Regra 34 – Pensamentos sobre como filmar corpos e sexo

Por Léo Bittencourt

Regra 34 é um filme que se arrisca, tanto na temática quanto nas cenas de sexo. Tivemos duas preocupações fundamentais ligadas à fotografia: tentar não estetizar os corpos e estabelecer uma dinâmica de equipe que pudesse dar o máximo de intimidade, tempo e acolhimento para os atores e atrizes durante as filmagens. A personagem principal do filme, Simone, é uma mulher negra, interpretada pela Sol Miranda. O cuidado na forma de filmar o corpo negro e o objetivo de centralizar o filme nas personagens nortearam todas as nossas escolhas estéticas.

A indústria do cinema, da televisão e da pornografia criou padrões e estereótipos sobre os corpos, principalmente os corpos femininos. Não queríamos seguir esses padrões, não queríamos uma imagem “bonita”, não queríamos dramatizar nem supervalorizar os corpos ou o sexo. Nossa principal questão não era sobre o que podíamos ou não podíamos mostrar nas cenas de intimidade e sim como mostrar.

Nas conversas iniciais, eu e a Júlia Murat, diretora do filme, sabíamos o que não queríamos e tínhamos alguma intuição de como deveria ser a nossa imagem. Júlia estudou, viu e pesquisou muito sobre a representação do corpo feminino no cinema. Criamos, então, a partir do que não gostávamos nessas representações, tendencialmente machistas, nossas próprias regras: não usaríamos contraluz, não teríamos movimento de câmera, pouco contraste na imagem, mais profundidade de campo focal, uma luz o mais difusa possível e o mínimo de fontes de luz.

Queríamos uma imagem mais chapada e leve pro filme, com as personagens se confundindo com o fundo, sem ressaltarmos seus contornos. A imagem iria, portanto, na contramão da densidade crescente do roteiro e também do que se espera de um filme com temática sexual. Sabíamos que essa escolha poderia frustrar certos expectadores e o objetivo era esse mesmo, criar uma imagem que não chamasse a atenção pra si e conferisse o máximo de atenção para a atuação. Por isso, optamos por uma escolha de uma decupagem simples e mais clássica de plano e contra plano, sem movimento de câmera, para ressaltar as nuances internas dos frames e a pluralidade de emoções das cenas.

O filme segue a personagem da Simone em sua rotina dupla de trabalho, a vida como defensora pública e as performances sexuais pela internet. A preocupação da direção em não criar hierarquias entre as ocupações da personagem e não gerarmos a sensação de serem dois mundos distintos, e sim dois focos de interesse igualmente importantes, fez com que as escolhas estéticas feitas para as cenas de sexo fossem aplicadas também para o filme todo. Esse caminho foi bastante difícil no começo, porque ele é o oposto ao que normalmente buscamos no cinema, a construção da tridimensionalidade na imagem. Isso exigiu uma reeducação do olhar de toda a equipe, direção, figurino, arte e fotografia.

As cenas de maior intimidade abrangem tanto cenas de sexo como performances sexuais e práticas de BDSM (sigla que denomina um conjunto de práticas sexuais consensuais envolvendo bondage e disciplina, dominação e submissão, sadomasoquismo). O pequeno núcleo de atores que vivenciou essas cenas, Sol Miranda, Lucas Andrade e Lorena Comparato, precisava de um set que pudesse dar para eles o máximo de respeito, confiança e acolhimento possível. São cenas fortes e de muita entrega dos atores que exigiram por parte da equipe técnica todo um pensamento específico de trabalho.

Decidimos dividir o set em níveis de prioridade e a equipe foi reduzida ao mínimo e espalhada pelo set de forma que só quem fosse essencial à filmagem tivesse contato direto com os atores. No cômodo onde estava acontecendo a filmagem, éramos apenas 4 pessoas de equipe técnica: direção, fotografia, assistente de câmera e técnica de som. No restante da casa, apenas o diretor assistente, o platô e a assistente de direção. Fora do set, numa base próxima e isolada, ficava concentrado o restante da equipe. Mesmo fora do set, dispúnhamos de uma equipe minúscula, sem direção de arte, figurino ou maquiagem. Uma vez que começássemos a filmar, mais ninguém da equipe poderia entrar na casa principal, apenas os 4 técnicos que participariam da filmagem. Qualquer ajuste precisaria ser feito por nós mesmos e só interromperíamos as cenas por um pedido dos atores. Tudo o que fosse preciso preparar era feito no início do dia e o restante da equipe permanecia na base para ser acionada apenas em caso de última necessidade.

O empenho de toda a equipe somado ao cuidado e respeito com os atores foram fundamentais para que chegássemos no nível de intimidade e na qualidade da atuação que destacou o Regra 34 no festival de Locarno de 2022.

Sinopse:

Simone, 28 anos, é uma jovem advogada, negra, que pagou a faculdade de direito com performances online de sexo. Ela acabou de passar em um concurso para defensora pública. Sua nova rotina consiste em aulas em um curso preparatório para defensoria, o acompanhamento de sessão de acolhimento mulheres vítimas de violência doméstica e aulas de Kung Fu.

Com o objetivo de despertar novamente o desejo sexual de Simone, Natália, uma amiga de infância, envia um link de um vídeo de uma mulher negra praticando sadomasoquismo. O vídeo parece provocar em Simone tanto um desejo sexual quanto os seus medos mais profundos.

Gradualmente Simone entra em uma jornada de conhecimento das práticas de BDSM (Bondage, Discipline and Sadomasochist) com sua amiga Lucia e seu roommate Coyote. Porém, Lucia começa a se sentir desconfortável com a violência, qualificando o desejo de Simone como um reflexo do machismo da sociedade. Simone segue sua busca sozinha, descobrindo os limites entre o risco e o desejo.

Ficha Técnica:

Diretora: Julia Murat
Diretor Assistente & Casting: Gabriel Bortolini
Produtoras: Julia Murat e Tatiana Leite
Coprodutores: Jean Thomas Bernardini, Matias Mariani, Juliette Lepoutre, Pierre Menahem
Roteiro: Gabriela Capello, Julia Murat, Rafael Lessa, Roberto Winter
Diretor de fotografia: Léo Bittencourt
Diretor de arte: Alex Lemos
Coordenadora de Arte: Lê Campos
Figurinista: Diana Leste
Som direto: Laura Zimmermann
Edição: Beatriz Pomar, Julia Murat & Mair Tavarez
Desenho de som: Daniel Turini & Henrique Chiurciu
Mixagem: Emmanuel Croset
Musica: Lucas Marcier e Maria Beraldo
Colorista: Fabio Souza
Produtora executiva: Joelma Oliveira Gonzaga

Elenco / Personagem:

Sol Miranda / Simone
Lucas Andrade / Coyote
Lorena Comparato / Lucia
Isabela Mariotto / Natalia
Georgette Fadel / Professora
Márcio Vito / Professor
Rodrigo Bolzan / Defensor Público
Dani Ornellas / Janaína
Babu Santana / André
Lucas Gouvêa / Paulo
Mc Carol / Nill
Simone Mazzer / D. Ivone
Raquel Karro / Professora
Marcos Damigo / Promotor
Julia Bernat / Marina – Aluna
Marina Merlino / Bruna – Aluna
Samuel Toledo / Antônio
Luiza Rolla / Menina Bdsm
Yakini Kalid / Menina Bdsm

Obrigado especial a toda a equipe de câmera, elétrica, maquinaria e pós do Regra!

Eletricista Chefe: Pepe Pedra
Eletricista Chefe (Santa Teresa): Dudy
Eletricista Extra: Alexandre Algarrão
2º Assistente de Elétrica e Maquinária: Anderson Gordinho, Daud Melo dos Santos, Jefferson Sales, Jr Jaja e Rafael de Sá
Maquinista extra: Thales Luiz
1ª assistente de câmera: Marcela Alves e Jorge Bernardo
2ª assistente de câmera: Júlia Drebtchinsky, Marina Bley e Renata Carvel
Logger: Café Lima e David Carvalho
Still: Amina Nogueira
Colorista: Fabio Souza
Cor adicional: Alexandre Cristófaro
Coordenadora de Pós-Produção: Isabel Lessa

 

 

Topo