Além das trilhas sonoras, filmes e séries contam com outros sons que ajudam a contar suas histórias. Eles podem ser produzidos por instrumentos e objetos ou captados diretamente do ambiente de gravação, o chamado som direto, especialidade da diretora de som e vice-presidenta da ABC, Tide Borges, ABC. No primeiro episódio inédito da série original “Na Trilha do Cinema”, que estreia nesta quarta-feira (28), às 21h30 (com um total de nove episódios de 24 minutos), no canal Curta!, a profissional revela os métodos e desafios da profissão.
A cada episódio da série, dirigida por Hewelin Fernandes, o produtor, compositor e cineasta André Abujamra conversará com profissionais que se dedicam a compor trilhas sonoras para o cinema, para descobrir os segredos desse ofício. São eles: Tide Borges, ABC; Daniel Turini, Waldir Xavier, Luiz Adelmo, ABC; Guta Roim, Mirian Biderman, ABC; Antonio Pinto e Flavia Tygel.
Professora e pesquisadora formada em cinema pela Universidade de São Paulo (USP), Tide Borges, ABC trabalha como técnica de som há mais de quatro décadas, tendo iniciado sua trajetória ainda como estudante, com gravadores antigos e filmes com áudios monofônicos. Ao longo de sua carreira, trabalhou em produções como a adaptação de “A Hora da Estrela” (1986), de Suzana Amaral; o drama “Hotel Atlântico” (2009), também de Suzana Amaral; e o documentário “Do Pó da Terra” (2016), de Maurício Nahas, ambos analisados no primeiro episódio de “Na Trilha do Cinema”.
“Nunca tinha visto um roteiro de documentário com tanta indicação de som. Saímos pra gravar com uma lista de sons, e eu amei. Mesmo tendo feito há anos atrás, eu lembro de cada som”, destaca, ao recordar “Do Pó da Terra”.
Em conversa com Abujamra sobre métodos de captação de áudio durante as filmagens, Tide Borges, ABC ressalta também que, além de poder explorar sua criatividade, as gravações lhe dão a oportunidade de conhecer novas pessoas, lugares e histórias, que ajudam a aumentar seu repertório. “Tem uma coisa muito legal da captação do som direto nas filmagens que é captar a emoção dos atores e atrizes na hora da cena. A atuação se dá muito na voz, traz muito da interpretação, então somos muito aliados da atuação nesse momento, em usar a técnica pra ajudar a compor a parte artística”, analisa.
Ainda segundo Tide Borges, ABC, o som produz uma imagem mental, por isso associamos certos áudios a cenas marcantes do cinema. Alguns deles foram produzidos por mulheres pioneiras como Zezé D’Alice e Karin Stuckenschmidt, que abriram caminho para que novas gerações pudessem mostrar seu talento e contribuir com o desenvolvimento do cinema nacional. “É um lugar muito importante de as mulheres estarem, até porque envolve tecnologia, e muitas podem achar que não devem estar ali. Mas o lugar da mulher é onde ela quiser estar”, defende.
“Na Trilha do Cinema” também pode ser vista no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro TV+ e no site oficial da plataforma (CurtaOn.com.br). Os episódios ficam disponibilizados um dia após a estreia na televisão.
“O som é dramaturgia”
Na série, Daniel Turini falará sobre edição de som e mixagem; Waldir Xavier e Luiz Adelmo, ABC aprofundam-se no desenho de som; Guta Roim revela os segredos do foley (sonoplastia); Miriam Biderman, ABC discute sobre a edição de som; Antonio Pinto explora a composição; Flavia Tygel mergulha na trilha sonora e, no último episódio, André Abujamra conversa sobre o tema com ele mesmo. “O som não é só um elemento de efeito. O som é dramaturgia”, afirma Abujamra.
Para Flavia Tygel, uma trilha funciona bem quando está inserida na linguagem da obra audiovisual. “É quando você está no cinema e isso se mistura nas texturas e tudo mais”, define.



Confira a sinopse de cada episódio
Tide Borges, ABC: Abujamra conversa com Tide Borges, professora de som e uma das primeiras mulheres a trabalhar com som direto no país. Tide relembra como foi captar o som de filmes como a “Hora da Estrela” (1985), “Hotel Atlântico” (2009) e o documentário “O Pó da Terra” (2016). Ela conta sua trajetória como profissional e mulher no cinema brasileiro.
Waldir Xavier: Abujamra recebe Waldir Xavier, que editou o som de filmes de Karim Ainouz. Ele trabalhou nos longas “O Céu de Suely” (2006) e “Madame Satã” (2002), que têm paisagens sonoras bem diferentes. Xavier fala sobre a importância do desenho de som como experiência física, afetiva e hipnótica em seu trabalho de concepção de som.
Guta Roim: Qual a importância do foley (ou sonoplastia) no cinema brasileiro? Nesse episódio, a especialista Guta Roim conta que essa técnica faz toda a diferença no som do cinema, principalmente nas animações. Ela fala como foi fazer o foley de “Tromba Trem” (2022), “Tito e os Pássaros” (2018) e “Bizarros Peixes das Fossas Abissais” (2023). A sonoplastia é a técnica de criar e gravar efeitos sonoros em estúdio, que são depois adicionados à pós-produção.
Daniel Turini: Daniel Turini é da nova geração de editores de som formados em cinema. Em seu currículo estão mais de cem filmes, entre eles “Memórias Sentimentais de um Editor de Passos” (2006), “O Animal Cordial” (2017), o documentário “Piripkura” (2018) e “Era uma vez Brasília” (2017). Daniel também fala sobre o trabalho de mixagem nos filmes.
Mirian Biderman, ABC: Uma das primeiras mulheres a trabalhar com trilha sonora na história do cinema nacional, a editora Miriam Birderman, ABC assina mais de 150 trilhas. Nesse episódio, ela conta como foi sua primeira experiência de trabalho como editora de som no filme “Festa” (1989), de Ugo Giorgetti.
Antonio Pinto: Antonio Pinto é um dos principais compositores do cinema nacional da atualidade. Nesse episódio, ele e Abujamra conversam sobre os filmes “Menino Maluquinho” (1995) e “Central do Brasil” (1998), nos quais dividiu seu trabalho com Jaques Morelenbaum, e “Abril Despedaçado” (2002). O compositor também conta como construiu sua carreira no mercado internacional.
Luiz Adelmo, ABC: Abujamra recebe o engenheiro de som Luiz Adelmo, ABC, que é também autor do livro “Som-Imagem no Cinema: a experiência alemã de Fritz Lang” (Perspectiva, 2003). Eles destrincham o desenho de som nos filmes “O Palhaço” (2011) e “O Homem Que Copiava” (2003), de Jorge Furtado. Conversam também sobre sound design, termo utilizado pela primeira vez por Walter Murch, quando fez o som de “Apocalypse Now” (1979).
Flávia Tygel: Nesse episódio, Abujamra conversa com a compositora Flávia Tygel, que assinou, entre outras trilhas sonoras, as de filmes da documentarista Susanna Lira, como “Torre das Donzelas” (2018) e “Nada Sobre Meu Pai” (2023). Flávia também conta como foi fazer a música de “Meu Casulo de Drywall” (2023) e “As Polacas” (2023).
André Abujamra: No último episódio da série, Abujamra entrevista a si mesmo. Numa conversa bem-humorada, revela como a trilha sonora surgiu em sua vida e como foi o trabalho de som dos filmes “Carlota Joaquina” (1995), “Durval Discos” (2002) e “Carandiru” (2003).