Gustavo Hadba, ABC: Uma jornada cinematográfica de ondas e ousadia

Leia entrevista da IMAGO com o renomado diretor de fotografia
Hadba Fotolauracampanella
O diretor de fotografia Gustavo Hadba, ABC. Foto: Laura Campanella

Por Alê Braga, da IMAGO*

A entrevista a seguir foi publicada, originalmente, em inglês, em junho de 2024, no site da International Federation of Cinematographers (IMAGO):

Gustavo Hadba, ABC é um diretor de fotografia cuja carreira é marcada pela ousadia, versatilidade e por uma profunda paixão pelas artes audiovisuais. Hadba teve seu primeiro contato com o mundo das câmeras por meio de uma paixão que parecia muito distante do cinema: o surfe.

A relação de Hadba com o audiovisual começou nas praias, assistindo a filmes de surfe. Na década de 1970, assistir a esses filmes era um evento quase clandestino, onde a beleza das ondas e a habilidade dos surfistas capturavam sua imaginação. O surfe foi o catalisador que despertou seu interesse pela filmagem, inicialmente com uma câmera Super 8. Ao filmar suas próprias aventuras no mar, Hadba começou a entender a magia de capturar imagens em movimento.

Um grave acidente de paraquedismo, porém, mudou o rumo de sua vida. Durante o longo período de recuperação, Hadba foi apresentado ao mundo profissional da cinematografia. “Minha tia conhecia alguém e eu conheci um cara que era cinegrafista da TV Bandeirantes…foi a primeira vez que entrei em um set.” Essa experiência abriu seus olhos para o mundo do cinema e do vídeo, marcando o início de sua carreira.

Apesar da falta de formação formal em cinema, Hadba compensou com determinação e um desejo incessante de experimentar. Trabalhando com notícias factuais, cobriu eventos como eleições internacionais e desastres naturais, o que lhe deu uma vasta experiência prática. Sua abordagem inicial era livre de formalidades: “Isso me permitiu ser mais livre ou mais criativo.” Essa liberdade permitiu que ele desenvolvesse um estilo único e inovador.

Uma experiência crucial em sua carreira foi a participação em campanhas políticas. Em 1986, Hadba trabalhou em uma campanha em Pernambuco dirigida por Guel Arraes. Isso lhe proporcionou uma compreensão profunda do Brasil. “A campanha me proporcionou um relacionamento com o Brasil, um Brasil que o surfista não conhecia.” Viajar por diferentes regiões do país ampliou sua visão e compreensão da diversidade cultural e social do país, influenciando seu trabalho e sua perspectiva criativa.

Gustavo valoriza profundamente a riqueza das experiências adquiridas ao longo de sua carreira. Ele descreve a experiência de operar uma câmera e um steadicam por muitos anos como um “imenso prazer” e, acima de tudo, “uma verdadeira escola”, onde cada projeto se tornou uma oportunidade de aprendizado e crescimento profissional. Trabalhar com pessoas diversas e em várias situações proporcionou-lhe uma ampla gama de experiências, permitindo-lhe não apenas participar e observar, mas também se envolver intensamente e contribuir com ideias.

Hadba frequentemente se refere às “horas de voo” como cruciais para seu desenvolvimento profissional. “Horas de voo são algo que você realmente precisa voar para ter.” Trabalhar em diferentes locais e situações desafiadoras, da Amazônia a Moçambique, do Canadá a Mianmar, proporcionou-lhe uma ampla gama de experiências que moldaram suas habilidades técnicas e criativas. “A experiência e todas essas coisas, as restrições, te tornam mais calmo e te fazem procurar outras opções.”

Para Hadba, ser diretor de fotografia envolve mais do que apenas habilidade técnica. Ele enfatiza a importância da colaboração e da cumplicidade com a equipe criativa. “Você precisa estar disposto a ser cúmplice das pessoas que estão contando essa história. Do diretor ao designer de produção [segundo a indústria estadunidense], do roteirista ao diretor de arte.” Conhecer e compreender profundamente os colegas, segundo ele, é essencial para criar um ambiente harmonioso e produtivo.

Filmes como “Alegria de Verão” (1998), dirigido por Bruce Brown, e o documentário “Led Zeppelin: The Song Remains The Same” (1976), de Peter Clifton e Joe Massot, tiveram um impacto significativo na vida de Hadba. Esses filmes documentam a busca pessoal e a liberdade, aspectos que ressoam sua própria jornada. Ele também menciona a inveja saudável que sentiu ao assistir “Na Natureza Selvagem” (2007), dirigido por Sean Penn, desejando ter sido o responsável pela fotografia desse filme.

A ousadia é a marca registrada de Hadba. Ele sempre busca ultrapassar limites e experimentar novas abordagens, mesmo correndo o risco de fracassar. “Sem querer parecer arrogante, minha marca registrada é não ter medo.” Essa filosofia o levou a trabalhos desafiadores e inovadores, como “Grande Sertão” (2023), dirigido por Guel Arraes, onde enfrentou o desafio de criar uma noite em tons de marrom, um “luar sertanejo”.

Atualmente, Hadba continua explorando novas fronteiras. Entre seus trabalhos recentes, estão “O Auto da Compadecida 2” (2024), dirigido por Guel Arraes e Flávia Lacerda; e “Cansei de Ser Nerd”, de Gualter Pupo. Também está preparando [na época da entrevista] “Meu Querido Mundo” (2025), um filme em preto e branco dirigido por Miguel Falabella.

Gustavo Hadba é um exemplo de como a paixão, a ousadia e a resiliência podem levar a uma carreira brilhante e inspiradora no cinema. Ele incentiva as novas gerações a serem mais ousadas e a buscarem a diversidade em suas criações. “Façam as coisas de maneira diferente, não tenham medo”, aconselha, refletindo o espírito que definiu sua própria trajetória.

A história de Hadba é a prova de que, mesmo começando modestamente, é possível alcançar grandes alturas por meio da determinação e da vontade de explorar novos horizontes.

*Alê Braga é diretor de Comunicação da International Federation of Cinematographers (IMAGO).

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