Thales Junqueira: “O Agente Secreto”

Diretor de arte fala sobre seu trabalho no filme de Kleber Mendonça Filho
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Cena de “O Agente Secreto”, que tem estreia comercial no país marcada para 6 de novembro. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Por Luna D’Alama*

O filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi indicado no dia 15 de setembro pela Academia Brasileira de Cinema como o longa nacional que vai representar o país no Oscar 2026. Estrelada por Wagner Moura (que também é coprodutor), Maria Fernanda Cândido e Gabriel Leone, a obra recebeu quatro prêmios (Melhor Direção, Melhor Ator, Prêmio da Crítica-FIPRESCI e e Art et Essai, da Associação Francesa de Cinemas de Arte e Ensaio) no Festival de Cannes (França), em maio, e mais dois troféus (Melhor Filme do Júri e Melhor Filme da Crítica Internacional) no Festival de Cine de Lima (Peru), em agosto, entre outras premiações. Recentemente, passou pelos festivais de Toronto (Canadá) e Telluride (EUA), e logo estará na programação do Festival de Cinema de Nova York.

A estreia comercial do longa nas salas do país está prevista para o dia 6 de novembro. Enquanto isso, a produtora francesa MK2 Films (de “Anatomia de Uma Queda”) está responsável pela venda internacional dos direitos autorais do longa para mais de 90 países. Nos próximos meses, o título rodado no Recife (com algumas cenas em São Paulo e Brasília) pode passar, ainda, pelo Globo de Ouro e batalhar por uma das cinco vagas na categoria de Melhor Filme Internacional – que este ano premiou “Ainda Estou Aqui”, com direção de Walter Salles e direção de fotografia de Adrian Teijido, ABC.

O anúncio oficial dos indicados à 98ª edição do Oscar está previsto para o dia 22 de janeiro, e a cerimônia de entrega das estatuetas está marcada para 15 de março, em Los Angeles. Segundo a revista estadunidense Variety, “O Agente Secreto” tem grandes chances de ser indicado a Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante (Tânia Maria) e Melhor Roteiro Original no Oscar 2026. Há apostas, ainda, em Mendonça Filho como Melhor Diretor.

Gravado em 2024, ao longo de dez semanas, o filme conta uma história em três atos que se passa em 1977, durante a ditadura civil-militar. Fugindo de um passado misterioso, Marcelo (Wagner Moura), um especialista em tecnologia, na casa dos 40 anos, volta ao Recife em busca de paz, mas percebe que a cidade está longe de ser o refúgio que procura. Nas palavras do diretor durante o 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (que exibiu “O Agente Secreto” em sua noite de abertura, no dia 12 de setembro), “é um filme de época, mas também sobre o Brasil dos últimos dez anos. Fala sobre história e sobre nossa capacidade de lembrar”.

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Wagner Moura na sequência de abertura de “O Agente Secreto”. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Quem assina a direção de arte é Thales Junqueira, mineiro de nascença e recifense desde que se mudou para a capital pernambucana, nos anos 1990. Formado em jornalismo e ciências sociais, Junqueira sempre trabalhou com cinema. Começou a carreira no documentário “Avenida Brasília Formosa” (2010), dirigido por Gabriel Mascaro, e no premiado curta “Mens Sana in Corpore Sano” (2011), de Juliano Dornelles, de quem foi assistente em “O Som ao Redor” (2012), primeiro longa de ficção de Kleber Mendonça Filho. A partir de “Aquarius” (2016), o profissional passou a comandar a direção de arte dos filmes de ficção do diretor pernambucano, passando por “Bacurau” (2019) e, agora, “O Agente Secreto”.

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Além dos trabalhos com Mendonça Filho, Thales Junqueira atuou como diretor de arte em “Que Horas Ela Volta?” (2015) – em parceria com Marcos Pedroso – e “Mãe Só Há Uma” (2016), dirigidos por Anna Muylaert; “Três Verões” (2019), de Sandra Kogut; “Divino Amor” (2019), de Gabriel Mascaro; “Doutor Gama” (2021), de Jefferson De; “Sem Coração” (2023), de Nara Normande e Tião; “Grand Tour” (2024), de Miguel Gomes; “Baby” (2024), de Marcelo Caetano; “Homem com H” (2025), de Esmir Filho; e na série “Cangaço Novo”, da Prime Video.

Junqueira acaba de passar pelo Festival de Brasília com a equipe de “O Agente Secreto”. Atualmente, está trabalhando na pré-produção de um longa cujo título provisório é “No Jardim do Ogro”, adaptação do livro homônimo da escritora franco-marroquina Leïla Slimani, com direção de Carolina Jabor.

A seguir, o diretor de arte dá detalhes sobre seu trabalho em “O Agente Secreto”, a parceria de longa data com Kleber Mendonça Filho, o papel da direção de arte no filme, os desafios de sua equipe (com cerca de 30 pessoas), as trocas com outros departamentos e as expectativas para o Globo de Ouro e o Oscar.

Você não participou de “Retratos Fantasmas”, que é um documentário, tem outra pegada. Mas de que forma ele serviu de pesquisa para “O Agente Secreto”?

TJ: É, eu não fiz esse. Mas “Retratos Fantasmas” é um filme irmão de “O Agente Secreto”. São filmes gestados paralelamente: enquanto Kleber escrevia “O Agente Secreto”, ele estava preparando “Retratos Fantasmas”. Inclusive, em alguma medida, “Retratos Fantasmas” serviu para destravar esse roteiro ficcional. À medida que avançou na produção e na pesquisa de “Retratos Fantasmas”, Kleber encontrou um fluxo para “O Agente Secreto”. Foi um ponto de partida poderoso em termos de pesquisa, porque toma o Recife, mais uma vez, como tema, como centro afetivo, com informações da cidade, do cinema de rua. “Retratos Fantasmas” tem uma estrutura muito interessante, porque parte de um contexto muito doméstico, do apartamento da Joselice Jucá, mãe de Kleber, sendo transformado, reformado por Múcio, que é o irmão arquiteto de Kleber. É um cenário de muitos dos filmes de Kleber, né? Eu mesmo frequentei esse apartamento, Kleber já não mora nele há muito tempo. Esse apartamento fica localizado no bairro Setúbal, onde se passa “O Som ao Redor” – inclusive, a personagem de Maeve Jinkings vivia no próprio apartamento de Kleber. E o cachorro [do vizinho] existia e realmente latia, incomodava a gente pra caramba! [Em resumo,] “Retratos Fantasmas” parte de um contexto muito íntimo, de transformação de um espaço doméstico, das relações de Kleber com esse lugar. Então, uma parte significativa da pesquisa de “O Agente Secreto” vem daí, porque esse documentário é um olhar de Kleber sobre uma cidade em transformação. Foi um ponto de partida muito rico.

Como surgiu o convite e em que momento ocorreu? Como é trabalhar e repetir a parceria com o Kleber Mendonça Filho?

TJ: É engraçado, mas o convite não veio formalizado, porque, como temos uma parceria que vem de muito tempo, de certa forma eu já ouvia falar, desde “Bacurau”, do desejo de Kleber por “O Agente Secreto”. Assim como, em “Aquarius”, eu já ouvia falar de “Bacurau”. É um movimento de continuidade dessa parceria. Mas acho que o ponto de partida de um novo projeto é quando você lê o roteiro. Eu estava em Roma fazendo um filme português chamado “Grand Tour” (2024), dirigido por Miguel Gomes [e com direção de fotografia de Rui Poças, ABC]. Kleber me ligou falando: “Quero dividir o roteiro com você, pode ler?”. Respondi: “Me manda que eu vou ler agora”. Tinha acabado de chegar ao hotel, isso foi no comecinho de 2023. Li [as mais de 160 páginas] e mandei uma mensagem de texto grande para ele, que ficou agradecido. Kleber disse que tudo o que eu falei tinha muita sintonia com o que se passava em sua cabeça durante a escrita. Ele comentou que sempre tem algo de estranho ao compartilhar um roteiro com alguém, porque é como se estivesse dividindo seus segredos. Tem muito dele no filme, da memória que ele tem do Recife. Acho que foi nesse momento, em Roma, que eu entrei, de fato, no filme. Fiquei muito impressionado, foi o melhor roteiro dele que já tinha lido. Mas já tinha falado isso em “Bacurau”.

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O diretor de arte Thales Junqueira e o diretor Kleber Mendonça Filho no set de filmagens. Foto: Arquivo pessoal

Quais são as suas principais impressões sobre o filme?

TJ: Tive uma forte sensação de estar vendo, mais uma vez, o Brasil e o mundo a partir da capital pernambucana, numa complexidade muito grande nesse olhar sobre o Brasil e as questões brasileiras. É um filme que se passa quase inteiramente no final da década de 1970, com alguns flashbacks em 1974 [e saltos]. De certa forma, é um longa sobre a ditadura militar, mas nunca vi nada igual. O Brasil, felizmente, tem muitas produções que se dedicam a esse período da nossa história, mas esse lança uma perspectiva muito singular com relação à ditadura, porque não tematiza esse regime a partir da tortura, da guerrilha urbana ou do DOPS [Departamento de Ordem Política e Social]. Ele está num outro lugar, trata da ditadura impregnada na sociedade, no estado de espírito das pessoas. É quase como uma ética partilhada, com seus pontos de tensão e de resistência àquilo. É realmente um filme muito diferente sobre a ditadura militar. Vi o filme “Zona de Interesse” (2023), de Jonathan Glazer, e imediatamente pensei em “O Agente Secreto”. O cinema norte-americano tem um grande interesse pela Segunda Guerra, pela ascensão do nazifascismo e tudo mais. E são milhares de filmes que já tematizaram o Holocausto, Auschwitz, mas aquela perspectiva é absolutamente nova. Ali, a gente está no seio de uma família alemã, vizinha a um campo de concentração. E a gente vê aquela vida cotidiana acontecendo, enquanto ouve e sente aquele horror [próximo dali]. Acho que “O Agente Secreto” tem pontos em comum com “Zona de Interesse” ao trazer uma perspectiva muito específica e nova com relação a um grande trauma coletivo brasileiro [e latino-americano] que é a ditadura militar.

Você vê também algum ponto de intersecção com “Ainda Estou Aqui”?

TJ: Acho que existem poucas relações entre os filmes, para além do período histórico em que se passam. Cada um aborda o trauma coletivo da ditadura militar de uma maneira diferente.

E o que esse trabalho tem de diferente ou singular em relação aos seus anteriores?

TJ: Acho que foi a relação de Kleber com a direção de arte. Ele é um baita diretor, um parceiro de trabalho incrível, mas nunca, em nenhum outro filme que fiz com ele, ele esteve tão presente nas decisões e nas escolhas da direção de arte. Então, eu diria que foi o filme em que a gente trabalhou com maior proximidade. Trabalhei com total liberdade e com uma troca muito intensa, porque me interessava muito capturar esse Recife da memória dele. Existe o Recife que está na historiografia, na fotografia, nos jornais e nas revistas da época, mas também existe o Recife que vem da memória – nesse caso, a memória individual do diretor. Somos de gerações diferentes. A minha Recife, da infância, é dos anos 1990. Mudei para a cidade na primeira metade dos anos 1990.

Como foi construir, então, a memória desse Recife dos anos 1970? Quais foram os principais desafios para a criação desse universo em termos de direção de arte? Considerando que a cidade passou por muitas transformações e há várias cenas externas, abertas.

TJ: Foi um grande desafio. Partimos dessa grande pesquisa levantada para “Retratos Fantasmas”, como já mencionei. Além disso, utilizamos a memória de Kleber, fotos domésticas, coisas preciosas. Fizemos um grande levantamento de álbuns de família, de amigos(as) e conhecidos(as) no Recife e, a partir disso, a gente conseguiu remontar um pouco o jeito de morar pernambucano da classe média dos anos 1970, e também olhar um pouco a rua numa perspectiva que não fosse do cartão postal ou da fotografia tradicional.

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Cena externa de “O Agente Secreto”. Marcelo (Wagner Moura) contracena com o delegado (de óculos) e seus ajudantes. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Quais foram suas principais referências?

TJ: Eu citaria três filmes brasileiros que são uma referência máxima para mim, no pensamento de “O Agente Secreto”: “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), um longa maravilhoso de Hector Babenco (1946-2016), lançado precisamente no ano em que o filme se passa; “Iracema, uma Transamazônica” (1975), de Jorge Bodanzky; e “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1981), também de Babenco. Este é um filme lançado no início dos anos 1980, mas evidentemente tem ali ainda uma atmosfera dos anos 1970. Na direção de arte, esses três filmes me inspiraram bastante. Me interessava muito uma abordagem realista do Recife, sem idealizações do que foi esse passado.

Você disse numa entrevista que a equipe teve a sorte de descobrir espaços que mantinham a essência do Recife de 1977. Que lugares são esses?

TJ: O filme se passa quase todo no centro do Recife. Esse centro, assim como os centros da maior parte das cidades brasileiras e do Sul Global, foi abandonado a partir da segunda metade do século XX, porque o dinheiro migrou para outro lugar. Uma conclusão a que eu cheguei, com o Kleber, é que a pobreza ajudou a preservar [alguns desses locais]. Existe um aspecto conservador nesse sentido. Então, tem uma parte daquele Recife que, por mais que estivesse muito degradada – afinal de contas, são décadas de abandono –, foi esquecida de ser botada abaixo. Foi esse Recife que a gente procurou. Agora, claro, os desafios foram imensos, porque é um filme com dezenas de locações, e a gente tinha o desejo de ter a rua como um personagem.

Vocês filmaram em estúdio também? Tiveram que construir cenários?

TJ: Fizemos uma cena no IML [Instituto de Medicina Legal] em estúdio porque precisava de uma coisa muito específica, e essa locação não existia. Além disso, construímos do zero um posto de gasolina numa beira de estrada, que é onde o filme começa. A gente tinha um terreno disponível e, ali, foi construído o posto. Também tentamos reconstruir o terminal de desembarque do Aeroporto dos Guararapes, no Recife, nos anos 1970, porque hoje é outro terminal. O aeroporto daquela época, que foi projetado no final dos 1950, foi abandonado do lado do atual no início dos anos 2000, hoje está em ruínas, não tinha como filmarmos lá – também porque esse lugar já tinha sido muito modificado [em relação ao projeto inicial]. Agora, tirando essas locações feitas do zero, “O Agente Secreto” é um filme que lida, basicamente, com locações preexistentes [como o Cinema São Luiz], ainda que com um nível de intervenção imenso, porque estavam muito degradadas. Filmar no centro da cidade, principalmente as externas, é um desafio em qualquer lugar do Brasil. A gente rodou cenas com ruas fechadas. E tem um plano importante em que se observa a cidade a partir da janela da cabine de projeção do Cinema São Luiz, de onde se vê a Avenida Guararapes em uma boa extensão. Então, nesse grande plano aberto, a gente vê o funcionamento do centro e de tudo que aparece ali. Obviamente, vias foram interditadas para que a gente conseguisse fazer a filmagem, com carros de época e intervenções da direção de arte. Os automóveis vieram de colecionadores do Recife e região. Foi o João Lucas, um parceiro incrível, que fez a produção dos veículos.

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Posto de gasolina construído do zero pela equipe de direção de arte de “O Agente Secreto”. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação
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Plano geral do posto de gasolina construído numa beira de estrada em Pernambuco e usado como cenário da primeira sequência do filme. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação


Como foi pensada e escolhida a paleta de cores?

TJ: Não costumo trabalhar com uma paleta de cores pensada previamente, formalizada. É claro que penso muito sobre como as cores se comportam em cada cenário e, consequentemente, como aparecem no decorrer de uma história. Mas não sistematizo uma paleta assim. Embora eu tenha feito a direção de arte de filmes que têm uma proposta cromática muito fechada, como “Divino Amor” (2019), de Gabriel Mascaro, que é bastante paletado, eu queria, em relação às cores de “O Agente Secreto”, que o Recife fosse colorido e vibrante, assim como, de fato, eram os anos 1970 – ao menos, nessa experiência cotidiana das ruas, dos automóveis, das vitrines, dos tecidos, das roupas. Porque existe uma tendência muito recorrente no cinema brasileiro de retratar os anos 1970 sob a luz sombria da ditadura militar. Mas eu queria que o Recife fosse vibrante o tempo todo, porque assim eram os anos 1960 e 1970 em matéria de design, arquitetura, moda. Eram multicoloridos. Então, existe nesse filme uma certa predileção pelas cores primárias, muito amarelo, vermelho e azul. Quando as cores entram, existe uma tonalidade, uma certa pureza, uma vibração nessas cores, nos espaços, na cenografia, nos veículos. O desejo era que a direção de arte nos transportasse para o passado, com a sensação de estarmos em 1977. Não olhar para 1977 a partir do presente, como se o passado estivesse coberto por uma certa película de poeira, que nos dá certa nostalgia. Queríamos um filme colorido, vibrante, intenso e vivo. Que não parecesse passado, mas aqui e agora.

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Maria Fernanda Cândido em cena. Filme prioriza cores primárias e vibrantes. Foto: CinemaScopio
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O diretor Kleber Mendonça Filho, a produtora Emilie Lesclaux e o ator Wagner Moura posam em frente a carro de época. Foto: Brent Travers

E como foram as trocas da direção de arte com figurino, caracterização, direção de fotografia e demais departamentos?

TJ: No figurino, trabalhei mais uma vez com uma grande parceira, uma figurinista pernambucana que se chama Rita Azevedo. Fizemos muitos filmes, como “Aquarius”, “Bacurau”, “Divino Amor”. É uma parceira com quem tenho muita sintonia, que pensa bastante o figurino a partir da dramaturgia, com um gosto enorme pela pesquisa histórica. Boa parte da pesquisa de álbuns de família que já mencionei, desses registros domésticos do Recife dos anos 1970, veio dela. Foi uma parceria, novamente, muito feliz. Acho o figurino do filme excelente. Já na caracterização, trabalhei pela primeira vez com uma maquiadora argentina chamada Marisa Amenta, que fez “Ainda Estou Aqui”. Eu já desejava trabalhar com ela há algum tempo. A gente tinha ensaiado uma parceria na série “Cangaço Novo”, mas acabou não indo para a frente por uma questão de agenda dela. Marisa se confirmou como uma maquiadora talentosíssima, fez todos os filmes da [diretora argentina] Lucrecia Martel. Fez “O Pântano” (2001), “A Menina Santa” (2004), “A Mulher Sem Cabeça” (2008) e “Zama” (2017). Além disso, na direção de fotografia, foi minha segunda parceria com a fotógrafa russa Evgenia Alexandrova, AFC. Ela aprendeu português e já tinha filmado no Brasil. Um pouco antes, a gente fez outro filme juntos, que também foi uma experiência muito feliz. Chama-se “Sem Coração” (2023), dirigido por Nara Normande e Tião. O filme se passa na Praia de Guaxuma (AL), nos anos 1990. Então, a gente já tinha uma sintonia, se entendia bem. Essas foram três parcerias muito felizes.

E o que você acha que se destaca na fotografia do filme?

TJ: Existe um gosto pela cor no filme que está muito em sintonia com o que eu pensava e propus. A partir dessa materialidade, acho que a luz e a correção de cor acompanham isso. Kleber tem uma cinematografia e um gosto muito específicos, que estão ligados a um certo cinema de autor norte-americano dos anos 1970, da Nova Hollywood [movimento formado por diretores como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg], filmes do Scorsese como “Caminhos Perigosos”, mas não apenas isso. Acho que, de certa forma, a diretora de fotografia Evgenia Alexandrova, AFC conseguiu capturar um jeito que Kleber costuma filmar. Eu falava para ele, por exemplo, sobre a precariedade da iluminação pública nos anos 1970, pois o Recife à noite, nas ruas, precisava ser escuro, os pretos tinham que ser profundos. Tivemos que tomar decisões de iluminação no set. Tudo que era luz pública contemporânea, a gente tinha que apagar, porque hoje é diferente. A iluminação pública no Recife atualmente, de modo geral, é uma luz fria. Então apagávamos a iluminação pública durante as noturnas, fazíamos as luzes de cena. A produção organizou isso com uma empresa que presta serviço de iluminação pública, a partir de uma demanda da fotografia. [Leia uma entrevista concedida pela diretora de fotografia à IMAGO (International Federation Of Cinematographers), na qual Evgenia diz admirar “a visão de Mendonça Filho de rejeitar imagens sombrias e melancólicas em favor de um drama, abraçando, em vez disso, a essência vibrante e colorida do Brasil. ‘É tão brasileiro pensar: ‘A morte está chegando, mas vamos dançar!’, ri, reconhecendo a alegria e a resiliência presentes no filme.”]

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Cena escolhida para o cartaz de “O Agente Secreto”. Foto: Victor Jucá

Você disse certa vez que o(a) diretor(a) de arte é especialista em generalidades. Qual foi o papel da direção de arte na construção da cinematografia e da ambientação de “O Agente Secreto”?

TJ: A direção de arte é um recurso para transfigurar o texto e os dados da dramaturgia em discurso estético. Então, quando você pega um roteiro, você o materializa a partir da direção de arte. Logo, tudo que se vê enquadrado está sob o guarda-chuva da direção de arte: as locações, os cenários, a decoração de cena, os objetos, o figurino, a caracterização, até a figuração. Tive muito cuidado com a escolha da figuração em “O Agente Secreto”, por ser um filme de época. Tinha uma cena com uns 70 figurantes, e eu recebi umas cem propostas vindas do produtor de figuração. Fazia essa seleção, sempre pensando no que cada pessoa poderia trazer já mais pronto em termos de dados de época, porque é um desafio também a caracterização, principalmente da figuração. Como a gente não tem tanto tempo de camarim, e o filme tinha cenas com muita figuração, principalmente as de rua, a gente tinha que tomar cuidado nessas escolhas, porque não podia fazer grandes empreitadas em cada um dos figurantes, senão excederia o tempo de camarim. O personagem do Wagner Moura vai trabalhar numa repartição pública, e essa repartição estabelece praticamente uma relação de atendimento ao cliente, então há muita figuração nesse contexto. O personagem dele chega ao Recife no finalzinho do carnaval, então a gente tem um resto de carnaval no filme, que também demandou uma figuração expressiva, com cenas de rua e tudo mais. Mostramos um centro do Recife vivo e pulsante, com muita gente.

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Uma das principais locações de “O Agente Secreto”. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação
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Sala do apartamento de Marcelo no Recife. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

A pré-produção durou quanto tempo?

TJ: Comecei a preparação um pouco antes. Cheguei ao Recife umas duas semanas antes de a gente começar, para me juntar ao Kleber, a gente ver coisas juntos, discutir, conversar sobre o roteiro a partir da perspectiva da direção de arte e também acompanhar a escolha das locações. Tudo isso foi feito antes desse período de dez semanas, em que eu já estava com a equipe trabalhando, com cenógrafo, assistência de arte, produção de arte, produção de objetos. Foram umas duas ou três semanas de pré.

Participou da pós também?

TJ: Bastante. Da correção de cor e também das intervenções de CGI (efeitos visuais) que a gente teve que fazer. Naturalmente, como temos grandes planos de rua, muita coisa teve que ser apagada, corrigida, então acompanhei isso de perto. Por exemplo, hoje existe um excesso de fiação nos espaços públicos que não havia na época. Há uma sobreposição de fios mortos, de telefonia, de internet, coisas que não eram realidade naquela época. A gente tentava esconder o máximo possível, deixar tudo ok, pelo menos dentro do campo do olho humano, quando estava na altura dos(as) personagens. Mas, daí para cima, quando a gente tinha planos abertos, foi feita bastante coisa na pós.

E o que você achou do resultado?

TJ: É um grande filme, e acho difícil enquadrá-lo em um único gênero, pois passeia por muitos climas diferentes. O resultado é impressionante! E gosto muito desse meu trabalho, Kleber está inspiradíssimo, o elenco é muito bom, a história é complexa. “O Agente Secreto” me parece um rio caudaloso, com muita informação, muito Brasil. Eu já tinha assistido ao filme inteiro, naturalmente, mas vi a primeira sessão pública com plateia no Festival de Cannes. A recepção foi muito calorosa! Fiquei impressionado com o fato de o público estrangeiro ter entendido o filme, porque ele tem coisas que são absolutamente particulares do Brasil, e até do Recife. Por exemplo, tem uma personagem que vem do folclore urbano recifense dos anos 1970, que é a Perna Cabeluda. É algo sobre o qual ouvi falar desde criança, mas, para o restante do Brasil, pode soar estranho. Agora, imagina para o público estrangeiro, que não faz a menor ideia do que seja. Ainda assim, esse é um filme que foi muito bem apreendido internacionalmente. Acho que as pessoas conseguiram absorvê-lo.

E qual a sua expectativa para a estreia do filme nos cinemas brasileiros e para uma vaga na lista final do Oscar de Melhor Filme Internacional?

TJ: Acho que [após “Ainda Estou Aqui”] esta é mais uma grande chance de o Brasil ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Acho muito provável. Aliás, a nossa shortlist deste ano teve filmes muito interessantes, como “Baby”, de Marcelo Caetano; “Manas”, de Mariana Brennand; e “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro. É uma bela safra do cinema brasileiro! E até filmes que não entraram na lista dos seis são excelentes, como “Homem com H”, de Esmir Filho, no qual também trabalhei. “Homem com H” e “O Agente Secreto, aliás,” se passam nos anos 1970, mas têm olhares distintos para o passado. Sobre o Oscar, acho que o longa de Kleber tem todos os elementos para ser indicado a Melhor Filme Internacional. Foi o mais premiado em Cannes, apesar de não ter levado a Palma de Ouro.

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Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura durante as gravações de “O Agente Secreto”. Foto: Laura Castor
Wagner Moura E Kleber Mendonca Filho Creditos Victor Juca
O protagonista e o diretor do filme no set. Local é onde Marcelo (Wagner Moura) trabalha. Foto: Victor Jucá


O prêmio de Melhor Ator para Wagner Moura em Cannes é muito significativo na corrida pelo Oscar. Você acredita que ele também deva ser indicado?

TJ: Sim, naturalmente. É um ator brilhante, já bem conhecido na indústria norte-americana. E acho que o prêmio de Wagner no Festival de Cannes o coloca, automaticamente, na rota do Globo de Ouro [cuja premiação será no dia 11 de janeiro de 2026]. Se ele for indicado a Melhor Ator no Globo de Ouro, gera uma maior atenção ao filme, assim como aconteceu com a Fernanda Torres este ano. Para além disso, a distribuidora norte-americana de “O Agente Secreto” é a Neon, a mesma de Anora [vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2025, dirigido por Sean Baker. A Neon, inclusive, já promoveu uma sessão exclusiva do filme para membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA]. E Kleber já é um nome conhecido nos Estados Unidos, vota na Academia. A vitória de “Ainda Estou Aqui” no ano passado também contribui para que “O Agente Secreto” tenha chances reais no Oscar. Estou na torcida. Espero que eles façam a coisa certa.

*Colaboraram com sugestões de perguntas as diretoras de arte Ana Mara Abreu, ABC e Carol Tanajura

Ficha técnica:

Diretor e roteirista: Kleber Mendonça Filho
Produção: Cinemascópio
Coprodução: MK Productions, Lemming, One Two Films
Produtora: Emilie Lesclaux
Produtora executiva: Dora Amorim
Coprodutor: Wagner Moura
Diretora de produção: Mariana Jacob
Diretores assistentes: Fellipe Fernandes e Leonardo Lacca
Distribuição Brasil: Vitrine Filmes
Diretora de fotografia: Evgenia Alexandrova
Diretor de arte: Thales Junqueira
Figurinista: Rita Azevedo
Caracterizadora: Marisa Amenta
Montadores: Eduardo Serrano e Matheus Farias
Som: Moabe Filho e Pedrinho Moreira
Editor de som e desenho sonoro: Tjin Hazen
Mixador: Cyril Holtz
Elenco: Wagner Moura, Gabriel Leone, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Hermila Guedes, Robério Diógenes, Alice Carvalho, Thomás Aquino, Rubens Santos, Carlos Francisco, João Vitor Silva, Isabél Zuaa, Laura Lufési, Tânia Maria, Ítalo Martins, Igor de Araújo, Suzy Lopes, Buda Lira, Geane Albuquerque, Wilson Rabelo, Roney Villella, Luciano Chirolli.


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