ABC e a (re)construção de um cinema… E de uma cidade

Por Ninho Moraes, ABC

Através da educação, a Associação Brasileira de Cinematografia tem participado de um importante momento da re-construção de um Festival de Cinema, que também visa a criação de uma indústria do audiovisual em Alagoas e a recuperação de uma das maiores salas de exibição do Brasil. Trata-se do Circuito Penedo de Cinema, que é realizado em uma cidade histórica – a terceira Vila do Brasil, criada em 1615 –, às margens do Rio São Francisco.

Só neste ano, 2018, quatro associados da ABC estiveram no evento que aconteceu de 27 de novembro a 2 de dezembro na cidade alagoana: eu, Carlos Klachquin, ABC (consultor da Dolby) e os fotógrafos Lucas Pupo e Fernanda Tanaka.

Vamos para a história: Penedo-AL sediou um importante Festival Nacional entre 1975 e 1982. Grandes filmes, como Bye Bye Brasil, foram lançados lá. Dezenas de artistas e realizadores participavam do evento que acontecia todo mês de janeiro no suntuoso Hotel São Francisco, que tinha a melhor sala de cinema do Nordeste, com 1.200 lugares, apesar de ficar numa cidade pequena, de apenas 60 mil habitantes. A região e a cidade sofreram muito com os seguidos represamentos no rio São Francisco, que passou a receber barragens e mais barragens. A economia não resistiu com a falta de água que a irrigava. O rio praticamente morreu e o Festival foi junto.

Há 10 anos, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que tinha acabado de criar um polo com duas Faculdades (Engenharia da Pesca e Turismo), resolveu apostar num provável Curso de Audiovisual.  Apesar de não fazer parte da Instituição, ajudei numa proposta pedagógica e nos contatos externos para um Festival de Cinema Universitário, junto com o então coordenador do polo, Sérgio Onofre. Traçamos as primeiras linhas e começamos a bolar o evento. Dois anos depois, incansável, Sérgio lançou o primeiro festival e até hoje segue no comando geral de uma boa estrutura e organização. Uma nova geração de audiovisual está surgindo na região. O incrível é que Alagoas, junto com Rondônia, era o único Estado da Federação que não contava com nenhuma Lei de Incentivo. O evento foi um sucesso para uma população carente de entretenimento. Mas, o mais importante, é que estava guiado pelo vetor Educação: cursos, oficinas e workshops voltados para a criação de uma mão de obra local.

Em 2016, o Circuito Penedo ganhou forma e, além do Festival Universitário, foi retomado o Festival do Cinema Brasileiro, mas apenas para curtas, que em 2018 chegou a sua décima primeira edição (usando a contagem dos anos 70-80), além da Mostra Velho Chico, que estimula o Cinema Ambiental. Enquanto isso, a Ufal comprou um pequeno cinema da cidade (sim, Penedo tinha dois cinemas…), onde está criando a estrutura para um futuro Curso Universitário. Além disso, lançou desafios para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e a Prefeitura ajudarem na recuperação do Cine São Francisco.

Um dos grandes diferenciais do Circuito Penedo está na área educacional, ponto de encontro importante com a ABC. Todo ano eu sigo para Penedo como colaborador da programação, debatedor com os realizadores (produtores, diretores e atores) dos longas convidados e professor de cursos – caso de Direção de Atores que ministrei agora em novembro (foto abaixo, ao lado dos diretores Julio Hey e Luiza Villaça) –, e já convidei vários profissionais da ABC para ministrar oficinas, com destaque para Tide Borges, ABC, técnica de som.

Resumo da Ópera: neste ano, o cinema está em fase final de restauro e recebeu a visita técnica de Carlos Klachquin, que está preparando um projeto de projeção e áudio para a sala. Klachquin também deu uma palestra sobre o Som no Cinema. Já Fernanda Tanaka ministrou uma Oficina sobre Direção de Fotografia para interessados de todo Brasil e Lucas Pupo fez uma integração com o Curso de Engenharia da Pesca, ministrando um workshop de cinematografia subaquática para 15 alunos (foto acima).

O Circuito Penedo de Cinema é realizado pelo Instituto de Estudos Culturais, Políticos e Sociais do Homem Contemporâneo (IECPS), em parceria com a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e com a Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (Secult), com patrocínio do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e da Prefeitura de Penedo. Para saber mais, acesse as redes sociais e o site do Circuito Penedo de Cinema.

Ah, os imensos murais que embelezam o Cine São Francisco foram feitos nos anos 1970 pelo artista pernambucano Lula Cardoso Ayres. Só de olhar já dão imenso prazer….Nos vemos em Penedo em 2019!

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