Por Llano, ABC
O que é a visualidade ibero-americana? Como ela expressa o que conta? Sem dúvida, essas perguntas não têm uma única resposta, por conta das inúmeras culturas que compõem a visualidade ibero-americana. Mas, quando se reúne uma seleção de obras cinematográficas que vêm desses territórios e culturas, percebemos a riqueza que temos enquanto comunidade.
No início de abril, a ABC teve a oportunidade de participar como jurada da Federação Latino-americana de Autores de Fotografia Cinematográfica (FELAFC), na entrega do Prêmio de Melhor Direção de Fotografia de Filme Ibero-americano do 64º Festival Internacional de Cinema de Cartagena das Índias (FICCI), na Colômbia. Esse reconhecimento é o primeiro que a FELAFC entrega desde sua fundação, e faz parte dos trabalhos que vêm sendo gerenciados pela nova secretaria da organização, a qual, em novembro do ano passado, passou da coordenação da ABC para a Associação de Diretores de Fotografia Cinematográfica da Colômbia (ADFC).
Realizado de 1º a 6 de abril, o FICCI – considerado o mais antigo festival de cinema da América Latina – escolheu 11 filmes (nove ficções e dois documentários, todos de produção independente) provenientes de países como Argentina, Chile, Peru, Brasil, Venezuela, México, Espanha, Portugal e Cabo Verde.
Para a FELAFC, a importância desse acordo com o FICCI está no fato de ser o primeiro reconhecimento ibero-americano em que os projetos foram apreciados por colegas cinematógrafos(as) da região. Para essa oportunidade, o júri foi composto por Nicole Whitaker, ASC; Paulo Pérez, ADFC; e por mim (Llano, ABC).
Nessa oportunidade, a FELAFC propôs uma avaliação híbrida (presencial e online), a fim de permitir que os trabalhos fossem apreciados em diversas plataformas, considerando a importância da experiência da sala de cinema, mas também pensando na realidade dos projetos orientados ao streaming. O que em um primeiro momento poderia parecer contraditório e prejudicial para entender o trabalho cinematográfico, resultou na aprovação unânime do júri sobre as qualidades da proposta fotográfica do filme escolhido.
O trabalho selecionado foi o do diretor de fotografia Johan Carrasco Monzón, DFP (Asociación de Autores de Fotografía Cinematográfica Peruanos), no filme “Punku” (Portal), escrito, coproduzido, dirigido e editado pelo peruano J. D. Fernández Molero. Esse drama sobrenatural, uma coprodução entre Peru e Espanha, estreou na última edição do Berlinale Forum e ajuda a fortalecer as propostas de cinema regional e indígena do Peru. O longa acompanha um menino que desaparece misteriosamente, e é encontrado ferido, na selva, por um adolescente da etnia Machiguenga.

Em “Punku” (palavra quéchua para “porta de entrada”), o cineasta explora de forma perturbadora a juventude no Peru contemporâneo, com sua mistura de capitalismo tardio, cultura tradicional e papéis de gênero fortemente definidos. Um país onde adolescentes indígenas transmitem suas vidas no TikTok, e onde poções homeopáticas são tão confiáveis quanto a medicina moderna. Cheio de toques autobiográficos, “Punku” apresenta a história da improvável amizade entre Iván e Meshia, que encontram algo em comum no papel de dois estranhos.
Após essa primeira experiência como júri, a FELAFC espera ampliar sua presença nos diversos festivais na América-Latina e no Caribe, para formalizar um de seus objetivos como federação, que é a divulgação e o aprimoramento da cinematografia na região.

A decisão do júri
Como já foi mencionado, o Prêmio FELAFC de Melhor Direção de Fotografia de Filme Ibero-americano no 64º FICCI foi para o peruano Johan Carrasco Monzón, DFP, por seu trabalho em “Punku”. A escolha se deu pelo manejo e pela profundidade das diversas camadas narrativas do filme, e também pelo risco que isso implica na criação da linguagem de qualquer projeto cinematográfico.
Vale destacar, ainda, o compromisso da obra com os gêneros cinematográficos e a experimentação, combinando técnicas diversas (como a animação), formatos de projeção e meios de captura (digitais e fotoquímicos).
“Punku” também mistura, habilmente, propostas visuais da sua cosmovisão e do mundo patriarcal de poder que prevalece nessas culturas. Além disso, a premiação é merecida por construir um diálogo constante com a proposta da arte, ao demonstrar que a beleza também se encontra fora dos parâmetros clássicos, reforçando a profundidade do roteiro.
Por fim, “Punku” é um exemplo que apoia o cinema como ferramenta de memória, visibilidade e reforço da cultura ibero-americana. Nos mostra, ainda, que fazer filmes independentes e regionais é uma forma real de nos revelarmos ao mundo, principalmente em momentos em que vozes indígenas ou dissidentes do poder estão mais ameaçadas.