De 22 de julho a 18 de setembro, o Itaú Cultural em São Paulo inaugura uma mostra da série Ocupação dedicada à atriz e diretora Helena Ignez. Primeira cineasta mulher a receber essa homenagem, a exposição privilegia a voz de Helena, sua liberdade criativa e sua potência em cena, sempre em intensa atividade artística.
Assim como as demais mostras do programa, a Ocupação Helena Ignez não segue um modelo cronológico-biográfico tradicional. A narrativa da exposição é construída em primeira pessoa, guiada pela voz da artista, seu corpo em ação e sua prática artística experimental.
Helena nasceu em 1939, em Salvador, e em 1956 ingressou na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Começava ali a trajetória de uma das mais importantes atrizes e diretoras do cinema e do teatro brasileiros, cuja vida e obra são marcadas pela liberdade comportamental e artística.
“Helena Ignez atravessa a história do cinema e do teatro modernos no Brasil, passando pelos períodos centrais do Cinema Novo, da Belair e da experimentação radical. Ela é uma pessoa em constante reinvenção e, aos 87 anos, segue nessa trilha, firme e altamente criativa”, destaca André Furtado, gerente de Criação e Plataformas do Itaú Cultural. A instituição assina a concepção, realização e curadoria da mostra, com consultoria da atriz e filha Djin Sganzerla e projeto expográfico de Renata Mota e equipe do Itaú Cultural.
Partindo dessa premissa, a linha curatorial abraça a ideia de Helena Ignez ser uma atriz “antimusa” para jogar foco em sua produção, vitalidade e potência criativa. De forma transversal, a mostra reúne materiais históricos, registros inéditos, fotos, vídeos, documentos, instalações e trabalhos recentes da artista. Assim, o caminho percorrido vai do cinema, teatro e direção à formação, encontros e experiências políticas, espirituais e humanas da artista.
Sua trajetória no teatro também ganha destaque, revelando um percurso menos conhecido do grande público. Como a própria Helena diz, a importância do teatro em sua vida é absoluta, porém sua trajetória como atriz e, mais tarde, como diretora ainda é pouco conhecida. Fotos, programas, matérias de jornais – incluindo uma crítica do jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) – e documentos de seu processo de trabalho compõem o material acessível ao público.
Recentemente, em São Paulo, a atriz integrou o elenco da peça “Fim de partida”, clássico de Samuel Beckett (1906-1989), dirigido por Rodrigo Portella. Contracenou no Sesc Pinheiros ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. A temporada seguirá para Fortaleza neste mês. Como diretora, seu mais recente longa é “A alegria é a prova dos nove”, de 2023.
A exposição
O percurso pela Ocupação começa com uma experiência imersiva, com áudio da própria Helena Ignez conduzindo o público e com uma projeção central de trechos marcantes de suas atuações, evidenciando o corpo como linguagem e a ação como gesto político.
A mostra dedica um eixo especial à perspectiva da “antimusa”, com um conjunto impactante de manchetes históricas, imagens e vídeos. “A mulher de todos” (1969), de Rogério Sganzerla, ocupa lugar central na exposição, com a exibição de frames e trechos do filme em cópia restaurada, o cartaz histórico e registros da personagem que ela interpretou: a irreverente Ângela Carne e Osso, ninfomaníaca que faz os homens de gato e sapato, considerada uma interpretação revolucionária no cinema brasileiro por subverter papéis de gênero em plena ditadura militar.
O espaço dedicado à produtora Belair reúne filmes, frames, vídeos, materiais de bastidores, trilhas sonoras e textos da época, incluindo um documento em que Helena se posiciona contra a censura da época. São registros que retratam o período de intensa criação vivido por Helena ao lado do diretor e então marido Rogério Sganzerla (1946-2004) e do cineasta Júlio Bressane em 1970. O trio realizou seis longas em poucos meses. A produção foi logo interrompida pela repressão, e eles tiveram de partir para o exílio. Integram esse conjunto materiais dos filmes “Carnaval na lama”, “Copacabana mon amour” e “Sem essa aranha”, de Sganzerla; além de “Cuidado madame”, “Barão Olavo, o horrível” e “A família do barulho”, de Bressane.
Esse núcleo também incorpora iniciativas de preservação associadas ao projeto, como o apoio da Cinemateca Brasileira, que contribuiu para a captura fotográfica digital das películas desses títulos, além de “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Sganzerla, “O padre e a moça” (1966), de Joaquim Pedro de Andrade, “O grito da Terra” (1964), de Olney São Paulo, e “A grande feira” (1961), de Roberto Pires.
A parceria com a Cinemateca realizou outras ações relacionadas à preservação de filmes brasileiros, como a produção de uma nova cópia digital de “O grito da Terra”, drama sertanejo de 1964 dirigido pelo baiano Olney São Paulo, com Helena em um dos papéis principais. Uma raridade do período pré-Cinema Novo que volta a ser apresentada ao público.
Para a Ocupação, o Itaú Cultural também apoiou a finalização do longa carioca “América do sol” (2000-2026), de Léo Duarte, produção inédita com Helena retomando o papel de Sônia Silk, interpretada por ela em “Copacabana, mon amour”, em 1970. Esses e outros 20 filmes com Helena Ignez estarão disponíveis na plataforma de streaming gratuita Itaú Cultural Play.
A Ocupação evidencia, ainda, o trabalho de Helena Ignez como diretora, apresentando roteiros, cadernos de processo, vídeos e bastidores de filmes como “A alegria é a prova dos nove” (2023), o documentário “Fakir” (2019) e “Luz nas trevas – a volta do Bandido da Luz Vermelha” (2010). Como atriz, a mostra dialoga com sua produção recente, como o longa “Nosferatu” (2025), de Cristiano Burlan, e sua atuação na peça “Fim de partida’.
Além disso, um mural com fotos mostra imagens de parcerias longevas, como Sganzerla, Antônio Pitanga, Paulo Villaça (1939-1991), Cristiano Burlan e Jean-Claude Bernardet (1936-2024); e outras parcerias icônicas, como Jô Soares (1938-2022), Maria Gladys, Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) e Ney Matogrosso.
Programação paralela
A programação paralela terá exibições presenciais de curtas e longas nos meses de setembro, no Cine Glauber Rocha, em Salvador, e de outubro, na sede do Itaú Cultural.
Já o teatro do Itaú Cultural apresentará, em outubro, uma remontagem da peça “Savannah Bay”, dirigida por André Guerreiro Lopes e com Helena no elenco. Montada sobre o texto homônimo de Marguerite Duras (1914-1996), a peça foi realizada originalmente em 1999 e em 2001, com direção de Rogério Sganzerla, Helena fez o papel de Madeleine – uma atriz que perdeu a filha afogada na baía de Savannah e enfrenta problemas de memória – e Djin Sganzerla interpretou sua neta.
A Ocupação Helena Ignez também conta com um site com conteúdos exclusivos, no qual podem ser conferidas mais informações (itaucultural.org.br/ocupação).