Entrevista com Walter Goulart

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Por Tide Borges, ABC

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Começamos a publicar aqui uma série de entrevistas feitas por Tide Borges. Pioneiro da captação e da engenharia do som no Brasil, Walter Goulart trabalhou em mais de cem filmes desde a década de 1960, atuando num período de transição do cinema brasileiro (da Atlântida para o Cinema Novo, ou seja, do estúdio para a locação externa com som direto)

Tide -Como você, que era um homem de estúdio, começou a fazer Som Direto?

Walter Goulart – Foi graças ao Luis Carlos Saldanha, um cara que acreditou em mim. Tudo começou porque ele já tinha estado com um Nagra. O Nagra ficava na casa dele e eu ouvia falar…Nagra, Nagra… até que um dia ele me apresentou o Nagra. Minha formação veio de estúdio, do início da televisão, depois fui para a área de cinema e fiquei no cinema até hoje. São 43 aninhos…
O Luiz Carlos foi convidado para fazer o filme do Glauber, o Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, mas não pôde fazer, não sei por quais circunstâncias. Aí um dia ele chegou lá no estúdio e falou “Quer fazer o filme do Glauber Rocha?” Imagine, que pergunta, né? E eu ia entrar de férias exatamente na época! “Agora você tem que me explicar como é que funciona esse negócio”, eu disse. E ele deixou o Nagra lá e eu peguei uma fita e comecei a testar. Botei microfone, comecei a ver que tinha um modulômetro – não é VU que é mais lento, era modulômetro, mais rápido. Então comecei a fazer testes, testes, testes. Levei um microfone, porque o Zelito Viana tinha conseguido um microfone dinâmico, mas direcional, o shotgun, da Electrovoice, pesado. E não chegava o boom, não chegava o microfone, e eu tinha um microfonezinho Beyer, que é um microfone dinâmico e cardióide. Era o 66, um bolinha menorzinho, que é excelente para interior. Eu já estava preparando tudo, peguei uma vara para fazer o boom, fiz um suporte. Já ia rodar quando o Zelito Viana chega com o tal microfone, com o Electrovoice, sem boom.

Tide – Como é que você ia fazer?

Walter Goulart – Tive que arranjar uma vara de pescar bem robusta, arranjei parafusos para colocar, porque ele tem uma haste que segurava o microfone e uma aranha. E foi assim, partimos pra fazer o som, um microfone só, não tinha mixer. O Nagra III só tem uma entrada de microfone. Ele tem uma outra entrada mas é que tinha que usar uma caixinha, com um prézinho que entrava num outro auxiliar, que a gente não tinha. O filme todo foi feito com um microfone só.

Tide – E ele tinha Pilotone?

Walter Goulart – Não, eu tinha que receber o Pilotone da câmera. Um cabo que saía da câmera e ligava no Nagra, aí abria aquela borboletinha, né? A cruzeta e opa – tá entrando o sinal.

Tide – Mas você chegou a fazer aqueles filmes que o pessoal falava que gravava “solto”?Que não tinha sincronismo?

Walter Goulart – Não, aquilo era só guia. Ninguém brincava de som direto solto assim, não. O Moisés Sveltman fez um seriado, acho que era para a Nestlé e ele pegava equipe de televisão e grandes atores, e a gente fazia som guia apenas, porque a câmera era sem blimp. Naquela época acho que era uma Arriflex, uma das primeiras Arriflex, parecia uma máquina de costura, mas só fazia som guia, e gravava num Geloso, só para saber o que o cara falou.

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Gravador Geloso

Tide – O que é um Geloso ?

Walter Goulart – É um gravador, Geloso… o nome dele é Geloso mesmo. Tinha o Tundberg também, mas embora ele gravasse o Pilotone, ele ia perdendo a velocidade então não deu certo.

Tide – E o Uher?

Walter Goulart – O Uher chegou a funcionar uma época,mas ninguém gostava dele…

Tide – É que o Nagra acabou com os outros…

Walter Goulart – O Nagra foi a melhor coisa que apareceu no cinema em termos de gravaçãoa. Até hoje, lá fora, eles podem ter o digital e tal coisa, mas o Nagrinha ta ali. Entendeu? Eles não dispensam o Nagra, não. Eles querem fazer uma repicagem, o Nagra tá lá. Agora tudo é digital e tal, mas o digital também tem seus problemas, e muitos que o analógico não tem. Aí chegam aqui e dizem “Goulart, eu fiz uma gravação tal, assim, mas não tá legal. Aí eu digo “não tá legal porque o seu limite é menos 12 e você está além de 30. Você quer o quê? No binário ele clipa”.

Tide – Qual foi a sua formação? você começou trabalhando em TV?

Walter Goulart – Eu estudei teatro e quem estudou teatro quer ser ator. Eu não queria ser, mas fazia tudo lá, pintava cenário, contra-regragem, tudo. Pra mim, entrar pra televisão foi um caminho estranho. Porque eu conhecia as pessoas mas não tinha a ponte. Aí pintou um dia num programa do Flavio Cavalcante, um quadro chamado Isto é História, onde tinha uma vaga para maquiador. Eu falei “opa, beleza, é uma porta, você está lá dentro”. Aí eu fui para maquiagem e foi muito interessante porque eu contava com uma pequena experiência que eu tinha de teatro (porque no teatro você tem que fazer tudo), Comecei a fazer caracterização, não é maquiagem fina, não é botar as pessoas bonitinhas. Isso eu não sabia fazer. Eu sabia transformar a pessoa num personagem. Pegava um livro que tinha D. Pedro I, e aí pegava o ator e trabalhava com massa o Fispam tinha um negócio de perucas e ele ajudava muito. Uma das pessoas que também me deu muita dica era o Erik que era o mago da maquiagem desde o início da Tupi depois ele foi para a Glob, fez uma escola imensa. Mas aí eu fui saindo, fui tendo oportunidade, porque eu me metia em tudo. As pessoas perguntavam se eu sabia fazer e eu dizia que sabia.

Tide – Quantos anos você tinha?

Walter Goulart – Eu tinha 19 para 20 anos. A Bauducci tinha um programa chamado TV de Brinquedo. Ela me perguntou se eu não queria tomar conta do programa no Switch. porque eu dava muito palpite e os meus palpites eram interessantes. Aí eu fui para o Switch e comecei a cortar o programa e ao vivo. Não tinha VT, não.Toda a programação era direto.O VT era só para o futebol. Eles iam com aquele caminhão, porque nem transmitiam o futebol direto, eles gravavam o futebol para depois passar à noite.
E foi indo e depois eu comecei a dirigir a TV de Brinquedo. Toda semana tinha uma historinha para ir ao ar. Eu fazia tudo. E sabe por que? Porque era gostoso aquilo. Aí depois dessa fase toda de televisão eu comecei a fazer os efeitos especiais de imagem, que era uma loucura naquela época, usava espelho.

Tide – Como é que você foi para o Cinema?

Walter Goulart – Bom nesse ínterim dentro da televisão eu conheci o Silvio Carneiro, que era um fotógrafo antigo que trabalhou com Carmem Santos, gente da pesada, Diretor de Fotografia. Eu conversava muito com o Silvio, mesmo sem conhecer muito, de estética, como eu via as coisas. Aí ele ficava tão impressionado. Um dia ele me convidou para ser assistente dele. Foi o meu primeiro contato com a câmera Arriflex. Ele me perguntou se eu conhecia a câmera a e eu disse que sim ( e não conhecia). Ele já foi me falando – as latas de filme vão chegar… E eram latas duplas, você tinha que ir para a câmera escura, cortar o negativo, e por na enroladeira, colocar numa bitola, por que você precisava ver o tamanho, e tinha que ser devagar por causa da eletricidade estática. Aí foi muito engraçado porque quando eu peguei a câmera eu falei assim – olha, eu não sei carregar…

Tide – O chassis…

Walter Goulart – Não, o chassis eu sabia carregar, eu não sabia dar as laçadas dentro da câmera. Aí ele falou: é simples, faz isso e isso, tem essa folga aqui em baixo e mesmo com ela aberta você dá uns toquezinhos para ver se tá tudo…trálálá…Aí eu fazia, olha só que loucura, tinha um gravador Geloso pra fazer o som guia, medindo o foco, marcando o foco todo aqui no braço,né? Então eu soltava o gravador, ia pra câmera, fazia o foco…

Tide – Fazendo cinema?

Walter Goulart – Fazendo cinema.

Tide – Qual filme?

Walter Goulart – Esse seriado, produzido pelo Moises Sveltman, que era feito em 35mm, para televisão, que contava a história do Brasil, os bandeirantes, as esmeraldas.

Tide – Uma superprodução?

Walter Goulart – Uma superprodução tupiniquim. Você tinha rebatedores nos interiores, umas luzinhas. A gente fazia tudo e depois ainda ia para o estúdio e ajudava a fazer a dublagem.

Tide – E era aonde este estúdio?

Walter Goulart – Era do Helio Barrozo Netto. Era um estúdio em um prédio em Copacabana. Tinha um grande em Botafogo também.

Tide – Como era um estúdio num prédio?

Walter Goulart – Era uma salinha que só podia gravar à noite, porque o resto do prédio era tudo escritório e por causa do barulho você só podia gravar à noite.Começava às dez da noite e ia até apagar olho.

Tide -Quando você começou a se dedicar só ao som?

Walter Goulart -Quando eu fui fazer o foley (ruído de sala).

Tide -E quando foi isso?

Walter Goulart -Isso já foi em…logo que eu saí do cinema, eu fui para um estúdio na Rua Alice que se chamava Peri Filmes e tinha uma outra empresa junto, que era do Carlos Della Riva.

Tide -você se lembra que ano foi isso?

Walter Goulart -Acho que 1960. O Carlos veio para o Brasil, acho que com a Zive, uma empresa mexicana, que veio montar um estúdio na TV Rio, lá no Posto 6. Esta empresa montou um estúdio de dublagem dentro de um estúdio de televisão e eles dublavam os filmes…o de La Riva veio com esta empresa, o filme nem era mixado aqui. O filme ia pro México, eles mixavam e depois mandavam o filme pra cá. Foi o início da dublagem, eram os seriados policiais, era dublagem de filmes para a televisão. Este foi o início da dublagem. Eu não estava nesta época. Eu vim em 1960, que aí eu fui fazer foley…

Tide -Para cinema brasileiro?

Walter Goulart -Para o que pintasse. Eu era funcionário. Por exemplo, o filme “O Padre e a Moça”, do Joaquim Pedro, eu fiz toda a parte de sonorização, o foley, o filme foi dublado.

Tide -Quem fez o som guia mesmo?O Macunaíma acho que foi o Juarez…

Walter Goulart – O Juarez fez o som, eu fiz toda a parte de sonorização dentro do estúdio. Vidas Secas. Tenho toda uma trajetória, filmes fantásticos.

Tide – Você gravava ambientes?Ou cuidava só do ruído de sala?

Walter Goulart -Gravava ambientes! Pegava e saía com o Nagra, fazia uma lista… a gente ia lá pra dentro de Jacarepaguá, aquele silêncio….Eu, o Geraldo José. O Geraldo que me levou para o foley.

Tide -Como você o conheceu?

Walter Goulart -Ele trabalhava na Rádio Roquete Pinto, era técnico da rádio, e já estava sonorizando uns filmes. Isso bem no início do Cinema Novo, hein? Ele era técnico da rádio e o estúdio foi cedido para gravar novela (de rádio) e eu fui fazer a parte de ruídos da novela, que é muito engraçado, o ator está em frente ao microfone falando – ai, meu amor…e você smack samck, dando beijinho.É divertido e se aprende muito.

Tide -você ficava pesquisando o que fazia barulho do quê?

Walter Goulart -Claro!

Tide -Te achavam um louco?

Walter Goulart -Um louco. Porque em casa eu ligava a televisão, tinha um filme, eu tirava o som do filme e eu dizia – vou acompanhar esse cara. E pegava os passos e acompanhava em sincro. Aí eu tava fazendo esse negócio da novela e ele ficou observando através do vidro do aquário, né, e pensou – ah! Esse cara tem jeito pra isso. Vou convidar ele pra trabalhar comigo nos filmes.
Me lembro dos últimos dois filmes do Oscarito que a gente fez lá na Atlântida na Rua México.

Tide -Junto com o Geraldo José?

Walter Goulart – Junto com ele. E era direto.

Tide – Era ótico ainda?

Walter Goulart – Não, era magnético, gravava em 15 ips num Magnasync. Mas era uma loucura porque o Magnasync não tinha Pilotone. Ele agüentava o sincronismo porque ele era um gravador bem estável, mas se você chegasse no final e errasse um ruído, tinha que voltar da cabeça! Porque não tinha esse negócio de edição não. Eram rolos de 10 minutos. 10 minutos fazendo os ruídos! Fazendo tudo.

Tide – Ah, não ia fazendo por pedaços? Então vocês faziam de dois?

Walter Goulart – Os dois, eu, ele e às vezes uma outra pessoa.

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Tide – Quais eram estes filmes do Oscarito?

Walter Goulart – Um deles foi dirigido pelo Carlos Manga, é que às vezes os filme iam para lá e ainda não tinha título. Eu me lembro de “13 Cadeiras” [1957], que é um clássico. E o outro eu não me lembro, eu acho que foi do Manga.

Tide – E da sonorização, como você foi parar no som direto?

Walter Goulart – O som direto é porque eu comecei fazendo foley e tinha toda uma hierarquia para você pegar uma mesa de estúdio. Eu fui fazer o foley, depois eu comecei a gravar, depois a fazer o ótico, a aprender a carregar a câmera do ótico. Era uma coisa que a gente aprendia passo a passo…

Tide – E o som direto?

Walter Goulart -Aí pra fazer o som direto, eu já tinha uma…evidentemente se eu estava dublando, então eu já tinha uma noção de perspectiva sonora. Porque uma coisa que eu fazia na dublagem, eu não usava um microfone só, hoje a pessoa usa um microfone só, tudo na cara.Eu botava o microfone mais longe, digamos com uma distância assim de um braço para que o ator tivesse uma mobilidade de se movimentar, e usava um segundo microfone, mais ou menos a uns 3 ou 4 metros pra traz. Eu usava dois canais, se estava primeiríssimo plano, close up, eu deixava só o da frente, mas se o ator viesse de fundo, a câmera fixa, ele viesse de fundo e se aproximava, eu ia cortando o do fundo e ia e vinha com o da frente…

Tide -Você fazia um planinho de som?

Walter Goulart -Fazia um plano sonoro.

Tide -Você que inventou?

Walter Goulart -É. Se tava muito ruim você ia inventando. E no que dava isso? Você dava o movimento do ator, você pode fazer isso na mixagem, mas não é a mesma coisa.Se você tem o master já em primeiríssimo plano, para colocar ele mais no fundo você vai ter que usar um reverb, entende, cortar…fica uma coisa muito falsa…

Tide -Em que filmes você fez isso?

Walter Goulart -Em A Hora e a Vez de Augusto Matraga [1965], eu fiz o foley e gravei os diálogos junto com o Roberto. Eu adoro esse filme, mas vi uma cópia que estava um desastre. São filmes que deveriam ser recuperados, fazem parte da história do cinema. Eu adoro O Padre e a Moça[1965], do Leon Hirszman, Menino de Engenho [Walter Lima Jr, 1965]…Tem coisas que não podem se perder.

Tide – Você conversava essas coisas com o diretor ou ia fazendo?

Walter Goulart – O Roberto Santos foi uma pessoa que eu adorei trabalhar com ele porque eu falava com ele – vamos fazer assim? Ele ficava assim…pensava…e dizia é…faz, aí eu fazia e ele dizia – é, fica interessante. Porque eu explicava pra ele – depois que você colocar o ambiente e o foley, o ator… você vai sentir a presença do ator, você sente a movimentação, não é aquele negócio chapado, fica um som maravilhoso…Se você pegar os filmes dele, como São Bernardo.

Tide -Esse filme é lindo!

Walter Goulart -Tem pessoas que nem gostam – aquele plano imenso….

Tide -Ele é meio paradão,né?

Walter Goulart – Mas é a estrutura do filme. Ele tem uma poesia…

Tide – São Bernardo foi todo gravado em som direto, né?
Walter Goulart – Todo.

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Othon Bastos em São Bernardo

Tide – Você fez os offs na hora ou não?

Walter Goulart -Como é que você sabe disso? Olha, o filme São Bernardo, o único som que não foi feito na locação foi a música do Caetano, que é uma xeremia. O filme todo foi feito em som direto na locação, a narrativa foi feita na locação – a narração off, para aproveitar o clima, senão você perde a cor, né? Depois de 4 meses você vai pro estúdio, você já tá em outra, a tua cabeça já é outra…

Tide -Até na dublagem, quando você ouve o som gui, é diferente do dublado.

Walter Goulart -Por isso é que eu falo – faça um bom som guia, porque pro ator não importa se é som guia porque ele tá na atuação, e quando você passar o som guia pra ele, ele vai buscar retomar aquela emoção. Vai tentar, porque é difícil.

Tide -Por exemplo:aquela cena da igreja…

Walter Goulart – Ali, se você rever o filme, você vai perceber que a câmera está mais à esquerda da igreja, que ele começa a falar lá da janelinha, depois vem por dentro da igreja até falar com o jagunço…ali você poderia ter dois microfones, mas eu optei por um. Porque é gostoso você trabalhar com os planos sonoros – porque fica real, entendeu? Você ouve, não perde nada, tá lá e ele vem, quando ele chega na porta, parece que o som vem de lá, porque ele vem com o reverb da própria igreja. Muitas pessoas perguntam – quantos microfones você usou? Um só e num plano todo aberto.

Tide -Que microfone você usou? O direcional?

Walter Goulart -O direcional Sennheiser antigão acho que o 804. Mas foi toda uma opção estética. O Leon sempre me deu carta branca, uma beleza. Trabalhar com ele foi um luxo.Uma pessoa maravilhosa, ele acreditava muito na equipe.

Tide -E o Lauro era novinho, né?

Walter Goulart -Novinho. Era o primeiro filme dele. É engraçado.Toda a situação do trem.O trem tava andando. É real. Ninguém fala no trem. Aí eu falei, vamos buscar um tom…sem exagerar,entendeu? E você não perde nada. O Othon acredita na técnica.

Tide -Ele ia na sua?

Walter Goulart -Ia. No ensaio, o Leon cortava o ensaio. Eu saia de onde eu tava e ia até ele, pegava na roupa dele, ajeitando e falava – a fala tal..articula mais…é uma coisa que eu falo…Comportamento no set,né? Eu falo pros meus alunos, o comportamento da técnica no set é muito importante. O técnico de som não tem que gritar, eu falo baixinho, se eu vou falar com um ator, eu não falo de longe, de jeito nenhum, eu chego perto e – olha, esta fala…articula mais que eu não estou entendendo.. Aí o Othon fazia outro ensaio …acabava.. e o olho ia pra mim e eu fazia assim…OK. Vai rodar. Acabou,, ele não olhava pro diretor. Ele deveria olhar para o diretor,né? Ele olhava pra mim porque ele sabia que eu estava cuidando do meu trabalho como som e cuidando do ator.É importante isso…

Tide -Claro, eles trabalham muito com a voz, né?

Walter Goulart -Exatamentea.

Tide -Nessa cena da igreja, você falou alguma coisa com ele pra ele projetar a voz um pouco mais?

Walter Goulart -Não. Foi coisa dele mesmo. Ele sentiu que o outro ator estava a uma distância de 15 metros. Ele não podia falar baixo. A cena da criança chorando que depois tem uma câmera na mão, que vai até o quarto, que é quando ela já tá… não é?

Tide – Mas nessa cena foi sem o blimp,né?

Walter Goulart -Sim, mas aí você tinha que reproduzir o som do andar dele, eu nem gravei som guia, porque não ia usar o guia, eu acompanhei o movimento da câmera até onde foi, e eu fiz o mesmo movimento com o som, fazendo toda a encenação só para o som.

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Tide – E a equipe não reclamava?

Walter Goulart – Nunca. Vamos parar para gravar um som ambiente…ninguém se mexia. Hoje é difícil você fazer isso. A maquinaria já está desmontando…porque são pessoas novas que não tiveram a educação de um set de filmagem. Eu me lembro uma vez que eu fui fazer uma visita…era ensaio…silêncio…só quem fala é o diretor e o ator…e eu fui andando devagarinho aí eu pisei de mal jeito e fez um barulho no taco, eu parei no ato, não deu outra – todo mundo no estúdio olhou pra traz pra ver o que tava acontecendo. Nunca mais. Isso é educação no set. E hoje, quando você entra numa produção, eu falo assim – é o seguinte; quem fala é o diretor, os atores, o assistente de direção, não fiquem com negócio de eco. Um fala silêncio e um monte de gente repetindo. Não precisa gritar, porque se você grita, você também dá margem para os outros também falarem mais alto. Se você fala baixo você começa a atenuar. Quando a cena é muito boa eu chego a chorar de emoção e toda equipe também fica emocionada. A respiração até pára e quando dá o corta, nego até aplaude e isso é maravilhoso. Mas tá muito difícil, hoje em dia. As pessoas começam a jogar três tabelas pelo chão, outro fala, outro bota o cafezinho perto da mesa de som e eu falo – não põe seu café aqui não, meu filho, vai tomar o seu café lá longe. Baixinho, mas com um olhar fuzilando.

Tide – Como é aquela estória de dublar a cena no próprio set?

Walter Goulart – São Bernardo teve um caso, não é dublagem. O plano final, da vela, que é em cima de um off, eu gravei este off antes, e eu ficava em baixo da mesa soltando a voz off e ele atuando, e é linda, porque à medida que ia chegando ao final da narrativa a vela ia apagando, né? E não tinha dimer lá. O único lugar que usamos o dimer foi na igreja, quando ela está na igreja e ele chega e acende a vela e aí depois tem um carrinho, que é um carrinho junto com …eu acho que tinha dois movimentos…sabe quando você….puxa a zoom e o fundo…e é bonito…e tudo som direto ali, e o dimmer não agüentou. Aí nós fizemos um dimmer de água com sal, coisa antiga, né? Mas funciona…

Tide – E a câmera ficava no blimp?

Walter Goulart -No blimp. Um gerador Wolksvagen barulhento que tinha que ficar longe, porque era uma fazenda que não tinha barulho nenhum. Tinha que botar o gerador lá pra trás, botar umas tapadeiras, a descarga não sei pra onde…

Tide – Você fez toda a sonorização do São Bernardo também?

Walter Goulart – Fiz a banda internacional, todos os foleys para a banda internacional, mas não me lembro se eu fiz alguma edição. Porque o filme que eu peguei o som direto e a edição. Fiz todos os efeitos sonoros do filme do Glauber, montando aqueles mil e quinhentos tiros. Aquele tiroteio danado e eu botando um tiro de cada vez….

Tide – Você pegava esses tiros de arquivo?

Walter Goulart -Eu tinha um arquivo muito bom. A filha do Geraldo hoje digitalizou tudo, mas muita coisa se perdeu. Mas eram uns tiros que a gente pegava de filmes italianos. Não dava pra botar tirinhos, porque senão ninguém acredita que é tiro.

Tide -Quando você estava filmando o São Bernardo você já pensava na banda internacional? Gravando coisas a mais…?

Walter Goulart – Eu gravava todos os ambientes, saí de lá com muita coisa. Pra fazer a banda internacional, você tinha que ter os ambientes. Fiz o foleys todos…eu conhecia o filme de cabo a rabo, né?

Tide – Mas na versão brasileira deu quantas pistas para mixar?

Walter Goulart – O off, o som direto (botando cruzado, fazendo um overlap de som), ambiente, música, efeitinhos…acho que umas dez pistas.

Tide -Como era ouvir o som no ótico depois de todo este trabalho? Era meio decepcionante?

Walter Goulart -Aí tem dois casos problemáticos que é o seguinte: o correto sempre foi fazer um teste de luz junto com o chamado teste de cross modulation…

Tide – Mas antigamente nem se fazia este teste, não é?

Walter Goulart – Quem insistiu muito para fazer este teste foi o Dela Riva. O doutor Vitor ficava alucinado, porque ele não acertava e não se tem coisa que eu não acredito, mas você no laboratório tem 80% de banho cor e o resto era o banho preto e branco que era o correto para o ótico, mas eles faziam no colorido e dava véu e usava uma fita…você filmava com kodak, mas o som era Orwo porque era mais barato e era o que o laboratório trabalhava. Hoje não, o record, é o mesmo record…

Tide -Mas mesmo hoje em dia ainda é complicado esse negócio de fazer o ótico. Teve uma época que não se fazia mais no Brasil.

Walter Goulart – Olha, a câmera ótica não mudou nada, é o mesmo equipamento, então vai fazer com o sistema 5.1 Dolby Stereo, mas depois você queima um CD e vai pro digital, né?

Tide – Como é feito este teste de Cross Modulation?

Walter Goulart – Você diz pro cara do laboratório e ele vai lá e revela uns 40 segundos, onde você faz o teste de luz e o cross modulation. Aí você pega um leitor e faz uma análise destas duas freqüências, define a margem mais baixa e a mais alta e procuraro meio onde não tem distorções. E isso tem que ser legal, porque a densidade 04 ou 02, o copiador tem que fazer isso aqui: luz tal o negócio da luzinha dele.

Tide – Na hora de copiar ou de revelar?

Walter Goulart – Na hora de copiar, porque na hora de revelar é o tempo normal. É muito delicado.

Tide – E quais microfones você levou para o São Bernardo?

Walter Goulart – Um cardióide Beyer 66. Aquele interior da mesa, que era um plano todo aberto, foi feito com ele. Eu não gosto de usar microfone de lapela, só num último caso, é diferente, eu gosto da liberdade. A lapela te dá um som de peito, você conhece. Eu gosto de um som bem liberto, igual o filme do Glauber, onde o som acompanha a imagem. Luiz Carlos [Saldanha] quando viu Dragão da Maldade disse – Goulart, cara que som é aquele! Aí eu falei – porque, tava ruim? E ele – não, tá maravilhoso! Mas ele tinha assistido na Europa. Todo mundo dizia que o som dos nossos filmes era muito ruim. Talvez nem sempre. Você ia no cinema aqui e o rato tinha comido a metade do cone do alto-falante que reproduzia! Você só fica com o quê? Nem as baixas! Não tinha as baixas. Não tinha as médias, só tinha aquele raf raf raf. Pô, o que é isso? Tanto que hoje melhorou, tem salas boas.
O Laurinho fez o primeiro filme dele e eu tava sempre colado com a direção e com a fotografia, clara! A trinca. Eu tenho que ver qual vai ser o tipo de iluminação para ver como vou colocar o microfone. E não tinha filtro suficiente, aí saímos eu e Laurinho para a cidade em busca de papel celofane e você ia misturando as cores e media a temperatura de cor, para iluminar aquela sala toda e não tinha luz suficiente para isso. Haviam aquelas lâmpadas R1, mas tinha que botar filtro, com medo de esquentar muito e queimar a gelatina. Até nisso eu me meti, e eu ia com ele lá e falava, que tal esse aqui assim? Eu dava palpites mesmo e ajudava.

Tide – E os seus alunos?

Walter Goulart – Tem uns alunos excelentes, que eu posso dizer que estão quase com o pé no profissional, muito bons. E tem uns que não se interessam, que não estão nem aí. Tem uma aluna minha que começou com som, e quando eu soube que ela também fazia música, eu disse opa…vai sair um caldo, a Fátima. Essa grudou. Quando era muito difícil, eu fazia o boom, mas quando era mais facilzinho eu dizia – vai pegando, e ela me surpreendeu. Já fez uns dois longa-metragem, são quatro episódios de um filme sobre os negros, muito interessante. E ela sempre ligava lá pra casa pedindo umas opiniões e eu dava: leva o feltro para tirar reverberação. Não importa se o ator vai ficar sem passos, isso aí é pra depois, o importante é captar o diálogo.

Tide – E no São Bernardo? Você também cuidava do assoalho da casa?

Walter Goulart – Não. Algumas coisas…Quando tinha o carrinho eu botava um pano para suavizar o barulho do peso no assoalho. Panos, cobertores. Na cena do bar, eu tive que pegar os cobertores da equipe toda para fazer um teto, porque tinha um reverb danado. Mesmo assim ficou um pouco, mas você sente o ambiente, tudo bem.

Graduada em Cinema pela ECA/USP em 1984, Tide Borges trabalha com gravação de som para cinema desde 1982. Principais trabalhos: Hora da Estrela, de Suzana Amaral, Eu, de Walter Hugo Khouri, de Olho de Boi, de Hermano Penna, e Hotel Atlântico, de Suzana Amaral. Mestrado em Cinema pela ECA/USP em 2008. Esta entrevista foi feita para a pesquisa de Mestrado.

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