Uma pesquisa inédita no Brasil revela que apenas 9% dos filmes de ficção nacionais analisados fazem referência direta à crise climática em seu universo ou apresentam personagens que demonstram consciência sobre o tema. Intitulado “Clima em Cena: A Emergência Climática em Filmes de Ficção Brasileiros”, o estudo foi coordenado pela Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA), com apoio do Projeto Paradiso e das organizações estadunidenses Good Energy e Climate + Culture Pavilion.
A pesquisa foi divulgada em uma mesa no V Encontro de Ideias Audiovisuais da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na Cinemateca Brasileira. Esta é a primeira vez que o estudo é realizado fora dos Estados Unidos, onde a metodologia tem sido aplicada em filmes indicados ao Oscar.
O levantamento busca contribuir com o debate audiovisual sobre a importância das narrativas climáticas e ambientais na cultura brasileira, em um país que é ao mesmo tempo um dos maiores emissores de gases de efeito estufa e também um dos mais vulneráveis aos impactos do aquecimento global.
Embora 57% dos filmes avaliados apresentem questões ambientais locais, como desmatamento, poluição e perda de biodiversidade, apenas 9% conectam essas temáticas à emergência climática global. Os títulos que cumpriam todos os requisitos foram “A Nuvem Rosa”, de Iuli Gerbase (2021); “Homem Onça” (2021), de Vinícius Reis; e “A Flor do Buriti” (2023), de Renée Nader Messora e João Salaviza. Este último foca no povo indígena Krahô, que habita o Tocantins, na Amazônia Legal, e foi exibido na mostra paralela Un Certain Regard, no Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio de Elenco em 2023.
A análise abrangeu 33 filmes brasileiros lançados nos últimos cinco anos, indicados ao Prêmio Grande Otelo, principal premiação do cinema nacional (realizada pela Academia Brasileira de Cinema), ou selecionados em um destes festivais internacionais: Cannes, Berlim, Veneza, Locarno e Sundance. Entre os filmes analisados, estão “Medida Provisória”, “Marte Um”, “Ainda Estou Aqui”, “A Melhor Mãe do Mundo” e “O Último Azul”.
“Os dados indicam um distanciamento entre a realidade climática vivida pelos brasileiros e a forma como ela é retratada na ficção. O objetivo não é prescrever temas, mas provocar reflexão: como a maior crise da humanidade aparece nas nossas histórias?”, afirma a roteirista e pesquisadora Gisele Mirabai, que coordenou a equipe de pesquisa.
Aplicando a metodologia Climate Reality Check, desenvolvida pela Good Energy e pelo Buck Lab for Climate and Environment (Colby College, EUA), o estudo avaliou se as obras reconhecem a existência da crise climática e se há personagens que demonstram conhecimento sobre o problema. Nos Estados Unidos, o mesmo método identificou, em 2024, que apenas 9,6%% das obras passavam no teste.
O V Encontro de Ideias Audiovisuais surge como um convite à reflexão sobre a presença da crise climática na ficção brasileira, especialmente no contexto da COP 30, Conferência Mundial sobre o Clima, que ocorrerá de 10 a 21 de novembro em Belém, onde os resultados da pesquisa também serão divulgados.