O Instituto Moreira Salles (IMS) Paulista está com duas exposições em cartaz que estabelecem uma diálogo entre fotografia e audiovisual: “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema”, dedicada à diretora franco-belga Agnès Varda (1928-2019), figura central e pioneira da Nouvelle Vague; e “Gordon Parks – A América sou eu”, uma retrospectiva do diretor e fotógrafo negro estadunidense Gordon Parks (1912-2006).
“Gordon Parks – A América sou eu” fica aberta ao público até 1º de março de 2026, enquanto “Fotografia AGNÈS VARDA Cinema” vai até 12 de abril. Ambas têm entrada gratuita.
Cerca de 200 fotografias tiradas por Varda entre as décadas de 1950 e 1960, em diálogo com sua obra cinematográfica, estão reunidas na exposição. As imagens, muitas delas inéditas, registram viagens da diretora pela China, França, por Cuba, Portugal e pelos Estados Unidos, revelando o olhar social e afetuoso da artista sobre o cotidiano, a política e as pessoas que filmou e fotografou ao longo da vida.
Varda atravessou fronteiras geográficas, formais e afetivas com o mesmo olhar curioso e libertário, transformando o cotidiano em imagens e narrativas. Antes de se tornar uma das grandes vozes do cinema francês e mundial, porém, Varda formou-se como fotógrafa. Seu modo de ver o mundo nasceu da atenção ao corpo e à paisagem. Em suas imagens fixas ou em movimento, há sempre a escuta do outro, uma delicadeza que se funde com engajamento. O que ela fotografa e filma são gestos, rostos, ruas e fragmentos de uma vida comum que, sob seu olhar, ganham uma dimensão universal. Sua obra, feita de encontros e deslocamentos, pensa o cinema a partir da fotografia e a fotografia a partir da vida.
Na programação da mostra, estão filmes como A Ponte Curta (1955), A Ópera-Mouffe (1958), Cléo das 5 às 7 (1962), Saudações, Cubanos! (1963), As Criaturas (1966), Os Panteras Negras (1968), Daguerreótipos (1975), As Cento e Uma Noites (1995), As praias de Agnès (2008) e Varda por Agnès (2019).
Confira aqui uma conversa com a filha de Agnès Varda, Rosalie Varda, a programação completa e um texto do curador e diretor Kleber Mendonça Filho sobre a exposição.
Gordon Parks

Realizada em parceria com a Fundação Gordon Parks, a mostra “Gordon Parks – A América sou eu” faz uma retrospectiva com cerca de 200 obras do fotógrafo e diretor, entre imagens feitas das décadas de 1940 a 1970, filmes, periódicos e livros. O conjunto registra a história da população negra nos EUA, dos movimentos por direitos civis, manifestações culturais e religiosas afro-americanas, até a vida diária em estados segregados, com retratos de figuras como Malcolm X, Martin Luther King e Muhammad Ali, além de séries sobre infância e cotidiano.
Parks é um dos mais relevantes fotógrafos do século XX, e esta é a primeira grande apresentação de sua obra fotográfica e fílmica no Brasil. Ao longo da vida, teve uma produção artística diversa que atravessou a fotografia, o cinema, a música e a literatura. Sua consciência de ser um homem negro nas Américas orientou um trabalho que denunciou o racismo, a desigualdade e a opressão, mas também afirmou, de modo solidário e humanista, a vitalidade das culturas negras e a luta por emancipação.
Nascido em Fort Scott, no Kansas, Parks perdeu a mãe em 1928 e enfrentou a pobreza e o racismo, trabalhando em diversos empregos para sobreviver, até comprar sua primeira câmera, em 1937. No ano seguinte, publicou fotos no jornal St. Paul Recorder, da imprensa negra de Minnesota, e atuou na Farm Security Administration, em Washington. Em 1948, tornou-se o primeiro fotógrafo negro contratado pela revista Life. Consolidou sua carreira com livros, exposições e uma produção marcada pela união entre arte e ativismo. Também dirigiu filmes como Shaft (1971), ícone do cinema blaxploitation (movimento cinematográfico dos anos 1970 que apresentou protagonistas negros, desafiando o sistema e oferecendo representatividade, com filmes de ação, crime e drama). Recebeu várias premiações e homenagens, e influenciou artistas como Kendrick Lamar, Zanele Muholi, Devin Allen e Ava DuVernay.
Em diálogo com o contexto brasileiro, a exposição do IMS dedicada a Parks destaca paralelos e contrastes entre os Estados Unidos e o Brasil, países que abrigam as maiores populações negras fora da África e que compartilham uma história marcada pela escravidão e pelo racismo. Além disso, um catálogo de 312 páginas, que reúne imagens e reflexões, também convida o público a revisitar narrativas, identificar lutas comuns e abrir caminhos para novas interpretações sobre o passado e o futuro.
Confira um debate sobre Gordon Parks e mais informações aqui.
Serviço:
IMS Paulista
Avenida Paulista, 2.424, São Paulo/SP
Entrada gratuita. De terça a domingo e feriados, das 10h às 20h (fechado às segundas). Última entrada: 30 minutos antes do encerramento.