Por Luna D’Alama
A quinta e última Sessão ABC de 2025 exibiu, gratuitamente, o filme “Malu” (2024), dirigido e roteirizado por Pedro Freire, no dia 29 de novembro, às 14h, na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
Após a projeção do longa, foi realizado um debate com participação do diretor e roteirista Pedro Freire (online), da protagonista Yara de Novaes (presencial), do editor de som e mixador Daniel Turini (associado da ABC, presencial), da diretora de arte Elsa Romero (presencial) e da colorista Silvia Abreu (presencial). A mediação ficou por conta do diretor de fotografia Abraão Oliveira, ABC.
O bate-papo teve acessibilidade em Libras e foi transmitido ao vivo pelo canal da Cinemateca no YouTube.
Confira a conversa na íntegra:
O cineasta e roteirista Pedro Freire contou que, há 15 anos, chegou a pensar em registrar a mãe, a atriz Malu Rocha (1947-2013), contando suas histórias de vida e profissão, para fazer alguma coisa com isso um dia. “Eu era jovem, não tinha acesso a uma boa câmera, a um bom microfone. Não era fácil pra mim também encontrar com a minha mãe, pensar em ficar uma semana dentro da casa dela todos os dias, passando horas, seria um pesadelo pra mim, era uma relação muito difícil. Então acabei não fazendo. ‘Malu’, então, decorre desse desejo que eu tinha de mostrar para as pessoas como aquela mulher era foda, mas não tive os meios de fazer uma filmagem sobre ela na época em que ela ainda era viva. Decidi fazer esse filme no velório dela, no palco do Teatro Oficina. Foi a coisa mais linda do mundo, com baseados e vinhos sendo distribuídos aos convidados”, revelou.
O diretor falou, ainda, sobre sua intenção de fazer um filme realista, a preparação do elenco, ensaios, improvisações e inspirações como o diretor teatral Antunes Filho (1929-2019), o teatrólogo russo Konstantin Stanislavski (1863-1938) e o diretor sueco Ingmar Bergman (1918-2007). Além disso, destacou o brilhantismo das atrizes e do ator do núcleo principal: “São grandes atores que trabalharam comigo. Sem eles, a gente não teria conseguido. Gosto muito do filme, adoro rever ‘Malu’, e fico muito impressionado com a potência de Yara [de Novaes], de Juliana [Carneiro da Cunha] na tela, e me dá muito prazer de ver. Foi um encontro feliz, com uma metodologia de trabalho que deu certo. O talento incomensurável delas catapultou uma boa ideia para algo que ficou muito legal”, destacou.
Freire também abordou outros temas em suas falas, como a fotografia, a luz, a colorimetria, a trilha sonora, a passagem de tempo no longa, a direção de arte, os altos e baixos no roteiro e na condução da narrativa (que alterna brigas homéricas com respiros e silêncios profundos – cuja intensidade dramática foi inspirada na filmografia de Bergman), os planos e contraplanos, as repetições de cenas (e a opção por não refazer algumas), a opinião das atrizes sobre a montagem final etc.
Já a protagonista Yara de Novaes comentou sobre sua identificação com Malu Rocha, que também era atriz de teatro. “Apesar de ser diferente dela [na personalidade], eu tenho todas as coisas que ela tem, [apenas] expresso diferente. E aí vou acessando de acordo com a personagem”, disse. Yara falou, ainda, sobre a importância da cenografia, da direção de arte e da caracterização para sua atuação. “As coisas começam a ficar mais redondas e a se fechar [com esses elementos]. É como se eu chegasse na casa e completasse a Malu. E o trabalho do Pedro faz a gente ser livre. Ele tem rédeas, mas não são curtas, que podem dar a sensação de que você não está criando, usando a sua imaginação”, detalhou.
Yara também comentou sobre a passagem de tempo nas diferentes fases do filme. “A gente filmou quase cronologicamente, o Pedro quis muito que fosse assim, era importante. No terceiro momento da casa, quando as coisas já estavam guardadas e ela ia embora, eu fiquei muito emocionada. Eu falo e ainda fico muito emocionada de lembrar desse momento. Se não fosse o Pedro, eu teria feito aquela cena só chorando, porque na verdade era a Yara ali. A gente fica muito comparsa da personagem, pois me sinto escolhida pelo Pedro e, metafisicamente, escolhida por ela. É uma honra fazer essa mulher, por tudo o que ela tem. Essa sensação de ocaso, de algo que poderia ter sido e não foi, para mim foi muito forte”, acrescentou.
Segundo a diretora de arte Elsa Romero, foram muitas camadas e muitos estímulos até chegar ao conceito final da arte em “Malu”. “O primeiro estímulo, óbvio, foram o roteiro e as conversas iniciais que tive com o Pedro. Desde a primeira leitura, já me trouxe muitas sensações de contrastes de uma mulher artista com muitos ideais, morando na periferia, numa casa em construção e em suspensão. Pedro também trouxe muitas influências que a Malu tinha, e isso se reflete tanto na composição da casa quanto no pensamento da paleta de cor da direção de arte”, ressaltou.
A equipe de arte, de acordo com Elsa, pesquisou muito os movimentos artísticos das décadas de 1960, 1970 e 1980, e a paleta foi baseada na década de 1970, mas envelhecida (pois o filme se passa nos anos 1990). “Fizemos um tratamento mais naturalista. Era um mundo colorido, mas que estava empoeirado. Tivemos conversas com o elenco já nos primeiros dias de ensaio. Isso é mais comum no teatro do que no cinema. Pedro também compartilhou um vídeo da mãe dele passando pela casa, nos deu parâmetros e também muita liberdade para não fazermos uma cópia daquela residência. Consegui me inspirar na forma como Malu ocupava a casa, em sua mesinha de centro com muitas coisas misturadas. Fiz prints das cenas para ter essas imagens como referências, não como cópia. A casa do filme está inacabada e que, por isso, é berço dos ideais da Malu, de uma vida que não se adaptou às mudanças da nova geração, dos novos tempos. É uma casa que guarda a potência de ser um teatro, um centro cultural, de ter múltiplas possibilidades”, contou.
O desenhista de som e mixador Daniel Turini (sócio da ABC) enfatizou que, para o som, “Malu” é um filme maravilhoso, a trilha está toda em cena, na diegese. “O som faz parte daquele universo, os personagens estão ouvindo. Também incluímos trilhas da comunidade ao redor”, afirmou. O diretor complementou que o diretor musical, Jonas Sá, ajudou a pensar no universo musical ao redor de Malu. Foram incluídos grupos e artistas como Secos & Molhados, Gal Costa, Maria Bethânia. “Sempre trazendo a ideia dos anos 1970 no presente dos anos 1990. O filme se passa nos anos 1990, mas gostaria de se passar nos anos 1990. A Malu gostaria de estar nos anos 1970. E, quando ela coloca uma música para a Lili [sua mãe], ela põe Noel Rosa, de 1930. E, de repente, entra o som ao redor: o funk na favela”, pontuou Freire.
A colorista Silvia Abreu também falou sobre seu trabalho em “Malu”, que começou já na etapa de finalização. “Foi uma honra pra mim. Minha segunda parceria com o [diretor de fotografia] Mauro Pinheiro Jr., ABC, mas o primeiro filme colorido nosso. Antes disso, trabalhamos juntos em “Cinco da Tarde” (2023), um longa PB dirigido por Eduardo Nunes. A gente tinha a ideia do naturalismo, que a própria história pedia. Não é um filme de excessos cromáticos, de cores muito saturadas. Já tem cor na arte, elementos coloridos, e a nossa intenção não era exacerbá-los. Mauro é um fotógrafo que gosta das altas luzes, então tem sempre uma luz que entra pela janela, pelas portas, e que ‘rasgam’ o cenário. As altas são altas mesmo. A gente começa de uma forma muito linear, seguindo a história, o fluxo. Pedro e Mauro acompanharam quase todas as sessões de cor. Foi um trabalho que durou em torno de duas semanas. Fomos fazendo e encontrando a densidade e o contraste do filme nesse processo. A fotografia do Mauro é uma delícia de trabalhar, então não tive grandes desafios. Foi um filme bem tranquilo e gostoso de trabalhar”, concluiu.
Freire revelou que queria uma cor natural, realista, com sensação documental. “Acho muito impressionante, delicado e sutil o trabalho da colorimetria. Tenho um olho bom pra muita coisa, mas mais 3% de magenta eu não consigo ver. Porém, não discuto. Para o quinto e último ato, quando a Malu fica doente e a história se torna mais sombria e triste, eu pensei em aplicar um [filtro] azul, um frio. Silvia e Mauro me olharam com uma cara aterrorizados. Parecia que eu tinha pego o filho deles e jogado para cima. Achei aquilo lindo, porque é nosso filho. E isso ia contra a proposta de ser natural e real. Nunca mais me meti [na cor]”, finalizou, descontraído. Silvia disse, em seguida, que a fase final do longa é ligeiramente mais fria, com mais azul, mas de forma sutil. “Defendemos as nossas ideias também”, argumentou.
Veja fotos da Sessão ABC:












“Malu” estreou na competição do Festival de Sundance (EUA), em 2024, e conquistou quatro prêmios no Festival do Rio do ano passado: Melhor Filme (dividido com “Baby”), Melhor Roteiro, Melhor Atriz (Yara de Novaes) e Melhor Atriz Coadjuvante (Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha). Em 2025, o filme venceu dois prêmios Grande Otelo do Cinema Brasileiro, nas categorias Melhor Primeira Direção e Melhor Roteiro Original. O longa tem como principal inspiração a mãe de Freire, a atriz Malu Rocha (1947-2013).
Confira fotos still do filme:









Sinopse:
Malu, uma mulher de meia-idade com um passado glorioso, se vê presa em um caos existencial. A complexa relação com sua mãe conservadora e com sua filha adulta torna a crise ainda mais aguda, em meio a momentos de carinho e alegria entre as três. Um retrato de uma mulher em busca da melhor versão de si mesma.
Ficha Técnica:
Direção e roteiro: Pedro Freire
Produtores: Tatiana Leite, Roberto Berliner, Sabrina Garcia, Leo Ribeiro
Produção executiva: Carlos Eduardo Valinoti, Tatiana Leite, Sabrina Garcia, Leo Ribeiro
Coordenação executiva: Isabel Lessa
Direção de fotografia: Mauro Pinheiro Jr., ABC
Direção de arte: Elsa Romero
Montagem: Marilia Moraes, EDT
Figurino: Rô Nascimento
Caracterização e visagismo: Marcos Freire
Coordenação de pós-produção: Guga Nascimento, Nat Mizher
Som direto: Marcel Costa
Desenho de som e mixagem: Daniel Turini
Supervisão de som: Fernando Henna e Henrique Chiurciu
Direção musical: Jonas Sá
Colorista: Silvia Abreu
Produção: Bubbles Project, TvZero
Coprodução: RioFilme, Telecine, Canal Brasil
Distribuição: Filmes do Estação
Codistribuição: RioFilme
Apoio: Projeto Paradiso
Duração: 103 minutos
A Sessão ABC é um evento realizado pela Associação Brasileira de Cinematografia (ABC) desde 2002, em parceria com a Cinemateca. Este ano, já foram exibidos os filmes nacionais “O Sequestro do Voo 375” (2023), no dia 22 de fevereiro; “Meu Nome É Gal” (2023), no dia 26 de abril; “Ainda Estou Aqui” (2024), no dia 5 de julho; e “Oeste Outra Vez” (2024), no dia 27 de setembro. A Sessão ABC retornará após o Carnaval, no dia 21 de fevereiro de 2026.