De 30/5 a 8/6, Cinemateca Brasileira dedica mostra a 14 documentaristas brasileiras

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Foto: Divulgação

Entre os dias 30 de maio e 8 de junho, a Cinemateca Brasileira homenageia 14 diretoras documentaristas do país. A mostra gratuita “Documentaristas Brasileiras: 7 Décadas de História” reúne filmes feitos entre a década de 1960 e os dias atuais, realizados por cineastas de diferentes regiões. A seleção de 34 títulos evidencia a riqueza estética e a potência poética das contribuições das mulheres ao cinema documental, destacando a diversidade de vozes e abordagens que marcaram – e seguem marcando – esse campo do audiovisual.

Se, como afirmou a montadora Vânia Debs (1950-2021), a história do cinema brasileiro é, em grande medida, a história dos filmes de ficção, é no documentário que as cineastas brasileiras encontraram, historicamente, um espaço mais amplo para criação e expressão. Com foco nesse gênero, a mostra apresenta obras fundamentais para compreender o cinema realizado por mulheres no Brasil, combinando títulos consagrados com filmes que vêm sendo redescobertos e valorizados nos últimos anos.

O público terá a oportunidade de assistir a “A Entrevista” (1967), marco do cinema brasileiro moderno e da primeira geração de documentaristas brasileiras. O primeiro curta dirigido por Helena Solberg – cineasta com carreira expressiva, composta por 15 documentários e duas ficções – será exibido ao lado de seu trabalho mais recente, “Um Filme para Beatrice” (2024), em que revisita sua trajetória cinematográfica à luz das lutas feministas no Brasil. A programação traz três sessões dedicadas à diretora.

Outras cineastas que, como Solberg, iniciaram suas carreiras durante a ditadura civil-militar estão presentes na mostra. Entre elas, Eunice Gutman, cuja filmografia, marcada por um viés declaradamente feminista desde os anos 1980, será representada por quatro curtas realizados ainda sob o regime ditatorial. Os filmes abordam temas sensíveis e polêmicos, como o aborto, as performances de gênero e a participação das mulheres na política.

A curadoria também inclui uma sessão de curtas de Norma Bahia Pontes (1941-2010) e Rita Moreira, pioneiras no uso do vídeo nos anos 1970 e na abordagem aberta e sem tabus da lesbianidade. Um dos pontos altos desta sessão é a exibição inédita da nova cópia digital de ‘Bahia Camará” (1968), filme que permaneceu por décadas inacessível ao público. Será também a estreia das novas cópias de três curtas da paraibana Vânia Perazzo recém-digitalizados pelo Cinelimite. Já a pernambucana Kátia Mesel, autora de mais de 300 obras – majoritariamente documentais – terá sua produção representada pela cópia restaurada de “Recife de Dentro pra Fora” (1997), uma adaptação audiovisual do poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, que revela o olhar poético e singular da diretora sobre a capital pernambucana.

A mostra também propõe um diálogo entre a primeira geração de diretoras – em sua maioria ainda em atividade – e cineastas mais jovens, cujos trabalhos vêm renovando a linguagem do documentário e conquistando destaque em circuitos internacionais. É o caso de Maria Augusta Ramos e o seu premiado longa “Justiça” (2004), que será exibido em 35mm. Outro destaque é “Racionais: das ruas de São Paulo pro mundo” (2022), de Juliana Vicente, que se tornou um dos filmes mais assistidos no streaming no Brasil e será exibido na tela externa da Cinemateca, antecedido pelo seu curta “As Minas do Rap” (2015).

Um traço marcante dos documentários contemporâneos é o borramento das fronteiras entre quem representa e quem é representado. Muitas das diretoras tornam-se personagens de seus filmes, construindo narrativas pessoais e íntimas. É o caso de Tila Chitunda, diretora e produtora pernambucana, filha de pais refugiados angolanos. A partir de um olhar sensível sobre a memória e a trajetória de sua família, sua obra aborda temas como as relações entre África e Brasil, as diásporas negras e o racismo. Outro exemplo é Patrícia Ferreira Pará Yxapy, uma das vozes mais atuantes e reconhecidas no cinema indígena. Seu filme “Teko Haxy – Ser Imperfeita” (2018), codirigido por Sophia Pinheiro, traz ao público da mostra um encontro íntimo entre as duas cineastas, que se filmam mutuamente, expõem seus conflitos e revelam diferenças e afinidades na justeza de suas imagens.

“Documentaristas Brasileiras: 7 Décadas de História” reúne diretoras com sólidas carreiras no campo do documentário. Os títulos selecionados revelam a pluralidade de estilos, temas abordados, origens geográficas e inovações de linguagem ao longo de quase 60 anos de produção documental realizada por mulheres no Brasil. As diretoras incluídas na curadoria são: Eliza Capai, Eunice Gutman, Helena Solberg, Jorane Castro, Juliana Vicente, Kátia Mesel, Lúcia Murat, Maria Augusta Ramos, Norma Bahia Pontes, Patrícia Ferreira Pará Yxapy, Rita Moreira, Susanna Lira, Tila Chitunda e Vânia Perazzo.

Os ingressos serão distribuídos uma hora antes de cada sessão, e o curso tem inscrições prévias pelo site da Cinemateca.

CURSO DOCUMENTARISTAS BRASILEIRAS

A mostra será acompanhada de um curso homônimo, com duas aulas ministradas pelas pesquisadoras e professoras Mariana Tavares e Karla Holanda, nos dias 4 e 6 de junho, das 17h às 19h.

Uma aula será focada na trajetória de Helena Solberg, com a prof. Mariana Tavares, e outra com um panorama geral da produção de documentários por mulheres no Brasil, com a prof. Karla Holanda.

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