Por Danielle de Noronha
Fundada em 2020, durante a pandemia, a Associação de Autores e Autoras de Fotografia Cinematográfica da Costa Rica (Asociación de Autores y Autoras de Fotografía Cinematográfica de Costa Rica-CCR) é composta por 12 pessoas e, atualmente, presidida por Andrés Campos, com quem conversamos sobre a história da associação e seu relacionamento com a Federação Latino-Americana de Autores de Fotografia Cinematográfica (FELAFC).
Para começar, poderia nos contar um pouco sobre sua carreira no cinema e no audiovisual?
Meu nome é Andrés Campos, sou o atual presidente da Associação de Autores e Autoras de Fotografia Cinematográfica da Costa Rica (CCR). Fotografei vários longas-metragens, entre eles “El Despertar de las Hormigas” (2019), dirigido por Antonella Sudasassi. Esse foi o primeiro longa-metragem da América Central a ser indicado a Melhor Filme Ibero-Americano no Goya Awards (2020) e a Melhor Primeiro Filme na Berlinale 69, em 2019. Também fui indicado a Melhor Fotografia no Platinum Awards e no Goya. Recentemente, fotografei “Memorias de un Cuerpo que Arde” (2024), também de Antonella Sudasassi, que estreou na Berlinale 74, no ano passado, onde ganhou o Prêmio Panorama do Público. Além disso, ganhamos o Prêmio Fipresci [Federação Internacional de Críticos de Cinema] e o Prêmio do Público no 36 Rencontres de Toulouse, na França.
Ganhei, ainda, o prêmio de Melhor Fotografia no Festival Internacional de Web de São Paulo 2018, pela segunda temporada da série “Dele Viaje”, de José Pablo García, e fui indicado a Melhor Fotografia no Primeiro Festival ADF Light, pelo curta-metragem “Peces Muertos”. Também trabalhei com publicidade e videoclipes, fotografando projetos para artistas como Las Robertas, Patterns, Canina, Gabriel Garzón-Montano, Eruca Sativa, Fidel Nadal e Dylan Thomas, entre outros. Estudei Produção Audiovisual e Publicidade na Universidade da Costa Rica; depois me mudei para Buenos Aires, onde fiz minha especialização em Cinematografia no CFP – SICA [Sindicato de la Industria Cinematográfica Argentina], e também fiz parte do Estúdio de Câmera do Talents Guadalajara, no México.





Quando você entrou para a CCR e o que o levou a tomar essa decisão?
Estudei e morei na Argentina por cerca de nove anos, então minha carreira como diretor de fotografia começou em Buenos Aires e, graças a isso, tive a oportunidade de participar de várias atividades da Asociación de Autores de Fotografía Cinematográfica de Argentina (ADF) e, com isso, ver em primeira mão todos os benefícios dessa união. Assim, quando voltei à Costa Rica, levei comigo a ideia de formar a associação, sobre a qual eu havia discutido em várias ocasiões com Pietro Bulgarelli, CCR, que também estudou em Buenos Aires. Conversamos com outros cinegrafistas costa-riquenhos, como Nicolás Wong, Ana Lucía Jiménez, Sebastián Vega, entre outros, que concordaram com a iniciativa de formar uma associação. Acho que foi importante formar uma comunidade e nos estabelecermos como uma ponte entre os(as) cineastas e outros(as) representantes do meio nacional e latino-americano para enfrentar os desafios de um setor em constante evolução, por meio de conferências, workshops e exposições de filmes e outras artes visuais, bem como um fórum para discutir problemas de interesse comum e articular projetos que promovam, incentivem e apoiem o crescimento do cinema na/da Costa Rica.


Para saber mais sobre a história da associação, qual foi o contexto de seu surgimento e quais são seus principais objetivos?
Durante o início da pandemia de covid-19, a maioria dos(as) diretores(as) de fotografia da Costa Rica ficou sem projetos, nosso meio ficou parado, então aproveitei a situação para ler e estudar os estatutos de associações como a AMC [México], ADF [Argentina], AEC [Espanha] e ASC [EUA], para ter contextos diferentes e escrever um rascunho que eu pudesse compartilhar e discutir com os(as) dez diretores de fotografia mais reconhecidos do país na época (número exigido por lei na Costa Rica para poder formar uma associação sem fins lucrativos). Como estávamos todos(as) passando por uma situação semelhante, ou seja, a paralisação do trabalho, pudemos dedicar tempo e energia à criação da CCR.
A intenção de criar a associação foi baseada na promoção do cinema como manifestação artística, além de buscar a profissionalização da profissão, defender direitos intelectuais, apoiar e promover as carreiras das novas gerações de diretores(as) de fotografia, bem como compartilhar conhecimento com colegas latino-americanos e semear a paixão pelo cinema em um país onde o setor audiovisual está crescendo. Além disso, buscamos colaborar e apoiar escolas de cinema e produção audiovisual, promovendo a especialização no campo da cinematografia. Queremos que a qualidade artística cresça a cada novo projeto fotografado por nossos(as) integrantes e que haja uma competição saudável, na qual compartilhemos informações e experiências para que a profissão de cineasta continue a se desenvolver.




Quais são as principais atividades e propostas realizadas atualmente pela CCR?
Um dos projetos de que mais nos orgulhamos como associação é o Concurso Prisma, que busca promover e tornar visíveis as carreiras de mulheres, pessoas não binárias e da comunidade LGTBQIAPN+ que estão se desenvolvendo no campo da cinematografia. Com esse projeto, damos a oportunidade de filmar um projeto no formato de curta-metragem (ficção/documentário) ou videoclipe. Para isso, estamos concedendo três prêmios que consistem em pacotes de câmera e luz para dois dias de filmagem, um em S16mm e dois em High End Digital Cinema. As filmagens dos três projetos vencedores da primeira edição do Concurso Prisma foram realizadas nos meses de agosto e setembro de 2024.



Por outro lado, nossas redes sociais [como o perfil no Instagram @ccrcine] se tornaram verdadeiras janelas de comunicação com a mídia audiovisual costa-riquenha e latino-americana, por meio da FELAFC, divulgando os projetos nos quais nossos(as) integrantes estão trabalhando e compartilhando sua metodologia de trabalho, desde a pré-produção até a jornada em festivais. Além disso, nossas redes funcionam como um canal para disseminar informações importantes de nossa mídia audiovisual e para homenagear nossos(as) integrantes honorários(as) e pessoas que tenham deixado um legado no audiovisual costa-riquenho. Esse também é um incentivo para que as novas gerações de diretores e diretoras costa-riquenhos(as) elevem seu nível artístico e aspirem a fazer parte da CCR como futuros(as) sócios(as) ativos(as) ou aderentes.
No campo da formação, criamos alianças com empresas como a Zeiss e a ARRI Latam, entre outras, para trazer à Costa Rica masterclasses e a apresentação de equipamentos de última geração, como a Zeiss Supreme Prime e a Supreme Radiance. Tivemos também uma masterclass sobre os princípios da óptica com Alejandro Alcocér, em que realizamos um dia apenas para estudantes e outro aberto a todos(as) os(as) profissionais da área. Além disso, Esteban Umaña, representante da ARRI Latam, apresentou a ARRI Alexa 35mm e a Orbiter.





Em relação à diversidade e à participação de mais mulheres no campo da cinematografia, qual é o trabalho da associação nesse sentido?
No momento, nossa associação tem apenas uma sócia ativa, Ana Lucía Jiménez Hine, CCR, diretora de fotografia formada pela Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV), em Cuba. Portanto, um dos nossos principais objetivos tem sido criar ações para solucionar a disparidade de gênero na cinematografia, incentivando o treinamento e a profissionalização de mulheres e dissidências de gênero que iniciam ou se desenvolvem na fotografia cinematográfica, encontrando ações concretas para reverter a situação crítica de disparidade de gênero que existe atualmente na área da cinematografia, tanto na Costa Rica quanto em todo o mundo. Por isso, temos desenvolvido algumas estratégias, como a criação de um Comitê de Gênero, para o qual convidamos a cineasta Carolina Mora, sócia aderente da CCR, que tem sido pioneira na abertura de espaço para as novas gerações de mulheres interessadas na fotografia cinematográfica.


Uma das ações concretas do Comitê de Gênero foi a realização da primeira edição do Concurso Prisma, que em 2024 focou em mulheres cis, mulheres trans e outras pessoas que não se identificam como homens. Além disso, fazemos parte do Comitê de Paridade de Gênero da FELAFC e criamos uma aliança com a Associação Mexicana de Mulheres Cinematógrafas (Apertura DOP) para realizar workshops e masterclasses destinados(as) às diretoras de fotografia da Costa Rica. Nossa primeira atividade conjunta foi a masterclass “A Proposta Fotográfica”, ministrada por Sandra De Silva, presidenta e fundadora da Apertura, para todas as interessadas em se inscrever no Concurso Prisma. Além disso, estamos buscando patrocínios para oferecer bolsas de estudo a estudantes e cineastas costa-riquenhas, para que possam participar dos workshops da Apertura na Cidade do México. No âmbito do Concurso Prisma, realizamos oficinas de câmera e iluminação, algumas abertas ao público em geral e outras voltadas para complementar os prêmios do concurso.
Nossa ideia é levar conhecimento e ferramentas de trabalho profissionais a pessoas que têm dificuldade de acesso, de modo que, com uma maior inclusão participativa de pessoas com visões e sensibilidades diversas, a profissão da direção de fotografia de cinema na Costa Rica se enriqueça.


Em sua opinião, o que ainda precisa ser alcançado?
Em nossos estatutos, consta a necessidade de a CCR estar presente em festivais de cinema de todo o país, concedendo prêmios e menções de Melhor Fotografia, com o objetivo de incentivar as novas gerações de diretores e diretoras de fotografia a alcançarem a excelência artística em seus projetos universitários e/ou em seus primeiros trabalhos profissionais (videoclipes, curtas-metragens, documentários ou publicidade). É por isso que estamos desenvolvendo a plataforma dos Prêmios CCR de Melhor Fotografia, não apenas como uma cerimônia anual de premiação, mas também com nossa participação em diferentes festivais, como CRFIC, SHNIT, Shorts Costa Rica, entre outros, premiando a Melhor Fotografia tanto para longas quanto para curtas-metragens. Paralelamente, também criamos a Mostra de Cinema da CCR, festival anual em que podemos celebrar o trabalho cinematográfico desenvolvido na Costa Rica, tanto por profissionais quanto por estudantes, independentemente de serem integrantes ativos(as) da CCR, pois a ideia é envolver a comunidade audiovisual. No momento, estamos em negociação com a produção de diferentes festivais e buscando patrocinadores para concretizar esses projetos ainda em 2025.
Outro projeto em andamento é o CCR Conversatorios, no qual estamos desenvolvendo um Podcast/Live em que entrevistaremos os(as) integrantes ativos(as), honorários, aderentes e colaboradores(as) da CCR para apresentar suas carreiras, falar sobre projetos em desenvolvimento, estilo fotográfico, preocupações, etc. Estamos em tratativas com o Centro Costarricense de Producción Cinematográfica (CCPC) para realizarmos o projeto em conjunto, pois essas entrevistas podem fazer parte do patrimônio histórico da instituição.

Por fim, em 2024 recebemos um convite de Mustapha Barat, atual presidente da IMAGO [International Federation Of Cinematographers], para nos associarmos à federação. Estamos trabalhando na documentação e nos requisitos para nos associarmos à IMAGO o mais rápido possível. Acredito que devemos continuar a consolidar os workshops – tanto presenciais quanto online – destinados a estudantes de cinema, nos quais são abordados tópicos específicos como iluminação, câmera digital e analógica, propostas cinematográficas, ética de trabalho, etc. Além disso, buscamos desenvolver protocolos de ação diante de denúncias de assédio sexual que possam surgir dentro e fora dos sets de filmagem. Ainda há muitas questões a serem conquistadas, e é uma luta constante porque ainda não temos muitos(as) parceiros(as) colaboradores(as) ou marcas patrocinadoras, por isso também estamos trabalhando a questão econômica da CCR.
Quais foram as mudanças ocorridas na cinematografia da Costa Rica nos últimos anos e qual a contribuição da associação para essas transformações?
Vemos como a cinematografia da Costa Rica está amadurecendo em um bom ritmo, tanto nas propostas narrativas quanto na produção de filmes (longas e curtas de ficção e documentários) e videoclipes, bem como na qualidade das propostas cinematográficas. Nos últimos anos, nossos filmes chegaram não apenas a competições oficiais, mas também foram premiados nos festivais mais prestigiados do mundo (Cannes, Berlim, Locarno, San Sebastián), incluindo Melhor Fotografia para Nicolás Wong, CCR nos Prêmios Platino, por “La Llorona”, de Jayro Bustamante, e a indicação de “El Despertar de las Hormigas” a Melhor Filme Ibero-Americano nos Prêmios Goya, sendo o primeiro filme centro-americano indicado a esse prêmio. É importante destacar, ainda, o Prêmio do Público obtido por “Memorias de un Cuerpo que Arde” na Berlinale 74, “Tengo Sueños Eléctricos”, que ganhou o prêmio de Melhor Filme Latino-Americano no Festival de San Sebastián 2022, e a apresentação de “Sólo la Luna Comprenderá”, fotografado por Pietro Bulgarelli, CCR, no Manaki Brothers Cinematographers Film Festival, na Macedônia do Norte.

Como a Costa Rica é um país onde não há tradição de associações, sindicatos, uniões ou mesmo uma Lei do Cinema no campo cinematográfico, o fato de termos criado a CCR representa um grande passo para a construção de uma comunidade cinematográfica. Queremos que a associação não seja um “clube” ao qual apenas alguns(algumas) pertencem, mas uma comunidade na qual muitas pessoas possam se apoiar, compartilhar conhecimentos e aspirar a fazer parte. Portanto, é importante nos aproximarmos de outras associações, como a União de Mulheres Diretoras da Costa Rica (UD), a Associação de Produtores Independentes de Cinema da Costa Rica (APICC), a Film Commission e os centros de treinamento, para que o trabalho audiovisual continue crescendo e se tornando cada vez mais profissional em nosso país. Também estamos lutando juntos para que, em breve, tenhamos uma Lei do Cinema que ajude a promover a produção audiovisual, que foi pisoteada pelos últimos governos neoliberais.
Com relação à FELAFC, como você vê a criação da federação, o trabalho da CCR para sua consolidação, e qual a importância da FELAFC para aproximar a cinematografia na América Latina?
Acredito que a FELAFC desempenha um papel crucial no desenvolvimento e na promoção da cinematografia na região, fortalecendo a comunidade de cineastas e oferecendo a oportunidade de nos conectarmos, colaborarmos e compartilharmos conhecimentos. Um exemplo disso foram os workshops realizados pela FELAFC em meio à pandemia, com os quais acredito que todos nós fomos nutridos profissional, técnica e artisticamente e que, sem dúvida, contribuíram para elevar o nível da fotografia cinematográfica na América Latina e aumentar seu reconhecimento em nível internacional.
Além disso, foi muito importante para a CCR ter sido apadrinhada pela FELAFC desde o início. Deve-se observar que, desde a concepção do nosso estatuto, fomos acompanhados por associações como a AMC – que administrava a secretaria da FELAFC em 2020 – e pela ADF. Alejandro Giuliani, que na época era membro da diretoria da ADF, soube que a primeira associação de diretores de fotografia da América Central estava sendo formada na Costa Rica e, imediatamente, entrou em contato conosco para oferecer seu apoio e orientação. Também nossos colegas Carlos Diazmuñoz (AMC) e Guillermo Granillo (AMC), imediatamente, apoiaram a iniciativa e nos convidaram para fazer parte da FELAFC, o que considero importante para nos validar como associação e podermos conviver e aprender com as experiências de associações que já percorreram um longo caminho. Tudo isso nos permitiu tornar visível o trabalho de nossos(as) integrantes nas Mostras da FELAFC, em 2020, no Brasil; em 2021, no México; e em 2022, na Colômbia. Também foi importante participar das Assembleias Gerais da FELAFC, em particular a realizada em maio de 2023, no âmbito da Semana ABC, em São Paulo, a primeira assembleia presencial promovida após a pandemia.

O que você espera do futuro da CCR e da FELAFC?
Estou convencido de que tanto a FELAFC quanto a CCR têm a tarefa e a obrigação de continuarem lutando pelos direitos autorais, trabalhistas e profissionais dos(as) diretores(as) de fotografia da região e, assim, profissionalizar e melhorar as condições da indústria cinematográfica latino-americana, garantindo condições de trabalho justas, com cachês e reconhecimento adequados. Outra questão importante na qual devemos continuar agindo é no sentido de mitigar a lacuna desproporcional de gênero em termos de acesso à formação e à profissionalização de mulheres cis e trans, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ e outras. Como eu disse anteriormente, precisamos também desenvolver protocolos de ação diante de denúncias de assédio sexual, violência e questões de garantias trabalhistas que possam surgir dentro e fora do set. Sem dúvida, esses são grandes desafios, nos próximos anos, para todas as associações que compõem a FELAFC.