Desafio da Luz Tropical 2

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Por Lauro Escorel

Considerações a propósito de ” O Desafio da Luz Tropical ” por Carlos Ebert, ABC

Em primeiro lugar queria dizer que gostei muito de “Eu, Tu, Eles” e que o achei extremamente bem fotografado .Gostei também da tentativa do Ebert de sistematizar algumas de suas idéias a partir do filme pois acho que nossa ABC só sobreviverá se ela se caracterizar por ser um “forum” permanente de debates pelo aprimoramento da cinematografia no Brasil .Com este espirito, passo a comentar alguns trechos do texto, tentando lançar mais luz sobre algumas das questões ali abordadas sem nenhuma pretensão de esgotar o tema.

Tenho a impressão que todo o texto parte de uma premissa que é a de que só existe uma luz brasileira, e esta é a mais verdadeira e a mais representativa da nossa realidade. Não pude deixar de me perguntar: de que realidade? O viés é de documentarista com o olhar vendo somente a luz dura dos trópicos entre 9 hs da manhã e e 3 hs da tarde.

Isto me surpreendeu pois como documentarista, já tive a oportunidade de fotografar por todo este Brasil sob as mais diferentes luzes. Volta a pergunta: Qual delas é a mais representativa do nosso Brasil ?

Não é minha intenção negar que a luz tropical é um problema a ser enfrentado por todos nós porém gostaria de abrir o leque das nossas possibilidades de atuação diante dela. Acho que no trecho abaixo, o Mário Carneiro faz um comentário muito especifico (e nem um pouco dogmático) e que se refere as dificuldades de captação de uma determinada luz :

” … .Mário Carneiro, fez alguns comentários que me serviram de ponto de partida para encaminhar a questão da luz nos trópicos (1). Dizia o Mário naquela ocasião: “Aqui, por exemplo, você sai no sol brasileiro. Você está com 8 diafragmas entre a luz e a sombra! É um inferno. E isso não vai mudar. Nosso clima é esse. Se quiser amansar isso, fazer fotografia tipo Almendros (2), final de tarde. Duas horas de tarde, duas horas de manhã…
No meio do dia faz uns planinhos de interior. Acaba ficando uma coisa cansativa, porque parece que só há duas iluminações aqui na terra: Quando o sol nasce e quando o sol se põe. Eu gosto de também ousar. De luzes bem violentas. …. ”

Acho que este é um comentário que esta ligado a um determinado momento do nosso cinema e fruto também dos negativos que até ali existiam. Se lermos o resto da entrevista veremos que ele fala desta luz tropical tanto a partir do filme PB quanto do colorido e no colorido fala extensamente da necessidade de compensar violentamente os contrastes naturais dos trópicos. Sua estética foi desenvolvida à partir da articulação do seu olhar com os recursos disponíveis na época.

Ele foi o primeiro diretor de fotografia que vi usando rebatedores e luz artificial em exteriores dia . Naquela época os negativos tinham uma latitude muito mais restrita do que hoje e basta assistir ao filme “Quase nada” fotografado pelo Guy Gonçalves para ver que tirando partido da latitude por inteiro do negativo é possível capturar lindamente aqueles 8 diafragmas que tanto preocuparam aos nossos fotógrafos nos idos dos 60 …

Quanto a passagem que diz : ….”fiquei com a impressão o tempo todo de que o filme não se passava no agreste nordestino, onde uma das características da luz é a sua posição zenital durante as horas do meio do dia.
Disso resultam sombras acentuadas e um “esfriamento” das cores resultante da alta temperatura de cor da luz do céu. Ao optar pelo tom dourado e pelas horas próximas ao amanhecer e entardecer, perdeu-se a meu ver, a imagem árida e impactante que caracteriza o sertão nordestino….”

Fiquei pensando e novamente não consegui concordar por inteiro com esta afirmativa. Fico tentando entender por que será que todos nós temos a tendencia a criticar os filmes a partir do que nós imaginamos e não a partir do filme que foi de fato realizado.

Digo isso porque minha vivência do nordeste e mais recentemente no cerrado de Goiás me demonstra que sempre que possivel, a população local, realiza as atividades fora de casa ao amanhecer e ao entardecer procurando abrigo nas horas de sol a pino. As sombras profundas dos interiores durante as horas de sol a pino contrastam com sol do lado de fora e isso ,eu achei muito bem captado pelo Breno.

A fotografia dele, em nenhum momento me pareceu menos verdadeira do que a fotografia de Luis Carlos Barreto em ” Vidas Secas ” ou do Affonso Beato em ” Antonio das Mortes”. Aliás queria lembrar que o Affonso, tirou partido das nuvens de Milagres (cidade onde o filme foi filmado ) para atenuar os violentos contrastes do nosso nordeste. O filme tem muitas seqüências fotografadas em horários nublados e assim ele deixa o colorido do figurino criar o contraste cromático.

A maior parte dos quadros de Franz Post retratam a luz mais inclinada dos entardeceres nordestinos e isso me fez pensar se o horário dele sair para observar a cena pernambucana não era depois da sesta da tarde . Sesta esta que todos nós, se pudéssemos, faríamos durante um dia de filmagem.

Os pintores que se atreveram a pintar o sol do meio dia o fizeram em paisagens, em “planos gerais”. Como ficamos nós quando queremos modelar o rosto de nossos atores? Quantas vezes no passado não nos vimos procurando o olho, a expressão de um ator perdida atrás de dois buracos negros provocados pelo sol de meio dia?

No fundo estou querendo dizer que esta história de luz brasileira me cheira mais a mistificação e marketing. Cinema imperfeito, Dogma 95, Luz Brasileira foram todos rótulos encontrados para classificar momentos específicos das cinematografias cubana, dinamarquesa ou brasileira e basta examinar mais atentamente cada uma destas escolas para localizar suas limitações e a diversidade de talentos de cada uma delas.

Ozem Sermet, Chick Foyle, Mario Carneiro, Luis Carlos Barreto ou Breno Silveira corresponderam as necessidades estéticas dos seus projetos e do seu tempo. Acho que a opção fotográfica de Eu, Tu, Eles é perfeitamente adequada ao projeto. A opção pelos melhores horários acompanha perfeitamente a delicadeza, a singeleza do filme.

Voltando ainda ao texto:

” …Por outro lado, alguns profissionais formados no cinema publicitário tentam transpor uma estética e um “look clean” para filmes de ficção rodados em regiões agrestes, obtendo um resultado que peca pelo artificialismo, reincidindo no erro apontado lá atrás por Aronovich ( “…os filmes não refletem na fotografía, a realidade da luz, da temperatura ou a realidade social da locação em questão”.).. ”

Acho que um dos méritos deste trabalho é conseguir estabelecer um conceito fotográfico e executá-lo ao pé da letra.
Deveríamos dar parabéns ao Breno, ao Andrucha e a própria Conspiração por terem criado condições de trabalho que permitiram que isso desse certo.

Todos sabemos da energia e disciplina necessárias para conseguir um resultado tão uniforme. Por isso não entendo a queixa do “artificialismo” . Quanto ao Aronovich, foi com ele que aprendi a utilizar os meus enormes buterflies como forma de driblar a dureza da luz dos trópicos…

Para finalizar, assim como Batista da Costa e F.Post viram e pintaram luzes diferentes, o mesmo vale para o Breno e qualquer um de nós.

Breno venceu os olhos negros e registrou lindamente as emoções delicadas de Darlene e seus tres maridos.
Um filme que pode e deve representar bem nossa cinematografia em qualquer parte do mundo.

PS: Venceu também o Ebert por abrir um debate tão instigante.

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