—Let’s walk on the wild side of the pixel

A busca por uma imagem menos perfeita
Por João Pádua

A busca pelo controle da textura e qualidade artística da imagem na era do cinema digital foi sem dúvida a principal questão que dominou o salão da AFC 2016, que ocorreu nos dias 5 e 6 de fevereiro, ocupando o espaço da tradicional escola de cinema La Fémis em Paris.

Os diferentes painéis trataram de maneira diversa sobre a preocupação da padronização da textura da imagem que vem ocorrendo com a evolução das câmeras digitais. Além disso, o fenômeno da utilização cada vez mais frequente pela TV das câmeras com sensores S35mm, traz à tona mais uma vez na história do audiovisual a necessidade de diferenciação/renovação da experiência cinematográfica. A aparição dos grandes sensores (Alexa 65) e de novas séries de lentes anamórficas e vintage parecem apontar um dos caminhos.

Outra proposta mais radical – Let’s walk on the wild side of the pixel – foi feita pelos membros do comitê técnico da Imago, Kommer Klein (SBC), Rolf Coulanges (BVK) e Philippe Ros (AFC) que apresentaram um relatório desenvolvido junto com a Arri, em que procuram encontrar outras formas de aumentar o controle criativo dos fotógrafos nessa busca pela textura – criando espaço para uma imagem menos perfeita, aonde por vezes artefatos são bem vindos e a perda de nitidez ou resolução espacial não sejam necessariamente algo negativo. Diversos fotógrafos já vêm buscando se apropriar dos “defeitos” da imagem digital (i.e: Anthony Dod Mantle) mas me parece interessante a participação de um fabricante líder de mercado nesse processo. Em termos práticos, essa tentativa vai desde a criação de novas opções no menu das câmeras aonde se possa habilitar/desabilitar opções de controle de ruído (Amira), debayer etc. até o questionamento dos algoritmos matemáticos que servem de base para estabelecer a imagem ‘padrão’ a ser reproduzida pelo sensor.

O relatório pode ser baixado na íntegra aqui: http://www.imago.org/index.php/technical/item/410-workshop-at-arri-munich-how-to-control-the-texture-of-the-digital-image.html

Evitar a padronização e dar um look característico a imagem – Nesse combate que inclui a escolha da câmera [que alguns compararam a escolha da emulsão no mundo da película] e lentes, os filtros também tem o seu já conhecido papel. Alguns coloristas do grupo Eclair e Mikros/Technicolor apresentaram extratos de longas franceses e analisaram o resultado da utilização de alguns desses filtros no aspecto criativo e de suporte a narrativa. Apareceram principalmente: Tiffen Ultra-Contrast, Glimmerglass natural/bronze e Schneider Classic Soft HD – nem sempre disponíveis em todas as locadoras no Brasil.

A tendência por uma textura mais orgânica também foi acompanhada na apresentação da gama de produtos. Vantage Film, fabricante alemão das lentes Hawk apresentou a nova série esférica Vintage Kinoptik. Alexander Bscheidl, diretor da Vantage arrematou o que restava das antigas Kinoptik francesas dos anos 50 e com novo housing lançou a  série com 18, 25, 35, 40, 50, 75, 100, e 150 mm  e diâmetro frontal de 95mm.A Panavision apresentou as já conhecidas Primo 70, mas a maior atração foram duas das lentes Ultra Panavision (50 e 100mm) usadas por Robert Richardson, ASC no último filme do Tarantino – que até agora foi quem falou mais alto nessa briga por diferenciação, com a epopeia de filmar e projetar em Ultra Panavision 70.

A disputa pelo mercado das câmeras digitais deu a impressão de estar um pouco mais equilibrado (pelo menos por aqui) com várias produções recentes tendo optado pela Sony F55 (ex: Dheepan, Palma de Ouro 2015, dir: Jacques Audiard /foto: Eponine Momenceau) além da Alexa e Red Dragon.

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