forumdoc.bh chega à sua 27ª edição em 2023

Mami Wata 2

Entre os dias 23 de novembro e 03 de dezembro, Belo Horizonte recebe a 27ª edição do forumdoc.bh – Festival do Filme Documentário e Etnográfico, Fórum de Antropologia e Cinema. O evento, completamente gratuito, será realizado no Cine Humberto Mauro e no Cine Santa Tereza, além de contar com atividades online. A programação completa está disponível no site do evento.

Neste ano, a programação conta com a exibição de 68 filmes, distribuídos em 04 mostras. Reunindo documentários realizados por mulheres durante o fim da ditadura militar e a redemocratização do Brasil, a mostra “Experimentações feministas – cinema, vídeo e democracia no Brasil (1970-1994)” conta com vídeos e filmes em película que apresentam um recorte das relações entre o audiovisual e os feminismos brasileiros. 

A “Mostra Contemporânea Brasileira” tem como intuito incentivar e mapear a produção audiovisual recente de filmes documentários e etnográficos, trazendo trabalhos finalizados nos últimos dois anos. Dos 350 filmes inscritos, 26 foram selecionados pela qualidade formal e temática.

A mostra-seminário “A Câmera é a Flecha, a Câmera é a Cesta: cinemas Krahô, Tupinambá, Kuikuro, Kaiabi e Guarani”, pretende compartilhar com o público a diversidade de formas e narrativas indígenas que tem se desenvolvido nos últimos anos. Estarão presentes dez realizadores e realizadoras indígenas de diferentes povos originários. 

Por fim, as “Sessões Especiais”, apresentarão filmes selecionados pela curadoria do festival por associarem a pesquisa formal às questões contemporâneas.

A abertura do festival será no dia 23 de novembro, às 19h, no Cine Humberto Mauro. Haverá a exibição comentada do filme Yvy Pyte – Coração da Terra (Alberto Alvares e José Cury, Brasil/Paraguai, 2023) com a presença dos diretores e mediação de Paulo Maia, co-fundador e curador do festival. Haverá uma segunda sessão  do filme dia 24 de novembro, às 19h, no Cine Santa Tereza. A exibição contará com acessibilidade (legendagem descritiva).

“A expectativa para a sessão de abertura é enorme. Eu tenho contato com o trabalho do Alberto e do José há muitos anos, pois tive o prazer de orientá-los na UFMG. E essa parceria entre eles caminha para completar 10 anos. O Alberto é reconhecido por ter um estilo muito próprio, no qual ele faz as suas pesquisas durante as andanças que faz pelas aldeias Guarani, nos Tekoa. E nesse filme, em especial, ele faz uma viagem de retorno à aldeia onde ele nasceu, onde o umbigo dele está enterrado. Ele tem uma carga emocional muito forte e ao mesmo tempo reconstitui um território dos povos Guarani que foi completamente ocupado pelos não-indígenas”, explica Paulo Maia, co-fundador e curador do forumdoc.bh

O forumdoc.bh foi criado em 1997 com o objetivo de compartilhar filmes de difícil acesso nas salas de cinema convencionais, além de promover reflexão e formação crítica de público, fomentar a pesquisa e a qualificação da produção audiovisual em torno ao filme documentário e ao cinema mais inventivo que com ele dialoga.

Nos últimos anos, o festival tem apresentado uma produção potente para renovação e diversificação do filme documentário como forma expressiva de coletivos e segmentos sociais e étnico-raciais marginalizados, tais como: realizadores e realizadoras indígenas; os cinemas negros, cinemas queer, e os coletivos e autores e autoras de regiões de periferia. 

Para a organizadora e curadora do forumdoc.bh, Júnia Torres, uma das grandes conquistas do festival é a possibilidade de promover encontros entre os realizadores de filmes e o público, assim como o intercâmbio entre realizadores e realizadoras. “Uma das grandes conquistas do forumdoc.bh é a possibilidade de promover encontros entre os realizadores de filmes e o público e também entre os cineastas presentes, que podem refletir sobre seus processos de produção. São esses alguns dos motivos que nos diferenciam em um cenário em que a abrangência do streaming se torna cada vez maior. Trazemos produções recentes para Belo Horizonte, fomentando a produção documental, além de realizar ações de formação de público e reflexão a partir dos filmes exibidos. Estamos com uma edição incrível e diversa, com filmes de produção indígena, de novos realizadores e também clássicos. Esperamos que todos aproveitem”, explica.

O festival conta com incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura,  patrocínio do Itaú e da Lei Municipal de Incentivo à Cultura / Prefeitura de Belo Horizonte, por meio do patrocínio do UNI-BH. Conta ainda, com o apoio da Fundação Clóvis Salgado, por meio do Cine Humberto Mauro. A curadoria e a produção são assinadas por pesquisadores e integrantes do coletivo Filmes de Quintal e convidados.

Conheça mais sobre as mostras, homenagem e artista convidada:

Abertura:

O Cine Humberto Mauro recebe na quinta-feira (23/11), às 19h, a abertura do forumdoc.bh. com a sessão do filme Yvy Pyte – Coração da Terra (Alberto Alvares e José Cury, Brasil/Paraguai, 2023). A sessão será comentada pelos diretores e mediada por Paulo Maia, co-fundador e curador do festival.

O longa-metragem documental nasceu do desejo do cineasta guarani Alberto Alvares (Tupã Ra’y) em retornar à sua aldeia natal. Historicamente, diversas fronteiras foram impostas em território Guarani, causando sérias mudanças.A obra acompanha histórias de encontros, deslocamentos, novas e velhas fronteiras, capazes de levar os espectadores ao território sagrado “Yvy Pyte”, de onde o mundo surgiu para os guarani, o Coração da Terra.

O catálogo do forumdoc.bh.2023 será disponibilizado gratuitamente impresso e em formato digital no site.

Experimentações feministas – cinema, vídeo e democracia no Brasil (1970-1994):

A mostra reúne documentários realizados por mulheres durante o fim da ditadura militar e a redemocratização do Brasil. Durante o processo de pesquisa, as curadoras Cláudia Mesquita e Larissa Costa, se depararam com uma produção ampla e engajada em vídeo, assinada por realizadoras ou grupos de realizadoras que abordaram pautas até hoje fundamentais para os feminismos no Brasil. Enfrentamento à violência doméstica, sexualidade, direito a creches, reforma agrária, participação política, igualdade no mercado de trabalho, fim das discriminações raciais, direito à livre identidade e à orientação sexual e reforma urbana são alguns dos temas.

Para estas mulheres, o cinema e o vídeo se tornaram possibilidade de experimentação de linguagens, formatos e possibilidades estéticas,  fazendo do audiovisual um mecanismo de elaboração coletiva, diante da luta pelo direito de falar e de se posicionar publicamente. A mostra foi estruturada em seis eixos: Venceremos, Reinvidicações, Figurações, Lutas, Prostituição e Lesbianidades. Destaque para os filmes Mulheres, uma outra história (Eunice Gutman, Brasil, 1988) e Terra para Rose (Tetê Moraes, Brasil, 1987).

“Mulheres, uma outra história” foi filmado durante o período de redemocratização do Brasil, após mais de duas décadas de ditadura militar. A obra apresenta  aspectos da participação das mulheres no cenário político brasileiro. Durante a Assembleia Constituinte, Eunice Gutman entrevista lideranças feministas e algumas deputadas que atuaram na elaboração da Constituição de 1988. Entre as personagens, estão Benedita da Silva e Jacqueline Pitanguy.

No documentário “Terra para Rose”, a diretora Tetê Moraes retrata a  luta pela reforma agrária no Brasil da Nova República a partir da ocupação da fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul. A manifestação, que contou com mais de 1500 famílias, remonta às origens do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Entre as personagens acompanhadas no longa, está Roseli Nunes, a Rose, importante liderança Sem Terra que se tornou símbolo da luta por justiça social.

Mostra Contemporânea Brasileira: 

A mostra é composta por obras nacionais finalizadas nos últimos dois anos, com foco no modo documental e suas interlocuções. Entre as 350 inscrições de produções, foram selecionados 26 filmes, que serão exibidos em 13 sessões.  A intenção é fomentar e mapear a produção audiovisual recente de filmes documentários e etnográficos.

A curadoria foi realizada por Ana Carvalho, Arthur Medrado, Breno Henrique e Milene Migliano. Eles selecionaram filmes que, em diálogo, se potencializam, se confrontam, que propõem relações improváveis, às vezes contraditórias, que deslocam e desorganizam as perspectivas e expectativas sobre o mundo e sobre a própria matéria fílmica. Entre as obras que serão exibidas, vale evidenciar para À Margem do Ouro (Sandro Kakabadze, São Paulo, 2023) e Mãri Hi – A Árvore do Sonho (Morzaniel Ɨramari, Roraima, 2023).

No documentário “À Margem do Ouro”, o diretoro georgiano-brasileiro Sandro Kakabadze retrata as questões do garimpo ilegal no Brasil. Ele passou oito semanas na corrutela localizada ao lado do Rio Tapajós, convivendo com homens, mulheres, garimpeiros ou comerciantes. Gente de diversas regiões do Brasil que vão para esse local trabalhar com à exploração ilegal do ouro, seja passando doze horas dentro do rio escavando atrás de poucas gramas do minério, cozinhando sem parar para homens cansados ou trabalhando na única rua de comércio da vila. 

Em “Mãri Hi – A Árvore do Sonho”, curta-metragem de Morzaniel Ɨramari, as palavras de um grande xamã conduzem uma experiência onírica através da sinergia entre cinema e sonho yanomami, apresentando poéticas e ensinamentos dos povos da floresta. “Quando as flores da árvore Mari desabrocham, surgem os sonhos”. 

Mostra-seminário A Câmera é a Flecha, a Câmera é a Cesta: cinemas Krahô, Tupinambá, Kuikuro, Kaiabi e Guarani 

A mostra-seminário, que acontece durante os dias 24 a 28 de novembro, no Cine Humberto Mauro, aborda a diversidade dos cinemas indígenas e suas narrativas. Serão exibidas produções dos povos  Krahô, Tupinambá, Kuikuro, Kaiabi e Guarani

Uma trajetória que se iniciou nos anos 1980, a partir de uma perspectiva colaborativa, por meio do pioneirismo do projeto Vídeo nas Aldeias, e se ramifica ao longo dos anos através de distintos coletivos, feitos a muitas mãos pelos próprios indígenas, ou, ainda em perspectiva colaborativa, entre indígenas e não indígenas, mas também por meio da afirmação de autores e artistas dos mais diversos povos. Nesse sentido, a câmera é um instrumento de luta e de formação de alianças, especialmente na denúncia do massacre e genocídio dos povos indígenas. 

As inscrições para o seminário são gratuitas e podem ser realizadas online, por meio do formulário disponível no site do festival, até o dia 22 de novembro. As pessoas selecionadas receberão a confirmação da inscrição pelo email informado.

Sessões Especiais: 

As sessões especiais do forumdoc.bh reúnem 10 filmes selecionados por associar linguagem a questões do tempo histórico, abordando temas com os quais foi possível estabelecer relações especiais ao longo dos anos, como as retomadas indígenas no audiovisual, filmes de caráter etnográfico e políticos marcados. Vale ressaltar os filmes As Filhas do Fogo (Pedro Costa, Portugal, 2023)  e Mami Wata (C.J. “Fiery” Obasi, Nigéria/França, 2023).

Em “Filhas do Fogo”, Pedro Costa apresenta três irmãs separadas pela erupção do vulcão do Pico do Fogo, em Cabo Verde. O curta-metragem é uma colaboração multidisciplinar entre o cineasta português  e os Músicos do Tejo. 

O longa “Mami Wata”, do nigeriano C.J. Obasi, se passa na remota vila de Iyi, que adora uma deusa das águas que carrega o mesmo nome do filme. Quando um acontecimento trágico perturba a paz da comunidade, duas irmãs lutam para salvar sua aldeia e restaurar a glória de Mami Wata em Iyi.

Artista convidada:

O projeto gráfico da 27ª edição do forumdoc.bh.2023 apresenta os têhêy de Dona Liça Pataxoop. A palavra que nomeia  um tipo de rede de pesca, tecida com corda de tucum e cipó, usada para “teheyá” a pesca no rio, se refere também a uma forma de escrita condensada baseada em desenhos.

Dona Liça é a grande mestra da técnica, que utiliza na comunidade Muã Mimatxi para passar os ensinamentos de seu povo aos mais jovens. Nos  têhêy, ela insere informações sobre cultura, religião, histórias de vida, trabalho, plantas, animais e ancestralidade. 

Em setembro de 2023, Dona Liça e Saniwê Pataxoop (seu filho) foram convidados para ministrar uma disciplina na Formação Transversal em Saberes Tradicionais da UFMG intitulada: “O clima da educação e das artes em Muã Mimatxi: imagem e oralidade para enfrentar a monotonia, a monocromia e a monocultura”.

O catálogo do 27º forumdoc.bh, está disponível gratuitamente no site do festival.

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