Por Luna D’Alama
Um dos cinco filmes indicados ao Oscar 2025 na categoria de Curta-Metragem em Live-Action, “A Lien” (2023) tem direção de fotografia do ítalo-brasileiro Andrea Gavazzi e direção dos irmãos estadunidenses Sam e David Cutler-Kreutz. A obra (veja o trailer aqui) trata de questões ligadas à imigração ilegal (cujo termo mais apropriado seria “irregular” ou “indocumentada”) nos Estados Unidos, e concorre com “Anuja” (EUA), “I’m not a robot” (Holanda/Bélgica), “The last ranger” (África do Sul) e “The man who could not remain silent” (Croácia/França/Eslovênia/Bulgária).
Embora ficcional, o curta trata de uma realidade muito presente nos Estados Unidos, algo que tem se intensificado ainda mais desde a posse do presidente Donald Trump, em 20 de janeiro: a prisão de imigrantes sem documentação. Produzido por Adam McKay, o filme aponta que isso ocorre, muitas vezes, enquanto as pessoas requerem a entrevista para obtenção do Green Card, numa prática frequente de agentes do ICE (Immigration and Customs Enforcement), Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos. Lançado antes da volta de Trump ao poder, “A Lien” ambienta-se no primeiro mandato do republicano, que aparece, numa entrevista de TV, falando sobre o furacão Harvey, em agosto de 2017. O filme acompanha um dia da vida do imigrante Óscar Gómez (William Martinez), cuja família de origem deixou El Salvador, na América Central, em 1994. A agente do ICE pergunta se ele nunca mais voltou para casa, ao que Óscar (que se casou com uma estadunidense e solicita o visto permanente de residência) responde: “O Queens [distrito de Nova York] é a minha casa”.

O diretor de fotografia Andrea Gavazzi (na foto) também é atravessado por questões de imigração em sua vida pessoal. Filho de imigrantes italianos, ele nasceu na capital paulista e, até os 18 anos, dividiu-se entre o interior de São Paulo e Roma. Cresceu atravessando o Atlântico para viver parte do ano com a mãe, no frenesi da capital italiana, e a outra parte com o pai, em uma fazenda tranquila, próxima a Campos Novos Paulista. “Minha infância foi um turbilhão de caos vibrante. No meio disso tudo, o cinema se tornou meu ponto de ancoragem, um universo para o qual eu poderia escapar e entender a bela desordem ao meu redor”, destaca.
Movido pelo amor à fotografia e por uma curiosidade profunda sobre o mundo, Gavazzi viajou para vários países na juventude. “Vivi por um ano no Sudeste Asiático, o que teve um grande impacto na minha visão artística. Imerso numa cultura completamente diferente, decidi me mudar para os Estados Unidos e me dedicar à cinematografia”, recorda. Fluente em português, italiano, inglês e espanhol, o diretor de fotografia hoje vive entre Nova York e Los Angeles, sempre conferindo uma perspectiva global e uma bagagem multicultural a seus trabalhos e criações, que incluem filmes narrativos, comerciais e videoclipes.
Entre seus projetos mais recentes, estão o documentário em longa-metragem “Lowland Kids”, com produção executiva de Darren Aronofsky, direção de Sandra Winther e previsão de lançamento em março, no Festival Internacional de Documentários de Copenhague (CPH:DOX); e o curta “Susana” (EUA/México), dirigido por Amandine Thomas e Gerardo Coello Escalante e indicado ao Sundance Film Festival, que ocorreu entre janeiro e fevereiro. “No coração do meu trabalho, está uma profunda exploração das emoções e a busca por experiências humanas universais, aqueles momentos compartilhados que nos conectam e com os quais nos identificamos, independentemente de onde viemos”, resume.
Confira, a seguir, uma entrevista exclusiva que o diretor de fotografia Andrea Gavazzi concedeu à ABC sobre seu trabalho no curta-metragem “A Lien”, indicado ao Oscar 2025:
ABC – Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional. Que caminhos trilhou até chegar a uma indicação ao Oscar? Em quais outros filmes (curtas ou longas) já trabalhou? Algum deles já foi indicado ou venceu prêmios?
Andrea Gavazzi – Meu sonho de criança sempre foi trabalhar com cinema. Cresci assistindo de um a dois filmes por dia, era obsessivo. Quando chegou a hora de decidir qual faculdade cursar, eu morava na Itália e não tive coragem nem clareza sobre como entrar no mundo da produção. Então, na faculdade, estudei economia, porque, na época, o mundo do cinema na Itália era muito fechado, não dava espaço para jovens, e acabei tomando uma decisão errada para não ficar parado. Depois de me formar, voltei ao Brasil por um breve período, onde comecei a trabalhar como assistente de produção e fotógrafo de set, e foi aí que realmente percebi que precisava tentar. Me mudei para Nova York sem conhecer ninguém, e sem um plano de ação definido. Muitas pessoas me diziam que NY era um lugar perfeito para começar, e eu sempre quis viver um período da minha vida nessa cidade. Já moro aqui há mais de dez anos. Inicialmente, fiz de tudo: grip (maquinista, profissional responsável por construir, manusear e operar equipamentos de câmera e iluminação, guindastes, carrinhos, etc.), eletricista, assistente de produção, câmera, etc. Depois, encontrei meu lugar trabalhando como gaffer para alguns diretores de fotografia jovens e talentosos de NY, enquanto, nos fins de semana ou no meu tempo livre, filmava projetos para amigos e pessoas que encontrava pelo caminho. Em determinado momento, interessei-me pelo mundo dos videoclipes e comerciais, e percebi que aquilo poderia ser minha escola de cinema, já que eu nunca havia cursado uma. Filmando muitos comerciais e videoclipes, aprendi e viajei pelo mundo, e, no meio disso, alguns colaboradores me chamaram para dirigir seus projetos narrativos e documentários. Sam, um dos diretores do curta-metragem indicado ao Oscar, é um profissional com quem fiz vários videoclipes. Meus trabalhos em publicidade e videoclipes, inclusive, já ganharam vários prêmios internacionais.
ABC – Como é a sua relação com o Brasil? Você costuma vir para cá? Que memórias tem da infância e adolescência aqui no país? E como é viver hoje em Nova York?
AG – Eu nasci em São Paulo, no Brasil, filho de imigrantes italianos. Meus avós imigraram nos anos 1930, e meu pai foi a primeira geração da família criada no Brasil, embora também tenha mantido uma forte conexão com a Itália. Meus pais se separaram quando eu era criança e, entre os meus 7 e 18 anos, vivi um pouco com os dois. Minha mãe era atriz e trabalhava para o canal Rai. Meu pai morava no interior de São Paulo, em uma fazenda no meio do nada, perto de Campos Novos Paulista. Ele vinha do mundo corporativo, mas decidiu largar esse trabalho para viver no campo. Tanto meu pai quanto minha mãe sempre foram grandes apaixonados pelo cinema. Minha mãe queria que eu e meu irmão (por parte materna; além dele, tenho outros dois irmãos do lado paterno) estudássemos na Itália, mas mantendo uma conexão com o Brasil. Então, até os 18 anos, fiz muitos vaivéns entre Roma e São Paulo. Passava cinco meses por ano com meu pai, no interior paulista, e o resto do tempo em Roma. Essa dicotomia foi, sem dúvida, uma grande fonte de inspiração. De um lado, a capital italiana, uma cidade superbagunçada, cheia de turistas, mas também o berço da arte ocidental; um lugar extremamente inspirador, onde cada igreja que você entra tem um Caravaggio ou um Bernini. Do outro, a vida tranquila e isolada em uma fazenda brasileira, andando a cavalo até o supermercado, descalço o dia todo, ouvindo MPB na rádio todo o dia. Isso me dava muita paz. No meio dessa loucura e desses contrastes, os filmes eram, sem dúvida, a minha versão de escapismo quando criança. Um mundo no qual eu tinha a possibilidade de imaginar e viver livremente, sentindo-me confortável. Depois que me formei na escola, viajei muito e vivi quase um ano no Sudeste Asiático. Essas experiências me ensinaram bastante. Um contraste entre realidades que ainda sinto profundamente no meu trabalho, o que me deu uma visão universal do mundo, focando na complexidade da experiência humana em suas diversas formas. Viver no Brooklyn, em Nova York, é muito difícil, como em todas as grandes metrópoles. Me lembra muito São Paulo, só que com menos música ao vivo. Há três anos, estou morando entre NY e Los Angeles. Tento voltar ao Brasil todos os anos. Meu irmão e parte da minha família moram em São Paulo, e tenho vontade de trabalhar mais aí, mas infelizmente isso só aconteceu poucas vezes.
ABC – Quais são suas expectativas para “A Lien” vencer o Oscar? Como você avalia os outros quatro concorrentes? Já viu todos?
AG – Acho que temos uma boa chance de ganhar. Infelizmente, a temática é muito atual, dada a situação política dos Estados Unidos, e acredito que o filme tem uma força emotiva muito grande. Achamos que “A Lien”, como título, também engloba o coração do filme de muitas maneiras. Quando pensamos em liens, que é o direito de possuir a propriedade de outra pessoa até que uma dívida seja quitada, o filme trata de processos burocráticos, de dívidas que são cobradas e pagas, sobre seres humanos no processo de imigração sendo vistos como números, como propriedade, basicamente. Liens falam sobre as complexidades legais inerentes ao sistema. Além disso, o fato de “A Lien” ser um trocadilho com alien (estrangeiro, alienígena) remete à separação, ao sentimento de ser “alienígena” em casa e à forma como falamos sobre imigrantes nos Estados Unidos. Juntos, sentimos que o termo “A Lien” capturou a essência do que o filme representa. Não assisti aos outros curtas e acho que não vou assisti-los até depois da cerimônia. É um pouco do meu lado supersticioso italiano!

ABC – “O Brutalista” está concorrendo a Melhor Filme no Oscar e também fala de questões de imigrantes/imigração. Adrien Brody interpreta um arquiteto judeu que sobrevive ao Holocausto e tenta reconstruir a vida nos Estados Unidos. Como você avalia a relevância e a atualidade desse tema hoje no mundo e entre os filmes indicados pela Academia?
AG – Acredito que o tema da imigração é extremamente relevante e atual, especialmente considerando questões políticas e sociais globais. No contexto do Oscar, ele reflete uma crescente necessidade de dar visibilidade a histórias que tratam de temas universais, como a experiência dos imigrantes e os desafios que essas pessoas enfrentam. Sendo bem honesto, meu desejo é que, em 30 anos, esses filmes não precisem mais ser feitos, exceto obras como “O Brutalista”, que apresentam uma versão histórica. Torço para que uma produção como “A Lien” seja, um dia, considerada um filme histórico, e não mais atual. Para mim, esse é um tema muito pessoal, pois fui imigrante a vida inteira em vários países e conheço muito bem a sensação de você não saber aonde pertence.
ABC – Como você entrou nesse projeto? Já conhecia os diretores? Como é gravar nos EUA?
AG – Eu já conhecia o Sam [Cutler-Kreutz] há anos, filmamos vários clipes juntos. Ele começou essa parceria com seu irmão David, que até hoje é professor de escola primária. Gravar nos EUA, assim como no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, é muito parecido. Há pequenas diferenças de como os vários departamentos do cinema e audiovisual trabalham juntos. Algo incrível sobre o que fazemos é que, basicamente, somos pagos para não crescermos, para mantermos vivas nossas crianças interiores. Essa é a coisa mais bonita e privilegiada do mundo, e a oportunidade de compartilhar essas experiências é o que realmente torna meu trabalho especial. Tive muitas pessoas me ajudando ao longo do caminho, e é por isso que o cinema é uma arte tão única, um esforço coletivo.
ABC – Quais foram os desafios, como diretor de fotografia, para a realização desse curta? Poderia nos contar um pouco sobre o processo de produção, realização e pós? Quais foram suas principais referências para fotografar “A Lien”? Que câmeras e lentes utilizou? Quanto tempo levou a gravação e quando foi?
AG – Essa curta é um exemplo de filmmaking indie [processo de fazer filmes independentes, fora do sistema dos grandes estúdios cinematográficos]. Gravamos com um orçamento superbaixo, totalmente autofinanciado pelos diretores. A câmera e as lentes foram emprestadas de um amigo: uma velha Alexa SXT e lentes Zeiss Superspeed. Quando fiz o teste de câmera, descobri que a lente 35 mm não podia ser usada porque estava quebrada. Mas isso não foi um problema, porque desde o início nossa ideia era gravar com 50 mm e 85 mm, tudo com câmera na mão, correndo atrás dos atores. Os acessórios de câmera foram emprestados de vários amigos, as luzes e o apoio do meu gaffer e grip (que trabalham em publicidade) vieram de graça, e até emprestaram um caminhão deles. O colorista do projeto é meu melhor amigo e colaborador, Dante Pasquinelli, que fez a correção de cor de quase todos os meus projetos nos últimos cinco anos. Acho que a colaboração com o colorista no mundo digital é a coisa mais importante para um diretor de fotografia, e por isso Dante faz parte de todos os meus projetos desde o começo, especialmente os narrativos. A equipe incluiu um mix de profissionais e estudantes de várias faculdades de NY. Gravamos durante cinco dias, em 2021, entre New Jersey e NY. Então, foi um projeto bem “roots” (raiz) e, por isso, é quase um milagre que a gente tenha chegado até aqui. Uma prova de que nunca sabemos realmente o que vai acontecer após um filme ser lançado.

ABC – De que forma você dialogou com a direção de arte, com o DIT, colorista, pós-produção, etc?
AG – Infelizmente, a gente não teve um DIT (técnico de imagem digital), mas o Sam [diretor], que antes trabalhava como diretor de fotografia, entende o que é possível mudar com a imagem. Nossa ideia sempre foi criar um contraste de cores, mas, no dia em que estávamos trabalhando com o nosso colorista, Dante, algo fortuito aconteceu. Criamos um LUT (sigla para Look Up Table, ou “tabela de linearização”, usada para dar às imagens perfis de cores e contraste uniformes) para as imagens da câmera Red Komodo (todas as cenas dentro do carro) e, só para experimentar, o Dante tentou copiar esse LUT nas tomadas da Alexa SXT. Obviamente, isso não funcionou, mas gerou uma imagem que a gente adorou, e ficou muito próxima da cor final como look.
ABC – Qual a sua avaliação do cinema brasileiro hoje? Considerando que tivemos três indicações para “Ainda Estou Aqui” (Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz), sendo a primeira categoria inédita para o país.
AG – Acho que o cinema brasileiro, especialmente o independente, sempre foi de um nível muito alto. Nós, brasileiros, assim como os europeus, crescemos idolatrando os ícones dos Estados Unidos, então sempre pensamos que os outros fazem melhor do que nós. Mas precisamos valorizar, investir e acreditar mais no cinema brasileiro, porque há muito talento aí. Espero que o sucesso de “Ainda Estou Aqui” ajude a dar um impulso internacional para todos, mostrando que o Brasil tem histórias poderosas para contar, além de cineastas, atrizes e outros(as) profissionais talentosos(as) que merecem ser reconhecidos(as) globalmente.
