Uma genealogia da fotografação

Lúcio Kodato, Lauro Escorel e Maureen Bisilliat

Por Rogério Luiz

São genuínas aulas de cinematografia quando fotógrafas e fotógrafos de cinema refletem sobre aspectos do próprio ofício. Com o documentário Fotografação (2020), temos mais uma. Um trabalho dirigido pelo diretor e fotógrafo Lauro Escorel, ABC, caracterizado pela raridade de ideias, de episódios históricos, de daguerreótipos, de fragmentos fílmicos mas, sobretudo, de argumentos utilizados na construção de uma noção sobre o Brasil, a partir de imagens fixas e em movimento.

Fotografação, ao longo da narrativa conduzida pela voz off do próprio diretor, é uma expressão tomada de empréstimo de Mário de Andrade para designar a avalanche contemporânea de fotografias digitais que ocupam tanto as linhas do tempo das redes sociais quanto as mídias de armazenamento. Lauro Escorel parte de um quase hábito adquirido nos dias atuais em que se fotografa para depois ver o que foi vivido. O documentário parte, dessa maneira, de uma indagação que faz com que pensemos em como a sociedade do daguerreótipo deu lugar à sociedade das selfies. O documentário, assim, parte de uma premissa que vigora entre nós nessa segunda década dos anos 2000: somos espectadores e ao mesmo tempo protagonistas de um processo de mudança no ato de fotografar. Ressoando ideias tanto do documentário quanto da pensadora francesa Claudine Haroche, parece que, agora, mais do que nunca, precisamos ser vistos para existirmos, construção que mantém viva uma ideia de Jean-Jacques Rousseau, tão bem lembrada pela pensadora da contemporaneidade ecoando uma argumentação aplicada à modernidade sobre a qual pensara o filósofo (HAROCHE, 2015). O ser visto(a) aqui em questão, não é de qualquer maneira nem em qualquer lugar, mas em aparelhos portáteis que nos acompanham cotidianamente e que nos conectam com um universo dinâmico de informações visuais.

Ditas desse modo, essas palavras parecem preparar o caminho para uma narrativa que se levantará profundamente contra essas formas contemporâneas de expressão imagética técnica. Ledo engano. É justamente essa a motivação do documentário que encara de frente a presença da fotografia digital. Para tanto, promove-se uma busca rigorosa pelo entendimento sobre o papel da fotografia em diferentes tempos sociais pelos quais ela passou. Somos convidados(as) a uma digressão histórica que nos coloca diante dos primeiros fotógrafos que pisaram o território brasileiro. Nos já longínquos meados do século XIX, encontramos – a partir da generosa investigação de Lauro Escorel -, as experiências primeiras do Brasil Império, sem perder de vista os registros das paisagens por Dom Pedro II, os espaços e costumes da côrte por Marc Ferrez, os cartes-de-visite de Christiano Júnior. Oferecendo-nos um passeio pela cronologia da experiência fotográfica, ainda chegamos num segundo momento dessa mesma fotografia de costumes. Somos lembrados de fotógrafas e fotógrafos de um outro momento: Pierre Verger, Marcel Gautherot e Hildergard Rosenthal. O olhar desse(a)s fotógrafo(a)s é esmiuçado com a ajuda de pesquisadores(as) como Milton Guran, Maria Inez Turazzi, Boris Kossoy e Ruben Fernandes Júnior, no sentido de demonstrar o quanto as imagens registradas por eles dão acesso a detalhes da vida social brasileira ao longo do século XX.

Ao evocar as presenças imagéticas dessas obras, Fotografação traz ao centro da narrativa uma reflexão que o diretor promove sobre sua própria carreira como diretor de fotografia no cinema. Ao apresentar os veleiros e saveiros congelados por Verger e Gautherot, o diretor se lembra que ele também, sem que se desse conta das imagens de seus antecessores, foi inspirado pela leitura de livros como Jubiabá, de Jorge Amado, orientando a sua busca como fotógrafo no documentário Festas na Bahia de Oxalá (1969).

Esse é apenas um dos exemplos em que Lauro Escorel revisa a própria trajetória como fotógrafo, à medida em que evidencia a riqueza da história particular da fotografia no Brasil. Apresentando sua jornada iniciada em Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, no qual aparece entre os atores interpretando um fotojornalista que produziu, de fato imagens do filme, Lauro Escorel demonstra como sua própria carreira se integra à história da fotografia no país.

Ao fazer isso, reconhece as conexões entre sua obra e as dos fotógrafos que ele encontrou ao longo do caminho. Desse modo, exemplifica o quão frutífera é a relação entre fotografia fixa e cinematografia. E, neste sentido, Fotografação é um trabalho rico que vem a somar com o conjunto de trabalhos indispensáveis ao estudo da cinematografia. Ao falar sobre O Xangô de Baker Street (2001), de Miguel Faria Jr., ele trata de como leu as fotos feitas por Marc Ferrez; quando fala sobre Brincando nos campos do senhor (1991), de Hector Babenco, revela o seu procedimento referente à cor e à luz que apreendera tanto das imagens registradas por Jean Manzon com os xavantes quanto com as explosões cromáticas exploradas por Maureen Bisilliat; ou mesmo ao falar sobre a luz natural explorada em Vidas Secas (1963), tão tributária da estética outrora utilizada por Luiz Carlos Barreto.

Ao falar de São Bernardo (1972), de Leon Hirszman, Fotografação continua exemplificando o modo como um repertório imagético advindo do fotojornalismo ganha movimento no cinema. Para tanto, dá o merecido destaque a José Medeiros. Ainda entram nessa conta outros fotógrafos como Thomaz Farkas e Evandro Teixeira, autores de imagens fundamentais para compreender um país que caminhava no sentido de uma modernização. Ainda que mudem os nomes, por certo o que fica dessa contemplação de um percurso da fotografia é a preocupação em demonstrar o quanto cada um desses períodos registrados pelos fotógrafos e pelas fotógrafas revelam as facetas de um mesmo país, ao tempo em que também evidencia o desenvolvimento da própria linguagem fotográfica.

Ao revelar o elo poderoso entre imagens fixas e cinematografia, Fotografação conta um capítulo importante da direção de fotografia no cinema. Vendo esse documentário, nos sentimos mais instruídos para observar a trajetória da cinematografia no cinema brasileiro, da qual o próprio Lauro Escorel é personagem importante. São assinadas por ele a fotografia de filmes como Coronel Delmiro Gouveia (1979), de Geraldo Sarno; Byebye Brasil (1980), de Carlos Diegues e Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman. Por esse recorte é possível ter a dimensão do quanto a sua fotografação é comprometida com a construção de uma reflexão sobre o país.

Ao contemplar o documentário, não poderíamos deixar de citar a presença forte do movimento modernista, tão bem representado por Mário de Andrade. Ele tem uma presença estratégica na narrativa. Aparece não apenas como um fotógrafo que percorre o país na sua condição de turista aprendiz – aqui numa referência indispensável ao seu livro O Turista Aprendiz -, mas acima de tudo como um observador sensível da cultura brasileira. O documentário revela o intelectual, mas não mede esforços para sublinhar o mérito estético das imagens produzidas por Mário de Andrade.

Ao realizar Fotografação, Lauro Escorel é inserido naturalmente nesse conjunto de pessoas que dedicam ao Brasil suas buscas pela imagem. Essa intenção está caracterizada em detalhes como a montagem de sua equipe de fotografia: Carlos Ebert, ABC, Guy Gonçalves, ABC, Jacques Cheuiche, ABC e Lúcio Kodato, ABC nos ajudariam, a partir dos seus trabalhos, a acessar faces de um mesmo país. A escolha da equipe de fotografia, a propósito, nos ajuda, por fim, a compreender que a fotografação é um fenômeno que traduz o dinamismo do século XXI. Diante da febre do digital, Fotografação procurar reunir atos e gestos comprometidos com a cultura visual. Reunir profissionais de reconhecida atuação na cinematografia brasileira é uma forma de dizer que o problema não é a fotografação em si, mas a natureza da motivação que a antecede e a mobilização criativa para a realização do registro. Talvez, por isso mesmo, Lauro Escorel não apenas não nega isso como registra, ele mesmo, numa Avenida Paulista movimentada, com seu smartphone, imagens utilizadas na precisa montagem de Idê Lacreta e que consegue reunir a multiplicidade de olhares fotográficos sobre o Brasil.

Como a própria história contada no documentário mostra, os auto-retratos sempre estiveram presentes na prática fotográfica. Lauro Escorel, a exemplo de fotógrafos e fotógrafas como Diane Arbus, Germaine Krull, Hippolyte Bayard, aparece na frente da câmera como personagem de seu próprio documentário num fragmento que tem ares de auto-retrato, sem que seja esse o objetivo principal do filme. Colocar-se diante da lente demonstra que, em vez da recusa, o diretor oferta o acolhimento de todo e qualquer gesto fotográfico que seja construtivo. Não à toa, o diretor dedica o filme dessa maneira: “Para os que olham pelo nosso país”. Fotografação é uma forma de dizer que a fotografia, tão acessível em nossos tempos, está a serviço de uma grande multiplicidade de anseios, o que inevitavelmente dá voz às contradições que, sem esforço, identificamos na nossa dinâmica sócio-política. Nesta, por certo, há a incômoda convivência entre engajamento e superficialidade. Diante de tudo isso, Fotografação é uma reflexão necessária sobre o Brasil de ontem e de hoje.

Referências

ANDRADE, Mário de. O Turista Aprendiz. Brasília, DF: Iphan, 2015.

HAROCHE, Claudine. O sujeito diante da aceleração e da ilimitação contemporânea. Educação e Pesquisa – Revista da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – USP. São Paulo: outubro/dezembro de 2015. ISSN 1678-4634. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ep/2015nahead/1517-9702-ep-1517-97022015041920.pdf

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