Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho são premiados em Cannes por “O Agente Secreto”

Agente
“O Agente Secreto” (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho, está na lista de indicados ao Globo de Ouro 2026. Foto: Victor Jucá

Em um feito inédito para um artista brasileiro do gênero masculino, Wagner Moura foi reconhecido como Melhor Ator no 78º Festival de Cannes, na França, no último sábado (24), por sua atuação em “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. O cineasta também foi premiado no evento, na categoria de Melhor Direção.

O filme levou, ainda, o Prêmio da Crítica, concedido pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci), instituição centenária que reúne jornalistas de todo o mundo. Essa é uma premiação paralela que aconteceu durante o evento no sul do país. “O Agente Secreto” também concorreu à Palma de Ouro (Melhor Filme), que ficou com “It was Just An Accident” (“Um Simples Acidente”), dirigido pelo iraniano Jafar Panahi, perseguido há décadas pelo regime teocrático dos aiatolás.

No último sábado, Wagner Moura estava em Londres rodando outro filme, e Kleber Mendonça Filho subiu ao palco para receber o troféu de Melhor Ator. Em seu discurso, o cineasta disse: “Tive muita sorte de ter a oportunidade de trabalhar com Wagner Moura, que não é somente um ator excepcional, mas também uma grande pessoa, eu o amo. Espero que esse reconhecimento lhe traga muitas coisas boas. Obrigado ao júri, obrigado à presidente do júri, Juliette Binoche, por esse reconhecimento”.

Assim que soube da premiação em Cannes, Wagner Moura declarou em um vídeo divulgado na internet: “Recebi a notícia dos prêmios que a gente ganhou da forma mais louca possível, no set de filmagem. Queria só dizer da felicidade que eu tenho por mim, por Kleber, pelo ‘Agente Secreto’, pelo cinema brasileiro, pela cultura brasileira. Pelo fato de esse filme ser mais uma peça, mais uma pedra que aproxima o espectador brasileiro, os brasileiros em geral, da sua cultura, dos seus artistas, depois de um tempo muito difícil, em que artistas e cultura não só haviam perdido a importância no Brasil, como foram bastante difamados. Ver hoje brasileiros torcendo pela vitória do cinema brasileiro internacionalmente, olhando para o cinema brasileiro e dizendo ‘esse filme, esses artistas nos representam’, como aconteceu com ‘Ainda Estou Aqui’, me dá uma alegria profunda. Viva a cultura brasileira, vivam aqueles que acreditam na importância da cultura para o desenvolvimento de qualquer país, e o Brasil é o país da cultura, o país da arte. Vamos agora celebrar e aproveitar mais este momento bonito da nossa cultura e do nosso cinema”.

Ao subir ao palco para receber o troféu de Melhor Direção, o cineasta Kleber Mendonça Filho discursou: “O Brasil é uma país cheio de beleza e de poesia, e estou muito orgulhoso de estar aqui nesta noite, recebendo esse prêmio. Estou muito feliz, e acredito que o Festival de Cannes seja a catedral do cinema neste planeta. Muito obrigado aos meus produtores; queremos que esse filme seja lançado nos cinemas. Foi o cinema que forjou o caráter desse filme. Quero mandar um abraço para todo mundo que está nos vendo no Brasil, especialmente no Recife, Pernambuco, Brasil”.

O longa “O Agente Secreto” é ambientado no período da ditadura militar e conta a história de um professor que se muda para o Recife e descobre que está sendo espionado.

Documentário premiado

Ainda em Cannes, o documentário “Eu Ouvi o Chamado: O Retorno dos Mantos Tupinambá”, dirigido por Robson Dias, Myrza Muniz e Célia Tupinambá, foi um dos vencedores do prêmio Doc-in-Progress. A produção integrou o Showcase do Cannes Docs, dedicado a documentários em fase de finalização (edição ou pós-produção).

O longa narra a jornada da artista visual e antropóloga Glicéria “Célia” Tupinambá, liderança indígena na Serra do Padeiro (BA), em sua missão espiritual para restituir mantos Tupinambá (considerados ancestrais vivos e dispersos desde a época colonial) de museus europeus.

Goes to Cannes

O longa brasileiro “Virtuosas”, dirigido por Cíntia Domit Bittar e em fase de finalização, venceu o prêmio Goes to Cannes (vitrine de obras em pós-produção), no Marché du Film 2025. A premiação inclui um aporte de 10 mil euros oferecido pelo estúdio espanhol Sideral Cinema.

Estrelado por Bruna Linzmeyer, o filme acompanha um grupo de mulheres cristãs em um retiro de luxo. Quando a lenda de uma bruxa começa a se manifestar, a imersão espiritual ganha contornos sombrios, expondo tensões ligadas à repressão, ao controle e à fé. Com uma narrativa provocadora, o longa mistura drama e horror psicológico.

O Brasil em Cannes

A atriz Fernanda Torres recebeu o troféu de Melhor Atriz em Cannes por “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1986), de Arnaldo Jabor. E Sandra Corveloni venceu por “Linha de Passe” (2008), de Walter Salles e Daniela Thomas. Em 2003 e 2004, respectivamente, Rodrigo Santoro e Ricardo Teodoro foram laureados com o Prêmio de Revelação.

A única Palma de Ouro do Brasil no festival foi por “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte. Glauber Rocha foi eleito Melhor Diretor por “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969). Em 2019, “Bacurau”, também de Kleber Mendonça Filho, levou o Prêmio do Júri.

Prêmios recentes do cinema brasileiro

O cinema brasileiro iniciou 2025 com muitas premiações, puxado principalmente por “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Entre muitos prêmios em festivais internacionais, o longa conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional e o Globo de Ouro de Melhor Atriz, para Fernanda Torres.

Em fevereiro, “O Último Azul”, dirigido por Gabriel Mascaro e com os atores Denise Weinberg e Rodrigo Santoro no elenco, levou o Urso de Prata no Festival de Berlim. A trama se desenrola em uma versão distópica da Amazônia, na qual o governo impõe medidas drásticas como o deslocamento de idosos para “colônias”, sob o pretexto de lhes oferecer uma “vida melhor”. Em meio a esse cenário, a protagonista embarca em uma jornada para realizar seu último desejo, simbolizando a força humana e a capacidade de resistir às adversidades em meio a um ambiente hostil. 

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