Entre os dias 19 de fevereiro e 1º de março, a Cinemateca Brasileira realiza a mostra O realismo crítico de Leon Hirszman e Park Kwang-su, em parceria com o Centro Cultural Coreano no Brasil e o Korean Film Archive. Gratuita, a programação reúne obras fundamentais dos dois cineastas que não só marcaram a história cultural em seus países, mas também evidenciam o papel do cinema como linguagem artística, política e histórica. Os ingressos são distribuídos uma hora antes de cada sessão.
O evento propõe um diálogo entre as trajetórias de Leon Hirszman (1937-1987), no Brasil, e Park Kwang-su (1955-), na Coreia do Sul, cujas obras foram atravessadas por contextos de regimes autoritários e por um forte engajamento político. Apesar das distâncias geográficas, suas filmografias se aproximam ao abordar temas como trabalho, democracia, mobilização social e relações de classe.
Na obra de Leon Hirszman, filmes como Eles não usam black-tie (1981) e ABC da Greve (1979–1990) evidenciam um cinema atento à organização da classe trabalhadora e aos conflitos sociais do Brasil urbano e industrial, enquanto São Bernardo (1972) amplia esse olhar para as estruturas de poder no Brasil rural.
Já Park Kwang-su é representado por títulos como Chilsu e Mansu (1988), considerado um marco do Korean New Wave (Nova Onda Coreana); Eles também são como nós (1990), ambientado em uma cidade mineradora marcada pela repressão política, e O extraordinário jovem Jeon Tae-il (1995), inspirado em uma história real que se tornou símbolo da luta por direitos trabalhistas na Coreia do Sul.

Ao colocar essas obras em diálogo, a mostra convida o público a refletir sobre como cinema, política e história se entrelaçam em diferentes contextos transnacionais, revelando aproximações entre países distantes geograficamente, mas próximos em suas experiências sociais e geopolíticas.
Segundo Maria Dora Mourão, diretora-geral da Cinemateca Brasileira, a aproximação da obra de Park Kwang-su com a de Leon Hirszman funciona como uma chave de leitura mútua, na qual as duas filmografias se iluminam reciprocamente, permitindo a ampliação do acesso à obra de Park, cujos filmes circularam pouco no Brasil, e um olhar renovado sobre a obra de Hirszman. “A partir desse diálogo, a mostra coloca em relação dois cineastas centrais em seus respectivos países, destacando pontos de contato entre os momentos históricos em que atuaram, suas formas de produção, temas e estratégias estéticas”, destaca.
Cinema e política
As primeiras incursões no cinema de ambos os diretores coincide com suas primeiras experiências de militância política. No Brasil, Leon Hirszman participou da fundação da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro quando ainda era aluno da Escola Nacional de Engenharia (UFRJ), além de integrar o Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE).
Na Coreia do Sul, Park Kwang-su atuou no Yallasung, o mais antigo cineclube universitário coreano da Universidade Nacional de Seul. Mais tarde, junto com alguns colegas, criou o Seoul Film Collective, no início dos anos 1980. Influenciados pelo cinema de arte europeu que começava a circular no país durante o processo de abertura do regime militar, esses grupos se dedicaram à valorização do cinema independente, em contraposição à produção dominante, fortemente controlada pelo Estado. Park e seus colegas compartilhavam os ideais do movimento minjung (as massas, o povo), que reivindicava democracia e o fim do governo militar.
A intersecção entre o cinema e a política marcou não apenas as jornadas de Hirszman e Kwang-su, mas as de toda uma geração de cineastas em ambos os países. No Brasil, esse movimento culminou no Cinema Novo, que reuniu figuras como Glauber Rocha, Cacá Diegues e Joaquim Pedro de Andrade. Na Coreia do Sul, deu origem ao Korean New Wave, responsável por renovar a linguagem cinematográfica, ampliar temas e viabilizar um modelo de produção que permitiu a projeção internacional de cineastas contemporâneos.
Confira a programação completa e mais informações em https://cinemateca.org.br/serie/o-realismo-critico-de-leon-hirszman-e-park-kwang-su/.
SERVIÇO:
Mostra O realismo crítico de Leon Hirszman e Park Kwang-su
Cinemateca Brasileira: Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
Sala Grande Otelo (210 lugares + 4 assentos para cadeirantes)
Sala Oscarito (104 lugares)
Retirada de ingresso 1h antes de cada sessão