De 1º a 5 de abril, Cinemateca Brasileira apresenta mostra Trabalho em Transe

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Foto: Divulgação/Cinemateca Brasileira

Entre os dias 1º e 5 de abril, a Cinemateca Brasileira realiza a mostra Trabalho em Transe, que reúne filmes de ficção e documentários que possibilitam uma reflexão sobre importantes transformações recentes nas relações de trabalho e na nossa sociedade. A programação gratuita inclui obras de realizadores(as) novatos(as) e veteranos(as), de diferentes países, e os ingressos serão distribuídos na bilheteria uma hora antes de cada sessão.

O título da mostra parodia e homenageia o cineasta Glauber Rocha (1939-1981) em seu clássico “Terra em Transe” (1967). O filme reflete sobre as trágicas contradições sociais e políticas, que tomaram o imaginário país sul-americano de Eldorado nos conturbados anos 1960. Nessa mesma década, 20 anos após o término da Segunda Guerra Mundial, iniciavam-se importantes transformações mundiais, como resposta a uma nova crise do capitalismo. Mas elas só aterrissariam definitivamente no Brasil no início dos anos 1980.

Para além das exibições, a mostra traz palestras de Paulo Arantes, Ruy Braga, Ricardo Antunes e Carlos Augusto Calil, consolidando-se como um território de reflexão crítica ao converter o cinema em ponto de partida para o debate. A presença desses intelectuais e pensadores transforma as sessões em espaços onde questões do trabalho — centrais nas obras selecionadas — ganham novas camadas de análise. Ao promover esse encontro entre a produção cinematográfica e o pensamento crítico contemporâneo, Trabalho em Transe reafirma o cinema como uma ferramenta essencial para compreender as tensões e os movimentos da classe trabalhadora na atualidade.

Ricardo Antunes, sociólogo, professor titular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador de temas como a indústria 4.0, a precarização do trabalho, a uberização e o “novo proletariado de serviços” na era digital, costuma dizer que, se Charles Chaplin fosse filmar “Tempos Modernos” hoje, certamente não utilizaria como cenário uma linha de montagem fordista dos anos 1920 e 1930, mas a de uma fábrica de celulares.

Todas as palestras terão interpretação em Libras e serão transmitidas pelo YouTube da Cinemateca Brasileira.

Mudanças profundas

Segundo o curador Roberto Gervitz, do ponto de vista cinematográfico, não haveria perda maior ao filmar uma fábrica de celulares, pois as linhas de produção ditas pós-industriais não possuem o menor interesse visual, além de prescindir cada vez mais do trabalho vivo. Ao entrarmos em uma fábrica moderna, teríamos a sensação de um inóspito espaço ocupado por gigantescos equipamentos robotizados, com poucos operários humanos.

Ainda de acordo com Gervitz, o mundo vive uma época de devastação de um tipo de trabalho que muitos de nós conhecemos e que, apesar de envolver constrangimentos e alienações, era regulamentado por legislações que foram produto de lutas sindicais e movimentos de esquerda ao longo dos dois últimos séculos. O avanço tecnológico das forças produtivas ocorrido a partir de meados do século passado trouxe consigo profundas mudanças na vida dos trabalhadores contemporâneos.

Nos países do Sul Global, os direitos trabalhistas foram varridos, o desemprego cresceu e, com a trabalhadores transformados em “empreendedores de si mesmos”, o movimento sindical viu suas bases desaparecerem. “Essa nova etapa da humanidade, hegemonizada pelo capital financeiro, atira milhões de pessoas para um futuro sem qualquer horizonte, oferecendo-lhes como alternativa serviços ocasionais e baixa remuneração, enquanto os direitos previdenciários e de saúde foram praticamente suprimidos”, aponta Gervitz.

O quadro geral revela uma classe trabalhadora mais complexa e fragmentada, acrescenta o curador. “Hoje, ela é tanto masculina quanto feminina e acentuadamente marcada pela presença de indígenas, imigrantes e negros. Mas os estudiosos que alardearam o fim do trabalho tiveram que abandonar suas teorias. Ele segue essencial como fonte de valor, mas em condições cada vez mais desumanas”, finaliza Gervitz.

Confira a programação completa da mostra Trabalho em Transe em https://cinemateca.org.br/serie/trabalho-em-transe/.

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