Por Alê Braga, da IMAGO*
A entrevista a seguir foi publicada originalmente em inglês, em julho de 2025, no site da IMAGO (International Federation of Cinematographers). A diretora de fotografia russa Evgenia Alexandrova, AFC é responsável pela cinematografia de “O Agente Secreto” (2025), dirigido por Kleber Mendonça Filho. Também assinou a fotografia de “Sem Coração” (2024), dirigido por Nara Normande e Tião. O filme se passa na Praia de Guaxuma (AL), nos anos 1990.
Já o longa de Mendonça Filho recebeu, em maio, quatro prêmios (Melhor Direção, Melhor Ator, Prêmio da Crítica-FIPRESCI e Art et Essai, da Associação Francesa de Cinemas de Arte e Ensaio) no Festival de Cannes (França) e, em setembro, foi selecionado pela Academia Brasileira de Cinema para ser o título que vai representar o país no Oscar 2026. No dia 8 de dezembro, foi indicado a três categorias do Globo de Ouro 2026.
Confira, a seguir, a entrevista com Evgenia Alexandrova, AFC:
Evgenia Alexandrova, AFC, é um exemplo da natureza transgressora do cinema. Com raízes em São Petersburgo, Rússia, e uma trajetória criativa enriquecedora moldada pela academia francesa e por experiências internacionais, seu trabalho incorpora uma combinação de intuição, profundidade emocional e precisão técnica. Conhecida por seu espírito colaborativo e cinematografia vibrante, a abordagem narrativa de Evgenia é profundamente pessoal, refletindo sua vasta bagagem cultural e um compromisso inabalável com histórias significativas.
Embora sua jornada na cinematografia tenha começado tarde, seu fascínio pelo cinema floresceu desde cedo. Aos 14 anos, ela se encantou pela sétima arte, mas não tinha certeza de como entrar nesse meio. Crescendo na Rússia, via a indústria cinematográfica como um enclave exclusivo, onde era preciso ter contatos para ingressar. Por isso, concentrou seus primeiros anos nos estudos e cursou Administração, pensando que o cinema poderia permanecer um sonho distante. No entanto, aos 22 anos, encontrou alguém que desmistificou os bastidores da produção cinematográfica. Esse momento fortuito revelou a magia do papel do diretor de fotografia, descrito a ela como “alguém que cria a atmosfera do filme”. A partir daí, soube que precisava mergulhar de cabeça no cinema.
Sua transição, no entanto, foi tudo menos convencional. Depois de se formar na La Fémis (École Nationale Supérieure des Métiers de l’Image et du Son), Evgenia evitou o caminho tradicional de subir lentamente na hierarquia da equipe de câmera. “Quando terminei meus estudos de cinema, eu tinha 28 anos e senti que não podia perder mais tempo. Trabalhei um pouco como assistente, só para entender, mas logo em seguida comecei a dirigir a fotografia de curtas-metragens — sem receber nada no início, depois foi remunerado”, revela. Ao longo dos anos, Evgenia aprimorou sua técnica trabalhando em 50 curtas, antes de entrar no mundo dos projetos de longa-metragem.
A filosofia profissional de Evgenia Alexandrova, AFC centra-se tanto nas pessoas quanto na imagem. Para ela, o papel de diretora de fotografia vai além de compor enquadramentos esteticamente agradáveis ou controlar a iluminação; trata-se de liderar uma equipe e traduzir ideias artísticas em realidade. “O(a) diretor(a) dá a direção, mas, como diretor(a) de fotografia, você dá vida às ideias e guia todos em direção a essa visão”, explica. Sua formação multicultural — tendo vivido na Rússia, na França e viajado bastante — moldou sua capacidade de compreender e se conectar com pessoas de todas as origens. “Trabalhei com tantas culturas diferentes, o que me ensinou a observar as pessoas”, destaca, enfatizando a importância da comunicação e da intuição no set. Essa experiência internacional fomenta sua adaptabilidade e sua crença em manter a flexibilidade ao liderar uma equipe ou colaborar com diretores(as).
Ao longo de sua carreira, Evgenia aprendeu a confiar em seus instintos para ser uma líder cinematográfica segura de si. “Foi uma longa jornada psicológica para me apresentar como legítima”, reconhece. Hoje, ela abraça a energia dinâmica da vida no set, equilibrando a preparação com a espontaneidade que a produção cinematográfica exige: “Gosto de estar presente no momento. O que acontece diante da câmera precisa parecer vivo — não pode ser apenas o que imaginei na minha cabeça”.
Particularmente atraída pela filmagem com câmera na mão, Evgenia descreve operar uma câmera como uma dança íntima com os atores e atrizes. “É sobre distância, posição e presença”, diz, acrescentando que esses momentos de sinergia são o que a revigoram. Ela também fala com carinho de trabalhar com atores como Wagner Moura, com quem colaborou em “O Agente Secreto”. “Ele é uma pessoa muito generosa e atenciosa, e desenvolvemos uma relação de confiança no set”, compartilha. Um momento marcante envolveu uma cena espontânea filmada com câmera na mão, na qual o personagem de Moura está tomado pela ansiedade. “Kleber não gostava muito de câmeras na mão inicialmente, mas, naquele momento, pareceu perfeito. Havia uma energia incrível entre a câmera e Wagner — era como uma pulsação compartilhada.”
Sua colaboração com Mendonça Filho em “O Agente Secreto” foi um ponto de virada em sua carreira. Evgenia se apaixonou imediatamente pela complexidade do roteiro, que ressoava com sua identidade como alguém que cresceu na Rússia pós-soviética. “Me conectei profundamente com a história por causa do passado do meu país. Existem muitas semelhanças entre o Brasil e a Rússia — ambos são nações vastas com culturas vibrantes, mas também com lutas contra o racismo e a pobreza. Quando li o roteiro, soube exatamente o que sentia”, explica. Ela admirou a visão de Mendonça Filho de rejeitar imagens sombrias e melancólicas para um drama, abraçando, em vez disso, a essência vibrante e colorida do Brasil. “É tão brasileiro pensar: ‘A morte está chegando, mas vamos dançar!’”, ela ri, reconhecendo a alegria e a resiliência presentes no filme.

Apesar dos desafios de trabalhar em um roteiro com mais de 160 páginas e filmagens em diversas locações, Evgenia considerou o projeto uma experiência profundamente gratificante. O filme estreou no Festival de Cannes, onde sua narrativa vibrante e conquistas técnicas receberam ampla aclamação. “A sala em Cannes era linda, e o público reagiu com muito entusiasmo. Foi emocionante ver como o filme os impactou positivamente.”
O processo criativo de Evgenia geralmente começa com pesquisa e referências, mas suas inspirações não se limitam estritamente a fontes visuais. Ela, às vezes, busca ideias na literatura ou até mesmo em reflexões pessoais. “Para mim, não se trata apenas de imagens; às vezes, um livro com um personagem ou tema semelhante pode despertar algo”, afirma. Essa abordagem multidisciplinar ficou evidente em projetos como “Sem Coração”, no qual trabalhou com atores amadores para criar imagens vívidas e cruas, ou no documentário “Machtat” (2023, Líbano/Tunísia), dirigido por Sonia Ben Slama, no qual filmou com lentes de alta qualidade, posicionando-se em estreita proximidade física com seus personagens para construir conexões íntimas. Outro marco foi o filme francês “As Mulheres da Sacada” (2024), dirigido, coescrito e estrelado por Noémie Merlant, no qual expandiu os limites estéticos com cores vibrantes, movimentos de câmera radicais e uma direção de câmera complexa.

A diversidade da obra de Evgenia Alexandrova, AFC reflete sua relutância em se prender a um único estilo. “Não quero ser reconhecida por fazer sempre a mesma coisa”, diz. “Espero que as pessoas percebam uma forte proposta em tudo o que faço — uma disposição para experimentar algo diferente.”
Olhando para o futuro, a diretora de fotografia continua a expandir sua carreira internacional com projetos que incluem uma nova obra de ficção e um documentário brasileiro. Refletindo sobre sua trajetória, ela se mantém com os pés no chão e inspirada pela natureza em constante transformação da arte cinematográfica. “O que eu gostava em uma imagem há dez anos é muito diferente do que admiro agora”, afirma. Com sua curiosidade incansável e coragem artística, Evgenia Alexandrova, AFC é um farol na cinematografia contemporânea, tecendo histórias que brilham com autenticidade, profundidade e humanidade.
*Alê Braga é diretor de Comunicação da International Federation of Cinematographers (IMAGO).