles des Salles”;
  • Comissão Superior Técnica da Imagem e o Som (CST, França), CST-RT-0012-P-2003, “Salles de spectacle cinématographique. Confort du Spectateur”;
  •  Dolby Laboratories, Dolby Laboratories, 1994, “Technical guidelines for Dolby Stereo theatres”.
  •  Organização Internacional para Normatização (ISSO), ISO 9568:1993, “Cinematography — Background acoustic noise levels in theatres, review rooms and dubbing rooms”;
  • Sociedade de Engenheiros de Cinema e Televisão (SMPTE), artigos técnicos relevantes.

Os parâmetros definidos pela presente Recomendação aplicam-se, preferencialmente, a projeções utilizando processos foto-químicos 35mm ou digital (resolução de 2k ou superior), devendo ser utilizados também para projetos de salas de projeção eletrônica (abaixo de 2k) posto que os aspectos nela abordados, em sua maioria, relacionam-se à fisiologia humana que, obviamente, são as mesmas para qualquer tipo de projeção. Além disso, deve-se considerar que a tendência de melhoria da tecnologia de projeção digital, associada à sua popularização, permite antever que, em futuro não muito distante, ela venha a substituir tecnologias com menor qualidade.

A Recomendação não trata de aspectos relacionados ao funcionamento e desempenho de equipamentos de projeção, que são objeto de normas e/ou recomendações técnicas específicas. Tão pouco são abordados aspectos que garantam a segurança e a qualidade do ambiente como um todo, bem como aspectos definidos por legislações e posturas federais, municipais e estaduais.

Para melhor entendimento dos parâmetros adotados pela Recomendação, eles foram agrupados em categorias afins, a saber:

1 Qualidade da imagem projetada
2 Qualidade da imagem percebida
3 Qualidade acústica
4 Conforto do espectador

Esta ordem não é a mesma constante no texto da Recomendação, na qual os parâmetros foram agrupados de uma forma mais fácil de serem aplicados na elaboração de projetos de reforma ou construção de salas. Cada item é apresentado abaixo seguido dos parâmetros recomendados pelas seguintes fontes de referências, quando relevantes para o assunto além das ilustrações da Recomendação, com a numeração do texto original..

1 QUALIDADE DA IMAGEM PROJETADA:

Os itens abaixo visam garantir que a imagem seja projetada na tela em sua totalidade e com qualidade.

1.1 Altura mínima do feixe de projeção:

O projeto da sala de exibição deve evitar obstáculos que venham a obstruir o feixe de projeção e impedir a projeção integral da imagem na tela. Estes obstáculos podem ser tanto elementos arquitetônicos (pilares, colunas, vigas etc.) e também os próprios espectadores.

Para evitar problemas decorrentes da acomodação e circulação de espectadores na sala, a NBR 12237 recomenda que a borda inferior do feixe de projeção tenha uma altura mínima de 1,80m. Mas como, na prática, essa altura pode vir a ser maior por conta de saltos de sapatos, chapéus, penteados etc. é recomendável utilizar uma altura maior.

A altura sugerida na Recomendação é equivalente ao percentil 99 da população brasileira; ou seja, 99% da população tem altura igual ou inferior a 1,90m, de acordo com pesquisa antropométrica realizada pelo Instituto Nacional de Tecnologia, INT.

FONTEPARÂMETROS SUGERIDOS
ABNTA borda inferior do feixe de projeção deve se situar a uma altura mínima de 1,90m acima do plano de implantação das poltronas e de circulação do público.
AFNORAltura mínima igual a 2,00m, tolerável até 1,80m na primeira metade da sala para salas para menos de 200 espectadores
CSTAltura mínima igual a 2,00m

Texto da Recomendação ABC

4.2.3 A altura da borda inferior do feixe de projeção (Hproj) em relação ao plano de implantação das poltronas e de circulação do público deve ser igual ou, preferencialmente, superior a 1,90m.

Hproj = 2,00m

FIGURA 6: Implantação do projetor: altura mínima do feixe de projeção.
1.2 Curvatura mínima da tela:

Idealmente, a tela de projeção deve ser plana, de modo a evitar que a imagem projetada se deforme acompanhando a curvatura da superfície da tela.

Por vezes, buscando de tornar a imagem do filme do filme mais “envolvente”, ou melhorar a distribuição da luz de projeção na superfície da tela, adota-se a solução de instalar uma tela de projeção curva. Nestes casos, a curvatura deve ser limitada para evitar deformação da imagem projetada.

FONTEPARÂMETROS SUGERIDOS
ABNTRaio de curvatura deve ser superior a duas vezes a distância (D) entre a tela e a face anterior do encosto da poltrona mais afastado da tela, ou seja: R > 2 D
AFNORR = 2 D
CSTR = 2 D

Texto da Recomendação:

4.1.2 A tela de projeção pode ser plana ou curva. Sendo curva, o seu raio de curvatura (R) deve ser superior a duas vezes a distância (D) entre a tela e a face anterior do encosto da poltrona mais afastada da tela.

R > 2 D

1.3 Distorção trapezoidal da imagem:

A principal fonte de distorção da imagem decorre do mau posicionamento do projetor em relação à tela de projeção, produzindo o efeito chamado “distorção trapezoidal”.

A distorção trapezoidal leva este nome por fazer com que o fotograma do filme, originalmente com formato retangular (Figura 1a), assuma uma configuração trapezoidal, deformando as imagens nele contidas. Ela é resultante de um posicionamento inadequado do projetor em relação à tela de projeção, provocando uma inclinação excessiva do feixe de projeção em relação à tela.

Distorcao
Distorção trapezoidal da imagem

Este problema pode ocorrer devido a uma inclinação excessiva em relação ao plano horizontal (projetor muito inclinado para baixo, Figura 1b), ao plano vertical (projetor muito inclinado lateralmente, Figura 1c) ou em ambos os planos simultaneamente (Figura 1d).

A distorção trapezoidal da imagem é calculada utilizando-se fórmula matemática e deve ser definida tanto para o sentido horizontal quanto para o vertical. A seguinte fórmula é fornecida pela Recomendação:

Distorção trapezoidal horizontal (DThorz) = (H sen a) ÷ (D’ cos a)
Distorção trapezoidal vertical (DTvert) = (L sen ß) ÷ (D’ cos ß)

Onde:
L = largura da tela
H = altura da tela
D’ = distância de projeção
a = ângulo de projeção horizontal
ß = ângulo de projeção vertical

1.3.2 Distorção trapezoidal horizontal
FONTEPARÂMETROS SUGERIDOS
ABNTA inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano horizontal não deve conduzir a uma distorção trapezoidal de imagem superior a 5%, sendo recomendável limitar esta distorção ao valor de 3%.
AFNOR3% recomendado; 5% tolerável
CST3% recomendado; 5% tolerável, para uma situação na qual a distância de projeção (D) dividida pela altura da tela (H) seja maior do que 4; ou seja: D / H > 4

Texto da Recomendação:

4.3.1 A distorção trapezoidal horizontal (DThorz) da imagem projetada provocada pela inclinação horizontal do eixo óptico de projeção em relação ao plano vertical passando pelo centro da tela deve ser, preferencialmente, inferior a 3%, sendo tolerável um valor máximo de 5%, desde que a relação entre a distância de projeção (Dproj) e a altura da imagem projetada na tela (Himg) seja maior do que 4.

DThorz = 3% (recomendada)
DThorz = 5% (tolerável, se Dproj ÷ Himg > 4)

1.3.1 Distorção trapezoidal vertical

FONTEPARÂMETROS SUGERIDOS
ABNT A inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano vertical não deve conduzir a uma distorção trapezoidal de imagem superior a 5%, sendo recomendável limitar esta distorção ao valor de 3%.
AFNORDistorção máxima: 3% recomendado; 5% tolerável
CSTDistorção máxima: 3%

Texto da Recomendação:

4.3.2 A distorção trapezoidal vertical (DTvert) da imagem projetada provocada pela inclinação vertical do eixo óptico de projeção em relação ao plano horizontal passando pelo centro da tela deve ser, preferencialmente, inferior a 3%, sendo tolerável um valor máximo de 5%.

DTvert = 3% (recomendada)
DTvert = 5% (tolerável)

OBS: A Recomendação leva em consideração a distorção em projeções com equipamentos eletrônicos que, geralmente, têm funções para correção da distorção trapezoidal.

Projetor Eletronico
FIGURA 5: Ângulos de projeção e limites para projetor com correção eletrônica de distorção trapezoidal.

Texto da Recomendação:

OBS: Embora alguns sistemas de projeção eletrônica disponham de funções para compensação das distorções da imagem, produzidas pelas angulações laterais ou verticais, é recomendável que a lente do projetor fique posicionada no interior da área definida por planos perpendiculares passando pelas bordas horizontais e verticais da tela de projeção. (FIGURA 5)

continua na Parte 2

Total
0
Shares
Prev
Mestres da Luz II – Gabriel Figueroa
Mv5Bzjczndk3Zmetm2Fmos00Zgzilwe3Njgtyzg0Otmxn2M4Yjblxkeyxkfqcgdeqxvymtc4Mzi2Nq@@. V1

Mestres da Luz II – Gabriel Figueroa

Next
Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica Parte 2
Cinema 20170216 00790

Recomendação Técnica para Salas de Exibição Cinematográfica Parte 2

También te puede interesar