Por Luna D’Alama
A quarta Sessão ABC de 2025 exibiu, gratuitamente, o filme “Oeste Outra Vez” (2024), dirigido por Erico Rassi, neste sábado (27), às 15h, na Sala Grande Otelo da Cinemateca Brasileira, em São Paulo.
Após a projeção do longa, foi realizado um debate com participação do diretor Erico Rassi (que também assina o roteiro e a montagem), do montador Leopoldo Joe Nakata, da diretora de arte e associada Carol Tanajura, do diretor de fotografia André Carvalheira, ABC (online) e do editor de som Ricardo Reis, ABC. A mediação ficou a cargo da diretora de arte Ana Mara Abreu, ABC.
Veja o debate na íntegra:
O cineasta Erico Rassi, que já havia dirigido “Comeback” (2017) – drama que acompanha um pistoleiro aposentado –, contou que resolveu fazer um filme inspirado no gênero western (faroeste) e se inspirou livremente em um conto de João Guimarães Rosa chamado “Duelo”, publicado no livro “Sagarana”. Ele destacou, entre vários temas, a precariedade das casas, dos personagens, dos objetos e da vida nesse lugar do interior de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros. Para realizar “Oeste Outra Vez”, Rassi fez uma extensa pesquisa nos arquivos do Instituto Moreira Salles (IMS), entrevistou pessoas e leu bastante literatura regional. “Como na maioria dos nossos interiores, a masculinidade ainda tem muitas distorções. Queria fazer meu segundo filme sobre pessoas com quem eu convivi e que eu enxergava como complexas”, revelou.
Em seguida, a diretora de arte Carol Tanajura falou sobre o processo de escolha das locações, cenografia, caracterização, figurino, maquiagem etc. Ressaltou a importância do trabalho em equipe e a “bagunça” que esses homens do filme vão deixando pelo caminho, com suas personalidades descuidadas e desconectadas da vida. “Ficamos um mês em busca de locações, esse foi um fator que norteou a direção de arte. Essa foi a grande pesquisa que eu fiz. O lugar se impôs enquanto conceito. Criei uma pasta de cores e texturas [com tons do cerrado e do sertão], e outra de inspirações para a montagem dos cenários”, revelou.
Já André Carvalheira, ABC disse que a mistura entre direção de arte, fotografia, figurino, direção, montagem e sonorização foi muito acertada nesse projeto. “Conseguir essa afinidade, para mim, é o que faz a grande diferença no filme. Sobre as cores, [predominam] o ocre, amarelo, vermelho, é um ambiente que fica muito nesses tons na época da seca, quando filmamos. (…) É um filme para ser árido, para casar com a história dos personagens. São diálogos em que quase não se diz nada, mas [ao mesmo tempo] se diz muito. Parece que os diálogos não avançam, há um vazio muito grande nesses personagens e nesse ambiente. (…) É um filme escuro, com iluminação precária, onde a luz do sol é predominante”, pontuou.
O montador Leopoldo Joe Nakata deu sequência ao debate dizendo que entender um filme pode ser difícil, e que foi preciso encontrar a essência desse drama-faroeste na montagem, a qual durou cerca de dois anos. Cada plano, palavra e tempo do filme foi ressignificado(a) durante esse processo. “Era importante sabermos qual filme tínhamos em mãos. Havia mais tom de comédia em cenas retiradas, por exemplo. Porém, achamos que o humor tinha que vir involuntariamente, pois os personagens não se acham engraçados, levam-se, inclusive, muito a sério. (…) São homens que só conseguem ter a companhia deles mesmos, serem felizes com outros iguais, e ao mesmo tempo estão se matando. (…) Além disso, construímos o extracampo e fizemos alguns cortes em momentos não esperados para quebrar obviedades”, contou.
Segundo o editor de som Ricardo Reis, ABC, foi desafiador trabalhar os sons de “Oeste Outra Vez” porque ele traz muitos silêncios e inclui pouca música para a condução narrativa. “Fico orgulhoso de ter participado desse projeto. Quando chegou até nós, já estava estruturado, trabalhamos em detalhes. A captação de som direto foi muito boa, e somamos sons ao final, além de harmonizá-los, para que nada ficasse destoado e pudesse dar continuidade aos planos, sem parecer artificial. Esse é o grande desafio em um filme realista”, acrescentou.
“Oeste Outra Vez” conquistou o Prêmio ABC 2025 nas categorias de Melhor Direção de Arte e Melhor Montagem Ficção. Foi, ainda, o grande vencedor do 52º Festival de Gramado, em 2024, com três prêmios: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Rodger Rogério) e Melhor Fotografia (André Carvalheira, ABC).
Veja fotos da Sessão ABC:










Confira fotos still do filme:






SINOPSE:
No sertão de Goiás, homens brutos que não conseguem lidar com suas fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros.
Enquanto se enfrentam em um sertão precário e sem lei, outros personagens masculinos vão surgindo, todos tendo em comum algum tipo de frustração amorosa em seu passado. Em meio a tiroteios e emboscadas, uma crescente sensação de abandono toma conta desses homens.
Ficha Técnica:
Direção: Erico Rassi
Produtoras: Rio Bravo Filmes, Vietnã Filmes e Panaceia
Coprodutoras: Canal Brasil e Telecine
Produção: Cristiane Miotto e Lidiana Reis
Gerente de produção: Tamara Benetti e Luana Otto
Distribuidora: O2 Filmes
Roteiro: Erico Rassi
Direção de fotografia: André Carvalheira, ABC
1º Assistente de câmera: Flávio Chacal Geromel
Direção de Arte: Carol Tanajura
Figurino: Juli Videla
Maquiagem: Ana Pieroni
Montagem: Erico Rassi e Leopoldo Joe Nakata
Som direto: Olívia Hernandez Fernandez e Débora Morbi
Supervisora de som: Miriam Biderman, ABC
Edição sonora: Ricardo Reis, ABC
Mixagem de som: Ricardo Zollner
Técnico de correção de som: Rogério Moraes
Edição de efeitos sonoros: Vitor Coroa
Supervisão de efeitos visuais: Marcelo Siqueira, ABC (Sica)
Supervisão musical: Gustavo Montenegro
Trilha sonora: Guilherme Garbato
Elenco: Ângelo Antônio, Rodger Rogério, Antônio Pitanga, Babu Santana, Adanilo, Daniel Porpino e Tuanny Araújo
A Sessão ABC é um evento realizado pela ABC desde 2002. Este ano, o projeto já apresentou e debateu os longas “O Sequestro do Voo 375” (2023), dirigido por Marcus Baldini; “Meu Nome É Gal” (2023), dirigido por Dandara Ferreira e Lô Politi; e “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles – vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025. A próxima Sessão ABC (a última do ano) está marcada para o dia 29/11 e deve exibir “Malu”, dirigido por Pedro Freire.