Confira o debate sobre “Ainda Estou Aqui” promovido pela Sessão ABC, na Cinemateca

Após a exibição do longa, equipe detalhou o processo do filme
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Debate da Sessão ABC sobre o filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Foto: Adriana Vichi

Por Luna D’Alama

A terceira Sessão ABC de 2025 apresentou gratuitamente, no dia 5 de julho, na Cinemateca Brasileira, o filme “Ainda Estou Aqui” (2024), dirigido por Walter Salles e vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional na edição deste ano.

Após a exibição do longa, na Sala Grande Otelo, foi realizado um debate com a participação do primeiro assistente de câmera e foquista Marco Chile, da técnica de som direto Laura Zimmermann e da loader Juliana Lellis, que também transportou negativos na primeira fase de filmagens. A mediação foi da diretora de fotografia e presidenta da ABC, Fernanda Tanaka, ABC.

O debate teve acessibilidade em Libras e foi transmitido ao vivo pelo canal da Cinemateca no YouTube. A técnica de som direto Laura Zimmermann iniciou a conversa falando como conheceu o diretor, primeiro virtualmente, em 2022, quando estava na Argentina, e depois presencialmente. Ao todo, a profissional ficou quase um ano dedicada ao longa de Walter Salles.

“Ter dois meses de preparação no cinema brasileiro é um privilégio. Tivemos uma diária só para gravar sons de carros de época, com motores originais; outra diária para gravar diálogos de fundo de cena (a da blitz) em estúdio. Até participei de um treino de vôlei de uma das atrizes para captar vozes da torcida. Tudo para a história ficar mais crível”, destacou Laura.

A técnica de som contou também que a casa na Urca, que foi “inserida” digitalmente no Leblon, no Rio de Janeiro, fica próximo ao Aeroporto Santos Dumont, o que fazia a equipe ter que esperar intervalos entre os voos para que o barulho dos aviões não atrapalhasse as gravações. “Já na fase dos anos 1990, o apartamento da Eunice Paiva ficava numa locação da Avenida Nove de Julho, em São Paulo, com muito barulho de veículos. Tivemos que pôr um vidro antirruído que funcionasse e, ao mesmo tempo, não interferisse na cenografia da janela. Já na casa da Urca, usamos azulejos cenográficos na cozinha e no banheiro. Tudo foi muito bem preparado”, ressaltou.

Fernanda Tanaka, ABC explicou que “Ainda Estou Aqui” foi filmado em película 35 mm e que, no Brasil, não há mais laboratórios químicos em funcionamento para revelação. Por isso, os negativos foram enviados à França para serem revelados, escaneados e convertidos para o formato digital.

A finalização do som também foi feita na França, segundo Laura Zimmermann. “Filmamos linearmente, na sequência do filme: primeiro a fase dos anos 1970, aí paramos um mês e meio, e então gravamos os anos 1990 e 2000. Só a cena de despedida da personagem Veroca para Londres levou uma semana para ser rodada. A direção chegou a alugar outra casa parecida para os atores e atrizes cantarem as músicas dessa cena, ouvindo as canções num fone. Tudo para manter aquela ambiência”, revelou.

O primeiro assistente de câmera e foquista Marco Chile falou na sequência sobre o convite para colaborar no filme, as especificidades de trabalhar com película – o último longa em que ele tinha lidado com esse formato havia sido “Gonzaga: De Pai Para Filho” (2012), de Breno Silveira –; as câmeras e lentes utilizados, os “dailies” (cópias diárias das filmagens, isto é, o material bruto que foi gravado em um dia de produção, para que a equipe possa avaliar o progresso do filme, verificar a qualidade das imagens e identificar possíveis problemas ou ajustes necessários), os desafios de acertar sempre o foco, os ensaios e outros temas relacionados ao processo do filme. “Esse foi o trabalho em que mais consegui exercer o meu ofício. A película tem uma beleza única, remete a memórias de infância, a fotos antigas e à própria história do cinema”, resumiu.

A loader Juliana Lellis, que transportou os negativos para a França na primeira fase, detalhou como foi esse processo, que buscava garantir que as películas saíssem do Brasil e chegassem íntegras ao laboratório em Paris. “Os negativos iam comigo, não podia despachá-los por conta da temperatura na aeronave durante o voo, e eles também não poderiam passar pelo raio-X, para não queimar o filme, literalmente. Tinha carta da produção, documentação, e até um saco preto se alguém quisesse verificar o conteúdo, sem vê-lo. Outras pessoas, além de mim, fizeram esse transporte delicado. Enviávamos negativos à França cerca de duas vezes por semana”, contou.

Já na segunda fase, Juliana cuidava do material no set, e tinha cerca de quatro minutos para trocar os negativos da câmera, fornecendo filmes virgens e coletando os que já haviam sido rodados, preparando-os para a logística até a França.

Confira abaixo o debate na íntegra:

No Prêmio ABC 2025, o diretor de fotografia Adrian Teijido, ABC venceu na categoria de Melhor Direção de Fotografia Longa-Metragem Ficção, por seu trabalho em “Ainda Estou Aqui”.

A Sessão ABC é um evento realizado pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC) desde 2002, em parceria com a Cinemateca. Este ano, já foram exibidos os filmes nacionais “O Sequestro do Voo 375” (2023), no dia 22 de fevereiro; e “Meu Nome É Gal” (2023), no dia 26 de abril. A próxima Sessão ABC está programada para o dia 27 de setembro.

SINOPSE:

Adaptação do livro autobiográfico homônimo de Marcelo Rubens Paiva sobre sua mãe, Eunice Paiva, “Ainda Estou Aqui” se passa no Rio de Janeiro e em São Paulo, em três momentos históricos distintos do país (no início dos anos 1970, em 1996 e em 2014). Na trama, Eunice é casada com o engenheiro e ex-deputado federal Rubens Beyrodt Paiva (1929-1971) e vê sua vida mudar radicalmente depois que o marido desaparece pela repressão da ditadura militar.

A dona de casa, então, se forma em Direito e vira ativista dos direitos humanos, sobretudo de causas indígenas e de famílias de desaparecidos políticos. O reconhecimento do Estado de que Rubens Paiva foi morto pela ditadura só veio em 1996. E a história do político ficou conhecida nacionalmente por conta da Comissão da Verdade, instalada no governo Dilma Rousseff, em 2012. O filme apresenta essa história do ponto de vista da esposa e dos filhos de Rubens Beyrodt Paiva.

PREMIAÇÕES:

Exibido mundialmente pela primeira vez em 1º de setembro de 2024, no Festival de Veneza (Itália), “Ainda Estou Aqui” passou pela 48ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, antes de estrear comercialmente, no Brasil, no dia 7 de novembro. Em sua itinerância por festivais internacionais, conquistou premiações como Melhor Roteiro em Veneza, Prêmio do Público em Vancouver (Canadá) e São Francisco (EUA), e Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Atriz no Prêmio Platino de Cinema Ibero-Americano 2025, na Espanha. Além disso, Fernanda Torres ganhou o Globo de Ouro 2025 e o troféu de Melhor Atriz de Filme Internacional dos críticos de cinema dos Estados Unidos (Critics Choice Awards).

Leia aqui uma entrevista exclusiva feita pela ABC com o diretor de fotografia Adrian Teijido, ABC, na época da estreia do filme.

Ficha Técnica:

Direção: Walter Salles
Roteiro: Murilo Hauser e Heitor Lorega
Produção: Video Filmes, RT Features e Mact Productions
Coprodução: Arte France Cinéma, Conspiração Filmes e Globoplay
Produtores: Maria Carlota Fernandes Bruno, Rodrigo Teixeira, Martine de Clermont-Tonnerre e Walter Salles
Produtores Executivos: Guilherme Terra, Thierry de Clermont-Tonnerre, Lourenço Sant’anna, Renata Brandão, Juliana Capelini, David Taghioff e Masha Magonova
Produtora Delegada: Lili Nogueira
Produtora Associada: Daniela Thomas
Produtora de Pós-Produção: Sidonie Waserman
Direção de Fotografia: Adrian Teijido, ABC
Direção de Arte: Carlos Conti
Montagem e Edição: Affonso Gonçalves, ACE
Preparação de Elenco: Amanda Gabriel
Casting: Letícia Naveira
Elenco: Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Antonio Saboia, Guilherme Silveira, Valentina Herszage, Maria Manoella, Marjorie Estiano, Luiza Kosovski, Gabriela Carneiro da Cunha, Barbara Luz, Cora Mora, Olivia Torres, Maeve Jinkings, Dan Stulbach, Humberto Carrão, Carla Ribas, Maitê Padilha, Caio Horowicz, Camila Márdila, Charles Fricks, Luana Nastas, Isadora Ruppert, Pri Helena, Daniel Dantas, Helena Albergaria, Thelmo Fernandes, Felipe Barreto e Lourinelson Vladmir
Figurino: Claudia Kopte e Helena Byington
Maquiagem e Caracterização: Luigi Rocchetti e Marisa Amenta
Assistente de Direção: Daniel Lentini
Gaffer: Ulisses Malta, ABC
Maquinista: Cesinha
Câmera: Lula Cerri, ABC
Assistente de Câmera: Marco Chile
Assistente de Câmera B: Nicolau Saldanha
Loader: Joaquim Torres, Julia Lelis
2º Assistente de Câmera: Sofia Pacciulo
Som Direto: Laura Zimmermann
Mixagem de Som: Stéphane Thiébaut
Colorista Offline: Thomas Debauve
Coloristas: Arthur Paux e Mike Howel
Música: Warren Ellis
Efeitos Especiais: Claudio Peralta e Sérgio Farjalla, Jr.
Distribuição: Sony Pictures
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