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Elas por trás das câmeras: reflexões sobre as mulheres no audiovisual

Equipe do piloto da série “Feminística” (2017).

Por Danielle de Noronha

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados em 2013, as mulheres representam 51,4% da população brasileira. Entretanto, por mais que as mulheres sejam a maioria, ao olharmos para o mercado de trabalho a presença feminina ainda é menor e mais precária. Em 2007, as mulheres ocupavam 40,8% das vagas do mercado formal e em 2016 representavam 44%, demonstrando um leve aumento no período, conforme reportagem divulgada pelo Portal Brasil. Além disso, uma pesquisa realizada pela Catho, este ano, mostra que as mulheres ganham menos que os homens em todos os cargos, sendo que em algumas áreas, como idiomas, a diferença pode chegar a mais de 110%. No audiovisual a situação não é diferente. Um estudo divulgado recentemente pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), que tem o objetivo de mapear o perfil do emprego no audiovisual entre os anos de 2007 e 2015, mostra que as mulheres ocupam 40% dos cargos no setor e que em 2015 elas receberam em média 13% menos que os homens. Ainda segundo a Ancine, em 2016, 20,3% dos filmes lançados no país foram dirigidos por mulheres, porém metade dessas produções são documentários, o que aponta para uma presença feminina em filmes de menor orçamento. Ainda, dos dez filmes brasileiros mais vistos nesse mesmo ano, apenas dois contam com mulheres à frente da direção.

A intersecção entre gênero e trabalho aponta ainda para outras disparidades. Conforme reportagem do jornal O Globo, as mulheres ocupam somente 37% dos cargos de chefia nas empresas, e se olharmos para o setor público o número ainda diminui para 21,7%. O texto também mostra que a taxa de desemprego da mulher é de 11,7%, enquanto a do homem é de 9,6% e que a mulher ganha, em média, 76% do salário do homem. Nos cargos de chefia este número cai para 68%. Se olharmos especificamente para a mulher negra, ela recebe cerca de 40% menos do que o homem branco. Por outro lado, a média semanal de trabalho das mulheres conta com 7,5 horas a mais do que a dos homens, contabilizando as atividades realizadas fora e dentro de casa, segundo informações do IBGE.

Também é possível perceber a construção social que vincula determinadas áreas ao gênero feminino e outras ao masculino. Em 2013, por exemplo, as mulheres eram maioria nos cargos de saúde e serviços sociais, educação, alojamento e alimentação, enquanto os homens eram maioria na construção, indústria extrativa e transporte. Para Marcia da Silvia e Virginia Fonseca, em artigo publicado em 2011, as distinções de gênero com muita frequência se transformam em relações desiguais entre o masculino e feminino em todos os campos da vida social: nos corpos, nos discursos, nos conhecimentos, nas práticas sociais, nas famílias, nas notícias e formas de representação, como também nos lugares sociais que são mais comumente ocupados. Além disso, ainda vale ressaltar que as pesquisas consideram o gênero relacionado ao sexo biológico, invisibilizando a participação de homens e mulheres trans, por exemplo. Porém, como lembra a filósofa Judith Butler, o gênero não é resultado causal do sexo, nem tão rígido como ele.

 

Foco no audiovisual

Ao direcionarmos a atenção para a cinematografia, os números que encontramos são ainda mais alarmantes, como é possível constatar no banco de dados Mulheres em Equipe de Fotografia Cinematográfica, em construção, que é parte da pesquisa desenvolvida pela professora e diretora de fotografia Nina Tedesco desde 2014. Em um artigo publicado em 2016, a professora da UFF (Universidade Federal Fluminense) apresenta que apenas 4% dos longas brasileiros de ficção lançados entre 1984 e 2014 foram fotografados por mulheres. “A gente fez essa opção metodológica por longas-metragens de ficção por considerar que é o produto mais exibido nas salas de cinema e que em geral tem os maiores orçamentos, maiores remunerações, mais prêmios, mais chance de contribuir para a carreira e também mais difícil de chegar, consequentemente”, explica.

Nina Tedesco na filmagem do curta-metragem “Drakkar” (2014).

Nina pesquisa a relação entre gênero e direção de fotografia desde 2010. “Eu comecei a estudar a partir da técnica da direção de fotografia antes de estudar as profissionais. Então, nos primeiros anos, o meu objetivo de pesquisa era entender porque os manuais de fotografia, desde a primeira metade do século passado até materiais que foram lançados já nos anos 2000, tinham regras diferentes para fotografar homens e fotografar mulheres”. Porém, mesmo não sendo foco da pesquisa, ela se deparou com o fato da direção de fotografia ser um território predominantemente masculino “e muitas vezes visto como exclusivamente masculino, embora nunca tenha sido”. Para a pesquisadora existe uma invisibilidade muito grande das profissionais que atuam como diretoras de fotografia: “e sem dúvida nenhuma essa conformação da técnica que vai construir visualidades diferentes para homens e mulheres a partir de determinadas características que são tidas como naturais de um e outro tem a ver com o fato de historicamente quase não ter mulher na direção de fotografia ao longo de todas essas décadas”, complementa.

Também é importante considerar que por mais que a fotografia seja uma das áreas da produção audiovisual com maior disparidade entre os gêneros em todo o mundo (como veremos mais abaixo), a desigualdade entre homens e mulheres se repete em outros departamentos, como nas equipes de som e de pós-produção, por exemplo, em que a presença feminina também é menor, principalmente quando se considera os cargos de chefia.

Mesa debateu as mulheres na cinematografia na Semana ABC 2017.

A mesa “Quando o vento faz a curva: mulheres na cinematografia”, apresentada na Semana ABC 2017, a reportagem divulgada pelo site Cine Festivais, entre outros diversos movimentos protagonizados por mulheres do audiovisual, como coletivos, mostras, editais, são exemplos da importância de visibilizar cada vez mais o tema, como também o trabalho feito por mulheres. Buscando contribuir para o debate, esta é a primeira de uma série de reportagens sobre as mulheres no audiovisual que serão publicadas ao longo do semestre no site da ABC, que tratarão de alguns aspectos da relação entre gênero e cinema a partir de dados e entrevistas com sócias e profissionais de diferentes áreas da produção audiovisual.

 

Iluminando o problema

O machismo é um padrão de poder que atua nos imaginários e nas ações dos indivíduos de uma sociedade. Está presente no nosso dia a dia de várias formas e, como seres culturais, muitas vezes o reproduzimos sem perceber. Nossos costumes, práticas e convenções sociais, muitas vezes compreendidos como questões naturais, são na verdade construções. Como é possível constatar ao analisarmos o caso do mercado de trabalho. Pensando na relação entre os gêneros, certos padrões de comportamento, que estão presentes tanto no âmbito individual como no social, podem ser traduzidos como mecanismos de opressão, responsáveis por determinar relações de poder, hierarquias, lugares e papéis que as pessoas ocupam na sociedade. Para Amina Jorge, produtora, diretora e roteirista, “nós vivemos numa sociedade machista e isso é muito importante destacar, não adianta a gente falar só de indivíduos machistas, porque se a gente fala de indivíduos machistas parecem casos isolados e não social”.

Eliane Caffé

Eliane Caffé, que dirigiu o seu primeiro longa-metragem em 1998 (“Kenoma”), conta que quando entrou para o universo do audiovisual as diferenças de gênero não se configuravam como um problema para ela: “Ela podia existir, mas eu não conseguia formular como uma questão que eu estivesse vivendo na pele. Então ela se misturava mais com uma questão mais geral, não específica do cinema. Por exemplo, eu me formei em psicologia e na faculdade a predominância era de mulheres que faziam o curso, na PUC. Mas o curso de administração era predominantemente masculino. Agora, por que as mulheres fazem psicologia e não administração de empresas, eu acho que isso é uma herança cultural que vem de séculos, que vai mais ou menos orientando a sua opção, que muitas vezes você acha que é livre escolha e na verdade está muito determinada pelo cultural”. Porém, para a diretora, recentemente as pessoas começaram a pensar que talvez não seja tão natural “que não tenha mulheres no curso de direito ou no curso de administração. Ou porque não tem tantas mulheres exercendo a função de direção de fotografia. A mudança é por aí, quando se torna uma questão consciente”.

Desde uma perspectiva macro, Eliane faz parte do grupo minoritário das mulheres diretoras de cinema no Brasil, porém na sua experiência individual como diretora conta que passou por poucas situações desagradáveis por ser mulher: “teve casos muito pontuais em que eu senti isso em relação a atores, mais velhos, que quando eu estava dirigindo eu senti um desconforto por talvez eu ser mulher, mais jovem…”, pondera. “Talvez eu tenha sentido mais quando se formava as organizações tipo políticas do cinema. Eu fui em algumas reuniões e eu sentia que tinha ali uma coisa muito masculina, em termos da trama, de como discutir, debater, pensar as estratégias. E aí eu me afastei. Eu senti mais nesse lado, não tanto no campo artístico, mas no campo político explicito mesmo”.

Diretora dos filmes “Narradores do Vale de Javé” (2003), “O Sol do Meio Dia (2009) e “Era uma Vez o Hotel Cambridge” (2016), Eliane é um exemplo de diretora que nunca trabalhou com uma fotógrafa e na sua opinião uma das questões é a dificuldade de ter acesso aos trabalhos feitos por mulheres, o que remete para a necessidade de visibilizar mais a produção dessas profissionais. “Quando você vai fazer a sua escolha, você vai convidar um diretor para fazer a fotografia, você vai muito referenciado pelos filmes que ele já fez e o que aconteceu é que eu encontrava muito mais filmes feitos por diretores masculinos do que femininos, que têm um portfólio grande em relação às mulheres, que são poucas. Então, eu acho que isso influencia muito na hora de você escolher, nem aparece, e quando eu vou fazer a escolha, por exemplo, para a direção de fotografia, eu não penso no gênero, eu penso no artista”.

 

Captando algumas experiências: da formação ao set de filmagem na direção de fotografia

Kátia Coelho, ABC é uma referência quando o assunto é mulher na cinematografia brasileira. Katinha foi a primeira mulher a assinar a fotografia de um longa-metragem comercial no país com “Tônica Dominante” (2000), da diretora Lina Chamie. “Eu entrei na faculdade e meu professor me adotou como assistente de câmera, o Zé Bob (José Roberto Eliezer, ABC) era assistente dele, e em alguns trabalhos ele me chamava para aprender. Era o Chico Botelho, ele era incrível. Mas ninguém me avisou que não tinha mulher, eu não sabia”, relembra.

Kátia Coelho, ABC no set de “Fuzarca no Paraíso” (1982 – ECA-USP).

Começou a sua carreira como assistente de câmera em 1983, num período em que havia poucas mulheres exercendo esta função, e atuou em 19 filmes como primeira assistente. “Eu tinha feito ‘Brincando nos Campos do Senhor’ (1991), com o Lauro Escorel, e quando eu voltei para São Paulo eu pensei ‘nossa, eu nunca mais vou fazer alguma coisa que me ensine mais do que esse filme aqui no Brasil como assistente de câmera’. O Hector Babenco era um super diretor, era uma aula por dia, foram seis meses de filmagem, muitos equipamentos, com muitas unidades de câmera. No total, eu fiquei um ano no filme e quando eu cheguei em São Paulo entrei em crise. Aí eu fiz uns comerciais como assistente, mas resolvi viajar um pouco. Na volta falei que iria fotografar. Comecei a fotografar curtas. Eu já tinha fotografado alguns, com o primeiro que eu fotografei eu ganhei Gramado, em 1987, mas só deixei de ser assistente de câmera mesmo em 1992 ou 1993. Na verdade, você só se sente diretor de fotografia mesmo quando você faz um longa, uma coisa doida, porque você tem todo o percurso da distribuição, da marcação de luz, do tempo, você tem que construir aquela linguagem…”, analisa.

Durante sete anos, Katinha também foi professora de cinematografia da USP. “A minha experiência dando aula é bem diferente da minha experiência como aluna porque já tinha uma especialização de fotografia em que você fazia cinco semestres de fotografia em movimento, além das aulas de fotografia estática, que na minha época de aluna não existiam. E quando professora eu tive uma classe que era praticamente só mulher fazendo fotografia”, conta. A presença feminina no curso de audiovisual é uma das indagações que pode ser feita ao tratar da relação entre gênero e cinema. Atualmente, a porcentagem entre homens e mulheres que frequentam o curso é muito parecida, porém a presença feminina diminui muito quando olhamos para o set de filmagem.

A diretora de fotografia Kika Cunha se formou por volta de 1995. Começou a sua carreira na equipe de fotografia como video assist, depois passou para segunda e primeira assistente, começou a operar câmera e fotografou o seu primeiro longa-metragem em 2010. “Tudo foi muito lento na minha carreira, lento no sentido de que eu fiz todas as etapas muito tempo”, pondera. “Meu primeiro longa fotografando é o ‘Jogo de Xadrez’, do Luiz Antonio Pereira. Eu já tinha feito dois curtas dele. Eu gosto muito desse filme, todo câmera na mão, tinha pouco dinheiro, a gente fez com (uma câmera Canon) 5D e quando a gente olha na tela não parece, o resultado ficou muito bacana, foi um filme muito intenso, com muitos planos sequência, a gente quase não usou tripé. É um filme que eu tenho o maior carinho”, conta.

Kika Cunha no set da série “Toda Forma de Amor” (2017).

Para Kika, hoje tem mais mulheres no set e nas equipes de fotografia do que quando ela começou a trabalhar, mas acredita que a posição de chefe ocupada por mulheres é algo que ainda está em construção e que tem acontecido com mais frequência apenas recentemente. “Eu lembro de várias assistentes da minha época que desistiram: uma virou professora de ioga, outra foi morar fora do Brasil, outra desistiu e parou de trabalhar”. Kika avalia que a dificuldade de entrar no mercado como fotógrafa desanima, o que faz com que muitas mulheres abdiquem da profissão depois de formadas. “Então você via um número muito maior de assistentes de câmera do que de fotógrafas. Mas hoje em dia a gente já tem um número de fotógrafas bem expressivo e eu acho que é fruto dessa geração de assistentes de câmera”, analisa. Amina complementa: “entre os motivos que levam as mulheres a não ficarem na área é que você tem que ser muito insistente, e bancar ganhar menos”. Por outro lado, existem algumas áreas, como a direção de arte e a produção, entendidas socialmente como “funções de mulher”, nas palavras da produtora, em que é mais fácil encontrar a presença feminina, como é possível comprovar no gráfico abaixo referente aos CPBs emitidos em 2015 e 2016 pela Ancine.

 

Gráfico divulgado no estudo Participação feminina na produção audiovisual brasileira (2016), desenvolvido pela Ancine.

 

“Eu comecei no cinema como diretora e roteirista, eu não entrei no cinema como produtora, eu fui ser produtora lá no meio da faculdade porque era como eu arrumava emprego, como assistente de produção. Aí quando eu estava no quarto semestre virei diretora de produção. Eu ter virado e ter me firmado como produtora, muito mais do que como diretora e roteirista, é um reflexo do lugar de onde a gente vive. Que, como mulher, era o meu lugar. Também fiz muita assistência de direção. E faço muito de acumular a duplinha assistente de direção e produtora para documentários, em que as equipes são menores. Eu adoro ser produtora, mas o fato de eu conseguir trabalhar muito mais e ter funcionado muito melhor como produtora é porque esse é o lugar que eu consegui, como mulher”, reflete Amina.

As experiências de Kátia, Kika e Amina se repetem na vida de várias outras mulheres. Para Nina, a oportunidade é uma das questões que dificultam a presença feminina na direção de fotografia, o que também pode ser ampliado para outras áreas da produção audiovisual: a profissional tem que ser chamada para os trabalhos. “Na minha experiência, por exemplo, éramos vários de uma mesma geração que queríamos trabalhar com direção de fotografia e eu chamei vários deles para fazer filmes que eu fosse fotografar e fui chamada por poucos. Tem essa questão do convite, das oportunidades, que não aparecem da mesma maneira. Pelo menos para uma boa parte das mulheres”. Kika acrescenta: “Eu acho que o mercado ainda é muito machista, o mercado chama as pessoas que tem mais afinidade e geralmente dão preferência para o amigo mesmo, do gênero masculino, do que abrir para uma livre concorrência, independente de gênero, pelo trabalho, pelo resultado”.

Além do convite e de mais oportunidades de trabalho, outra questão apontada por Kika trata do nível e tamanho das produções para as quais as mulheres são convidadas. “A gente gostaria que o nível dos trabalhos também melhorasse. Não oferecer para mulher só o filme mais ou menos sem dinheiro, que não tem câmera, não tem equipamento, e quando entra um orçamento melhor chama o fulano de tal. Isso acontece direto, para o curtinha chama a fotógrafa, mas pro longa bacana, não, vamos chamar um homem”, lamenta.

Débora Vieira no set do curta “Estranhas” (2016 – UFF). Foto: Carol Lobo.

Para Débora Vieira, que está no quarto período do curso de cinema da UFF, e pretende seguir a profissão de diretora de fotografia, a questão do gênero não lhe configurava como um problema antes de entrar na faculdade.  “Eu só comecei a prestar atenção no fato das mulheres estarem menos presentes nas equipes depois que entrei na faculdade. Eu nunca tinha pensado que isso seria empecilho”. Formada em publicidade, Débora explica que já tinha estudado sobre o machismo nesta área, tanto dentro das agências quanto em algumas campanhas que foram veiculadas, “mas realmente no cinema e audiovisual eu tinha pouca noção e não tinha refletido tanto sobre”. Em sua classe tem mais homens do que mulheres, mas ela acredita que já há um equilíbrio maior nas turmas que se formaram posteriormente, além disso, nos sets em que participou para atividades do curso, ela conta que muitas mulheres faziam parte da equipe de foto.

Por mais que a temática de gênero esteja mais presente na vida das alunas, por motivos óbvios, Débora percebe que alguns colegas têm a preocupação de formar equipes mistas e com mulheres na direção de fotografia, por exemplo, ainda que no âmbito universitário também existam desigualdades e menos oportunidades. “A primeira assistência de foto que fiz em um set da faculdade foi para o Lucas Badini, que estava na direção de fotografia do curta ‘Lia’ da diretora Giulia Donato. No semestre que vem vou participar de um curta como 2ª assistente de câmera em que a equipe de foto é formada em sua maioria por mulheres (três comigo e um homem) e sei que o diretor teve essa preocupação de que a direção de foto do curta fosse feita por uma mulher. Mas ainda assim quem mais me chamou para participar de equipes de fotografia foram mulheres”, diz.

Durante aula prática na UFF.

Ao olharmos para os docentes, na opinião de Débora, a questão do gênero é discutida, principalmente pelas professoras, mas em sua opinião poderia estar mais presente na sala de aula: “Eu acho que o debate é muito importante, na sala de aula, nos eventos, debater essa desigualdade que tem no cinema e aí a gente consegue fazer com que as pessoas que estão entrando agora consigam pensar mais sobre isso e mudar. Pensar quando for formar suas equipes em chamar as colegas, as mulheres que estão começando também, e não fazer uma equipe só de homens”. Segundo pondera Nina, uma das professoras de Débora que trabalham o tema, “hoje em dia os professores levam isso cada vez mais em consideração. Há 10 anos podia ter aula de história do cinema mundial que você podia não citar nenhuma diretora. Houve uma mudança de mentalidade dos docentes, mas principalmente dos alunos, eles não aceitam mais isso, o que está obrigando os professores que ainda não tinham essa questão formulada, com uma clareza, a começar a formular isso”. Débora conclui: “Eu acho que eu não vou ser menos capaz por causa disso, mas talvez eu tenha menos oportunidades e vai acabar que eu vou trabalhar com pessoas que veem isso como uma questão importante e eu vou trabalhar com um monte de pessoas incríveis”.

 

Deslocando o olhar para quem está fora de quadro

Para visibilizar as profissionais que atuam nas equipes de fotografia, como também os seus trabalhos, foi formado há cerca de um ano o Coletivo DAFB – Diretoras de Fotografia do Brasil, que tem o objetivo de “organizar xs profissionais do mercado e fortalecer e estimular a nossa participação nesse segmento”. Kika acredita que o coletivo é muito importante para ajudar as mulheres a ter uma voz mais ativa. “Eu acho importante a gente ter visibilidade para mostrar que não somos em pouco número e que está todo mundo trabalhando. De uma certa maneira, acaba que alguém que nunca ouviu falar vai pensar no assunto, de repente um diretor que nunca pensou em chamar uma mulher para um filme ao ouvir alguma coisa do coletivo vai chamar uma mulher, que faz um trabalho igual ao de qualquer fotógrafo”, pontua.

Carol Rodrigues, idealizadora do site Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro

Nesse mesmo sentido, outras importantes iniciativas são o Coletivo Vermelha, criado por diretoras e roteiristas com a proposta de “pensar criticamente a condição feminina e as relações de gênero, com a intenção de empoderar, dar visibilidade e criar um ambiente de cooperação entre as mulheres do audiovisual”, e o site Mulheres Negras no Audiovisual Brasileiro, desenvolvido e mantido pela diretora e roteirista Carol Rodrigues. “Nosso objetivo é dar visibilidade aos nossos projetos, ampliar a rede de contatos e de parcerias como uma das formas de resistir e continuar numa área ainda machista e racista”. No site é possível buscar por profissionais que atuem em áreas como arte, fotografia, direção, edição e finalização e som, em diversos estados do país. Carol explica que a administração do site ainda não é feita por um coletivo, mas que elas estão organizando essa formação.

É possível constatar que os discursos e significados hegemônicos sobre gênero e raça organizam as pessoas em uma divisão de trabalho. Recentemente, o GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa) divulgou  dois boletins com o perfil de raça e gênero dos filmes brasileiros de maior público lançados entre 1995 e 2016 para as funções de direção, roteiro e elenco principal, que conclui, conforme é possível perceber na tabela abaixo, que “Em quase 50 anos de inúmeras mudanças políticas e sociais, o mesmo padrão se mantém para o cinema brasileiro de maior circulação: intensa desigualdade de gênero e, sobretudo, de raça. A produção cinematográfica do país é mais um campo em que a gravidade da questão racial se evidencia, e com particular intensidade para as mulheres negras”. A pesquisa mostra que apesar de ser a maior parte da população feminina do país (51,7%), as negras não estão presentes nem atrás, nem na frente das câmeras.

 

Tabela “Evolução da participação de raça e gênero” desenvolvida pelo GEMAA

 

Desde a produção do audiovisual, Amina, que trabalha majoritariamente com cinema independente, também tem buscado caminhos para visibilizar o trabalho das mulheres na prática, propondo outras formas de se relacionar com o mercado e de construir as relações de trabalho. “Todo técnico não é apenas um técnico, ele é um realizador e influencia no filme como um todo. Ele é parte criativa, ele não é uma mão de obra, uma força, ele faz parte desse filme enquanto o que o filme vai ser esteticamente na frente das telas”, explica.

A questão da presença feminina nos sets de filmagem, ocupando também a posição de chefes de equipe, sempre foi uma preocupação da produtora, e seus dois últimos projetos, realizados este ano, foram feitos com equipes majoritariamente femininas. “A gente começou a sempre tentar pensar um nome feminino primeiro, aconteceu função que não tinha, como chefe de elétrica. Então, para assistente, vamos pegar uma menina, porque para ela virar chefe ela precisa de mais trabalho. Imagina, ninguém confia e inclusive as mulheres não confiam também. Porque a gente reproduz, a gente vive nessa sociedade machista”, avalia. “Mas aí foi virando outras coisas, porque no começo foi um processo racional, ‘vou chamar mulheres’, foi um esforço, mas depois isso virou natural. Eu vou contratar alguém para uma função automaticamente tem sido mais fácil, mais gostoso e tem trazido outras questões, outros climas de trabalho e outras reflexões estéticas”.

O primeiro projeto é o curta “Sweet Heart” que, com exceção de elétrica, todas as equipes contavam com uma chefe mulher. O segundo é o “Feminística”. “A temática do ‘Feminística’ era toda feminina, sobre música, com artistas mulheres, e a gente se propôs a montar toda uma equipe de mulheres. E foi um descabelo. A gente percebeu que não era só ser mulher, até porque o conceito de mulher é muito amplo, e no fim a gente abriu para pessoas trans. A gente tinha uma equipe de mulheres e pessoas trans e foi muito massa. E você vê o tanto que esses nomes são invisibilizados porque eles não são chamados, mas são pessoas maravilhosas e o trabalho delas é incrível. Na cabeça dos homens você está chamando a pessoa porque ela é mulher. Mas não, eu tô chamando porque ela é uma baita profissional que não é reconhecida. Em momento nenhum eu estou dizendo que não quero mais ter parceiros homens, o que eu tô dizendo é que a gente tem que mudar essas relações, a gente tem que mudar essas lógicas. E a lógica é 90% homem e 10% mulher e para mudar a gente tem que num primeiro momento radicalizar, se propor alguns desafios, se propor um desafio de ter uma equipe inteiramente de mulher, propor o desafio de ter uma maquinista mulher, funções que historicamente não eram ocupadas por mulheres”, diz Amina.

Equipe do curta-metragem “Sweet Heart”.

Amina ainda inclui outra questão para refletir a formação dos profissionais. “Olha, fazer a faculdade de cinema já era uma coisa bem privilegiada. A faculdade de cinema não reflete o que vai ser um set  porque a maioria das pessoas que trabalha no cinema não necessariamente pôde fazer faculdade. Se a gente não considera, tem quase duas classes sociais, o que dentro da minha produtora a gente combate completamente. Claro que vai ter hierarquias e modos de funcionamento de um set, mas ninguém senta numa mesa pior, é tratado pior ou ganha um salário muito menor enquanto tem gente ficando milionária”, pondera. E em relação ao dia a dia de um set (tema que será ampliado em outra reportagem), a produtora ainda comenta “é muito mais fácil apontar machismo numa classe social inferior à sua, numa pessoa que tem menos importância no set”.

Para Amina, “Só trazendo para a consciência e para luz, e falar sobre isso, que a gente vai poder de fato fazer alguma coisa, conseguir a paridade de gênero e não necessariamente dizer que o problema do machismo é o fulano. Também é cômodo para os homens que a gente aponte o machismo em algumas coisas e que a gente eleja inimigos concretos. Claro, casos de assédio precisam ser denunciados, investigados, o que eu estou falando é que não é só apontar, é mudar o que a gente faz, mudar o nosso dia a dia, e claro, brigar por isso institucionalmente. Se a gente não faz pressão, não briga para o edital ter paridade de gênero nos juris, nos premiados, não briga para que tudo ocorra também institucionalmente, nada adianta”.

A questão da falta de representatividade das mulheres ultrapassa a produção e também está presente nos juris de editais e festivais e, consequentemente, nos projetos que são desenvolvidos e premiados. Segundo uma reportagem divulgada no Correio Brasiliense, a Ancine passou a estabelecer bancas mistas nos editais de cinema para reduzir as diferenças de investimentos entre homens e mulheres. A reportagem mostra que dos 22 projetos escolhidos pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para receber subsídio financeiro apenas quatro eram dirigidos por mulheres. Porém, Amina acredita que não é qualquer representatividade que importa. “Quando pensamos na inclusão das mulheres em posições de chefia ou liderança, temos que pensar também em quais tipos de mulheres estamos incluindo, falo isso por uma questão de mercado. Não adianta uma mulher que pensa igual ao homem machista, ou que pensa o cinema como uma grande indústria que se vale da exploração do grupo social que estiver marginalizado. Se não for uma mulher que está pensando o cinema de um outro modo, não vira uma solução”.

É importante buscar ressignificar o papel da mulher na sociedade – e no audiovisual. É necessário buscar transformar os significados naturalizados e estabelecidos nos discursos e práticas sociais, que contribuem para a manutenção de opressões, preconceitos, desigualdades, silenciamentos. O audiovisual só tem a ganhar com mais diversidade. A diversidade de gênero, racial, étnica, bem como as diferentes formas de entender a produção, distribuição e exibição de conteúdos audiovisuais, significa um cinema mais rico, plural e representativo.

 

Um zoom na questão

A disparidade de gênero não é exclusividade do cinema brasileiro. Uma reportagem do Diário de Pernambuco mostra que um levantamento feito pelo Centro para o Estudo das Mulheres na Televisão e no Cinema (CSWTF, na sigla em inglês), da Universidade Estadual de San Diego (EUA), aponta que apenas 17% dos responsáveis pelas 250 maiores bilheterias de 2016 eram mulheres, entre diretores, roteiristas, produtores, editores, diretores de fotografia, etc. Entre os 250 títulos analisados no estudo apenas 17 tiveram mulheres na direção. Além disso, elas representavam 24% dos produtores, 17% dos produtores-executivos, 17% dos montadores, 13% dos roteiristas e 5% dos diretores de fotografia. E, ainda, 35% das produções empregou apenas uma ou nenhuma mulher nesses cargos. A presença feminina nessas funções na América Latina também é bastante invisivilizada e carece de mais estudos sobre o tema.

No caso da direção de fotografia, outros dados corroboram com a invisibilidade das profissionais: dos 360 membros ativos da ASC (The American Society of Cinematographers), que passou a aceitar a inscrição de mulheres apenas nos anos 1980, somente 14 são mulheres. Lembrando que até hoje nenhuma mulher concorreu ao Oscar de melhor fotografia e apenas uma recebeu a estatueta de melhor direção. Já na  AFC (França) são 125 homens para 14 mulheres e dos 100 filmes lançados na Espanha no ano passado apenas nove contavam com mulheres na direção de fotografia.

Recentemente a ADF (Autores de Fotografia Cinematográfica da Argentina) apresentou uma mesa sobre o tema, durante o BAFICI 2017, e coletou alguns dados sobre a situação das associações de diretores de fotografia na América Latina, como o gráfico abaixo que aponta a distribuição de gênero nas associações de diferentes países. A mesa contou com a participação da diretora de fotografia Victoria Panero, ADF, uma das representantes da FELAFC (Federação Latino-Americana de Autores de Fotografia Cinematográfica), da qual a ABC também é filiada.

 

Gráfico retirado da apresentação “El secreto de sus miradas”, apresentado pela ADF no BAFICI 2017

 

Victoria, que atualmente está fazendo a fotografia da série “Once” (exibida no Brasil pelo Disney XD), conta que até pouco tempo atrás não questionava essa temática de gênero no audiovisual. “Resulta que há uns dois anos, as mulheres da ADF começaram a se juntar e falar mais sobre o tema e comecei a me questionar que na verdade eu tinha vivido diversas questões que estavam associadas ao gênero, mas que eu pensava que eram outras coisas, como ter que mostrar quatro vezes que é melhor que um homem, poder ganhar o mesmo que um homem, poder conseguir o mesmo tipo de projeto”, reflete.

Victoria Panero e a gaffer Milagros Chain no set de Once (2017).

Para a fotógrafa, estamos num momento de transição e é preciso aproveitá-lo. Desde a FELAFC, ela acredita que é preciso difundir o trabalho das mulheres e lutar para que tudo seja mais igualitário: “Por exemplo, segundo uma pesquisa, um festival em que os jurados sejam exclusivamente homens se costuma escolher mais projetos produzidos ou dirigidos por homens. Temos que conseguir que se visibilize os trabalhos feitos pelas mulheres para que saibam que temos uma capacidade distinta, uma sensibilidade distinta, temos qualidades distintas, mas que todas essas coisas são iguais de criativas, interessantes e fortes, do mesmo modo que pode ter um homem”. Sobre a presença das mulheres nas associações avalia: “No resto dos países a porcentagem é ainda menor do que na Argentina e no Brasil, com respeito a quantidade de mulheres, em algumas quase não tem representantes agora, mas também pensamos que algumas dessas associações são muito jovens e que leva um tempo para que os membros entrem, e que seja possível ver quais são as porcentagens mais reais”. “Somos poucas em cada associação, mas somos fortes, isso para mim é interessante”, conclui.

 

Sobre a ABC

Atualmente a ABC tem 275 associados e apenas 24 são mulheres. Entre os 177 sócios diretores de fotografia apenas nove são mulheres. A ABC é um espaço aberto a tod@s (e também para o diálogo) e que deve ser ocupado também pelas mulheres. Lembramos que para participar da associação é necessário que cada profissional se inscreva e solicite se associar. O mesmo acontece com o Prêmio ABC, que recebe inscrições de trabalhos audiovisuais (longa, curta, filme publicitário, série de TV e filme estudantil) do ano anterior a sua realização, sem a necessidade de ser sócia ou sócio para participar. Além disso, diferente das outras associações do ramo, reiteramos que a ABC é aberta para profissionais de diferentes áreas da cinematografia, como arte, montagem e som, e não apenas para fotógrafas e fotógrafos.

Mais fotos de projetos realizados pelas entrevistadas serão publicadas no Instagram da ABC.

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