A magia da iluminação: entre a luz e a sombra

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Por Danielle de Noronha

Braço direito do diretor de fotografia no set, o gaffer ainda soa como um nome estranho para aqueles que não estão envolvidos no universo da cinematografia. Segundo o dicionário Farlex, gaffer significa An electrician in charge of lighting on a movie or television set (Eletricista encarregado da iluminação num set de cinema ou de televisão). É a forma como é chamado o técnico responsável pela execução da luz do filme. Chefe das equipes de elétrica e maquinária, o gaffer busca compreender o conceito de luz esperado pelo diretor de fotografia para colocá-lo em prática no set.

Nas palavras do diretor de fotografia César Charlone, ABC (Cidade de Deus, Ensaio sobre a cegueira, Artigas – La Redota), “O gaffer é a pessoa mais próxima do diretor de fotografia na criação da luz. O gaffer conhece as ferramentas, conhece os refletores, os tipos de lâmpadas que vão ser usadas, conhece os tipos de recorte de luz, enfim, ele conhece a tecnologia de iluminação. O diretor de fotografia diz para ele qual o conceito de luz que ele deseja para uma determinada sequência e ele sabe qual o tipo de luz que vai precisar para executá-lo”.

Como acredita Junior Malta (Budapeste,Tropa de Elite, A Suprema Felicidade), que trabalhou em mais de 40 filmes, entender o conceito desejado pelo diretor de fotografia é o principal desafio da profissão. Para o gaffer: “o mais difícil é entender o conceito, uma vez com o conceito fica fácil trabalhar, o prático não é difícil, já o artístico muda constantemente, o que é natural quando se trabalha com artistas”.

O conceito de luz de um filme nasce com a leitura do roteiro, conforme explica o diretor de fotografia José Roberto Eliezer, ABC (O Cheiro do Ralo, Cabeça a Prêmio, Assalto ao Banco Central): “Tudo começa com a leitura do roteiro. É ele que vai sugerir e inspirar as imagens para que aquela história seja contada. A partir disso, conversas com o diretor e o diretor de arte procuram um denominador comum. E então, a visita às locações e cenários, para materializar esses conceitos. Além, é claro, das referências pessoais do diretor de fotografia”.

Da mesma forma, o trabalho do gaffer também inicia com a leitura do roteiro, seguido de uma reunião com o diretor de fotografia, como conta o gaffer Marcos de Noronha (Hoje, Assalto ao Banco Central, Falsa Loura), que trabalhou em 89 longas e 122 curtas-metragens. “Normalmente o roteiro traz algumas questões relacionadas à luz, como por exemplo, um acender ou apagar de um interruptor. Nas entrelinhas, o roteiro também fala da luz”, explica Noronha. “A partir daí, o diretor de fotografia desenha a sua luz e numa reunião passa o conceito que ele deseja. O gaffer deve executar a ideia do fotógrafo sem ele precisar dizer o que você tem que fazer”, complementa.

Além de ler o roteiro e pensar como executar a luz, o gaffer precisa planejar quais serão os equipamentos necessários para o filme, priorizando a qualidade, mas levando em consideração questões como as locações, o tempo e, principalmente, o orçamento, para melhor viabilizar a verba disponível. Segundo Malta, é necessário fazer um plano de filmagem da luz para marcar os dias de luz grande para depois tentar colocá-los próximos. “Isso depende de um bom diálogo com o assistente de direção”, explica o gaffer. Para Noronha, além de deixar os equipamentos mais caros para dias específicos, ter o controle do sol a partir de grandes difusores, quando há essa possibilidade, também ajuda bastante na hora de trabalhar com os orçamentos apertados.

Iluminar é sempre um desafio. Como pontua Noronha, durante a filmagem é o desenho de cada cena que determina quais são as dificuldades e os desafios a serem enfrentados para que a luz siga o conceito e o planejamento realizados para o filme: “Todas as cenas são difíceis e todas são fáceis, na verdade depende da complexidade da cena, a cena determina as dificuldades”, comenta. “Pensar a luz da cena e as possíveis dificuldades depende da locação, depende do que você pode ter de equipamento, então isso é muito variável. Depende também de questões como os negativos que os fotógrafos estão usando e os eixos de câmera, já que pra uma câmera a luz pode estar boa, mas pra outra pode estar chapada. Além disso, ainda temos o desafio de usar uma grande quantidade de refletores sem deixar duplas sombras, o que é um pouco complicado, pois o sol só faz uma sombra, não faz duas”, conclui Noronha. Malta complementa: “quando se filma no interior de um recinto, com grande quantidade de exterior presente no quadro, fica mais difícil, você acaba abrindo mão de um conceito para brigar com o equilíbrio, fica melhor quando vira linguagem e distorcemos esse equilíbrio”.

Charlone lembra que o gaffer precisa conhecer a luz, além de saber uma pouco sobre eletricidade. “Ele precisa conhecer os efeitos, como a luz se comporta. Como é uma luz suave, uma luz dura, etc. Ele precisa observar o comportamento da luz, como é que o sol se comporta, como ele bate e rebate, enfim, precisa conhecer a luz”. Eliezer acrescenta: “Um Gaffer deve conhecer profundamente os equipamentos e as maneiras de extrair deles os resultados desejados. Uma cultura visual é bastante importante. Ao mesmo tempo, como chefe da elétrica, ele tem a função de orientar sua equipe sobre o melhor método de trabalho”.

Para se tornar um gaffer, assim como na grande maioria das funções exercidas na produção de um filme, a melhor maneira de começar na área de elétrica é como assistente. Marcos de Noronha e Junior Malta iniciaram na profissão dessa maneira, em Terra Estrangeira (1995) e Central do Brasil (1998), respectivamente, para conseguirem adquirir experiência e conhecimento para a função de gaffer. Charlone acredita que acompanhar filmagens, estudar, ver livros de fotografia, assistir cinema, conhecer um pouco de pintura ajudam na formação do gaffer, mas o principal é a prática cinematográfica. A formação acontece no set e no dia a dia, testando e conhecendo os equipamentos, com ajuda da equipe e do diretor de fotografia. Além disso, para finalizar, ambos os gaffers acreditam que o sucesso de um trabalho está relacionado à boa relação de amizade e companheirismo entre o diretor de fotografia, gaffer e sua equipe.

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