Por Luna D’Alama
A Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira recebeu, na noite da última quarta-feira (3), um público de mais de 120 pessoas para conferir os cinco curtas estudantis que foram finalistas do Prêmio ABC 2026.
Na sequência, foram exibidos: “Baixada: Nas águas de Cubatão” (Faap), dirigido por Renato de Castro e fotografado por Luiz Felipe Aranha e Rodrigo Nelli; “Filme-Copacabana” (UFRJ), dirigido e fotografado por Sofia Leão; “Memórias de nitrato” (ECA-USP) – vencedor da premiação na categoria Melhor Direção de Fotografia Filme Estudantil –, dirigido por Guilherme Guedes e fotografado por Gabriel Vignola; “Óleo” (UFS), dirigido por Ariel Barros e fotografado por Alícia Mendes; e “Prazer e devoção” (Belas Artes), dirigido por Lucas Foltran e fotografado por Lucas Marcarini.
A sessão durou cerca de 1h30 e, ao final da projeção, a ABC e a Cinemateca abriram um espaço para perguntas do público direcionadas às três equipes presentes (Faap, ECA-USP e Belas Artes). O bate-papo durou cerca de meia hora.
Confira, a seguir, algumas imagens desta Sessão ABC de curtas-metragens:





















Os diretores contaram como chegaram até os respectivos temas, os desafios da produção de curtas universitários com baixo orçamento, a preparação dos atores, a pós-produção etc. E os diretores de fotografia de “Memórias de nitrato” e “Prazer e devoção” também falaram um pouco sobre seus respectivos trabalhos e processos.
“Baixada: Nas águas de Cubatão”
O diretor Renato de Castro, de “Baixada: Nas águas de Cubatão”, compartilhou alguns contratempos da equipe, como a passagem do trem (que entrou no filme) quando o grupo precisava entrar ou sair da comunidade. Ele contou que a protagonista, a atriz Jouá Schmidt, não era da região nem pôde vivenciar uma experiência imersiva para o papel, mas mesmo assim entregou um excelente resultado. “Ela, com seu próprio talento, colocou tudo em prática”, resumiu.
Ainda segundo Castro, a ideia de fazer um curta sobre os sintomas negativos da economia portuária na Baixada Santista surgiu muito antes do primeiro tratamento do roteiro. Inicialmente, a produção seria rodada em Vicente de Carvalho, distrito do Guarujá. “Não era um lugar muito aberto a receber gente com câmera. Estava feia a situação lá, sentimos um clima [pesado]. Voltamos para São Paulo e, nas pesquisas, ouvimos falar de um coletivo chamado Nois das Palafitas, e a Natalia Cristine [do coletivo] foi produtora do filme, que passou a existir a partir da ação dela”, contou.
Todas oportunidades de pesquisas, as entrevistas primárias sobre a cultura da pesca na comunidade, sobre os problemas que eles passam, sobre as partes do manguezal que os pescadores têm ou não acesso (por restrições da Marinha) ocorreram, então, a partir dessa parceria com o Nois das Palafitas. “Foi muito gratificante ter descido para Cubatão todo final de semana por um bom tempo, estudar temáticas sociais e entender como as pessoas de lá vivem, o que gostam de fazer, o que as faz sorrir. A regra principal na decupagem nunca foi assumir que a gente fazia parte daquele lugar, por isso em todo enquadramento a gente dava dez passos para trás. A nossa perspectiva era distante, pois não tínhamos aquela vivência. A identidade do filme fez a paisagem, a cidade falarem por si sós”, destacou o diretor.
Castro revelou ainda que, inicialmente, o curta teria outra personagem (uma jornalista, filha da protagonista) e trataria de temas como o futebol, o time do Santos, a Vila Belmiro e o porto. “Essa personagem foi ganhando cada vez menos espaço no corte final, até que deixou de existir. E a pesca, que tem muito a dizer, ganhou protagonismo.”
“Memórias de nitrato”
O diretor Guilherme Guedes começou sua fala pontuando que o curta “Memórias de nitrato” reúne dois filmes em um: o primeiro colorido, que se passa na época atual, mais realista, de um cotidiano de trabalho; e outro PB, de um passado distante, sem falas e destacado da realidade. “Isso implicou questões da direção de fotografia e também da atuação dos atores. Foi um trabalho constante de construção, para imaginar como seria retratar um filme [preto e branco] feito há 70, 80 anos. Essa visualidade estava muito no olhar, no corpo dos atores. Eles souberam traduzir isso muito bem”, avaliou.
De acordo com o diretor de fotografia Gabriel Vignola, a trilha sonora foi feita por um profissional contratado, mas dentro de um orçamento limitado. “Ainda não estamos com a mixagem 100%, em 5.1, aguardamos alguns trâmites para finalizar. Foram muitas parcerias e amigos talentosos que nos ajudaram”, agradeceu.
“Prazer e devoção”
O diretor Lucas Foltran, do curta de época “Prazer e devoção”, explicou que a equipe trabalhou com três atores de faixas etárias distintas, cada um interpretando um arquétipo masculino diferente (um mais jovem e ingênuo, um mais esforçado e sensível, e um idoso conservador). O ator mais difícil de encontrar foi o mais sênior, que veio do teatro. “Esse ator nos deu atenção, tinha o perfil do personagem carrasco, e topou fazer o trabalho. Fiquei muito feliz com essa parceria”, ressaltou.
Segundo o diretor de fotografia Lucas Marcarini, a montagem e a correção de cor também foram feitas por ele. “A gente fez uma entrega para a faculdade e, depois, remontou o filme”, contou.
Foltran acrescentou que, em relação ao som, houve alguns problemas no processo, o que parece ser uma questão técnica crônica no audiovisual brasileiro. “Porém, em todos os curtas exibidos nesta sessão, além de a fotografia ser maravilhosa, a captação de áudio e a sonorização estão muito boas. Para a gente, durante a faculdade, o som não foi uma tema muito abordado, por ser um departamento bem técnico. Duas pessoas fizeram a captação de som direto no nosso curta, e uma delas participou da mixagem. Depois, uma terceira pessoa nos ajudou em trechos específicos, mais complicados, do som na pós. Foi tudo muito na base da amizade, da parceria, pois nosso orçamento foi superbaixo. A gente não tinha nenhum recurso previsto para a pós de som e correção de cor, por exemplo. Fomos atrás de empresas da cidade de Tietê [onde o filme foi gravado] que topassem participar do projeto”, revelou Foltran.